17.2.17

A passada de um gigante

Tenho-me lembrado de Brahms. Não por causa da paixão dele por Clara Schumann, embora esse fosse um belo motivo, adequado ao espírito deste espaço, mas antes por causa de Beethoven. ‘Não fazem ideia do que é sentir a passada de um gigante como ele atrás de nós’, dizia, referindo-se ao desespero que o assolava pela sua obra não estar ao nível da do antecessor. Não quero compor nenhuma sinfonia, também não tenho anseios para me aventurar pela escrita romanesca. Bastam-me por ora estas bagatelas de poucas linhas. Acontece é que aterraram nas minhas leituras algumas páginas de tal modo perfeitas que me colocam num estado contemplativo, e me dão o padrão exato para a palavra ‘inatingível’. Cotejar o nosso melhor com o que consideramos imaculado é caminhar sobre gelo sem atrito. A cada passo, a queda iminente. A passada de um gigante obriga-nos a reaprender a andar. Por agora, voltei a gatinhar. O problema é olhar para este ecrã hoje e descobrir que as letras estão desfocadas e que uns óculos de leitura seriam bem-vindos. Gatinhar e óculos de leitura ainda não vão bem na mesma frase, temos que convir.