11.8.17

O verão de Mr. Gordon (II)

Mr. Gordon tira um retrato da carteira e passa-mo para a mão: uma rapariga de cabelos rubros, sorriso sereno, os mesmos olhos vivos que vejo à  minha frente. «Sondra, a minha filha.» Desvia a cara e fica a olhar o rio, a outra margem, o horizonte. «Morreu em 2012, em Aurora.» Numa sessão de cinema, à meia-noite, no Centro Comercial de Aurora, em Denver, um atirador matou vinte pessoas; Sondra estava entre elas.

Após o seu regresso a Denver, depois do destacamento em Berlin, Gordon estudou e passou a exercer pediatria e casou, aos trinta e dois anos, com Sarah, cinco anos mais nova do que ele, descendente de pai irlandês e mãe americana. Sondra foi a única filha do casal. Após o choque da morte de Sondra, a vida de Gordon e Sarah ganhou uma rotina triste e silenciosa. Para se afastarem da omnipresença da tragédia, viajaram: Canadá, Caraíbas, Hawaii. Mas a cada saída, Sarah cansava-se mais, a tez progressivamente mais sombria. Os dois últimos anos, não passaram das imediações de casa. Sarah morreu na véspera do Thanksgiving de 2016. Depois da partida dos irmãos e respetivas famílias, que compareceram no funeral e permaneceram uns dias, a vida de Gordon tornou-se tão árida quanto as Rocky Mountains, junto às quais cresceu e para onde se escapava nesses dias de chumbo, com esperanças de por lá se perder de vez. Regressava sempre, contudo. Foram as Rocky que lhe indicaram o caminho para outro, e maior, regresso. «Quando eu lhe falei das Rocky Mountains, Rosa contou-me da sua Star Mountain. Era para lá que Rosa voltava, quando saiu de Berlim», diz-me Mr. Gordon. «Para a Star Mountain», e sorriu com enlevo.

[Parte II]