11.8.17

O verão de Mr. Gordon (III)

«Ela disse não.» Rosa mantinha a mesma determinação de propósitos que Mr. Gordon lhe conhecera em Berlim décadas atrás. Quando decidiu procurá-la, baseou-se nos dados que tinha dela: um nome e um local. Depois de semanas de pesquisa e de ajuda de um ex-colega de Berlim colocado no State Department, conseguiu contactá-la por correio eletrónico.

Não, não o queria ver. O passado deles ficara em Friedrichstraße; entretanto, tinha tido uma filha, um filho e já três netos, o casamento terminara nove anos antes e vivia agora entre Aveiro e a Serra da Estrela, sozinha e tranquila. Nem trocar fotografias, nem uma chamada telefónica, nenhuma proximidade: estava bem como estava. «Tough», diz-me Gordon, após o segundo café. Havia tirado o chapéu, segurando-o pela aba larga, abanando-o como se fosse um gigantesco leque. Rosa e Gordon são gente das montanhas, o que quer dizer que o seu grau de dureza se mede pela escala de Mohs: as palavras de Gordon não fariam qualquer risco na negativa de Rosa. Gordon é geólogo amador, sabe que as rochas estilhaçam sob o impacto de um escopro, mas moldam-se sob a água persistente. Decidiu fazer-se água. Em Junho, resolvidos os assuntos profissionais no Chidren’s Hospital Colorado, onde colaborava, voou para Portugal, alugou um carro, rumou à Covilhã, instalou-se para estadia prolongada. Não procurou Rosa, nem sequer ficou na mesma terra para não impor a sua presença, mas disse-lhe onde estava e deu-lhe um número de telefone para contacto. A resposta veio célere e curta: «Não.» «Tough», repete ele, enterrando o chapéu na cabeça até às sobrancelhas, o que faz com que o seu riso se assemelhe deveras ao de um garoto travesso.

[Parte III]