19.9.17

um ser quase

reconstróis

me?

Dar alguma ordem a nós próprios

Willem de Kooning, Composição, 1955
A atitude de que a natureza é caótica e que o artista tem que a ordenar é um ponto de vista absurdo, penso eu. Apenas podemos esperar dar alguma ordem a nós próprios.

[Willem de Kooning]

O meu paradoxo com os blogs

Apesar do carácter transitório, volátil, flutuante, de um post, que tem como destino inevitável desaparecer no fundo da página, que tende para o fundo do tempo, tenho para mim que os melhores blogs, ou aqueles a que volto com mais ânsia, ou aqueles que começo a ficar inquieto se levam dias ou semanas sem atualização, são precisamente os que mais se aproximam da intemporalidade, que por uma qualquer combinação mágica de talento, bom senso e bom gosto, conseguem, sei que conseguem, arrancar-me um ‘ah, caramba’ quer os leia agora, quer daqui a um ano ou três. São raros, delicados, preciosos, e ah, caramba, não sei sequer se o sabem.

18.9.17

Vibrações na alma

Wassily Kandinsky, Vermelho e azul, 1926
A cor é o teclado, os olhos são as harmonias, a alma é o piano com muitas cordas. O artista é a mão que toca, uma corda ou outra, para causar vibrações na alma.

[Wassily Kandinsky sobre a pintura como outra forma de música.]

17.9.17

Suave melodia


Andrea Falconieri, La Suave Melodia

Conversas leves que dissimulam o enamoramento

Há muito de decisão elementar e arbitrária, também estética ou presumida (olhamos em volta e dizemos: ‘Combino bem com ela’), nesses amores que por força começam com timidez, com olhares breves, sorrisos e conversas leves que dissimulam o enamoramento, o qual no entanto se vai enraizando a seguir e parece inamovível até ao fim dos tempos.

[Javier Marías, Berta Isla, versão de x.]

16.9.17

A ver o mar

Hoje encontrei o mar exatamente com a cor das nossas palavras.

15.9.17

camadas sobre camadas

as capas e proteções e escudos
que colecionei em mim
volatilizam-se como éter ao ar
por ti

quando nenhuma restar
que restará do que sou eu?

reconhecer-me-ei?
reconhecer-me-ás tu a mim?

14.9.17

Palavras raras

Muitas vezes penso que deveria ter palavras somente para ti. Não que criasse um vocabulário, um tesauro, ou mesmo uma língua nova. Não. Queria ser capaz de guardar palavras, fossem cem, fossem mil, só para falar de ti, dizer-te, desenhar-te, letra após letra. Falar de ti é falar contigo. Mas como falar do que é único usando palavras plurívocas? Por vezes, sabes, consigo, julgo que  almejo uma linha, uma estrofe, um parágrafo até, mas é proeza breve, arte incompleta, ilusão efémera, como uma aguarela de cores voláteis. Pudesse ter um jardim murado ou uma ilha ou um óasis para as palavras que seriam as tuas, as palavras minhas de ti, para ti. Mas, oh, de quantas formas posso falar de ti? De quantas palavras preciso? E uma vez tendo-te em palavras tais, como viver não te tendo senão em palavras?

O corpo, o luxo, a obra

Sento-me na mesa junto à janela, não na esplanada, que este é outro café, e em torno de mim os computadores abertos nas mesas, os telefones freneticamente digitados, as conversas em fundo sobre quotas e propostas e clientes e cotações, o mundo a irromper por aquele templo de sossego. E eu abro exceção, levo apenas o livro que ando a ler, bebo o café quente, leio umas páginas do desenlace intermédio  que me intrigava, fecho o mundo lá fora e sinto o corpo, o luxo, a obra, como diria Herberto: um luxo, aqueles dez minutos, somente o corpo e a obra. Deus, se existe, está nas pequenas coisas, lá está.

13.9.17

Sardinhas e alfacinhas

‘Lisboa cheira a sardinha,’ diz Dona Aureliana. ’Os lisboetas gostam muito de sardinhas assadas, pois não gostam?’ pergunta a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador, e eu olho em volta, a ver se há algum lisboeta que se acuse, que se chegue à frente, ainda que ali sentado. Mas a Dona não espera, e continua, ‘Ora o que é que umas sardinhas assadas estão mesmo a pedir?’ As respostas possíveis são múltiplas e a única errada é um fio de azeite, que sardinhas das boas não precisam de azeite para nada, mas isso não disse à Dona, até porque ela respondeu, ‘Estão mesmo a pedir uma salada, é que uma salada é que vai mesmo bem com as sardinhas.’ Pois vai, confirmo e assino por baixo, até levo ao notário para reconhecimento. ‘Ora a salada leva o quê?’ A Dona adotou um método socrático, vai levando a audiência através de perguntas, pescando a sapiência ancestral dos ouvintes da hora de almoço. ‘Alface, a salada leva alface,’ concluiu, triunfante, perante os assistentes siderados com tal conclusão inesperada. ‘Os lisboetas comem muita alface por causa das sardinhas. Daí o nome.’ E a Dona rasgou o sorriso vitoriosamente alvo. Poderia ter terminado em latim, ‘Quod erat demonstrandum,’ sob o aplauso apoteótico dos poucos, mas entusiásticos, comensais na mesa. Minutos antes a Dona não sabia ainda que lisboetas e ‘alfacinhas’ são sinónimos, ‘Alfacinhas? Ah sim? E porquê?’ e eu titubeei e os restantes pigarrearam e todos olhámos uns para os outros, com olhar de gamos apanhados em plena luz a meio da estrada. Veio a Dona em auxílio de si própria, cozinhando na hora a teoria supra, que foi recebida com graves sinais de assentimento. Eu comi algo com bacalhau e muitas verduras, e nada de alface, menos ainda sardinha. Mas que a conversa me abriu a vontade de uma sardinhada com uma salada rica de alface, lá isso não posso negar.

12.9.17

O estranho caso do homem que bordava o nome completo no interior de um casaco barato

O nome é Reboredo, mas pode tratar-me apenas por Senhor Reboredo, um criado ao seu serviço. A profissão é ortopedista, se quer saber, especialista em ossos. Inteiros e ex-inteiros. Aqui tratam-se todos os ossos, de forma individualizada, pelo método Temperance Brennan, com a atenção que merecem. Ora, por exemplo, vamos lá ver a sua falangeta. Frouxinha, não está, mixuruquinha, que dor, que dó. Sabe que estalar os dedos faz mal, dez em cada dez ortopedistas desaconselham. Ora vê? Faz mal, confirma, não é? Aqui também se tratam os músculos. Ora deixe cá ver esse esternocleitomastoideo? Riqueza da sua avó. Ah, a luz? Muito forte? Pois é, é para o ver melhor, já dizia o lobo ao capuchinho, buh, bricadeirinha, só para rir. Doutor Porfírio Mascaranhas, é assim? Fez-me lembrar Mascarpone, sabe, aquele queijo que se usa no tiramisu. Falando nisso, que me diz se eu telefonar à Io a encomendar um tiramisuzinho, hein? Ou dois, até. Ajudava a passar a noite, parece que vai ser longa. Um tiramisuzinho ia que nem ginjas. Melhor ainda com elas, ora que me conta? Com elas, a preceito, vermelhinhas, como o glorioso. Já mandamos vir também do Rossio. Charters. A noite vai ser longa, como o nome do Doutor, Porfírio Manuel da Cunha Lencastre e Silva de Almeida Gonçalves Azeredo Mascarpone. Desculpe, Mascaranhas, pois um lapsus linguae, é latim, pois é. Linguae quer dizer língua, sabe o Doutor que isto da língua faz cá uma falta para cantar. Já sem língua... cantar é um problema. Dizem. O Doutor sabe cantar, não sabe? Não vale a pena negar que eu sei que canta como um rouxinol. Sabe aquela canção do Bob Dylan, o prémio Nobel, uma musiquinha chamada Man in the Long Black Coat. Ah, não sabe? E sobre casacos mais curtos, assim como o seu, sabe alguma modinha? Não. Pena, pena, pena. E de nomes bordados nos bolsos dos casacos, sabe? Assim nomes grandes como a noite, esta nossa noite, com tiramisu e ginjas e o Doutor a cantar? Vai ser que nem a Grande Noite do Fado. O que nos vamos divertir, Doutor. Ora eu vou dar o mote. Setenta e duas letras tem o seu nome, Doutor. Ora, meu amigo, um dos nomes está errado, porque a soma final devia ser setenta e três, que é número primo, primo do meu coração, o que eu gosto de primos, e não esse número banal, setenta e dois, demasiado divisível, três ao quadrado vezes dois ao cubo. Achava que passava, Doutor? Que ninguém notava, hein? Há um nome trocado, meu caro Doutor. E esse nome é a chave do segredo tenebroso da família Mascarpone, perdão, Mascaranhas. Está na altura de cantar a cantiguinha toda Doutor, sem falhar uma nota. Ora comece lá que eu dou o . Um, dois, ...

[Esta história está de tal forma atravessada, um tal polvo de referências tentaculares, que apenas Mr. Maltese Gipsy, himself, tem conhecimento de causa para a destrinçar.]

10.9.17

A melhor geração

Falem da fixação no Instagram, da vida no WhatsApp, das noites perdidas no Youtube, do encerramento nos quartos, dos ‘shots’ de fim-de-semana, dos desmandos em Lloret de Mar, falem da inebriação dos festivais de verão, das incertezas e das arrogâncias, do desinteresse pelos livros, falem dos universos substitutos, de Westeros e da Marvel e do ‘anime,’ falem de como antes era bom e agora é mau, falem de como os pais dividiram orações n'Os Lusíadas do Restelo a Calecute e de como os filhos não sabem distinguir o género humano do Manuel Germano, falem do individualismo, da competição, de gerações X e Y, falem de telefones ubíquos, de vidas em exposição permanente, falem sim, mas assestem neles os olhos com espanto e admiração e maravilha. Não há, nunca houve, geração mais determinada, persistente, focada no que quer, capaz de saltar barreiras cada vez mais elevadas, de vencer um presente que os catapulte para um futuro para o qual eles se preparam como nenhuma outra anterior sequer almejou. Que ninguém vá ao engano da demagogia fácil, lacrimosa, saudosista de um passado que nunca existiu: entrar em cursos universitários com as exigências de agora, obriga não a um ano ou dois de trabalho, mas a um quarto de vida, que é do que falamos, um quarto de vida, de dedicação plena, de estoicismo, sem paragens nem abrandamentos nem perda de vista do alvo. Se eles prepararam assim o presente, o futuro está em boas mãos.

7.9.17

The Office

Na mesa diretamente em frente, a senhora com o computador aberto, revestido por capa, os auscultadores brancos, o telefone sobre a pilha de papéis, gesticula, enrola os cabelos longos cor de palha, fala para o ecrã, uma ‘conference call,’ imagino. Na fila ao lado, o senhor do relógio Omega Seamaster de aço brilhante e de olhar baço, descreve de forma audível os aceleradores, as quotas, o funil de vendas. Atrás, a rapariga de cabelo apanhado, que já estava quando cheguei, concentrada, imperturbável, ausente, continua alheia, até se por ali irrompesse um furacão, face a outro ecrã, dedos voando intrepidamente sobre o teclado. Não fora o discurso torrencial, salpicado de ‘bués,’ das adolescentes na mesa do lado esquerdo, no outro lado do corredor, imediatamente junto à janela e diria que estou num qualquer escritório partilhado, em espaço aberto, num ‘office’ digno de série, e não na minha mesa habitual, enquanto escrevo esta minudência inconsequente e vejo arrefecer o café.

5.9.17

da insuficiência da arte

como não posso viajar no tempo
contigo
levo-te em viagem no espaço
comigo

e estás
em tudo o que vejo estás tu

e digo-te
todas as minhas palavras
quando dizem o mundo
te dizem a ti

mas tudo o que digo
me soa a tão pouco

é tamanho o que sinto
é tão pobre a minha arte

que a ti não chegam senão ecos
do que fervilho para te dizer

ai de mim

almejo encher um oceano
e só tenho uma gota de água

Antena 2 Ópera

Não creio que seja de conhecimento generalizado que a Antena 2 tem uma ‘web radio’ dedicada à transmissão de ópera vinte e quatro horas por dia, que pode ser ouvida aqui.

Impermanência

Ensina Siddhartha que nada é o que parece, como diz também Agustina, que encima esta página, com uma sua reflexão, iluminada, ainda de menina. Nada é o que parece e, ainda que fosse, não o continuaria a ser longamente, porque tudo muda, a cada instante ou intervalo ou volta do tempo. Custa entender isto de tudo mudar mais depressa do que absorvemos a mudança, não nascemos com amortecedores sintonizados para a transformação constante, precisamente, faz-nos falta a constância. E, no entanto, ainda que tudo mude, há os ritmos, os padrões, os visíveis e os ocultos, que são o que nos resta de determinismo no indeterminismo da existência.
Sentado na esplanada, escrevendo a lápis numa folha de papel branco, rodeado pela diáspora do mundo, por vozes dialogando em mil línguas, assim me soam, sei que nunca tive uma hora de café exatamente igual a esta, que muito é novo e já antigo, entretanto, já passado a esta hora, que a conversa de há pouco já se esfumou, que retive apenas uma parte e que amanhã, dessa parte, restará apenas um conjunto de fragmentos. Mas noto o ciclo, o ritmo, dentro do imprevisível, aquilo que não me espanta, dentro do novo, o renovado.
Ali ao fundo, Dona Aureliana, a almoçar cedo entre o final dos cafés matinais e o afluxo da freguesia do almoço, marca um ponto num desses ritmos, podia acertar o relógio por ela. Se o lugar é o epitome da impermanência, o acaso encarrega-se de dizer à impermanência que até ela é impermanente, ou seja, no efeito cerceador da dupla negação, tem momentos ou pontos ou intervalos em que se anula a si própria. A própria impermanência cria as suas âncoras, os seus pontos de constância, de referência. De sossego, digo eu.

4.9.17

O valor presente dos infinitos passados

Talvez consistamos naquilo que somos e no que não fomos, no comprovável e quantificável e recordável, mas também no incerto, no não decidido, no difuso, talvez estejamos feitos em igual medida do que foi e do que podia ser. Talvez o meu e o teu presentes sejam também o somatório dos infinitos passados que não vivemos e que são nossos, assim.

Ano Novo

Não sei, estou ainda a pensar, se mais tarde, depois de almoço, quando for tomar o café ‘chez’ Dona Aureliana, chegarei de sorriso aberto eu também, que já sei que a Dona o terá, aquele sorriso que é marca registada em nome dela, de uma alvura de porcelana fina, se chegarei, dizia, anunciando ‘Feliz Ano Novo, Dona Aureliana,’ e se a Dona olhará para mim, de olhar brilhante, pálpebra interrogativa, e pensará que mais vale não contrariar, é o que se deve fazer com os lunáticos, os abstraídos e os poetas, e modelando aquela voz lá dela que atravessou o equador, entrará no jogo, e dirá, ‘Feliz Ano Novo, doutor.’ E eu, assim validado, selado o trato com um café como não tomo há semanas, estarei então pronto a avançar, com denodo, teimosia e inconsciência, pelo Novo Ano adentro.

3.9.17

Provando a afinidade entre o eterno feminino e a multiplicidade de tarefas

A jovem condutora do carro ao lado guia com um cigarro numa mão e um telefone inteligente, intensivamente digitado, na outra.

A menina dança?

Michael Pretorius, Courante

O suave milagre

‘Eu tenho que falar com a minha neta,’ disse, com voz imperativa, já estava a colocar um pé no palco proibido para ele, já a orquestra se tinha retirado, já os espectadores faziam filas ordeiras para sair. Não disse ‘Eu tenho que ver a minha neta,’ decerto porque a tinha visto durante o concerto, talvez fosse uma das violinistas, uma das violistas ou violoncelistas, não estava na secção dos metais, que são monopólio masculino, precisava falar com ela, e antes tinha que passar as pedras no meio do caminho, os obstáculos, fossem os que estavam à porta e que o tinham encaminhado para o palco, fossem os que estavam no palco e lhe indicavam a porta de novo, para aceder a um camarim onde, diziam-lhe, encontraria a neta.
Quando voltava a subir para a porta vi-o bem de frente, teria passado os setenta, tinha barba branca bem cuidada, afilada, que contornava a face fina e terminava em ponta de pincel, cabelo alvo penteado por forma que rios se desenhassem em direção à nuca, casaco bege, calças cinzentas, sapatos castanhos com pendentes, olhos azuis faiscantes da ira crescente. A mulher seguia-o, no afã calmo mas inútil de abafar as labaredas que via ascenderem, de conter a deflagração, de atenuar a escalada tonal que atingiu o pico à porta de acesso aos camarins, na altura em que estava a explicar de novo, ‘Eu tenho que falar com a minha neta,’ com voz trémula de ânsia, de desespero, de cólera, antes de a porta se abrir e um rosto surgir, iluminado, apaziguador, feliz: ‘Avô!’

1.9.17

As pessoas e as coisas estão todas relacionadas umas com as outras

Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassínio e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso, e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não e como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história.

[José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis]

Quain ha muerto en Roscommon; he comprobado sin asombro que el Suplemento Literario del Times apenas le depara media columna de piedad necrológica, en la que no hay epíteto laudatorio que no esté corregido (o seriamente amonestado) por un adverbio. El Spectator, en su número pertinente, es sin duda menos lacónico y tal vez más cordial, pero equipara el primer libro de Quain ­The God of the Labyrinth­ a uno de Mrs. Agatha Christie y otros a los de Gertrude Stein: evocaciones que nadie juzgará inevitables y que no hubieran alegrado al difunto. Este, por lo demás, no se creyó nunca genial; ni siquiera en las noches peripatéticas de conversación literaria, en las que el hombre que ya ha fatigado las prensas juega invariablemente a ser monsieur Teste o el doctor Samuel Johnson... 

[Jorge Luis Borges, Examen de la obra de Herbert Quain]

As casualidades da vida são uma realidade, bastará dar-lhes um mínimo de atenção para compreender que as pessoas e as coisas estão todas relacionadas umas com as outras, o que acontece, infelizmente, é que nem sempre sabemos onde se encontra o fio que as liga, e algumas vezes temo-lo na mão e só nos apercebemos demasiado tarde. A mim surpreende-me muito que Borges não tenha escrito, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Borges não ignorava, certamente, que o poeta português era médico e monárquico, que tinha ido para o Brasil em 1919, e que em 1935, depois de receber a notícia da morte de Fernando Pessoa, regressou a Lisboa. Foi deste pouco que se veio a fazer o romance. Ora, se Borges tinha sido capaz de inventar Pierre Menard e Herbert Quain, está claro que para ele teria sido uma brincadeira de crianças dar vida a Ricardo Reis. Talvez não o tenha feito precisamente por ser tão fácil.

[José Saramago, Algumas provas da existência real de Herbert Quain]

31.8.17

Fecho de agosto

Robert Delauney, Corredores, 1926
Não tendo sido poucos os livros que se conseguiram encaixar entre as frinchas de agosto, há um, o derradeiro, que insiste em ter que ser terminado hoje. Não sei como lhe cheguei a dar tal confiança, talvez me tenha apanhado menos alerta, mais condescendente, ou mais mergulhado na história que escondia, mas o último dia flagra-me a virar páginas como se me assaltasse o receio de, ao bater da meia-noite, o livro se transforme em abóbora e eu, em leitor salta-pocinhas que se deixa tomar pela volubilidade a cem páginas da derradeira. Mas não: de tais sinas está o livro a salvo, e eu também, pelo menos isso consigo confirmar a esta hora avançada do fim do mês.

30.8.17

Está no Face

Ao lado delas há uma janela de um lado, um corredor do outro e ao lado do corredor estou eu, café já a meia chávena, olhos a deambular lá para fora, pensamento volante como um melro. Falam de férias, parece-me, narram piruetas de crianças, cochicham sobre adultos, e a do lado esquerdo diz para a outra, pegando no telefone, ‘Se visses as fotos que eu coloquei ontem no Face. Pá, tão giras.’ Os dedos folheiam páginas no ecrã até que enuncia um ‘Ah!’ e estende o telefone para a do lado direito. Creio notar nesta um lábio torcido, um sobrolho arqueado, um enfado, ou então são os meus olhos a ver contraluz, as emoções são visíveis à luz, menos contra ela, mas não se desmancha, ‘Pá, tão giras’, ecoa. Pareceu-me um ‘Gosto’ de sorriso amarelo, polegar hesitante, apreço caridoso, daquele que, quando apercebido, dói como uma topada. Mas a do lado esquerdo não se apercebeu, como não se apercebe, quero crer, das caras dos outros que lhe frequentam o Face.

29.8.17

Olhos azuis deslumbrados

O filho adorável, que tem caracóis e olhos azuis deslumbrados, mete-se no caminho do carrinho de compras da mãe, quer subir à boleia, vê as pretensões rechaçadas, que o caminho até ao fundo do linear é longo e a mãe tem pressa de ir e voltar. O pai coleta embalagens ali mesmo, o filho fica a ajudar a arrumá-las no cesto, empilhando-as como a blocos de construção, arquitetando edifícios periclitantes. A mãe regressa entretanto, respiração acelerada, acariciando o ventre arredondado, proeminente. Ouço uma voz a chamar: ‘Mãe?’ Não confere com a voz do filho, é uma voz alta, modulada, encorpada; a resposta célere da mãe desvanece dúvidas: ‘Sim, pai?’ Aquele filho tem então um irmão, que é o seu pai, e uma mãe, que sendo futura mãe do seu irmã ou irmã, é sua irmã, por simultaneamente chamar ‘pai’ ao seu, dele, pai. O futuro irmão ou irmã, será também seu tio ou tia, por ser irmão ou irmã do pai e da mãe. Seria mais simples esta complexa relação familiar se o pai tivesse um nome, chamemos-lhe Alberto, ficaria bem, e a mãe idem, Isaura, não iria mal Isaura. Mas Isaura adotou Alberto como ‘pai’ e Alberto adotou Isaura como ‘mãe’, quando ambos tiveram este filho. Recuperarão alguma vez o nome próprio? Quem o sabe? Valha-nos o deslumbramento daqueles olhos azuis, tão ávidos de descobrir o mundo, tão alheios a tais minudências inconsequentes.

28.8.17

Tonitru e fulgor

‘Depois das sete da tarde aconteceu um trovejar quase constante até às oito, onde o tonitru e o fulgor, o barulho e os relâmpagos, foram tão terríveis, que puseram a cidade inteira num estupor e muitos de nós em oração.’ A trovoada que se abateu esta tarde sobre o meu sossego, menos duradoura que a testemunhada por Sir Thomas Browne, ainda assim irrompeu como se ‘dois ou três canhões’ tivessem disparado aqui ao lado, e reincidissem, mesmo que o cheiro da chuva fresca não fosse como o que permanece no ar ‘depois da descarga de um canhão’. Menos bélica também, mas assaz tonitruante. Como se esta fosse a forma de o Universo me acordar do pasmo de semanas, marcar o tempo a ferros, me atirar para o lago arrefecido da realidade, me sacudir vigorosamente os ombros, me passar ordem de marcha. ‘A resistência é fútil’, parecia dizer-me na sua voz de maço em bigorna; mas resisti, hoje ainda resisti: por um dia, vou a meças. Para já, alardeou o tonitro e o fulgor e alheou-se, afastou-se, desistiu, ou assim parece; já eu, estou-me a aguentar. Doce ilusão esta de vencer o Universo no seu jogo de paciência.

Antes do crescente

Inevitável não olhar para esta lua antes do crescente e não ver nela uma mensagem, um sinal, uma exigência: ‘Para abraçares, primeiro coloca os braços em arco, assim, olha para mim, toma-me como modelo, segue-me o exemplo. Depois, abraça, abraça, abraça como se disso dependesse haver rumo para os viajantes, marés nos mares, plantas que apontam o céu, aves migratórias, poemas frescos, enamoramentos eternos, olhos marejados, declarações desabridas, cabelos de prata, quedas de impérios, alvorecer de civilizações. Como se sem o abraço mais não sejas que poeira atirada ao ar, no coração do vento. Como se só com ele, com esse abraço, ressuscites tu.’

27.8.17

Sumptuoso café

‘Expresso’, peço eu ao Senhor do outro lado do balcão, sem especificar que prefiro mais cheio do que curto — para perdurar quente mais tempo —, apesar do calor que já se sente logo ao amanhecer, ainda antes de cruzar a porta do lugar. A palavra ‘expresso’ é mais universal do que ‘café’ ou ‘coffee’, presta-se menos a interpretações ambíguas, diluídas, sensaboronas. Ou seja, até num Starbucks se consegue beber um razoável ‘expresso’ por contraste com um vagamente tolerável ‘coffee’. Mas o Senhor não é barista de Starbucks, daqueles que me perguntam o nome e o escrevem, reinventado, a marcador preto, num qualquer copo de papel onde o meu ‘expresso single shot’ se perde no vasto fundo cilíndrico como gota de água deitada à areia do deserto. O Senhor é dono do lugar e gosta do que vende. Fico ao balcão a aguardar, mas o Senhor indica-me, na língua lá dele, que me sente, que ele trará. É manhã cedo, sou cliente único, o café chega, em chávena de bom tamanho, sem o meu nome rebatizado, e uma colher, senhores, uma colher de belo aço dezoito dez, que cabe na chávena, que não é de chá, que não é de plástico, que não é de faia, de bambu, ou sequer de mogno. Uma colher de ‘expresso’, em suma, como as que Dona Isaura me entregava, quando me estreei nos prazeres da infusão de grão torrado, surgida, fumegante, das entranhas da locomotiva vermelha de marca Cimbalino. Um café de boa colheita, com ‘pedigree’, crescido sem ser ‘tall’, quente sem ser ‘hot’, amargo sem ser ‘bitter’. Sumptuoso café: assim, até considero mudar-me para aqui, Dona Aureliana que me perdoe a heresia.

25.8.17

Aos ombros do Adamastor

Há um horizonte como uma linha fina a dividir listras de azuis límpidos, há as ondas que rolam ainda timidamente, como se estivessem a aprender o ofício de ondular, há as gentes que giram aqui em volta numa dança aquática que em permanência renova o elenco, e há este vulto gigantesco à minha frente, costas de largura desmesurada, salpicadas de inumeráveis manchas castanhas, pele enrubescida do sol inclemente de dias passados, braços largos com formas de cilindros almofadados, fios de barba indomados, encharcados, gotejantes, voz despejando em torrente palavras num francês trovejante, e em cima dos ombros de arrombador, um corpo pequeno, uns braços cobertos com umas braçadeiras rosadas, uns cabelos repletos de caracóis caindo em cachos louros, um dedo que aponta o barco grande ao longe, e uma voz de papel de seda plena de excitação: ‘Papa, papa, regarde!’

24.8.17

Livre como um golfinho [momentaneamente]

O filho mais velho chapinha junto à rebentação, num daqueles lagos espontâneos, de água tão quente que parece provir de profundezas vulcânicas e onde as ondas perderam o ímpeto num bocejo de espuma branca, lá atrás num banco de areia. Ao mais novo, segura-o ao colo. Na cabeça dela, um boné preto por cima da face trigueira, sombreando o nariz fino, de elegante e suave arco descendente; no corpo um traje de banho completo, lilás, que a cobre do pescoço aos tornozelos, com largas manchas escuras e brilhantes da água salgada. Debaixo do chapéu, no areal, o marido observa, de não muito longe, vasto torso, cabelo rapado, calção preto pelo joelho. Chego a pensar que secar aquele traje sobre a pele talvez não seja a melhor ideia, mas o meu pragmatismo ocidental não é para ali chamado, menos ainda bem vindo. Volto ao meu volume de Machado de Assis. Quando levanto os olhos, três páginas adiante, vejo-a na água, mais ao largo, sozinha, ainda com o boné que — presumo — faz as vezes de véu. Estou longe dela, agora, vejo apenas os gestos, mal identifico a expressão. Mas de todos aqueles que os meus olhos abarcam, não vejo nem um, ninguém, a quem este jardim de água, onde ela salta, nada, flutua — mancha cor de vinho na tela azul do mar —, pareça fazer tão feliz.

23.8.17

Os cartazes do Senhor Chen

Recordemos que o Senhor Chen desapareceu no passado dia onze e que a minha ralação por ele não amainou, antes se robusteceu, com o gotejar dos dias. Ontem voltei propositadamente à avenida onde os cartazes com as duas fotos, uma de cara a três quartos, outra de corpo completo, e mais algumas linhas descritivas, estavam afixados aos postes de iluminação com fita gomada. De um poste recordava-me: neste, o cartaz estava rasgado. Será possível sentir um alívio inquieto? A história tem desfecho, o Senhor Chen terá sido encontrado, alguém teve o cuidado de retirar o cartaz, eu podia encerrar o tema, ainda que não lhe sabendo o fim. Atravessei a passadeira até outro poste de iluminação. Contornei-o, para confirmação: lá estava o cartaz inteiro e o desvanecer do meu descanso. E se o rasgão no anterior tivesse sido obra de um vandalismo inconsiderado? Intranquilo, regressei lá há minutos: hoje, também o segundo cartaz está reduzido a metade. O Senhor Chen, com Alzheimer e diabético, esteve em parte incerta durante onze dias. Nada mais sei dele: apenas que a cada passo sinto o golpear das arestas vivas daqueles cartazes.

22.8.17

O Conde ao lado

É sina ou já hábito: o Conde está novamente ao meu lado, sentado na cadeira de onde só se levanta para ir alumiar outro havano. Outros trarão para o areal uvas, bolachas, água ou champanhe e caviar. Não o Conde: vive de puros, fumiga como uma furna, fuma como se Cuba acabasse amanhã e com ela se fossem para a eternidade as mãos artísticas que enrolam os Cohibas. O Conde não será Abílio, nem Abranhos, menos ainda português. Mas parece digno herdeiro daqueloutro que, sendo ministro do mar, descobriu na Assembleia que Moçambique fica na costa oriental de África. Este Conde vira-se de costas para o mar, a leste do mundo, rendido ao cilindro de folhas de tabaco. Ao seu lado, a mulher fuma cigarros comuns, enquanto suporta o silêncio do marido, avançando intrepidamente por um livro com as dimensões de uma boa caixa humidificadora para cem charutos.

Muitos anos depois

El padre Rentería se acordaría muchos años después de la noche en que la dureza de su cama lo tuvo despierto y después lo obligó a salir. Fue la noche en que murió Miguel Páramo.

[Juan Rulfo, Pedro Páramo, 1955]

Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.

[Gabriel García Márquez, Cien Años de Soledad, 1967]

21.8.17

Olhos negros

É o lenço atado em turbante na cabeça que me faz lembrar alguma atriz dos anos doirados do cinema italiano. Vestida para a ocasião, vestido justo de finas riscas azuis, parece combinar perfeitamente com o ambiente do restaurante, mas não creio que ela repare nos quadros, nos candelabros, ou sequer no prato que tem à frente. Durante o jantar, todo o jantar, os dedos deslizam velozes e precisos pelo ecrã do telefone. No lado oposto da mesa, ele, madeixas louras em fundo castanho, fato de linho branco, come em silêncio distraído, olhar assestado no horizonte das paredes. Não acredito que chegue, sequer, a ver os grandes olhos negros dela, enquanto ali permanecerem.

Il mar è perfetto

-- Mamma, oggi il mar è perfetto -- anuncia, por detrás de mim, o petiz acabado de chegar, aos pais.
O jovem de óculos azuis, a condizer com os calções banho, sentado numa cadeira perto, em pose de adorador do sol, tem tatuado no braço, em cursivo: -- Thank you mother for my life.
Uns metros mais adiante, uma senhora de chapéu de palhinha levou a cadeira até dentro de água e assim permanece, pernas felizes, dedinhos dos pés dançantes.
O vizinho do meu lado esquerdo, exemplar queirosiano, Conde de Abranhos, recosta-se nos prazeres fumegantes de um havano.
Oggi il mar è perfetto, na verdade.

20.8.17

Linha d'água

As dez da noite passaram já, o vento da tarde também, e ela está sentada sozinha no vasto areal, numa cadeira a poucos metros da linha de água, com o telefone de capa rubra junto à face, rodeada de toalhas e havaianas alinhadas como aviões na pista, perscrutando o mar suavemente negro. Deve ser avó: só uma avó teria tal serena paciência. Não vejo os netos no mar, mas tenho a certeza, apostaria, que ela sabe a posição exata de cada um deles, como um grande mestre que joga uma partida de xadrez, e ganha, vendado, na escuridão total.

19.8.17

O Superman

O Duque não apareceu. Mas, em contrapartida, vi Clark Kent, há pouco, a passear o cão, ao lusco-fusco. Perdeu cabelo, está quase calvo, a musculatura mirrou, mantém os óculos, é certo, e apenas um sinal o denuncia: as chinelas de quarto com o S vermelho em fundo amarelo, rodeado de azul. As meias pretas de meio cano, que quase cobrem as pernas até ao término dos calções, complementam a camuflagem. Não fora a minha atenção, e continuaria tão incógnito como até aqui.

[O título devo-o a Laurie Anderson.]

O Duque

Estou sem saber, mas repleno de curiosidade, se hoje verei o Duque. De branco vestido, dos cabelos aos sapatos, contemporâneo da senhora nonagenária de cabelo rubro, foi ele que a foi buscar à sua praia de água doce. Epítome de cortesia, deu-lhe o braço, transportou-lhe a cadeira, conduziu-a a ela de regresso dos areais, com mil ternuras, mais cuidados, ainda. Um Duque de coração alvíssimo, este Senhor Duque.

Globalização

Na música de fundo do restaurante de Fine Asian Cuisine descortino, devidamente embalados em flautas de bambu, os acordes de Londonderry Air, a melodia, para os não irlandeses, provavelmente mais conhecida como Danny Boy.

Multiculturalismo

A mãe de numerosa família que chega à praia com o sol dolente do entardecer, e cobre a cabeça com um hijab branco e o corpo com traje longo e amplo a condizer, e assim permanece, descobre os pés numas Havaianas Brasil, brancas também. As do esposo, que vem de polo e calções, são do mesmo modelo, mas em preto.

18.8.17

O Senhor Chen

O Senhor Chen, que só conheço de pequenos cartazes fotocopiados e colados em postes, desapareceu no passado dia onze. O Senhor Chen tem cinquenta e oito anos, Alzheimer e diabetes. Cada cartaz com dois retratos do Senhor Chen, três linhas descritivas e um número de telefone, enche-me de cuidados: já terá aparecido? Se sim, porque permanecem os cartazes? Tirando telefonar para o número que lá está, nunca saberei o desfecho da história do Senhor Chen. Pior, nunca saberei, sequer, se a história do Senhor Chen teve desfecho.

Pergaminho

A pele é como um pergaminho fino e enrugado, e o biquini azul contrasta com o cabelo onde o vermelho e o branco se batem, bravamente. É nonagenária, assim estimo. A cadeira, azul também, colocada ao lado do chuveiro de água doce, confundiu-me, até ver a ocupante levantar-se, refrescar-se e voltar a sentar-se nela. Aquele chuveiro é o seu mar privativo. Passado o areal quente, o outro mar, o público, azul, verde e salgado, ronrona docemente, fingindo-se desentendido, o grande dissimulado.

17.8.17

Bastava um minuto

-- Os senhores disseram que bastava um minuto -- informa-me a senhora loura, naquela língua lá dela, quando sai do carro que está a obstruir a rua, encavalitado no passeio junto ao semáforo. Se um minuto resolve o problema dos senhores, eu aguardo, tranquilamente. O carro da senhora loura e da amiga de cabelos morenos, apanhados, está de capô aberto, o mesmo acontecendo ao carro dos dois ditos senhores, que são tão jovens quanto as duas senhoras, que venho a descobrir que estão a fazer papel de salvadoras:
-- Estamos a ajudar os senhores com a bateria -- reforça a senhora loura, e eu assisto ali parado e impassível à boa ação a desenrolar-se à minha frente. Atrás de mim juntam-se outros penitentes, com uma serenidade taoista. Ah, o tempo esse grande escultor da paciência. Finalmente, encosto terminado, a senhora loura acena-me, feliz, enrolando os cabos, entra no carro, onde a senhora morena já está devidamente à pendura e, ao semáforo verde, arranca. Os jovens senhores, desempanados por fim, fazem-me sinal com o polegar para cima, um par de likes de vida real e eu avanço, passo o sinal, a rotunda, e é já na avenida rodeada de árvores que a gargalhada se me escapa, inexplicável, incontrolada e reconfortante.

16.8.17

Pequenos males

-- Is very small -- diz o russo, de olhar baixo, juntando o polegar e o indicador em arco, como se beliscasse o ar. A mulher do russo, a dois passos, acena a cabeça em confirmação penosa. O rececionista, mostrando a sua melhor empatia, dá sinal de compreender todo o âmbito do desaire. Tecla no computador e imprime. Entrega a folha ao casal, traduzida, assim me parece, em russo pristino pelo Google Translate, ou algo semelhante. O russo recebe, com evidente alívio, o papel, e volta a salientar a sua desvalência, com um encolher de ombros:
-- Very small English -- e repete o sinal denotativo da sua ínfima capacidade de entendimento da língua de Shakespeare e Sherlock. Evidentemente solidários, os clientes ao balcão deixam escapar então o coro de suspiros que guardavam com o maior estoicismo.

15.8.17

O caçador

Perla-lhe o suor a cabeça lisa e brilhante, escanhoada, ou já mesmo naturalmente glabra, que a idade a isso o habilita. Subiu até cá ao topo, como eu, mas mais carregado, que ando leve. Faço as contas mentalmente, que o ar raro ainda mo permite: entre o binóculo, o tripé, a câmara, e a desmesurada lente transporta com ele um valor superior ao do carro que o trouxe até mais não poder. A caça do amor é de altanaria, disse mestre Vicente. Só por amor à altanaria se caça assim, digo eu.

Sem esforço

Sem esforço, as águias dançam, acima de mim, de asas enfunadas, levadas pelas correntes do céu, como galeotas de corso.
Abaixo delas, sem esforço, apenas consigo mover os globos oculares para segui-las. Por vezes, mudo uma página, o que me exige esforço no polegar. Infinitamente mais elegantes as águias do que eu: trocava esta posição horizontal e as frases belas que leio por tal arte de voar à bolina. Pressinto-lhes a indiferença com que me olham, de cima, a mim, que a única proeza que almejo alcançar é observá-las enquanto, magníficas, navegam o azul lazúli dos ares.

14.8.17

O verão de Mr. Gordon (Epílogo)

«Imaginar que é possível reescrever o passado, é um desvario inútil», afirma Mr. Gordon, para logo complementar: «Mas quem de nós nunca sentiu a vontade de poder fazê-lo, ao menos uma vez?» Desenha uma linha reta na mesa, com o dedo. «Tive uma vida preenchida, exerci a profissão que escolhi, mas muitas vezes pensei: e se eu não tivesse tido que ficar e Rosa que partir? Que seríamos nós, agora?»

Gordon estava abalado mas não tinha nada partido. Rosa amparou-o até ao carro, levou-o à Covilhã, às urgências hospitalares, esperou com ele, conversaram como conhecidos de longa data — não mais do que isso —, deixou-o em casa, recusou o convite para um almoço tardio. «Tough», sorri Gordon. Mas ao entardecer ainda lhe telefonou, para saber dele. No domingo, ele sentia-se suficientemente bem para ousar conduzir e telefonou a convidá-la para jantar. Sentia-se, disse-lhe, em dívida para com ela, uma dívida de grandeza tal que nem mil jantares chegariam para pagar um por cento. A dívida fazia-o sentir como se andasse descalço pelas rochas, confessou-lhe. Do outro lado, ouviu uma gargalhada: «Para a próxima, vai descalço. Não tombarás de certeza.»

«Amanhã vou para Berlim», remata Gordon, examinando o copo de água borbulhante, raiado do reflexo verde da hera do caramanchão. Desde que tinha sido desmobilizado, nunca mais voltara à cidade onde ele e Rosa se conheceram. Acompanhou, em Denver, emocionado, a queda do muro em 1989, a unificação alemã. Mas voltar lá, sempre pensou, apenas com uma pessoa.

«E Rosa?», pergunto.
As maçãs do rosto de Mr. Gordon tornam-se mais salientes, os cantos da boca sobem em direção aos olhos vivazes: «Vamos juntos.» E resplandece.

[Parte V]

13.8.17

O verão de Mr. Gordon (IV)

«Eu e as montanhas temos uma relação conflituosa», diz Mr. Gordon. Arregaça a manga e mostra-me uma longa cicatriz no braço direito, ainda rósea. «E por vezes, elas levam a melhor.» Conta-me que uma vez, nas Rocky Mountains, teve que ser retirado de helicóptero, após uma queda que o imobilizou no hospital durante semanas. «Ganhei alguns lingotes de platina nos ossos.» Era mais novo, então: passados poucos meses, e alguma fisioterapia, voltou à montanha. «Agora esta, devo-a à Star Mountain», anuncia apontando para a cicatriz recente.

Mr. Gordon, na verdade não tinha um plano B para voltar à fala com Rosa, após a última recusa: queria apenas estar próximo dela. Sabia, ou intuía, que um dia o destino os colocaria no mesmo caminho, como o fez em Berlim, quando ela ia a correr à chuva, escorregou e não fora agarrar-se a ele, teria caído aparatosamente. Assim se conheceram.

Julho chegou. Gordon refugiava-se nos trilhos da serra, que lhe começavam a ser tão familiares como os que frequentava nas Rocky Mountains. A cada dia, os caminhos levaram-no para mais perto de Gouveia, a terra dela. A curiosidade metódica de geólogo amador impelia-o a trepar a zonas instáveis para recolher amostras. Um risco calculado, mas ainda assim um risco, que ele assumia com um zelo de colecionador. No segundo sábado de julho, ao final da manhã, num declive especialmente acentuado, sentiu um pé a deslizar, arrastando consigo o corpo que se enrolou sobre si próprio, um cilindro humano fora de controlo. Colocou instintivamente os braços em torno da cara e rolou, com a carne a macerar-se na descida como se estivesse a ser triturada numa mó. Uma pedra aguçada rasgou-lhe um lanho no braço. Quando finalmente parou, sentiu que os músculos não mais lhe obedeciam. Mexeu cuidadosamente as mãos, depois as pernas, ouviu-se respirar. Parecia inteiro, mas debaixo da pele o corpo era um saco cheio de vidro moído. Estava estendido num caminho de terra batida, o sol a pique, mordente. Com os olhos semicerrados, entreviu uma sombra por cima e, de seguida, uma voz a repreendê-lo: «Hartnäckiger Mann.» Sim, um homem teimoso. Era Rosa.

[Parte IV]

11.8.17

O verão de Mr. Gordon (III)

«Ela disse não.» Rosa mantinha a mesma determinação de propósitos que Mr. Gordon lhe conhecera em Berlim décadas atrás. Quando decidiu procurá-la, baseou-se nos dados que tinha dela: um nome e um local. Depois de semanas de pesquisa e de ajuda de um ex-colega de Berlim colocado no State Department, conseguiu contactá-la por correio eletrónico.

Não, não o queria ver. O passado deles ficara em Friedrichstraße; entretanto, tinha tido uma filha, um filho e já três netos, o casamento terminara nove anos antes e vivia agora entre Aveiro e a Serra da Estrela, sozinha e tranquila. Nem trocar fotografias, nem uma chamada telefónica, nenhuma proximidade: estava bem como estava. «Tough», diz-me Gordon, após o segundo café. Havia tirado o chapéu, segurando-o pela aba larga, abanando-o como se fosse um gigantesco leque. Rosa e Gordon são gente das montanhas, o que quer dizer que o seu grau de dureza se mede pela escala de Mohs: as palavras de Gordon não fariam qualquer risco na negativa de Rosa. Gordon é geólogo amador, sabe que as rochas estilhaçam sob o impacto de um escopro, mas moldam-se sob a água persistente. Decidiu fazer-se água. Em Junho, resolvidos os assuntos profissionais no Chidren’s Hospital Colorado, onde colaborava, voou para Portugal, alugou um carro, rumou à Covilhã, instalou-se para estadia prolongada. Não procurou Rosa, nem sequer ficou na mesma terra para não impor a sua presença, mas disse-lhe onde estava e deu-lhe um número de telefone para contacto. A resposta veio célere e curta: «Não.» «Tough», repete ele, enterrando o chapéu na cabeça até às sobrancelhas, o que faz com que o seu riso se assemelhe deveras ao de um garoto travesso.

[Parte III]

O verão de Mr. Gordon (II)

Mr. Gordon tira um retrato da carteira e passa-mo para a mão: uma rapariga de cabelos rubros, sorriso sereno, os mesmos olhos vivos que vejo à  minha frente. «Sondra, a minha filha.» Desvia a cara e fica a olhar o rio, a outra margem, o horizonte. «Morreu em 2012, em Aurora.» Numa sessão de cinema, à meia-noite, no Centro Comercial de Aurora, em Denver, um atirador matou vinte pessoas; Sondra estava entre elas.

Após o seu regresso a Denver, depois do destacamento em Berlin, Gordon estudou e passou a exercer pediatria e casou, aos trinta e dois anos, com Sarah, cinco anos mais nova do que ele, descendente de pai irlandês e mãe americana. Sondra foi a única filha do casal. Após o choque da morte de Sondra, a vida de Gordon e Sarah ganhou uma rotina triste e silenciosa. Para se afastarem da omnipresença da tragédia, viajaram: Canadá, Caraíbas, Hawaii. Mas a cada saída, Sarah cansava-se mais, a tez progressivamente mais sombria. Os dois últimos anos, não passaram das imediações de casa. Sarah morreu na véspera do Thanksgiving de 2016. Depois da partida dos irmãos e respetivas famílias, que compareceram no funeral e permaneceram uns dias, a vida de Gordon tornou-se tão árida quanto as Rocky Mountains, junto às quais cresceu e para onde se escapava nesses dias de chumbo, com esperanças de por lá se perder de vez. Regressava sempre, contudo. Foram as Rocky que lhe indicaram o caminho para outro, e maior, regresso. «Quando eu lhe falei das Rocky Mountains, Rosa contou-me da sua Star Mountain. Era para lá que Rosa voltava, quando saiu de Berlim», diz-me Mr. Gordon. «Para a Star Mountain», e sorriu com enlevo.

[Parte II]

10.8.17

O verão de Mr. Gordon

Os olhos de Mr. Gordon movem-se com vivacidade na face pintalgada pelo sol intenso da véspera e as palavras saem-lhe céleres no inglês além-Atlântico. Debaixo do caramanchão, no jardim semeado de estátuas de mármore onde nos encontramos, o Tejo espraia-se lá em baixo, à distância, do meu lado direito. O vento desafia as abas largas do seu chapéu de palhinha, ao jeito da representação do Infante ali perto, mas é mais seguro mantê-lo na cabeça do que pousá-lo na mesa. Havia-me perguntado se eu falava inglês, frente à Natividade de Ghirlandaio. Pois que sim. Vimos e comentámos os restantes em conjunto e continuámos a conversa na mesa café do Museu. Mr. Gordon nasceu no dealbar da década de cinquenta, em Denver, o terceiro filho de Annie, e de Charles, veterano de Iwo Jima, que casaram assim que este foi desmobilizado. Aos dezoito anos também ele, Gordon, entrou para o exército, vindo a ser colocado em Berlim, em plena guerra fria. Foi lá que conheceu Rosa, luminosa como as rosas no seu vestido de chita, radiosa como o amanhecer. Mr. Gordon mal sabia alemão na altura e ela não falava inglês, embora o seu alemão fosse fluente. Enquanto me conta dos seus cinco dias com Rosa, em Berlim, as palavras de Mr. Gordon tornam-se mais lentas, como se pretendesse agarrar as horas que precederam o embarque dela para Portugal. Tivesse na altura podido e não a deixaria partir; ou então, teria vindo com ela. Mas nenhuma das duas era opção. Apenas o nome da terra dela lhe ficou, e uma vontade de a voltar a ver que o perseguiu toda a vida e que finalmente o leva a estar aqui neste jardim, hoje.

[Parte I]

9.8.17

Ciência documental

A rapariga de face asiática, na mesa em frente, retira do saco a máquina — e fotografa a sopa. Depois, repete a operação, agora com o telefone. A sopa, que indiscutivelmente é feita com abóbora e cominhos, depois meticulosamente passada, e que apresenta uma bela e uniforme cor de cenoura, emoldurada pelo prato largo e branco, merece ser duplamente imortalizada — concordo em pleno.

7.8.17

la luna

todos os dias
tenho polido a lua
hoje resplandece

quando mirares
o espelho cósmico
refletirá o teu olhar

então ver-te-ei
para ti há a lua
por ti hei-me eu

Lado a lado

A linha que nos une é um horizonte vertical.

Qualidade fisionómica

«Cada coisa diz aquilo que é... o fruto diz ‘Come-me’; a água diz ‘Bebe-me’; o trovão diz ‘Teme-me’; e a mulher diz ‘Ama-me’»

[Kurt Koffka, 1935, Principles of Gestalt Psychology, pág. 7]

6.8.17

sonho do navegador

almejo alcançar
o mar
dos teus olhos
e nele
naufragar

Sentimentos transbordados


E onde colocarei aquilo que sinto e que transborda da arrumação que faço nas palavras?

Uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência

«A generala não tem passado bem desde a sua partida para a malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência que a conserva horas e horas imóvel sobre o sofá, no Pavilhão do Repouso Discreto, com o olhar vago e o lábio cheio de suspiros... »

[Eça de Queirós, O Mandarim]

4.8.17

Posições extremas e perigosas

— Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas — bramava J. E. de Andrada. — Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?

— Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nos Orientes, são boas para quem ganha o pão nosso no Forex.

— Mas quem é que está a falar disso? — clamou J. Eustáquio. — Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?

— Já eu, sublinho a torto e a direito — sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J.

— Mas você não é exemplo para ninguém — atirou J. E. de Andrada. — Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.

— Pauvre, pauvre J. — murmurava a dulcíssima Orchidée. — Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?

— Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?

— Eu sou de ascendência nórdica — disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho, saltitante como um arpejo.

— Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?

— Uma praga, Andrada, indeed. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.

— Não esperava menos de si, Moraes. Já aqui do J....

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante.

— Eu bem digo, já aqui do J.... — concluiu Andrada. — Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?

— É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada — sugeri eu.

— Há que cortar o mal pela raiz! — corroborou o lente jubilado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado embrenhados nos telefones para lhe prestar atenção.

[A. de Moraes]

3.8.17

O girar das engrenagens do mundo

Trovejava o ilustre J. Eustáquio de Andrada: 

— Oh Moraes, você que já passou também algum tempo a lamber papel, sabe que naquelas coisas da ciência, o que conta não são os grandes avanços, são os pequenos, pois não é verdade? Não temos que mudar o mundo de uma vez só, apenas em pequenos passos, como lhes chamava o Popper. Você, que já leu o Popper, confirma, claro?

Assenti, acenando com a cabeça e notei também o nosso amigo J. que, agarrado àquele seu telefone, balançava gravemente a fronte, no movimento gracioso de um bote na doca. Orchidée, mais distante, olhava para o telefone dela como se de um espelho se tratasse, sorrindo, certamente como Marguerite, de se voir si belle en ce miroir. De vez em quando soltava um trinado em forma de risada. 

— Mas, oh Moraes, estas gentes modernas acham que a vida tem que ser mudada toda de uma penada: salte lá o Euromilhões, ou engravidem de um romance, e tudo se resolve em ritmo presto, como numa sonata de Paganini. Não pode ser, as engrenagens do mundo não giram assim — prosseguia o grande Andrada.

As lágrimas assomavam aos olhos de Orchidée, que continha as gargalhadas, enquanto J. continuava a acenar automaticamente com a cabeça. Parecia exercitar ritmicamente os músculos do pescoço, ou preparar alguma das asanas lá dele. Com a língua ao canto da boca, J. assestou uma dedada decisiva no seu telefone — e quase de imediato, decerto por coincidência, Orchidée deu um gracioso salto na cadeira, enquanto de seus belos e cerrados lábios saía apenas uma abafada e gargalhante exclamação.

Andrada atirou os braços ao ar, em sinal de desistência.

— A juventude recreia-se. Mas, oh Moraes, e não acha você que o problema das gentes, é acharem que querem mudar tudo, quando afinal não querem senão mudar umas minudências nas suas vidas? Olhe, não vamos mais longe: Orchidée, que ali vê, aquela flor que enche de sol o meu ocaso, adora abraços. Pois não os adoram as mulheres todas? E quantos dos seus colegas, desses que se sentam nas cadeiras de pele de vitela albina italiana a criar produtos estruturados como mestres do Universo, oh Moraes, colhem as suas flores aos braçados? 

Pois que eu não sabia, mas desenhei casualmente uma função a tender para zero no papel à minha frente.

— E as flores, quantas se enrolam, quais heras murmurantes, trepando em direção ao céu, aos seus colegas, senhores do mundo e arredores? Oh, Moraes?

Pois que não estou lá para assistir, mas escrevi uma percentagem com muitos zeros do lado direito da vírgula. Andrada concordou.

— O problema dos homens, oh Moraes, é acharem que as mulheres querem o Mundo. E o problema das mulheres, é acharem que os homens querem o Universo. E todos querem é o mesmo. Todos querem é amor. Esta coisa do amor não passa de moda com a idade, mas as gentes acham que sim, que isso das flores se enlearem como heras é coisa dos vintes, mas já não é precisa aos trintas, menos ainda aos entas todos, ad aeternum. 

— É um problema, um verdadeiro problema, oh Andrada – confirmei.

— Como diria o grande Camilo, o amor tem céus e resplendores que banham de luz as mais tristes almas, oh Moares — proferiu J., ponderosamente.

— Só aqui ao nosso J., este poeta elisiano, é que ninguém lhe pega, — ditou Andrada —  nem o diabo, e olhe, oh Moraes, o diabo pega em tudo.

Oh, le diable est dans les détails — proferiu casualmente, lá do fundo do salão, a subtilíssima Orchidée.

[A. de Moraes]

2.8.17

Da pluma do Editor at Large

O nosso comum amigo Andrada disparou naquela sua voz agreste de proprietário de vastos prédios rurais, metido a literato, mais rústico que erudito: 

— Moraes, você que parece ter mais tempo à sua disposição que um Ministro dos Negócios Estrangeiros, é que era bom para escrever naquele pasquim que aqui o nosso amigo J. mantém nas internetes. E além disso, confirme-me lá, você não é homem de paixões, ou é? Não se lhe conhece um alexandrino, um soneto, uma rima que seja. Apostaria este havano supimpa em como não leu um poeta madeirense sequer e na sua estante não constam autores que levam metade dos livros à procura dos tempos perdidos em Sines. Aquilo está é a precisar de gente à antiga, como o meu amigo, homens de rapé e pingalim, de verbo rápido e rédea curta nas emoções. Homens que o são por força da lei divina, não se querem apaixonados. Isso, é para as almas a fenecer, os espíritos elevados pairam acima de tais minudências.

Orchidée olhou com comiseração para J. que baixou os olhos com ar compungido, atingido com mortal flecha no seu frágil e sofredor coração. 

— Mon chou, — proferiu a dulcíssima diva, naquela sua voz maviosa de cotovia de Bayreuth — deixe o coração cristalino do J. em paz, que ele tem tido mais que a sua quota de raisons para andar com as emoções assim, tatuadas na sua pálida pele. Le pauvre.

Um misto de agradecimento e ternura pareceu-me perpassar pelos olhos melancólicos de J. enquanto se dirigia a mim.

— Moraes, pois se o meu amigo, que é homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, quiser agraciar aquele humilde espaço com a sua pluma, será, não recebido com vestais ocultando o sol com chuveiros de pétalas de rosas, que isso não consigo encomendar em tempo útil, mas pelo menos com um cálice daquele Hennessy que sabe que eu guardo especialmente para as suas visitas, aquele que quase nos fez perder o voo em Frankfurt, e que nos obrigou a correr que nem uns evadidos pelos infindos corredores.

— Ora vê, Moraes — tonitruou Andrada — aí tem a sua deixa. Não é todos os dias que temos oportunidade de contribuir para a sociedade de forma tão absolutamente inútil. O pasquim do nosso amigo J. que ele muito considera é, que eu saiba, apenas lido aqui por Orchidée, mon amour, e poucos mais que por lá chegam sem dúvida ao engano e rapidamente arrepiam caminho. Com o meu excelso amigo Moraes a prosar por lá, finalmente haverá um motivo para, até eu, by Joveeven me, poder, num dia de canícula, encontrar frases que finalmente consiga ler sem sentir o arrepio que o romantismo elisiano me causa.

Os olhos de Orchidée ergueram-se para o céu, em prece que me fez recordar a famosa oração de Santa Teresa de Ávila. O amigo J., por seu lado, parecia-se mais com S. João da Cruz, a redigir os seus poemas no guardanapo, com uma caneta cujo aparo esborratava tinta com a facilidade com que Andrada escorropicha absinto.

E eu, A. de Moraes, homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, como diria o martirizado J., atentei no olhar celestial de Orchidée, e por ela, apenas por ela, única leitora conhecida destes editais, escrevi e assino o meu primeiro panfleto para este pasquim de publicação deveras irregular aqui nisto das internetes. Também pelo Hennessy, vá, que foi por minha causa que J. ia perdendo o avião nesse dia, e de certeza perdeu os pulmões pelo caminho, enquanto enrubescia, soprava e bufava, correndo e bradando, num aeroporto onde ninguém o entendia:

— Sem mim, não. Sem mim, não!

[A. de Moraes, Editor at Large neste espaço, na ausência de Le pauvre J.]

1.8.17

Troca de mãos

Quando, em mil novecentos e noventa, Reinhard Goebel, então o maior violinista do mundo da música antiga, se viu confrontado com um problema na mão esquerda, fez o impensável: reaprendeu a tocar, trocando o violino de ombro e a posição das mãos. Anos depois, já proficiente na nova forma de tocar, regressou à antiga, e começou depois a tocar alternadamente numa posição ou na outra, após ter sido submetido a uma operação. Durante quinze anos continuou a carreira de violinista, até que em dois mil e cinco se dedicou à direção de orquestra. Atualmente, se não está a dirigir ou a dar aulas, lê. Oito horas por dia. «Está ver a vantagem?» perguntou Goebel numa entrevista à Van. «Leio mais num dia do que muitos num ano.»