28.2.17

Em resumo

Quando me procuro
é a ti que encontro.

Impressões em pinceladas rápidas

Preto: Os dois homens que guardavam o lugar de estacionamento como a própria vida.

Branco: Emily Dickinson, que vestia de branco para lavar a roupa conjuntamente com os lençóis.

Avelã: O cabelo do octogenário que andava amparado em passos curtos e lentos.

Cinzento: Os sapatos da senhora francesa que provava que o pico da beleza dura pelo menos setenta anos.

Azul: A redenção do céu cansado.

Vermelho: A casa do botão do blazer do médico no restaurante.

Verde: Tanto.

27.2.17

Olhar de espanto

O homem tira todos os autorretratos na igreja com grandes óculos escuros Pode ter atravessado dois continentes para aqui chegar mas ninguém testemunhará o seu olhar de espanto Nem sequer a mulher ao lado De olhos ocultos também. No fim autorretratam-se Com felicidade genuinamente plástica.

Um mar — não importa quão azul

Eu digo-lhe, Mr. Bowles, é um sofrimento ter um mar — não importa quão azul — entre a sua alma e você.

[Emily Dickinson, das Cartas, versão de x.]

26.2.17

Receitas de bolos E outros fenómenos.

Descubro uma receita de bolo de Emily Dickinson Que ela comia ensopando-o em xerês No mesmo dia em que ouço pela primeira vez Coldplay em violoncelo Como nada é casual Chegará uma altura em que encontrarei o ponto de enlace Hoje apenas achei os fios Soltos.

25.2.17

Ditosa pátria bem amada

No grupo que passa por mim avançam à frente destemidamente um homem e uma mulher a comer de boca tão escancarada que se vê, caso o olhar resista a tal visão, o traço de pão em duelo suicida com os dentes. Eis que o homem, provando que em masculino também se conjuga multitarefa, isto é, que consegue andar, mastigar e falar sem se atrapalhar, atira para a mulher ao lado, e eu apanho, no meio da Babel que nos circunda: 'O teu marido não veio. Deixamoso lá!'

Podemos sempre contar com um compatriota, em qualquer latitude, para plantar o padrão do charme discreto, da elegância, enfim, de um jeito pleno de classe, do amor de ser português.

24.2.17

Pré-história de uma viagem espadaúda

Recebo uma carta, escrita a tinta azul-cobalto, pela mão treinada nos clubes de caligrafia de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada.

Meu muito estimado amigo,

O que um homem faz em vida ecoa na eternidade, disse um imperador de tempos idos. É mentira. O que um homem faz em vida morre com ele. E se não fizer, pior ainda: não só não fez, como morreu. Triste, como diria um imperador dos tempos que vão.

Fontes que não denunciarei, mas que sussurram aqui ao meu lado «pauvre, oh, pauvre J.» informam-me que o meu estimado amigo se converteu do café para o chá. Era tempo. A ver se deixa de falar de serviçais de balcão e escreve sobre temas que interessem a homens: tabaco, «football», bebidas brancas. E outros, que não escreverei aqui, porque alguém espreita por cima do meu espadaúdo ombro.

Adiante. Além de se converter ao chá, dizem-me, enfia-se horas e desoras a fio lá nesses locais tenebrosos onde erode os seus melhores anos, empalidece ainda mais profundamente essa face encovada, mirram-se-lhe as carnes à míngua de nutrientes, perde a arte de falar e o tino, um desatino.

Eis que surgem as trombetas de Jericó, «nay», da salvação. Eu e a dulcíssima Orchidée partimos amanhã para a Provence, em viagem longa e lenta e gastronómica, conduzidos pelo prestimoso Reboredo. O Phantom, como sabe, tem lugar para quatro e Orchidée detesta fazer estas viagens sozinha no banco traseiro. Precisa desesperadamente de alguém com quem coscuvilhar, clac, clac, clac e partilhar gritinhos de cada vez que um pôr-do-sol radioso se atravessa no meio da estrada.

Faça a mala, leve aquele seu Vilebrequin de tons róseos que decerto combinará bem, à beira da piscina, com umas miniaturas que Orchidée está agora a colocar na sua «petite valise». Combinará, digo eu, enquanto coscuvilham e dão risinhos e tiram autorretratos que mais parecem os de propaganda a pastas dentífricas.

Reboredo estará aí à sua porta às sete da manhã, em ponto. Não se atrase: a paciência do bom Reboredo, polida em King Saul Boulevard, é lendária mas não infinita.

A ver se liberta o «pauvre J.» que há em si, homem!

Deste que muito o aprecia e considera, e da estrela radiosa ali assentando todo o seu peso de orquídea em cima da «petite valise»,

J. Eustáquio de Andrada.

Refutação de Lavoisier

Se na natureza nada se cria, onde se ocultava o amor até surgir?

23.2.17

sol branco e azul

hoje

colhi tantas imagens
de sol branco e azul
e tenho os olhos tão cheios

que me urge olhar os teus
para que vejas
tudo o que vi

para ti

Como a aranha que tece a sua teia

Vejo chegar os agentes da empresa municipal de estacionamento, vejo-os abrir as portas dos veículos que transportam quantidades inimagináveis de penosos imobilizadores, vejo-os cumprimentarem-se com «high-fives», com o júbilo da aranha que dá o derradeiro ponto na sua teia.

22.2.17

O rei dança?


Na corte de Luis XIV, ele próprio um excecional dançarino, dançar bem era considerado a derradeira graça social. Aos mestres de dança a fortuna sorria, porque quem queria progredir no estatuto e na carreira, tinha que dançar bem. Sob a influência do rei, a paixão pela dança estendeu-se por França, levando à inevitável intervenção da igreja. Na Provença, onde o rei também havia dançado, a igreja acabaria por pedir ao parlamento a suspensão das danças nas cerimónias religiosas. As «posturas indecentes» dos dançarinos, especialmente no «Rigaudon», fizeram transbordar a tolerância do pio clero. Pois tal júbilo é lá coisa que se admita numa sorumbática cerimónia sacra?

21.2.17

imagens ou um punhado de sol no ar

o fogo que aparece
por cima do horizonte

a vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos
um punhado de sol no ar

[tudo isto vi

hoje

o poema é devido a antónio ramos rosa]

Livro de voo

Em viagens longas prefiro um livro daqueles a que se viram as páginas com afinco e ritmo. Depois de várias tentativas de ler em aviões os meus autores eivados de frases complexas e musicais e intuições profundas sobre a natureza humana, desisti. Numa viagem o livro deve ser um vórtice de horas. O livro de voo comprimirá o tempo como a mão que aperta a esponja. O escritor é um prestidigitador do tempo. Descobri que há escritores, e livros, que me dão mais minutos às horas, outros que os retiram. Tenho passado a vida a pensar que o génio reside exclusivamente nos primeiros. É constatação recente, de poucos dias, que comprimir o tempo não é rasgo menor do que expandi-lo. Talvez esteja, arrisco a dizer estejamos, a avaliar a novela pelo padrão errado. O que chamaríamos a quem é capaz de encurtar uma viagem de oito horas a duas, ou mesmo uma? Génio? Creio que é perfeitamente adequado.

20.2.17

A chave perdida

Perdi a chave da máquina do tempo. Hoje apetecia-me rodar a agulha e saltar para o meu próprio passado. Mas sem chave estou condenado a permanecer para sempre no meu presente. Condenado a prisão perpétua, sem hipótese de comutação.

Bater de coração irlandês


Sou Irlanda:
Sou mais antiga do que o Hag of Beara.

Grande é a minha glória:
Eu que dei à luz o bravo Cúchulainn.

Grande é a minha vergonha:
Os meus próprios filhos que venderam a sua mãe.

Grande é a minha dor:
O inimigo irreconciliável que me provoca continuamente.

Grande é a minha tristeza:
A gente, em quem depositei a minha confiança, decaiu.

Sou Irlanda:
Sou mais solitária que o Hag of Beara.

[Música de Patrick Cassidy sobre um poema de Patrick Pearse. Versão de x.]

Olhem para o que aconteceu ontem à noite, na Suécia

Recebo uma carta em papel digital do meu fornecedor de café em cápsulas, aquele que satisfaz a minha necessidade de cafeína na ausência de Donas e bailarinos de tangos por detrás de balcões. É este o teor:
«Caro Cliente,
Agora que o tratado de paz na Colômbia foi assinado, a [digníssima marca] orgulha-se de apresentar Aurora de la Paz, um café que esteve praticamente inacessível durante décadas. É o nosso espresso Limited Edition raro e especial, um Pure Origin da exuberante região de Caquetá.
Descubra-o.»
Se me perguntarem, direi que prefiro a paz à guerra, como pretexto. Em geral, prefiro a verdade à mentira, no que não será decerto exclusivo meu. Acima de tudo, creio que há pretextos escusados e, isso sim, pode ser uma peculiaridade minha.

Válido todos os dias

Disse Tolstoy que um homem é como uma fração cujo numerador é o que ele é, e cujo denominador é o que ele pensa de si próprio; quanto maior o denominador, menor o valor da fração. Não disse, mas creio que está subjacente, que esta asserção se mantém qualquer que seja o dia da semana.

19.2.17

Mar grande

John Miller, Lord, The Sea Is So Big

Os meus amigos de Edimburgo

Hoje chego tarde ao café do Chico, quase à hora de almoço. Mas o Chico não serve almoços, apenas distribui abraços aos clientes que não aparecem há tempos. O meu vem ao meu encontro logo que cruzo a porta, trazido pelo passo dançarino do dono do café. Sento-me na minha mesa junto à janela, de um lado o azul raiado do branco das nuvens, do outro os tons cremosos do café, cadeiras, mesas e balcão castanhos. O café do Chico combinaria bem em tom com um cappuccino, concluo, enquanto olho em volta à procura do jornal, mas eu apenas tomo café escuro, não diluído. Sou capaz de deitar uma gota de água no uísque como os meus amigos de Edimburgo, mas incapaz de deitar leite no café, como os meus amigos de Edimburgo. Dois dias de Correio, consigo encontrar. Só no café do Chico leio o Correio, os meus outros cafés não prestam tal serviço público. Não me espanta que o mundo seja para mim cada vez mais um lugar de espanto. Faltam-me as ferramentas para o entender. Aquelas que só uma leitura metódica do Correio proporcionam. Por exemplo. Eu, que nada sei da Bárbara e do bárbaro professor, sinto-me um ignaro, um bárbaro também, arrisco dizer. Salva-me destes pensamentos o Augusto, a quem não abraço para não esmagar os óculos que transporta ao peito. Conta-me da vida dele, e depois conta-me da vida da Florinda, sabes? está de amores com aquele que trabalha com ela, tu conheces. Ah, se dizes, devo conhecer. O Augusto não me consegue dizer quem ele é, porque não se recorda o nome, nem eu pela vaga descrição, diluída como o café num cappuccino, lá chego. Quando voltar a encontrar o Augusto, já ele descreverá melhor, quero crer, o desconhecido meu conhecido por quem a Florinda está de amores. Eu tenho a certeza de que o Augusto não notou que a Isabel, que está sentada na mesa ao lado da nossa, tem as unhas das mesma exata e precisa cor (Pantone 5115 UP)  que as botas da Lúcia, que se senta com ela. No meio de ambas, a Laura, filha de Isabel desfila atentamente fotos num ecrã. O Chico também não notou e eu só noto porque ao domingo tenho a minha visão apurada para as coisas do mundo. É do café do Chico, o melhor do mundo conhecido, noto hoje que nenhum me sabe como aquele. Tenho a certeza de que se o diluísse em leite, perdia este poder mágico de tornar o ar transparente. Antes de sair, a mulher do Chico faz-me um embrulho de empadas ainda quentes, porque hoje é domingo. Divido palavras e abraços com os presentes e saio para o luz azul da tarde, a pensar no leite que obscurece o café e na gota de água no uísque que abre os sabores como se fossem uma corola ao sol. E reparo que estou em falta: os meus amigos de Edimburgo já me deram a provar o melhor uísque do mundo e eu ainda não lhes dei a conhecer o melhor café do mundo. De caminho, sempre lhes diria que o café, ao contrário do uísque, atinge a perfeição em estado puro.

17.2.17

enumeração

se tivesse que enumerar
tudo o que fiz hoje
desde cedo
tão cedo que começou o dia
até agora
tão tarde que acaba o dia

diria

pensei em ti

A passada de um gigante

Tenho-me lembrado de Brahms. Não por causa da paixão dele por Clara Schumann, embora esse fosse um belo motivo, adequado ao espírito deste espaço, mas antes por causa de Beethoven. ‘Não fazem ideia do que é sentir a passada de um gigante como ele atrás de nós’, dizia, referindo-se ao desespero que o assolava pela sua obra não estar ao nível da do antecessor. Não quero compor nenhuma sinfonia, também não tenho anseios para me aventurar pela escrita romanesca. Bastam-me por ora estas bagatelas de poucas linhas. Acontece é que aterraram nas minhas leituras algumas páginas de tal modo perfeitas que me colocam num estado contemplativo, e me dão o padrão exato para a palavra ‘inatingível’. Cotejar o nosso melhor com o que consideramos imaculado é caminhar sobre gelo sem atrito. A cada passo, a queda iminente. A passada de um gigante obriga-nos a reaprender a andar. Por agora, voltei a gatinhar. O problema é olhar para este ecrã hoje e descobrir que as letras estão desfocadas e que uns óculos de leitura seriam bem-vindos. Gatinhar e óculos de leitura ainda não vão bem na mesma frase, temos que convir.

Interrogação real

Quando somos apenas um endereço a um dedo de distância de uma tecla de apagar, o que somos?

16.2.17

Pintado de fresco

Hoje, poder-se-ia pendurar no céu um letreiro: 'Pintado de fresco'.

15.2.17

Leia-se vida

Já não valorizo a trama da história nem a densidade psicológica das personagens, não me interessa a capacidade de descrição minuciosa, os diálogos nada me dizem, não quero saber do desenlace. Tornei-me maniqueísta. Se gosto das frases, leio; se não, olvido. No fim de um dia como o de hoje, abro um livro em que as frases são afiadas como o gume de folhas de milho. Depois, corto com elas as horas até ao virar da noite. Por vezes, apetece-me doar os livros. Ficarem apenas os das frases moduladas como fugas de Bach: os poucos onde volto sempre. A frase é a minha âncora. Sem ela, vou à deriva, até onde me empurrar a corrente. Salvo-me na frase para não me perder no livro. Onde escrevo livro, leia-se vida.

Lanches e amores

Sento-me no café [onde mais?] com um bule de chá que parece uma lâmpada mágica. O fumo evola-se como o génio, mas eu não sou nenhum Aladino. Antes fosse. Preparando-me para escrever à leitora no ecrã do telefone sem fios, olho para a mesa à esquerda, onde se senta num lado uma jovem mãe e do outro o seu filho, cara redonda pouco acima do tampo, cabelos louros, olhos assestados num livro ilustrado de aprender coisas. A mãe faz perguntas distraídas ao filho, sobre o livro, e tecla rápida com dedos sorridentes no ecrã do telefone sem fios. O meu olhar deambula como o fumo do bule, e encontra muito mais que anotar, mas prende-se numas unhas rubras noutra mesa, que voam sobre o ecrã também de um telefone. Em frente a essas, o parceiro de mesa escreve, imerso noutro ecrã. Partilham a mesa, mas não o tempo e o lugar. Eu começo a escrever à leitora esta minudência inconsequente e depois interrompo, quando me dou conta do absurdo de teclar para narrar as alheadas dedilhações alheias. Foi ontem, dia de amores, ao lanche e por isso só agora coloco esta carta neste marco. Acredito na benevolência da leitora para a demora nas notícias. A mãe gosta muito do filho, o namorado e a namorada gostam muito um do outro e eu gostei muito daquele chá. O mundo está em equilíbrio, pois não?

14.2.17

uma gota de luz

no dia em que todas as outras palavras se tornaram
incompletas baças desencontradas

bebeu a gota de luz que ela transportava no olhar

sorriu e disse-lhe

amo-te

13.2.17

A mão de Deus

Só consegui ler quando me aproximei. Tatuada a cursivo na mão direita, por cima do quinto osso do metacarpo, tinha a palavra 'Deus'. Evidentemente que sendo o corpo todo a tela para quem se tatua, não só é o que é tatuado como onde o é que merece descodificação. A palavra poderia estar tatuada no braço, e nesse caso não a teria visto. Mas na mão, naquela posição, é visível para todos, menos para o portador, ou pelo menos não o é sem que tenha que rodar o pulso. Ver Deus no próprio corpo passa a ser um ato deliberado, quando para os outros, o é involuntário. Já o terço, gravado no pulso esquerdo, não escapa a qualquer olhar ou colocação, mas naquela posição fez-me lembrar mais os «mala» da tradição budista, do que rosários cristãos. Tal consideração não esteve na mente nem do tatuador nem do tatuado, quero crer. Fossem a considerar todas as possíveis associações de tal simbologia, e ainda hoje a tinta daquela tatuagem não teria saído da agulha. Mas num acesso de pessimismo, rejeito a aceção piedosa da decoração e ocorrem-me analogias terríveis para esta mão de Deus. Uma mão que pertence a Deus não tem que prestar contas do que faz: a Deus pertence a derradeira impunidade. Aquela mão fará um dia, se não o faz já, parte dos pesadelos de alguém.

11.2.17

Na corte do Preste João

‘E deveis saber que na corte do Preste João comem todos os dias mais de trinta mil pessoas, sem contar com os que vão e vêm,’ afirmou John Mandeville, Sir, no relato das suas magníficas viagens ao mundo conhecido em meados do século catorze, antes dos portugueses demandarem as terras do imperador cristão do oriente por via marítima. Sete reis serviam João, e partindo estes outros vinham, porque cada uma das setenta e duas províncias tributárias do imperador, tinha o seu rei, e cada rei tinha como tributários outros reis. De onde vinham reis, viriam sempre mais reis. Há lá maior mostra de grandeza do que ter reis como serviçais? E as gentes do século catorze espantaram-se e fizeram-se ao ríspido e longuíssimo mar ou enfrentaram o inclemente deserto em busca da terra onde até os pratos eram lapidados a partir de gigantescas pedras preciosas. ‘M’espanto às vezes, outras m'avergonho,’ disse Sá de Miranda, que viveu no século seguinte ao de Mandeville. Seis séculos depois, já não buscamos as terras do imperador. Nada nos espanta, pouco nos envergonha. É esse resto ténue de vergonha que mantém o fio da nossa civilização. Perdidas as ilusões, perdida a vergonha, restar-nos-á menos do que as ruínas da formidável corte do Preste João.

10.2.17

Passados mutuamente exclusivos

Nem precisava desenhar, eram as imagens que encontravam o caminho até ele. As imagens que traçavam o mapa dos seus múltiplos passados, mutuamente exclusivos. E escolhia, aí podia escolher, ter saudades desses passados que lhe pertenciam. De todos esses passados que lhe foram meticulosamente roubados. Até que do saque impiedoso, apenas lhe restou um.

O granizo e a idade

Depois de apanhar chuva e granizo é mesmo numa esplanada que me apetece almoçar. Dona Aureliana recebe-me com aquela manga curta dela, a mesma que usa dos picos do verão até às catacumbas do inverno. Quem está sempre com calor é aqui a Dona Aureliana, digo eu, ainda a sacudir as pedras de gelo da gabardina. Ela abre o sorriso e com aquela fala lá dela que atravessou o equador, explica, É da menopausa, doutor. A minha estrondosa gargalhada deve ter-se ouvido num molho de vários quarteirões em redor. Dona Aureliana faz beicinho, Pois, ninguém acredita quando eu digo isto. Oh, o lamento. Eu confesso já aqui à leitora a minha incapacidade para avaliar idades do eterno feminino. Mais arte do que ciência, mais perigos do que recompensas. Abstenho-me. Assim, quando atribuo à Dona uma existência, vá lá, de trinta e cinco anos, estarei decerto a falhar por um par de anos, por defeito ou excesso. Pode ter trinta e três, pode ter trinta e sete. Mal iria no entanto se tanto falhasse na minha avaliação, ou se a biologia fosse tão inexata ciência. Abrigado da chuva copiosa, e enquanto tomo o segundo café do dia, escrevo estas minudências inconsequentes. Numa pausa, também. De vez em quando lembro-me e dou uma gargalhada, mas desta vez em surdina. Tenho uma reputação de sólida sobriedade a manter, pois não é?

A temática da secura digital

Venho de descobrir que o retângulo de superfície vidrada por onde passeio os dedos quando quero que o cursor se mova no ecrã do computador de colo, é sensível à secura digital, isto é, à aridez da pele que cobre a carne que cobre as minhas falanges. O dito cursor hesita, fica titubeante, parece ébrio logo pela manhã. O que julgava ser problema de foro tecnológico, é afinal de foro humano. Sou infrequentador, desculpar-se-á o neologismo escusado, de blogs que aconselham as gentes sobre a temática da hidratação cutânea, mas reconheço agora quanto tenho subestimado a premência do tema. Ato de contrição. Vou retratar-me e, quem sabe, ainda surpreendo a leitora escrevendo aqui minudências inconsequentes sobre soluções [problemas já todos temos, pois não ?] de humidificação epidérmica. Logo eu, leitora, logo eu.

9.2.17

A dimensão do inexplicável

É um maravilhoso paradoxo não conseguirmos definir toda a dimensão da experiência humana em termos humanos. Deus, qualquer que seja a sua forma, terá lugar garantido nas palavras dos homens enquanto existir tal incapacidade. «É de dimensão divina», é a explicação mais satisfatória de tudo aquilo que não conseguimos explicar. Deus durará enquanto existirem homens. Não me parece um exagero dizer que isso justifica a asserção de que, na perspetiva humana, Deus é eterno. É a eternidade a dimensão do inexplicável.

Manual de degustação do café

É que nem saberia como havia de começar. Talvez assim, Dona Aureliana, não vai acreditar, enviaram-me uma colher para degustar café, está a ver? colher grande e redonda, uma daquelas marcas de café de cápsula quer que eu aprenda a degustar café, consegue acreditar? E ela, com aquele olhar trocista lá dela que atravessou o equador, Ora essa doutor, quer dizer que não aprecia o cafezinho daqui da esplanada, o meu café, o café mais bem tirado da cidade? Pois não aprecio eu outra coisa, Dona Aureliana, mas a colher até vem com manual de instruções, momentinho que eu mostro já. E apresentaria o manual de degustação, uma lâmina de papel de boa gramagem, impressa a quatro cores, com uma foto de uma chávena com imaculado aspeto, indicações meticulosas, Eu leio aqui em voz alta, Um, segure a chávena do café e observe a consistência do crema, assim mesmo, com crema em itálico, Dois, mexa delicadamente o café com a sua nova colher de degustação e inspire, que aromas consegue reconhecer? ainda está aí Dona Aureliana? excelente, Três, sorva o café, ao mesmo tempo que força a entrada de ar, mantenha o café na boca durante dez segundos, e finalmente, Dona Aureliana, Quatro, engula o café, sinta a riqueza do ar que expira e desfrute desta experiência. Mas doutor, perguntaria a Dona, afinal é para degustar o café ou o ar? é que não há ar melhor do que aqui o da esplanada, olhe agora e para o ar não precisa de colher, julgo eu. E tiraria um café, e eu sentar-me-ia, a mexer com a colher pequenina e não a grande e redonda, a escrever minudências inconsequentes, a respirar o melhor ar da cidade e beber o café mais saboroso num molho de quarteirões em redor. Talvez até ficasse com algum crema, com itálico, no bigode que não tenho. Desfrutaria da experiência da degustação, e com jeito, ainda escreveria um manual de instruções para os gentis-homens que tão generosamente me fizeram chegar a colher. Da arte de degustar um bom café ao amanhecer numa esplanada. De tudo o mais posso nada saber, mas disso, tenho umas luzes.

8.2.17

Não sei dizer que não [a boníssima comida]

Ele vem com o sorriso rasgado e aquele inglês lá dele que atravessou desertos e estepes e estende-me o que traz na caixa dizendo [eu traduzo para a leitora], Doutor, quer provar? é muito boa. Eu faço o meu melhor sorriso de escusa, Acabei de almoçar, muito obrigado, mas ele insiste, É piza de peixe, doutor, é muito boa. Falta-me a coragem para recusar mais, não sei dizer não a uma oferta tão plena de simpatia, aceito. É boa, na realidade. Ele atravessou meia cidade, e a piza ainda está quente, não sei como. Degustada, vou ter com ele e confirmo, Boníssima a piza, na verdade [dito em inglês, pois claro]. Passam segundos e ele vem ter comigo de novo, falando em voz tão baixa que mal ouço, revelando-me o segredo da piza, o restaurante onde se chega atravessando meia cidade, e que tem maravilhosa comida portuguesa como aquela piza e quantas mais e lasanhas e pastas, E tantas outras comidas boas, doutor, portuguesas, o meu português é escasso, não sei dizer os nomes, mas as comidas são todas boníssimas. Repete o nome do restaurante e do dono com o verdadeiro entusiasmo de adepto, já é da casa. Agradeço vivamente a revelação. Quando quiser comer autêntica comida portuguesa, como aquela boníssima piza de peixe, já não terei que andar à toa pela cidade.

7.2.17

Da existência formal

No meu pulso um coração perfeitamente desenhado bate indicando-me que estou vivo. Um descanso. De relance, vejo as estatísticas das minhas vivências de hoje com um clique num botão. Conforta-me o pragmatismo da máquina. Ando, respiro, fervilha-me o sangue nas veias, e ela acumula números que lhe dão uma imagem linear da minha existência tranquila. Rejubila com a minha condição, regozija-se quando me movo para lá das suas parcas expetativas. Congratula-me até, generosa. Vista pelos dois ou três indicadores que a máquina do pulso me dá, a minha vida é perfeita. Se eu me guiasse pelos seus padrões, até me poderia considerar feliz. Estatisticamente feliz. Pois que mais posso almejar?

6.2.17

O café mais forte do café

Quero o café mais forte que tiver, Dona Yara, digo eu, é ainda cedinho. Dona Yara abriu aquele sorriso lá dela que atravessou o equador e entrega-me um café hercúleo, ou assim o imagino, à laia de efeito placebo. Está aqui doutor, o mais forte que a máquina dá. Eu, grato, reparo que Dona Yara está mais nova. Sim, a nova mãe está uma mãe nova. [E a pequena Soraia está ótima, respondendo em antecipação à pergunta que a leitora tem em mente.] É claro que não digo a Dona Yara: A senhora está mais nova, se bem que ela talvez não se importasse de ouvir. É verdade, ser mãe rejuvenesceu Dona Yara, mas eu não posso dizer, senão teria que dizer também a Dona Aureliana que ser tia honorária também a tinha rejuvenescido, o que é igualmente verdade. E depois, o que pensaria Dona Patroa, avó honorária se eu não dissesse o mesmo? Já viu a leitora o dilema? Nem com o café mais forte do café ainda o consegui resolver, repare bem. Mas ao menos, estive completamente acordado a manhã toda.

5.2.17

Danças no vento


Praetorius, Danças

Força de gravidade

De todos os livros que estão pelas estantes tantas, regresso sempre a três ou quatro. Posso estar a ler o que estiver no dia mas lá vou procurar refúgio, quando um parágrafo me desilude, ou uma página me falha. Normalmente estão juntos, para ser mais fácil saciar-me, temporariamente que seja. Há um que entra, há um que sai, mas a estabilidade começa a ser granítica. Ancoram-me. Se um dia doar os restantes não creio que sinta falta deles. A força de gravidade reside naqueles poucos, mais do que livros, diria antes vórtices habilmente encadernados.

[Isto digo eu, que me recordo com precisão microscópica de todos os livros que emprestei e não encontraram o caminho de volta. Bem prego eu, em jeito de Frei Tomás.]

O domingo a acontecer

Há pouco vi o domingo acontecer mesmo à minha frente, ia eu nos meus passos a roubar sol, vindo de uma esplanada preguiçosa. Numa cadeira solitária de uma outra esplanada despenteada pela aragem fresca do final da manhã, um homem com a cara agasalhada por umas barbas ainda castanhas, debruçava-se com as costas em ângulo reto sobre um livro espesso e sublinhado a verde líquido. O homem revia as páginas marcadas, e anotava-as com gestos meticulosos. Uma manta sobre os joelhos isolava-lhe as pernas do vento enquanto ele se fechava nas páginas do livro. Podia tê-lo avistado em qualquer outro dia, é certo, porque aquele livro andava há muito a ser lido, não tive dúvidas. Mas noutros dias, àquela hora, a esplanada estaria cheia de gente de traje de negócios a chegar para o almoço, o homem já não teria o silêncio para orar assim naquelas páginas, sim porque parecia quase uma devoção. Uma manta por cima dos joelhos numa esplanada combina é com o domingo, temperando uma leitura transformada em veneração. Eu ainda não me converti, é certo, mas fiquei com ideias.

4.2.17

Céu branco

Um dia encontrarei uma caneta com que escreva no céu branco as palavras que guardo para ti.

2.2.17

e também há a lua

Alex Cameron, Tom and Leander Find Happiness in the Moon, 1971
ela sorria
e ele
ia

Com um sorriso

Segunda, 24 de julho.
Come cá em casa Borges. Nas obras completas de Eça de Queirós vemos as fotografias do grupo «Os Vencidos da Vida». Leio em voz alta os primeiros capítulos de A cidade e as serras e de A relíquia. Enquanto me escuta comenta: «Está escrito com um sorriso».
[Adolfo Bioy Casares, Borges]

aegritudo amoris

Note-se que na medicina ensinada na Universidade, o amor era encarado como uma doença — a aegritudo amoris — segundo a doutrina dos humores e da tristeza ou ira.
[Margarida Vieira Mendes, O Cuidar e Sospirar]

Geologia com laivos sentimentais

O deserto é uma praia que por melancolia se afastou do mar, diz Malgorzata Cruce. Eu interpretaria de outra forma: o deserto é uma praia que pena aguardando o mar.

Dois mil e cinquenta e dois, uma odisseia de falta de espaço

Em mil novecentos e oitenta, o colégio eleitoral lá das américas dos nortes deu a presidência a um ator do grande ecrã. Em dois mil e dezasseis, a um parlapatão do pequeno ecrã. Em dois mil e cinquenta e dois, calharão as sortes a um youtuber. Que a leitora não esqueça, por favor, que foi aqui que leu pela primeira vez esta audaz previsão.

1.2.17

Aqui-d’el-rei

Em dois mil e doze espalhou-se a indignação pelos pais e mães de família deste país porque um livrinho de poemas de Alice Vieira encontrou caminho sozinho para o Plano Nacional de Leitura e era coisa para adultos e não para jovens cabeças em formação. Cinco anos depois, volta a haver um aqui-d'el-rei, desta vez porque um livro de valter hugo mãe chegado também ao Plano Nacional de Leitura tem dois parágrafos com linguagem passível de chocar os sensíveis progenitores.

Seria preciso acreditar que os pais do jovem potencial leitor conseguem assegurar que seu rebento vive num ambiente controlado e asséptico sem Tumblr, sem Snapchat e sem séries da HBO em ecrãs grandes ou pequenos. Porque é evidente que se tivesse acesso ao que se elenca na linha anterior, olharia para os poemas de Alice Vieira ou para os parágrafos de vhm, encolheria os ombros e passaria à frente: para quê perder tempo com poesia ou prosa com meia dúzia de palavras gastas quando, como se sabe, uma imagem vale mil palavras e só o Tumblr tem uns trezentos e trinta e três milhões de blogs[*], muitos deles com inúmeras imagens a valerem as tais mil palavras ou mais ainda?

É só fazer as contas.

[* Fonte: statista.com]

Gosto do som de destrocar ao amanhecer

Venho apenas aqui num instantinho dizer à leitora que acabei de destrocar. Perante o olhar perplexo que aí adivinho, eu explico. Cheguei pela manhã fresca e azul ao café do Senhor Variações. É um café cheio, se faz favor, peço eu a Dona Ingride que tem aquele cabelo dourado lá dela, de quem veio das terras frias dos nortes. Entretanto, entrego uma nota grande e um pedido de desculpas ao Senhor Variações: Só tenho assim, não tenho trocado, peço muita desculpa. Impassível, o Senhor Variações enche-me as mãos de moedas: Doutor, se por acaso passar aqui daqui a bocado, venha cá destrocar que estas me fazem muita falta. Ora essa, pode estar descansado que destroco. E assim, agora que as voltas se proporcionaram, já tenho a carteira mais leve: destroquei. Ah, já me esquecia de dizer que Dona Ingride, prestável mas desconhecedora das peculiaridades deste freguês, tinha colocado o pacote de açúcar no pires. O Senhor Variações, antes de me entregar o café [sim, ele fez questão] de um golpe retirou o pacote de açúcar, mas deixou ficar a colher. Também ele destrocou a encomenda, repondo a normalidade invisível. Posta a situação nestes termos, não viria também a leitora destrocar as chapas sonantes de vil metal?