15.2.17

Leia-se vida

Já não valorizo a trama da história nem a densidade psicológica das personagens, não me interessa a capacidade de descrição minuciosa, os diálogos nada me dizem, não quero saber do desenlace. Tornei-me maniqueísta. Se gosto das frases, leio; se não, olvido. No fim de um dia como o de hoje, abro um livro em que as frases são afiadas como o gume de folhas de milho. Depois, corto com elas as horas até ao virar da noite. Por vezes, apetece-me doar os livros. Ficarem apenas os das frases moduladas como fugas de Bach: os poucos onde volto sempre. A frase é a minha âncora. Sem ela, vou à deriva, até onde me empurrar a corrente. Salvo-me na frase para não me perder no livro. Onde escrevo livro, leia-se vida.