15.2.17

Lanches e amores

Sento-me no café [onde mais?] com um bule de chá que parece uma lâmpada mágica. O fumo evola-se como o génio, mas eu não sou nenhum Aladino. Antes fosse. Preparando-me para escrever à leitora no ecrã do telefone sem fios, olho para a mesa à esquerda, onde se senta num lado uma jovem mãe e do outro o seu filho, cara redonda pouco acima do tampo, cabelos louros, olhos assestados num livro ilustrado de aprender coisas. A mãe faz perguntas distraídas ao filho, sobre o livro, e tecla rápida com dedos sorridentes no ecrã do telefone sem fios. O meu olhar deambula como o fumo do bule, e encontra muito mais que anotar, mas prende-se numas unhas rubras noutra mesa, que voam sobre o ecrã também de um telefone. Em frente a essas, o parceiro de mesa escreve, imerso noutro ecrã. Partilham a mesa, mas não o tempo e o lugar. Eu começo a escrever à leitora esta minudência inconsequente e depois interrompo, quando me dou conta do absurdo de teclar para narrar as alheadas dedilhações alheias. Foi ontem, dia de amores, ao lanche e por isso só agora coloco esta carta neste marco. Acredito na benevolência da leitora para a demora nas notícias. A mãe gosta muito do filho, o namorado e a namorada gostam muito um do outro e eu gostei muito daquele chá. O mundo está em equilíbrio, pois não?