29.7.17

#parecesosvelhotes

Eu sou do tempo em que se podia ver cinema sem estarmos rodeados de um ruído fervilhante de ruminância de pipocas brotando em fluxo constante de bidões com a prolixidade de uma arca de Pandora. Eu sou do tempo em que o cabelo de Valérian se separava a meio da cabeça, num risco que nunca esteve na moda e o de Laureline era ruivo, de um tom de fogo que nunca passou de moda. Eu sou do tempo em que Rutger Hauer encarnado em androide que não sonhava com ovelhas elétricas, morria como uma lágrima na chuva, sem ter ainda ressuscitado como Presidente da Confederação Mundial de Planetas. Eu sou do tempo em que Clive Owen fazia um credível Rei Artur de maxilar quadrado, e não um sofrível e quadrado comandante de exército com um boné que parece roubado a um señor presidente sul-americano, um patriarca no seu outono. Eu sou do tempo em que o herói dos filmes de Luc Bésson era do tipo forte e calado, um leão profissional, ao jeito de Jean Reno, e não um sósia fala-barato de Leonardo DiCaprio, o que não é dizer pouco, tão perdido num papel do adulto que embora sendo, não parece, como nas entranhas da cidade dos mil planetas. Eu sou do tempo em que Herbie Hancock era um respeitável músico das teclas, e não um ministro da defesa de uma confederação planetária que aparece geralmente em forma de holograma, exceto quando reencarnado no corpo ectoplásmico que havia antes enformado Riahanna. Eu sou do tempo em que ia ver um filme de Luc Bésson e não olhava tanto para o relógio, e não, não foi para ver no mostrador a frequência cardíaca absolutamente estável, mas antes porque Bésson conseguiu a proeza inédita de fazer-me bocejar numa fita sua, mesmo face à sequência alucinante de tantos e tão formidáveis eventos.

Ou talvez seja mesmo coisa que dá com a idade, quem sabe.

[Seguindo a ideia da hashtag n'a voz à solta, continuada por Pipoco Mais Salgado.]