31.1.17

Oitenta anos de paixão


[Nos oitenta anos de Philip Glass, o quarteto Nº3, VI, Mishima, composto para a banda sonora do filme com o mesmo nome, realizado por Paul Schrader.]

O cepticismo, a ironia subtil, a sóbria elegância

O cepticismo, a ironia subtil, a sóbria elegância, essas virtudes que, em português, se aprendem em Eça e em Machado de Assis, não nos aliciam, se não é mesmo que nos atemorizam.
[Do posfácio escrito por Fernando Venâncio para Bilhetes de Colares de A. B. Kotter. Já tinha lido a frase antes mas só hoje me acertou bem na fronte, como se cá estivesse um alvo. Não recordo nenhum escritor português atual, ou do século vinte, em quem encontre estas três graças reunidas, de forma consistente; talvez num livro ou outro. Mas na obra? Não. Assumo visão de túnel, amostragem não significativa, até enviezamento. Aceito rever opinião se me for apresentada alternativa. Enquanto não, releio-os é a eles.]

Eu não quero ser rei

«Rei é quem nada teme, rei é aquele que não deseja nada»,
dizia o velho Séneca.

Eu não quero ser rei,
nem nesta idade me atrai a monarquia.

Sou e serei até ao dia da minha morte
um coquetel de temores e desejos.

[Versão livre de um poema de Luis Alberto de Cuencas.]

30.1.17

Um plano de sobrevivência (ou: da vida dos pirilampos)

Mais do que nunca, leitora, precisamos de beleza. Não que nos falte, não é isso, ou não é apenas isso: ela existe onde os nossos olhos se fixem, está lá à espera de ser descoberta, ou revelada, como as fotos na câmara escura. Precisamos é de a trazer para o ar livre, de falar dela, de a saborear como a um dióspiro, deixar que nos alague a boca e talvez os olhos, porque não? Vejo a leitora a duvidar, a pensar que este é fraco plano, que mistura necessidade com solução, que não apresenta relações de causa e efeito credíveis, que parece simplista, infantil até. Podia contrapor, elencar argumentos, citar filósofos, ilustrar com um quadro de um pintor japonês, mas não o vou fazer. Vou antes levar a cabo uma experiência: mudar, enquanto puder, a linha editorial deste blog (se é que teve alguma vez alguma), para a procura e a partilha dessa beleza. Talvez seja mais justo dizer, ajustar a linha editorial deste blog.

Não há grande coisa que se possa fazer num blog em tempos de escuridão, diz a leitora, que eu bem a ouço daqui? Claro que há: espalhar telescópios que aproximem as estrelas, semear flores que reflitam a lua, colocar espelhos junto dos faróis para desaustinar os fotões. Arregimentar poetas, daqueles com palavras iluminadas, pintores que tenha usado os pigmentos mais frescos e compositores que tenham criado melodias com o aroma da água fresca.

E isso é lá linha editorial que se apresente, indaga a leitora, arqueando ligeiramente a sobrancelha, perante tal vacuidade de ambições, pejadas de vontades etéreas. Pois por algum lado terei que começar, estimada e atenta leitora. Se o barco correr o risco de se perder na imensidão da busca da beleza, haverá sempre um astrolábio e um leme e uma carta e uma estrela. Titubeando ou não, se encontrarão caminhos. É possível voar à volta da Terra e estar sempre banhados de luz enquanto dura o vôo. Não significa ignorar que as trevas existem, apenas não esquecer que as trevas só sobrevivem enquanto a luz estiver obscurecida. Do que deste escriba depender, aqui não se falará de trevas. Mesmo que seja da vida dos pirilampos, lá está, falar-se-á é de luz.

Não faça isso, querida!

A leitora, que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje, quer fechá-lo às pressas, ao ver que beiramos um abismo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.
[Machado de Assis, Quincas Borba]

Como num filme

No final ganham os bons, é certo, mas ainda falta muito?

29.1.17

ocupação precisa do espaço

Kazuo Nakamura, Espaço Interior, 1954
há um momento preciso
em que a fronteira
entre o nosso espaço interior
e outro espaço interior
é abolida

à fluência entre os espaços
unificados
chama-se então

amor

Quão difícil é sair de Inglaterra

A verdade é que o inglês não se diverte no continente: não compreende as línguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, toilettes, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga crença de que os lençóis nas camas do hotel nunca são limpos; o ver os teatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura a sua alma cristã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro, porque suspeita que há dentro coisas obscenas; se o seu Guia lhe afirma que na catedral de tal há seis colunas e se ele encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o país que percorre, como um homem a quem roubaram uma coluna; e se perde uma bengala, se não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compor uma carta para o Times, em que acusa os países continentais de se acharem inteiramente num estado selvagem e atolados numa pútrida desmoralização. Enfim o inglês, em viagem, é um ser desgraçado.
[Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra]

Tão iguais, tão diferentes

O homem na mesa ao lado no café é muito diferente de mim, ninguém nos confundiria mesmo que vistos através de um vidro fosco ou de um bloco de nevoeiro. Mas ambos temos uma coisa em comum: um porta-minas metálico e pesado para cilindros espessos de grafite. O meu acompanha-me noutros dias mas não ao domingo. O dele, em cima do livro que tem na mesa, fez companhia ao meu olhar durante o tempo de um gole de café. Usa-o como esticador para o livro aberto e usa-o, oh céus, para sublinhar. Eu até leria aquele livro, vi-lhe a capa antes de ser escancarado com o auxílio daquele torpedo gráfico. Mas nunca o sublinharia, como já bastas vezes por aqui destaquei. As semelhanças começam e terminam no formidável porta-minas. Em tudo o resto, ninguém nos confundiria.

28.1.17

Como são diferentes os blogs na Noruega [serão?]

Hoje, os blogs noruegueses de maior sucesso são de raparigas, e têm mais leitores diários do que a maioria dos jornais noruegueses. Independentemente do conteúdo, é surpreendente que quando as adolescentes ou as raparigas na casa dos vinte anos pela primeira vez encontram plataformas que lhes permitem falar sem censura para grandes audiências, a reação primária da sociedade é zombar delas.
[De um trabalho de Jill Walker Rettberg, da Universidade de Bergen, Noruega.]

esta momentânea eternidade

Kazuaki Tanahashi, Miracles of each moment, 2016


vê como te procuro
 nesta momentânea eternidade

quero guardar o dia de hoje
como se guarda um templo

pedra a pedra

[baseado em raquel lanseros]

27.1.17

Oh minha vida oh meu tesouro


Claudio Monteverdi, Pur ti miro, Pur ti godo

As horas rituais

Hoje, por circunstâncias que aborreceriam a leitora até ao limite de um bocejo disfarçado, tomei o café da manhã já era tarde e o da tarde, tarde [não sei se me faço entender]. Ou seja, por causa das tais circunstâncias já só vi Dona Aureliana de passagem, Dona Patroa nem a vislumbrei, não tenho minudências inconsequentes para escrevinhar aqui, o café a desoras alterou-me os ritmos e os biorritmos, uma perturbação, um transtorno. Apanhei chuva quando saí desprevenido e sol quando saí camuflado. Apanhei filas de trânsito quando precisava voar e voei quando esperava caracolar. O café devia ser vendido com aviso encorpado: A falta de café às horas rituais pode alterar seriamente a existência das gentes. É que com coisas sérias não se deve brincar, pois não concorda a condescendente leitora?

26.1.17

A clínica dietética do café

E vai querer com manteiga que faz mal, doutor? canta de trás do balcão uma fala que atravessou o equador. Dona Aureliana não sabe das excelências do meu colesterol nem eu vou, obviamente, estar a fazer destaque delas, pois não é leitora? mas se da Dona dependesse, os seus clientes seriam os mais saudáveis do mundo. Recuso: Não Dona Aureliana, não é preciso. Mesmo que me apetecesse, que não apetecia, manteiga na minha escolha de lanche, mas mesmo que me apetecesse, dizia, quem teria coragem depois de tal aviso de prevaricar assim de forma tão flagrante? Tenho que vigiar o colesterol, Dona Aureliana, tenho que o ir mantendo em rédea curta, digo eu. Não quero dar parte de forte nem parte de fraco. E asim, com uma verdade piedosa, não me comprometo. Penso eu, mas a leitora terá opinião diferente, quase aposto.

25.1.17

princípio básico da biologia estelar

Theodoros Stamos, Infinity Fields, 1983
mantém-se inteiro com a 
mesma cola que une a areia

e a poeira das estrelas

Uma duna de areia fina na ampulheta do coração [Intermezzo]

E uma noite, com o sol a pôr-se, chegaram a umas grandes dunas de areia e pensaram: 'Ah, agora estamos no Sahara; podemos fazer chá.'


[Palavras adaptadas de The Sheltering Sky, de Paul Bowles. Música de Ryuichi Sakamoto, para o filme baseado no livro de Bowles.]

24.1.17

Porque leio blogs

No ecrã desfilam, sempre que estou disposto a olhar para ele, dados, números, indicadores, quadros de bordo, eventos, mudanças, inovações, histórias, antigas e novas, fontes informadas, conclusões fundamentadas. À distância de uma rajada de teclas tenho mais do que tudo o que quero saber sobre o mundo.

Quando preciso de captar sentimentos como quem sacia a sede por um cucharro mergulhado na fonte, beber da torrente de emoções que emergem em permanência do facto de sermos humanos, fortes ou frágeis, encontrados ou totalmente perdidos, lutando a cada momento para descobrir palavras que deem forma visível aos intermináveis tornados internos que nos assolam a nós, a todos os que nascemos com polegar oponível aos outros dedos e um cérebro incontrolável, a todos os que de outra forma mais não somos que uma sucessão de dados num qualquer ecrã, leio blogs.

Tomar medidas exatas

Estou sentado na esplanada a tomar o café da tarde, o segundo do dia porque as regras são para cumprir: um de manhã, um de tarde e fica a conta certa [exceções admissíveis apenas em dias excecionais, que são menos do que aqueles em que se admitem redundâncias escandalosas]. Dona Aureliana, com uma manga curta que contrasta com o meu cachecol por cima de casaco e debaixo de sobretudo, entregou-me há pouco a chávena a fumegar, dizendo com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Já viu que dia lindo, doutor? Não vi eu outra coisa, Dona Aureliana, um céu tão azul que parece que estamos no verão de outro hemisfério e não no inverno deste. E ela: É o céu da terra lá minha. E a voz dança, com o ritmo da terra lá dela. E eu aqui sentado preparo-me para escrever à leitora uma missiva dando conta das novas inconsequentes deste espaço.

Ali ao lado, Dona Patroa, trajada como se fosse véspera de passagem de ano e a rolha da garrafa de champanhe estivesse em ânsias para saltar, distribui trabalhos pelos fornecedores por via do seu telefone sem fios que ocultaria um guardanapo para este nunca mais ser visto, tal é a superfície útil do ecrã de fio a pavio. Tanto despacho só pode ser dado por intermédio de um ecrã com muitas polegadas: imagino os almocreves do outro lado ao receberem os telefonemas de Dona Patroa, a correrem a esconder-se debaixo das mesas, como se ouvissem notícias de um tornado eminente, tal é o vigor com que Dona Patroa negoceia, pressiona, ordena. Até parece um estereótipo, Dona Patroa [Dona Aureliana, vice-presidente do café, discordaria vivamente desta minha congeminação e ela é que conta nestas contas estereotipadas.]

Ao meu lado passa agora, com aspeto marcial, um senhor com ar de Mestre de Obras, a medir a esplanada a passos largos, linha reta para a frente, prova dos nove para trás. Terá uns trinta passos bem medidos, de Mestre de Obras, a esplanada, digo eu assim a olho agasalhado. Quando se mede uma esplanada tão pródiga em eventos, praticamente o centro de um mundo, tal como quando se dá notícia do que por aqui se passa, temos que ser exatos acima de tudo nos passos, pois não é, leitora estimada?


23.1.17

Assegura-te que trazes algumas flores no cabelo




[Françoise Gilot desenhada por Picasso e fotografada com Picasso por Robert Doisneau em 1952.]

22.1.17

As melhores alturas para pecar e para escrever sobre pecados

O post mais visto neste blog nas últimas semanas é o que tem no título e no tema a referência a um pecado. É um post de janeiro e é evidente que nesta altura a gula é um pecado que se mede em quilos, aumento do índice de massa corporal e polegadas de adiposidades várias. Ainda tem a premência da presença. Faz-se notar.

Mas terão os pecados maior importância sazonal? A preguiça é pecado em agosto? A luxúria em meados de fevereiro? A ira em dia em que a equipa perde? A soberba quando se recebe o diploma? A avareza em abril? Imagina-se o pecador contrito a explicar ao juíz do tribunal celeste, meretíssimo, fui unha-de-fome, mas sabe, foi só naquilo de declaração ao fisco. O juíz do tribunal celeste consultará a tabela de circunstâncias atenuantes, meu filho, pecaste em abril e nesse mês aplica-se desconto a esse pecado. Na folha de deve e haver é creditada então na conta do pecador a percentagem a haver. Sobra margem para outros pecados extemporâneos.

E que deve fazer um escriba que pretenda abordar o tema do pecado, quem sabe se no meio de todo um ror de elocubrações em torno da moral e dos bons costumes? Atenhamo-nos ainda como exemplo à gula. Falar do pecado uniformemente ao longo do ano e falar de empanturranços de bolo rei em dezembro e de barrigadas de folar quando calhar a páscoa e de lambuzamentos de gelado de chocolate branco em julho de modo a levar o leitor a arrepender-se no ato de cometimento embora correndo o risco de pregar no deserto à uma da tarde? Ou antes pelo contrário falar apenas à posteriori de dedo em riste em demanda da redenção do leitor em fase já de irreversibilidade do remorso? Ser condescendente ou antes acusador? 

Veja-se o caso de quem alinhava estas palavras. Talvez lá no livro do deve e do haver a gula por um café bem tirado em qualquer mês seja pecado sem atenuante. Nesse caso estou condenado à partida e não será por isso que deixo de mover parte das linhas que por aqui espalho a cafeína e deixo de narrar até à saciedade as circunstâncias em que me vou afundando em tal vício. 

Está decidido. Escreverei ao longo do ano, pese a sazonalidade que não é destino menos ainda grilheta. Restar-me-á pedir clemência ao juíz do tribunal celeste, arranjar um álibi convincente ou esperar que ele compreenda as debilidades dos fracos de vontade. Talvez exista mesmo uma bem-aventurança que proclame que a estes fracos pertence um bocadinho que seja do reino dos céus. Àqueles a quem apetece abusar de gelados em fevereiro e ser preguiçosos em outubro? Ora se houver, o pecado mais imperdoável não será mesmo não pecar? 

21.1.17

Retrato da tarde

Agostinho Bonalumi, Blu, 1971

Tornar Roma grande de novo

Algumas das vozes mais estridentes do terceiro e segundo séculos antes da era cristã tornaram-se famosas por atacarem a influência corruptora sobre o comportamento e a moral romanal tradicional da cultura estrangeira em geral e da grega, em particular.

[Adaptado de SPQR: A History of Ancient Rome de Mary Beard.]

O rigor da sombra

Sento-me no café numa mesa ao lado da janela e ao lado do sol na mesa. Não preciso mergulhar no sol, limito-me a permanecer na fronteira rigorosa. Ontem ou anteontem li uma frase de um canteiro numa entrevista antiga, antes a sombra do sol para desenhar as linhas no chão que uma régua. É subvalorizada a sombra. Sem sombra não haveria retas em estado nativo na natureza. A sombra devia pertencer à tabela periódica. Elemento leve e perecível e essencial. Também de sombra vivo, descubro. E com pequenas epifanias como esta me delicio como com o café intenso e quente de hoje.

20.1.17

Todos os belos cavalos

Tu terminas o dia e terminas a semana e terminas o ciclo. Sabes que começarás outro, é o que te faz bater o coração e encher de sangue quente as veias. Paras e revês o dia. Não há dias comuns apenas dias extraordinários. Lembras-te de todas as horas tão cheias de minutos quanto os olhos de luz quando fitam o sol de frente. Pensas que viste a face do sol e não cegaste. Recordas os poemas que leste ontem e a que chamaste solares porque te trouxeram luz nos filamentos das palavras. Hoje precisas de poesia forte e não apenas de poesia luminosa. Foi durante a viagem de regresso que tiveste esta ideia de poesia forte. De uma poesia em que encontras as palavras soltas como cavalos selvagens. Hoje precisas dessa poesia que surje em tropel e te arrasta num estampido. Vais à procura de bandos de palavras que galopem livres. Quando as encontrares galoparás lado a lado com elas. Hoje podes.

A vida, o Universo e tudo o resto

Hoje acredito que o Universo nos conduz os passos mesmo quando estamos distraídos e não temos o mapa interno ligado. Eu conto à leitora o que se passou para ver se não concorda comigo. Já tinha tomado café e eu nunca em circunstância alguma tomo dois cafés de manhã. Exceto quando há alguma exceção passe a redundância é uma regra escrupulosamente cumprida. Hoje seria só um e era o já tomado ao nascer do sol ou melhor ao nascer da luz para as minhas pálpebras.

Acontece que. Eu andava a congeminar no que escrever à leitora e então pensei de mim para mim que o café da Dona Aureliana é uma fonte de temas qual musa torrencial, de tal modo que este escriba esquece os seis graus que enregelam os dedos que não dançam apenas coxeiam sobre o teclado. Já chego ao ponto, um pouco mais de paciência agradece-se.

Acontece que. Chego ao café a pensar no que escrever à leitora e ao cruzar a porta Dona Aureliana já vai despachando ordens de chávena cheia para o doutor. Mas hoje ao lado do balcão está o sorriso de Dona Yara em trajes coloridos de mãe recentíssima. Eu creio abrir também o meu sorriso mais rasgado, o mais satisfeito de a ver ali tão radiosa. Quer ver minha princesa doutor? Ora pois claro que quero Dona Yara, não quero eu outra coisa. Dona Yara traz a alcofinha e retira cuidadosamente a manta até que surge a face tranquila e adormecida de Soria bebé. E não tem ainda fala que atravessou o equador como a da mãe mas tem um sono tranquilo a princesa. Soraia linda linda, Dona Yara. Obrigado doutor, é tão linda não é? E omito à leitora sabendo os riscos que corro todos os pormenores das dormidas e comidas e banhos e outros feitos de Soraia linda. Corro riscos porque a leitora iria adorar saber e eu bem sei e faço caixinha e é uma maldade. Assumo.

Mas há um momento de enlevo em volta de Soraia linda, eu e Dona Yara e Dona Patroa. E Dona Yara está feliz e eu fico feliz pela felicidade de Dona Yara que a felicidade é contagiosa como se sabe. 

Acontece que. Estou a escrever na esplanada. Creio que ainda disse mais uma vez a palavra linda antes de vir enregelar para aqui. O Universo conduz-nos os passos disse acima e cada vez estou mais convicto disso mesmo sem me ter tornado cabalista. Ou sequer de estar em vias de. Fosse eu cumprir as minhas regras e não teria tido este momentinho de felicidade e estaria a contar outra história qualquer com os dedos transformados em cristais de gelo. Assim é a cara linda de Soria que deixo à leitora para adivinhar porque não a sei descrever. O Universo conduz-nos os passos mas delega-nos a tarefa de decifrar os resultados. Tarefa que tento cumprir enquanto ainda consigo mover as mãos. À leitora deixo o preenchimento dos espaços em branco.

19.1.17

Tempo de prateleira

Ao entrar na livraria vejo os livros do galardoado em primeiro plano, mesmo aqueles que nenhum leitor alguma vez comprará a não ser uma minoria especializada e se comprarem não lerão ou se iniciarem a leitura por certo esta ficará a meio. Pergunto sem esperança de resposta se extinta a última chispa do prémio restará algo daqueles tomos sóbrios e científicos e ponderados nas estantes. A literatura tem um tempo de vida de prateleira, dizendo de outra forma o seu padrão de conservação assemelha-se mais ao de um figo do que o de uma garrafa de aguardente de figo. Pergunto também sem aguardar resposta se os livros de Herberto ainda se vendem e melhor se são lidos depois de se ter temporariamente tornado um fenómeno especulativo. Herberto passou de ouro a loja de ouro, diria acerca desses anos antes da morte. Anos depois de morto, morreu. Não apenas os livros mas os escritores têm também tempo de prateleira. As garrafas de líquidos etílicos ainda ganham depósito por dentro. Os livros e os escritores que passaram o tempo de prateleira vão simplesmente para dentro do depósito. O precipício da prateleira é um patíbulo.

Planos para descongelar ou uma viagem antes de ser iniciada

Dona Aureliana nem perguntará se quero café. Irá logo se dirigindo para a máquina em passo de dança, rainha Nzinga por detrás do balcão e senhora dos domínios infindos da esplanada. Aqui está seu café doutor, dirá com aquela fala cantanda que atravessou o equador. Está calor em sua terra, direi eu mais do que perguntarei. Pura retórica. Claro que estará mais calor em terras da Dona. Os braços de ébano dela não o denunciarão, nem um arrepio será visível abaixo da manga curta tal como não é abaixo da manga curta do Senhor Variações de alva pele que não atravessou o equador. Deve ser das máquinas do café ou do café ele próprio, quem sabe se o pó negro não guarda o calor das terras de onde provém num encantamenta qualquer que ainda não decifrei. Dona Aureliana saberá. Se a leitora quiser saber de mim estarei a tirar cafés atrás de um balcão, encalorado de manga curta também eu. É o plano. Só tenho que sair dos meus vinte e dois graus e desfazer-me destas camadas de lã que impedem o calor do corpo de se esvair pelos golpes de lanceta do ar gelado. Se me mudar para junto da máquina de café serei tão feliz quanto Dona Aureliana e o Senhor Variações aparentam ser. Vai-se ver são aparentados também. E eu quero é ser parente deles.

18.1.17

Metal fundido

Há muito que não recordava o cadinho de metal fundido borbulhando denso por cima da fornalha. Revejo o homem de face rubra debruçado sobre a superfície argêntea e o sufoco feito de espanto que senti na primeira vez que entrei na sombra iluminada pelo fogo domesticado. Revejo-o enquanto rodeio a chávena de café com as minhas mãos e deixo ficar até depois de sentir a dentada do calor na ponta dos dedos. Os dentes da porcelana alvos como os de um cão. Mas não é de dentadas brancas que preciso. Preciso das dentadas negras do cadinho incandescente e da fusão do corpo com o metal numa hibridez de centauro. Carne e prata. Era lá que as minhas mãos deveriam permanecer até atingirem o ponto de dissolução. Na fornalha. A fornalha é a esperança de eternidade do fogo.

Um sol frio a vinte e dois graus

De todos os sóis existentes no universo havia de lhe calhar um sol frio. Incompetente para aquecer o coração do homem que percorre as avenidas da cidade num casulo aquecido a uma temperatura constante de vinte e dois graus. Do homem que se dobra sobre a mesa grande do gabinete enrolado numa manta de ar anestesiado. Do homem que vê para lá da janela as cortinas exteriores de um azul de aço temperado em liga de orvalho. Mas o sol frio não encontra o caminho nos túneis finos que ligam a pele ao coração. Perdem-se os raios nos escuros becos do labirinto torácico. De nada servem os vinte e dois graus constantes com que o homem veste o corpo ambulante. A temperatura do sol é subzero. O coração desensolado enrola-se fetalmente sobre si. Fatalmente desconsolado.

17.1.17

Paradoxo, quase um provérbio

Foi o dia tão cheio que a alma resta vazia.

16.1.17

destino à flor do mar

ele era uma enseada 
onde 
um dia

ela aportaria

Coração aprisionado


Tarquinio MerulaFolle è ben che si crede

weblog [avião para a lua]

a lua do amanhecer elevava-se por cima do semáforo. Gustav Leonhardt tocava cravo, presente como se estivesse ao meu lado. foi então que passou um avião na estrada para aquela lua. o momento foi de um azul perfeito.

à noite, a lua

à noite
a lua
juntava-



-os

15.1.17

weblog [palavras espelho]

tendo a ler mais livros antigos do que novos, talvez esperando que os novos amadureçam.
[escrito por Lydia Davis no The Times Literary Suplement. quem me dera que a frase fosse minha.]

14.1.17

palavras dançantes como reflexos no rio

as palavras atropelam-se antes de as conseguir captar aqui
cada uma só quer uma coisa, única: dizer de ti

weblog [a vida como ela não é]

A poesia descreve a vida como ela é, mas também com todas as suas intrincadas evasões. Dá-nos o mundo como ele é — comum, próximo, baixo, reconhecível — mas imaginado, iluminado, revirado. É um mundo simultaneamente visível e invisível até ser visto com os olhos do poeta.
[a poesia é a vida como ela não é, afinal. baseado em Things Merely Are, um livro sobre a filosofia na poesia de Wallace Stevens, escrito por Simon Critchley.]

weblog [da gula]

ele confessa-me que precisa de perder peso. olho-o, estamos ao balcão do café, ele domina a gula, uma vontade de ferro, uma disciplina temperada a diamante. estimo a altura e o peso: deverá andar pelos sessenta quilos, se tanto. e tem que perder peso. [ative-me só ao café, desviando o olhar do que mais havia no balcão do café: que direi eu então?]

ao entrar num elevador, ouço a queixa sonora deste por excesso de carga. disse às presentes desconhecidas uma versão diferente da dele, mas com o mesmo significado: tenho que perder peso. uma delas, generosa: mais? olhe que desaparece. não sei quem ela viu, mas não fui eu, decerto. [as notícias do meu desaparecimento são grandemente exageradas]. ainda assim, aproveitei, por umas horas: baixei a guarda, venham de lá essas calorias, que o tempo está de feição.

o papa Gregório I, que elencou os pecados mortais, definia assim o guloso:
às vezes, antecipa a hora de comer; às vezes, procura carnes dispendiosas; às vezes, exige que os alimentos sejam cozinhados delicadamente; às vezes ultrapassa o objetivo de saciar a fome, por excesso; às vezes, peca na intensidade do apetite.
confesso que me revejo na definição [exceto no que toca ao departamente das carnes]. sou portanto guloso com selo papal. se voltar a entrar naquele elevador e ele se queixar, referirei esta confirmação, vinda do próprio Vaticano.

a gula oficializada tem outro peso, literalmente.

brevíssima constatação sobre aquilo a que chamam amor

há um dia em que uma alma encontra outra 
que fala exatamente a mesma língua

13.1.17

weblog [retrato de jovem com porta em fundo]

quando de manhã me mostraram aquela máquina fotográfica, pensei: não, não lhe colocava uma lente destas. usaria a minha lente mais luminosa e sairia por aí, retratando a eito. foi de tarde que vi uma máquina igual, com uma lente também luminosa, apontada a uns cabelos de fogo que enquadravam uma cara com olhar demasiado absorto. fixei o contraste dos cabelos cor de fogo com a porta azul. posso imaginar o fotógrafo apaixonado [juraria que o vi nos olhos dele] que saiu a fotografar a eito os cabelos de fogo. os cabelos justificam a foto. mas só a paixão justifica aquela porta azul, na verdade. o olhar absorto, não o sei justificar.

weblog [o brinde II]

não, não se pode chamar um brinde [talvez nalguns países orientais homens brindem com chá, mas suponho não ser uso por cá]. creio, no entanto, que a determinada altura elevámos as chávenas ao mesmo tempo, como se cada um dissesse: penso que pode ser o início de uma bela amizade. e o chá era bem bom, já agora.

weblog [o brinde]

na mesa ao lado da minha brindam com vinho branco gelado a uma amizade que parece longa e sincera. antes de vestir o sobretudo para sair para o frio da navalha, penso que uma boa amizade resiste a tudo, de facto.

weblog [prova devida]

peço o café ao Senhor Desconhecido: café cheio, sem açúcar, com colher. passados segundos, aparece o Senhor Variações com a chávena a fumegar e um raspanete pronto: eu já cá vinha trazer. ups, fiz o meu primeiro erro de sexta, treze, penso. mas foi o melhor café tirado pelo Senhor Variações até hoje. senti-o atingido no brio: afinal, de que servem os dotes de vidente, se o freguês pede o café a um colega qualquer de primeiro dia. há coisas que ferem um homem! e eu sento-me a beber o excelente café, mas impaciente, a meio escrevo esta missiva inconsequente à leitora, antes que ela pense que o escriba deste hebdomadário sumiu nalguma manhã de nevoeiro. meia chávena de café arrefece aqui à minha frente. ainda arrisco um segundo ralhete do Senhor Variações. o que eu não faço pela leitora!

[até usar dois pontos de exclamação no mesmo texto.]

10.1.17

da pintura e da escultura e da criação do amor [o núcleo]

quando o pintor cria o quadro
parte do branco e dá cor à cor
até que a tela se irreleva
submersa em pegadas de luz

quando o escopro faz emergir a escultura
parte do vago bloco e subtrai o supérfluo
até atingir a forma límpida linear
nada mais

o amor é como uma escultura
não como um quadro
cria-se por extração não por soma
até restar apenas um núcleo [o núcleo]

até o amor ser o crucial

weblog [livro de estreia]

o teu coração é um músculo do tamanho de um punho
[como é belo o título do livro de Sunil Yapa, Your Heart is a Muscle the Size of a Fist]

9.1.17

weblog [Akhmatova e Modigliani]

ela sentava-se com ele à chuva num banco nos Jardins du Luxembourg debaixo de um enorme guarda-chuva, enquanto recitavam Verlaine um ao outro, ou vagueavam pelas ruas antigas de Paris, os dois.
[se o amor pode sublimar a inveja, como não amá-los?]

Regresso a Ítaca

Sentado na esplanada após semanas de ausência, por trás de mim ouço a voz de Dona Aureliana, que entretanto se tornou vice-presidente do lugar, como a leitora recordará. Discute a gestão do café ao telefone com Dona Patroa, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Eu, que já enchi o depósito de cafés por hoje, deixo-me ficar refrescando o palato com um chocolate frio [para, modéstia à parte, o contabilista que toma conta dos meus pecados ter algo que escrevinhar na coluna da gula]. Protegido por casaco e sobretudo, sinto-me confortavelmente anestesiado aqui ao ar livre. Não bate o sol, é bem verdade, mas a brisa é cálida [fazia falta aqui um eufemismo, daí o cálida]. Não há uma grande obra literária sem um regresso a casa, desde que Ulisses voltou a Ítaca. Se um dia criar um café [creio ser a minha verdadeira vocação, quando me deixar destas minudências que me preenchem as horas] hei-de chamar-lhe Ítaca. E se Dona Aureliana ainda não se tiver estabelecido por conta própria, contrato-a para vice-presidente. Os meus dias, ah, esses passá-los-ei em Ítaca, na minha esplanada a enviar missivas inconsequentes como esta à leitora.

weblog [o livro de RAP, com adenda]

quebrei a minha primeira resolução de ano novo [não comprar livros em papel em janeiro] logo na primeira semana. lá se vai qualquer esperança de ter uma coluna vertebral no que a resoluções concerne. o livro foi o de Ricardo Araújo Pereira, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar. RAP é alegadamente o melhor humorista que temos no ativo [Herman nos seus tempos áureos foi superior] mas é um esforçado teórico do humor: o livro lê-se como uma parte de uma tese de mestrado, uma revisão de literatura, digamos, em que o autor não teve tempo nem disposição para escrever as conclusões. como o estudante que tem que entregar o trabalho com a guilhotina do prazo à vista: parece que o livro teve que ser editado em dezembro a tempo de caber numa meia pendurada numa chaminé. vinte mil exemplares vendidos, proclama a capa: são muitas meias recheadas, digo eu. o problema de RAP é tentar explicar o humor e acabar mesmo por explicá-lo: o efeito é anticlimático como quando se disseca uma anedota. não é uma teoria do humor: é uma lista incompleta de técnicas baseadas maioritariamente em exemplos televisivos [verdade seja dita: não exclusivamente, há também Joyce, Shakespeare e Lodge, entre outros] a que RAP faz a autópsia. devorei numa penada, é certo, mas não me ri uma vez que fosse. posso não rir a ler a escrita de Bergson sobre humor, mas de RAP espero mais. como humorista, RAP sabe que as piadas não carecem de explicação. se carecerem, é de piada que carecem.

 [sobre o acima dito escreve o ouriquense:
Discordo do essencial da crítica: um livro sobre técnica de escrita humorística não tem a obrigação de ser divertido. 
não creio que exista uma discordância de fundo sobre este ponto: não tem essa obrigação, de facto. mas quando os exemplos que RAP escolhe, como os televisivos das séries de Seinfeld, Larry David ou Rick Gervais têm que ser explicados em contexto, porque este está inteiramente ausente, o leitor pergunta-se legitimamente mas onde está o humor aqui? RAP tem que explicar de onde advém a piada e não só porque resulta. o oposto do humor, portanto. o livro fica-se no todo por aquele limbo penoso: se não fosse de RAP, seria ignorado; sendo de RAP, parece o trabalho de um aluno de vinte que estudou para dez e passou. bom para ele.]

8.1.17

weblog [herança genética]

«Blizzards and deep freeze grip Europe», proclamará a capa do Financial Times de amanhã. eu, que fiz a minha caminhada da tarde encharcado em sol e prestes afogar-me no azul do céu, sinto-me um apátrida nesta europa onde, claramente, não pertenço, contrariando assim vincadamente as congeminações de certo professor sobre a minha herança genética.

weblog [Um amor de meu sentido]

Um fogo que nunca se cansa
um amor de meu sentido
um fogo que não s'amansa
um mal que nunca descansa
de secreta dor ferido.
in Margarida Vieira Mendes, O Cuidar e Sospirar [1483]

weblog [Stevens e Hemingway]

Fiquei muito satisfeito ontem à noite ao ver quão grande é Mr. Stevens e estou certo de que se tivesse olhado bem para ele antes de tudo começar não teria sentido sequer bater-lhe. Mas posso assegurar-lhe que não há ninguém como Mr. Stevens para cair de uma forma espetacular, especialmente numa grande poça de água na rua em frente à sua antiga casa, onde tudo aconteceu.
de uma carta de Hemingway à sua amiga Sarah Murphy após a cena de pugilato que teve lugar entre ele e Wallace Stevens em 1936, em Key West, Flórida.

weblog [Gabo e Llosa]

aconteceu na Cidade do México. os escritores mexicanos andaram à procura de bifes para colocar em cima do olho de Gabo, mas a marca de Llosa, estava lá, para ser retratada no dia seguinte: «Como é que podes cumprimentar-me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?», gritou o peruano, enquanto atingia o colombiano na face, com o punho cerrado.

Patricia era a mulher, Patricia Vargas Llosa, amiga de Mercedes e Gabriel García Márquez. um dia, ao acordar, Patricia encontrou um bilhete de Mario a anunciar que a havia trocado por uma hospedeira sueca. sem saber o que fazer, Patricia aconselhou-se junto de Gabriel. quanto ao que aconteceu até ao murro, podemos apenas especular. sobre o que sucedeu depois, também. Márquez não ripostou, mas cortaram relações. na verdade, nunca saberemos o que aconteceu em Barcelona. Márquez nunca soube porque levou o murro, e mesmo que o soubesse, já não o poderia dizer; Llosa ainda pode, mas decerto continuará calado.

Patricia e Llosa voltaram a ficar juntos, até que Llosa passou a viver com Isabel Preysler e a aparecer semanalmente nas capas das revistas róseas. a literatura é outra coisa, já distante.

weblog [Gabo]


Gabriel García Márquez em 1976, após ter sido esmurrado por Mario Vargas Llosa.

7.1.17

Uma simultaneidade de temas independentes, uma polifonia até

Basedo nos seus estudos de história natural, de antropologia e de anatomia, Klee acreditava que a natureza é constituída pela permutação e movimento de unidades fundamentais de construção. Ad Parnassum é o pináculo das suas ideias, um cume como o da Grande Pirâmide, ali representada, e que ele havia visitado quatro anos antes. Os elementos do quadro são uma polifonia, como a que se encontra na música, uma simultaneidade de múltiplos temas independentes, segundo a definição dada por ele próprio. Uma paleta para pintar o mundo, acrescentaria eu. Deixa-me dizer-te: um quadro, um único quadro, pode ser mais eloquente, mais preciso, do que todas as palavras que eu consiga encastoar para ti.

Quantas cores cabem numa tela? Todas?

Paul Klee, Ad Parnassum, 1932

Ainda a propósito de uma ideia de Liberdade

Liberdade

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.

[Armindo Rodrigues, em Os poemas da minha vida, Mário Soares, 1924-2017.]

Tudo sobre a origem da espertina

Olho para a mesa de cabeceira e descubro dois volumes de Georges Perros, um de Sánchez Ferlosio e por cima de todos, os olhos papudos, a barba desabrigada e o sobretudo ébrio de Karmelo Iribarrén. A pergunta já nem é porque tão pouco durmo quando podia dormir mais: é antes, como é que consigo dormir, de todo.

6.1.17

Egmont


Beethoven, Abertura Egmont, Op. 84

[Quando a ouvi de manhã só desejei, adicionalmente, que fosse a versão de Nikolaus Harnoncourt — não era. Satisfaço o desejo agora.]

Uma história de amor por contar

Não sei se será sentimento correspondido, mas amo os semáforos. É nos semáforos que oro a São Shazam, é nos semáforos que anoto as epifanias que me esbarram no cérebro durante as travagens suaves, precisas, é nos semáforos que me sacio por um cucharro do poço de informação do telefone sem fios, perorante, expectante. Hoje amei mais ainda, por causa de Egmont. Foi num semáforo que começou a acelerar e era mesmo o que eu queria ouvir naquela altura, ali estacado. Como se Santa Antena Dois adivinhasse as minhas congeminações, mais parecidas com orações, lá está. A leitora imagina-me a bater o pé no semáforo ao som de Beethoven? É bom que nem imagine: a desinfeliz e oscilante viatura odeia tanto Beethoven quanto eu amo os semáforos, não sei se já disse. Confessado em público, não há retração possível. Ah, se amanhã tocassem a Sétima enquanto estou no meu semáforo de sonho, isso é que ia ser uma dança de pé batido, um fandango pneumático, um desastre para os calços do travão. Mas, ah, o amor, quem é que o pode travar?

5.1.17

Um melómano cheio de idiossincrasias

Liguei o carro, e a música espalhou-se de imediato como um perfume, uma Chaconne de Lully, mas tocada em teorba. Uma exclamação interior, que omito aqui (consumi um ponto de exclamação há menos de vinte e quatro horas, a dieta impossibilita que use hoje um, de novo), nunca tal tinha ouvido, e isso foi ontem, porque hoje, ao ligar de novo, à mesma hora, foram as Walquirias de Wagner, mas vertidas para piano. Já ouvi peças de Bach feitas para violino e transcritas para piano, alaúde ou guitarra. Já ouvi quartetos de Beethoven transcritos para orquestra. Já ouvi, valha-me o sagrado, o Canone e Giga de Pachelbel transcrito para ritmos urbanos. Mas aquela Chaconne, foi inesperada. São Shazam não a conhecia, pelo que terei que procurar o intérprete e a versão, tenho que a ouvir de novo para aferir. Não é em vão que já escutei de forma obsessiva a interpretação de Savall, até quase saber de cor quando acontecem os suspiros dos intérpretes nalgumas passagens. Há uma Partita de Bach que me é insuportável escutar, tal é a presença física do violinista (estimado Jaap Schröder, porque é que tem que respirar?). Sou um ouvinte cheio de idiossincrasias: prefiro algumas transcrições às versões originais, virando ao contrário a vontade do autor, prefiro algumas interpretações a outras (com veemência especial nas obras de violino) mesmo que sejam quase indistinguíveis, não quero ouvir sinal de vida do intérprete, mas entro em transe musical ao escutar Delta Crossroads, gravado por Robert Lockwood, Jr. aos oitenta e quatro anos. Ainda hoje, Lockwood vive de corpo inteiro naquela gravação, também pela magia de escultura sonora de Michael Bishop, responsável pela engenharia de som. Está nevoeiro lá fora, e eu até me esqueci dele enquanto vasculho estas memórias musicais. Mas é um nevoeiro persistente, sólido, de boa qualidade. Também o aprecio, afinal. Dona Arminda, ao dar-me os bons dias hoje, tinha as unhas pintadas de verde, no tom exato das cornucópias do vestido. Apreciei mas não lhe disse, por pudor. Indiosincrático, mas púdico, portanto. Notar é ler para a partitura original, dizer é transcrevê-la. Se algo aprendi ao escrever este texto foi que não transcrevo, quanto podia, as partituras originais. Finalmente, tenho uma resolução de novo ano, mesmo que janeiro já vá avançado: transcrever mais partituras. É a minha partitura prioritária.

[Adenda ao início da noite: numa entrevista passada há pouco, o maestro Martim Sousa Tavares, que dirige sem olhar para a partitura, disse algo extraordinário: «Um maestro tem que conhecer a partitura como se a tivesse escrito». Adoto como segunda resolução de ano novo. Começam a acumular-se.]

4.1.17

Faróis de nevoeiro

Tu olhas o nevoeiro e decides que não podes esperar até à hora de chegar ao café para veres o caminho com limpidez. Antecipas-te, tomas um atalho, colocas a cápsula preta na máquina, enquanto pensas em sacrilégio (sacrilégio!) e te perguntas porque é que assim não mexes o café com a colher nem o deixas arrefecer. Lembras-te das laranjas que sabem a explosões de luz quando as apanhas da laranjeira ainda a chorar lágrimas de seiva. Fazes a analogia com o café acabado de sangrar da máquina. Afluem-te, nem sabes de onde, ideias para escrever sobre os Romanov, lembras-te do quarto de Catarina, a Grande e dos émulos de Pedro, que por lá pululam, dois metros, pelo menos, por isso era Grande, por isso são grandes. Lembras-te das belas princesas nos quadros do Hermitage. Fazes contas ao tempo. Neva no Neva, mas voltavas lá agora, para as rever. Não te enganes: é mesmo para te imolares pelo frio. Voltas a olhar o nevoeiro depois do café, está igual. O café não o afastou, mas soprou algum do que tinha entrado subrepticiamente para dentro de ti. Arranjas uma frincha para te alumiar as sombras. Revês mentalmente a absurda lista de horas do teu porvir. Essa parte o café cumpriu: os faróis emprestados iluminam-te o dia todo. Inspiras, expiras: sentes a respiração fluir como te ensinaram há muitos anos. Convences-te que consegues assim que, conjuntamente com o ar, entre mais luz. Luz misturada no ar. É uma teoria louca, mas loucura por loucura, aceitas tudo o que ajude apartar o nevoeiro que não para de se expandir para ti.

3.1.17

Tocar violino com a mão trocada

Sabia, obviamente, que era o Concerto Brandeburguês, Número 2. Afinal, tenho várias versões, compradas em romarias obsessivas aos templos onde, dantes, a música era servida em discos prateados. Mas não sabia quem interpretava. Valeram-me dois santos: São Semáforo e São Shazam. Claro que podia ter esperado pelo desvendar no final, mas ambos os Santos estavam ali à mão, prestimosos. A versão era a minha favorita, a de Reinhard Goebel (chamá-la favorita e não a reconhecer deveria encher-me de vergonha, mas vou protelá-la, a esta, para ocasião mais meritória). Goebel, que tocava violino com a mão esquerda, em mil novecentos e noventa, por traumatismo, teve que abandonar por uns tempos a sua arte. Não se rendeu: reaprendeu a tocar com a direita. Não há memória de que alguém tenha feito tal, alguma vez. Mais tarde, recuperado, voltou a tocar com a esquerda. Não sei se a versão que tenho é com a esquerda ou a direita. Não creio que fosse capaz de as distinguir — afinal, deveria ter sido capaz de reconhecer que era o virtuosismo dele e até nisso falhei. Falhei, sorrindo. Foi a música perfeita, quando dela precisava. Devido a ela, peguei no meu violino e troquei de mão. Desafinei nas primeiras notas, pois claro. Reinhard Goebel não sou, e posso sofrer de excesso de indulgência, mas toquei melhor hoje com a direita do que ontem com a esquerda.

Andando até que o fôlego dói

Posso andar nos caminhos da minha vida até perder o fôlego e sem sair do mesmo lugar. Nem lhe chamo uma viagem de circum-navegação: essas pressupõem movimento sobre uma Terra que também ela gira. Mais adequado será dizer que vivo numa fita de Möbius, impávida na sua face única. Parto sempre do ponto onde cheguei, chego sempre ao ponto de onde parti. Não me impede de viver por vezes a ilusão de movimento, mas observando sempre as mesmas estrelas, não tardo a aperceber-me da minha imobilidade real, mesmo que não aparente.

2.1.17

Desenlaçar a língua

Nem a chuva, nem o frio, me servem de alibi para me ter entaramelado de tal forma naquela palavra. O gabinete era suficientemente cosy, insonorizado, para que nem sinal do mau tempo lá fora se notasse dentro. É certo que não tinha tomado café, mas também isso me parece insossa desculpa. A verdade é só esta: era uma palavra demasiado cara e na altura de pagar descobri que não tinha cobertura para ela.

História de uma submersão

O tempo aqui podia ser o de S. Sebastian: «Hoy, al fin, hace frío, frío de verdad, de invierno». Mau para andar na rua, bom para parafrasear Karmelo Iribarren: Como tenho já alguns anos, não creio que chegue a afetar-me — refiro-me ao aspeto legal — mas esta falta de entusiasmo acabará por ser proibida.

Contradizendo Sócrates

«Conhece-te a ti mesmo». Claro que sim, como se não tivesse mais nada em que pensar.

[Com a vénia devida a Sánchez Ferlosio.]

1.1.17

encontro primeiro

hoje encontrei-te
em todas as ruas
em que não te encontrei

Dia da tomada de posse

Saio em busca do rio e depressa descubro que estou desabituado do frio. Não sou apenas eu, a avaliar pelas faces transidas ocultas sob cachecóis e capuzes felpudos. O ano novo trouxe consigo a navalha afiada de um vento tão fino que entra pela malha dos poros e cria cristais de gelo por debaixo da pele. Eu, que andei a escrever diatribes contra o ano que passou, vejo-me na contingência de ter uma subtil saudade dele: afinal, ainda ontem me senti em outono tardio. Este entrou com inverno na mão, no dia da tomada de posse. Está na altura de voltar a dar uso à chaleira de ferro forjado. O café habitual que me perdõe: dois mil e dezassete já me está a puxar é para as infusões de folhas orientais. Um ano com falta de chá, este, leitora.