16.10.17

Duas pequenas árvores

HandelLascia ch'io pianga

Eles são para sempre duas pequenas árvores
Isoladas numa planície leve
Nunca mais se separarão.

[Paul Éluard]

A psicologia da exceção

O calor é psicológico, tudo é psicológico, diz Dona Aureliana, com aquele fala lá dela que atravessou o equador, ao freguês ao meu lado, enquanto dá instruções detalhadas à sua nova estagiária sobre como tirar o café para mim. A estagiária, que será Dona assim que eu saiba o nome dela, entrega-me o café, que eu trago para a esplanada e bebo de um trago. Mas ah, não é o café da Dona, não tem aquela subtil densidade, aquele travo de terras onde o calor é tão absurdo que só pode ser psicológico, isso garanto à leitora. Pode ser uma minudência, mas não é inconsequente. Tudo pode ser psicológico, mas no tudo, o café arranjou forma de ser exceção.

A ubiquidade do cardeal

O cardeal Wolsey nunca vive numa realidade única, mas numa malha, numa sombra cambiante, de possibilidades mutuamente exclusivas, coletivamente exaustivas.

15.10.17

A flor de Coleridge

Se um homem pudesse passar pelo Paraíso num sonho, se lhe fosse dada uma flor como prova de que a sua alma lá estivera, e se encontrasse essa flor na mão ao despertar -- Ah, então?

[De Anima Poetae, de Coleridge.]

encontrasse eu o teu perfume na minha mão
ah, então?

Três mil e trezentos

Revendo qualquer um dos textos aqui publicados, consigo reconstruir as circunstâncias em que foi escrito e porque é que foi publicado, confiando que a minha memória não se engana e não me engana muito se lhe apresentar prova factual. Já o espaço entre os textos é como os furos de uma peneira, fecha os olhos ao escoar do tempo, prendendo apenas os grãos de vida maiores, deixando que os outros se esvaiam como ar de um balão mortalmente ferido. Posso congratular-me de consegui-lo três mil e trezentas vezes ou envergonhar-me de não o conseguir as restantes, que são em número infinito. Como acredito que uma das panaceias do infinito é diluir a culpa percebida, demoro-me uns segundos na íntima satisfação deste número redondo mas rapidamente caio em mim quando reconheço que se apenas vivi o que a minha memória acredita que vivi, caramba, tão pouco que vivi. Que parcimoniosa esta memória minha, que avara até. Eu, que julgava tanto ter vivido, afinal tenho as memórias, ou seja o capital vivido, aferrolhadas num cofre do qual a chave foi perdida, quiçá atirada de uma escarpa. Resta-me habituar-me à memória finita, ou tornar-me arrombador. Como não desisto facilmente, creio que vou começar por experimentar a segunda.

O milagre do cardeal

O cardeal Wolsey aceita mal que as propriedades terrenas não se transformem em numerário com a mesma velocidade com que ele transforma uma hóstia no corpo de Cristo.

14.10.17

é verdade

é verdade que sou e respiro e esboroo a terra e desafio o sol
é verdade que articulo palavras e outros as replicam e as contestam
é verdade que me movo irrequieto e onde paro dou o nome de casa
é verdade que deixo pegadas e sobre estas esvoaçam fiapos de mim

é verdade que este de que falo e assim defino sou eu
é verdade que este eu sem ti é só um vulto ou ninguém

Pedro e o lobo

Comovente é a ingenuidade dos futuros passados quando cotejados com os futuros presentes.

Satisfação incerta

Conhecido ou desconhecido? Tendo virada há pouco a última página do livro derradeiro, assalta-me a dúvida quanto ao próximo. Não que mos faltem para ler, há minutos acabei de comprar outro, mas é de coisas cá minhas, devoção que é obrigação, é para ir compulsando, quando o relógio indicar a hora certa para ele. Mas há aquele livro que me acompanha, aquele com que vou sofrendo com quem lá vive, aquele que serve para odiar o escritor quando discordo profundamente dele, ou admirar-me com a inteligência humana, seus artifícios infindos, seus labirintos sem fios: esse, está por decidir. De um autor que me fascina tenho ainda uns dez livros por ler, assim a sorte me proteja, mesmo na ausência da audácia para enfrentar um deles que tem mil e quinhentas páginas. Muitos dias de leitura. Mas é caminho trilhado: será satisfação garantida, nunca me falha. Dele direi, qualquer que seja o tomo eleito, tenho a certeza, caramba, nunca li livro melhor na vida. Será mentira, mas piedosa. Mentirei a mim próprio, mas tão convictamente que até eu acreditarei em mim. Por outro lado, correndo o risco de desesperar com o autor e o livro, e comigo por tê-lo escolhido para me acompanhar durante três ou quatros dias, tenho dois em vista, que são de satisfação incerta. Amanhã, será a minha cabeça que pagará pela escolha, direi, onde estava eu com a cabeça quando escolhi isto? E depois lembrar-me-ei mais dos livros que me irritaram do que daqueles em que naveguei em mares tranquilos. E a cabeça também sabe disto. A minha sorte é a minha cabeça conhecer-me melhor do que eu a mim próprio.

13.10.17

O espaço em branco

Mesmo num dia em que consigo miraculosamente que todas as peças encaixem, fica o espaço em branco para uma peça que falta.

Fragmentos

O homem que ontem, antes da meia noite, dançava na rua consigo próprio, a subir a calçada, dava um passo, parava, rodava sobre si, periclitante, pé hesitante, corpo desafiante das leis da gravidade. Estaquei a olhar, à espera de ter que fazer de samaritano, não sei se bom, de o levar ao hospital de emergência caso a dança etílica o fizesse voar sobre os paralepípedos. Chegou ao topo da calçada, eu respirei de alívio e voltei ao carro, estacionado propositadamente longe. E tanto mundo que se vê numa rua à noite. A rua, sendo uma casca de noz como a de Hamlet, é também um universo, como o de Borges, que cita Shakespeare, espelhando-o.
*
Ishiguro não leu Vinicius, quero crer. A escrita de Ishiguro é a de um ilusionista que mostra com uma mão e esconde com a outra. Não encontro beleza no ilusionismo, contudo. E, lá está, parafraseando Vinicius, o comité sueco que me perdoe, mas beleza é fundamental.
*
Sentado na esplanada, enquanto escrevo estas palavras, constato que o café, ainda que quente, esfriou mais depressa do que há uma semana. O outono surge-me de dentro de uma chávena. Já o frio surge-me de dentro de mim e nem o café outonal me vale.

11.10.17

Perdido

Daqui de onde os vejo, que é bem perto, leitora, olho para a cara dele, para o sorriso garoto, para o olhar dirigido, para os gestos de desenhador do ar, ouço, porque não tenho como não ouvir, as palavras que tudo têm de exatas, nada de românticas, mas, ah, a expressão não engana, é transparente como o ar da manhã, ele não sabe, se sabe não admite, não sei se ela sabe, e se souber não pode admitir, que ele está perdido por ela.

10.10.17

A espera

Chegou o outono e viu os dias esmaecerem, as folhas garimparem ouro, o céu pintar-se de esquecimento, o mar entrançar-se com o vento, a boca da terra esboroar-se de sede, o ar clarear-se de orvalho, os poetas enlouquecerem de saudade, as luas ocultarem-se numa alquimia de prata, os homens dançando em remoinhos súbitos, os cavalos com olhos de alvorada, as sementes do frio brotando do chão, o sangue cristalizar na alma. Tudo isto viu, enquanto a esperava.

9.10.17

Vamos então tu e eu

Guido Molinari, Paralèles Bleues
Vamos então, tu e eu,
quando a noite se abre contra o céu.

[De The Love Song of J. Alfred Prufrock, de T. S. Eliot.]

Audiências e um paradoxo

Não são as audiências grandes que me assustam, nem as pequenas sequer. Assusta-me é a força necessária para suster o estampido das palavras que galopam para sair.

8.10.17

Um espião e um detetive

Sentado em duas esplanadas em duas terras vejo, em ambas as vezes, o mesmo par dirigir-se para a porta do local onde estou. No penúltimo livro que li desaparece um espião e no que leio atualmente aparece um detetive. Poderia ser miragem influenciada pelas leituras correntes. Afinal, ambos os livros são oníricos, as coincidências abundam, os mistérios pululam, fragmentários, enevoados, difusos. Mas não, recordo com demasiada precisão o avistamento na tarde luminosa para ser fruto de sonho. Revejo o meu historial recente, para me assegurar se haverá razão para ser seguido: creio que não. Resta-me o cálculo das probabilidades de tal evento. Contudo, se bem as conheço, às probabilidades, manter-se-ão mudas, mesmo sobre o mais intenso interrogatório. Inicio a semana com um mistério, para além do que está nas páginas que me ocuparam horas de sombra destes dias. A explicação pode ser simples, até. Mas, pelo sim pelo não, preparo-me para, amanhã, oferecer dois cafés, noutra esplanada, noutra terra, às minhas gentis sombras.

7.10.17

Narrador duvidoso

Levantando-se o calor do dia, desvela-se a brisa da noite. O dia que esteve, justifica a noite que está. O narrador duvidoso que leio agora, leva-me a duvidar do narrador confiável que li antes. O confiável justifica o duvidoso. Maravilho-me com os pequenos contrastes, onde encontro refúgio dos grandes.

Imersão total

Aprende-se a nadar quando se percebe que o corpo deve estar submerso, totalmente imerso, para eliminar a resistência mista da água e do ar, quando fluímos na água como ela em torno de nós. Um nadador excelente não perturba a água. Para aguentar o calor de verono, esta estação que prolonga o verão outono dentro, decidi recorrer aos meus conhecimentos de natação: vou mergulhar no calor, fundir-me nele, literalmente até, talvez. Nadar no calor, em imersão total. Se eu não perturbar o calor, talvez ele não me perturbe a mim. É a coabitação possível e pragmática. Se resultar, eu explico como se faz.

6.10.17

O cliente que pergunta

Ao cliente que pergunta, Dona Aureliana aconselha o pão de deus com manteiga, Porque a manteiga aqui não engorda, viu? diz ela com aquela fala lá dela que atravessou o equador. O cliente tanto viu, que aprovou e provou. Afinal de contas, se não depositarmos a esperança, a fé, no pão que é de deus, onde mais a aplicaremos? Este pensamento não é da Dona, é meu, mas se lho disser, tenho a certeza de que ela o adota. Embora, no que se refere ao capítulo do otimismo, até o omnipotente teria uma ou duas coisas a aprender com Aureliana, já para não falar neste que escreve à leitora, que come o pão de deus sim, mas deixa a manteiga para clientes mais crédulos, digamos.

Extemporâneo

As laranjas estão ainda demasiado pequenas para que a sua sombra chegue a perturbar, de alguma forma, o calor extemporâneo deste outono.

5.10.17

acima do horizonte

olho 
para a lua 
com esperança 
que a olhes também
[ao mesmo tempo]
e nela refletidos
veja os teus 
olhos

As mentes mais retorcidas

O padre Campos apenas lê histórias de terror. Os seus olhos azuis e pequenos brilham enquanto fala torrencialmente dos seus autores prediletos, Poe, Lovecraft, King. Pergunto-lhe o porquê de tão peculiar opção. ‘Para um homem de fé,’ diz-me, ‘a melhor forma de estar próximo de Deus é aproximar-se do mal, acercar-se do inimigo. Sobre Deus aprende-se depressa, bastam poucos anos de estudo de teologia. A bondade não tem disfarces, e precisamente porque é bondade, não se encontra engano no seu seio, nela não se encontram subterfúgios. É imutável, simples e é fácil conhecê-la, mas também ser ameaçada. Para defendê-la temos que estudar o caráter do que a ameaça, os seus meandros, a sua imaginação. O mal é ardiloso. Nós, na nossa comunidade, não temos muitas ocasiões de entrar em contacto com o que é malvado, imaginativo. É através dos livros que escrevem as mentes mais retorcidas, as penas mais venenosas, que nos familiarizamos com ele.’ Pega no meu livro de Javier Marías, agita-mo frente aos olhos e diz-me: ‘No mês inteiro que você leva a ler isto, que não anda nem para trás nem para a frente, e quando anda para a frente, recua, leio eu quatro Kings e dois Koontz.’ Face a que eu acabei hoje de ler o livro que comprei quando saiu, há um mês, o padre tem a razão divina consigo, eu aceito. Ele sorri, levanta as sobrancelhas e faz um olhar à Jack Torrance. Sinto um arrepio subir pela nuca e mudo de conversa: ‘Que me diz dos trinta e dois graus hoje, em pleno outono, já viu isto?’

3.10.17

a ternura que sucede

talvez ninguém saiba
se a ternura é causa
ou consequência
de um amor

se o antecede
ou antes sucede

porque mesmo antecedendo
sucede sempre
antecede-se

a ternura é o amor
em estado flagrante

Tom deixou este mundo por um bocado

Disse ele: «Vou em queda livre para o nada / Deixar este mundo por um bocado.» E foi o que fez, ausentou-se. Talvez Tom acreditasse no Salmo 23, que entrelaça nas palavras da sua queda livre: «Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.» Faz parte, é condição original, de se ser humano, o medo da irrelevância. De todos os medos, o mais poderoso. Enquanto se ausenta deste mundo diria que, quanto a esse medo, Tom pode seguir o instinto, e o salmo. Não é a morte que lhe fará sombra. Imortais são os que, quando deixam a vida, o fazem apenas por um bocado.

[Thomas Petty, 1950-2017. A canção referida é Free Fallin'.]

2.10.17

Saída da secção

Não sei se encontrarei o juiz daqui a pouco, e se não o encontrar nem tão cedo saberei se ficou contente com os resultados, mas faço questão de saber, mais tarde se não mais cedo. Encontrámo-nos ontem à saída da secção de voto, ia sozinho, a mulher, coitada, aquilo das costas, não a deixa dormir, mas o juiz não falharia umas eleições nem que tivesse que vir de barco a remos nalgum dia de inundação. Saio com ele, digo, e andamos em linha reta, a descer a alameda da escola onde votamos, em direção ao portão, e eis que o juiz começa a desviar-se do caminho a direito, que é coisa inaudita para um juiz, convenhamos, até que se encontra mesmo junto à senhora das sondagens, abranda o passo, eu ao seu lado, e acontece o pedido inevitável, O senhor não quer fazer aqui uma sondagenzinha, votar tal e qual como votou lá dentro? E o juiz não se faz de delongas, vota, e acredito que tenha votado tal e qual votou lá, dentro, é jubilado, mas juiz é-se para toda a vida, já mo disse. O dia está de sol, e há, noto então, mais duas estações de sondagens, que as televisões, tal como os guarda-redes, sabem que o segredo está na antecipação. E o juiz em todas pára, vota, tal e qual votou lá dentro, contando com o voto real, a sério, vota quatro vezes. Eu ia lá perder a sondagenzinha, diz-me, com aquela voz pausada lá dele, tão ponderada como o seu passo quando o vejo passar para as comprar matinais com a mulher, coitada, aquilo das costas. Quando o vir, já sei que me vai dizer, Já viu? Voltaram a falhar, falham sempre, uma pessoa bem se esforça para que aquilo saia bem, mas baralham sempre tudo, trapalhões. E saberá dizer-me quais as sondagens que falharam redondamente, não apenas para a nossa autarquia, a minha e dele, mas nas outras. Nas eleições, o juiz gosta é das sondagens, mesmo com as trapalhadas dos sondadores, ou talvez por causa delas. É que ele, sábio, ponderado como a sua voz, sabe que, ao menos essas, ao contrário das outras que se vão seguir, são temporárias, finitas, não fazem dano, corrigem-se depressa. As outras, ah, ele também sabe, não têm correção à vista.

1.10.17

Da noção de pleonasmo

Acabei de ver, com estes meus olhos céticos, que não tenho outros, um candidato culpar os eleitores pela sua derrota.

Mar d'outubro

28.9.17

Lady Macbeth

‘As minhas mãos,’ disse ela, ‘são da cor das tuas. Mas vergonha seria ter um coração tão branco.’

A sombra de uma sombra

‘Os sonhos são sinal de ambição,’ diz Guildenstern, ‘porque a ambição mais não é do que a sombra de um sonho.’ ‘Mas o sonho não é mais do que uma sombra,’ contrapõe Hamlet. ‘E assim a ambição não é mais do que a sombra de uma sombra,’ diz Rosencrantz, fechando o silogismo.

Eficácia e eficiência

Estou aqui, leitora, a pensar se deverei simplesmente chegar ali à máquina que aceita cápsulas de alumínio recheadas de café e deitar uma daquelas lacadas a preto, degustar o café sem delongas e ir à minha vida, já devidamente cafeinado, ou seja, repleno de combustível. Por outro lado, há a força do hábito, e o hábito traz as suas próprias recompensas, os seus pequenos prazeres, posso esperar mais meia hora, ouvir o cantar da Dona enquanto entrega aquele café lá dela sem eu pedir sequer, pegar eu no café, ir-me sentar naquele ponto da esplanada que tem o meu nome, tem lá o X exatamente onde me sento, ficar a olhar para o infinito que é mesmo ali em frente, a pensar no que hei-de escrever à leitora. Ser eficaz versus ser eficiente, como ensinam lá naqueles cursos que eu já esqueci, não sei já qual é qual e também não sei se importa, quando o que apetece é um café e a distinção, leitora, a distinção é entre beber um café e tomar um café e isso sim, caramba, isso faz toda a diferença, lá dizia o poeta.

27.9.17

A morte da ficção [...], finalmente

Ao ler o livro, que foi publicado este mês e que eu comprei no dia em que saiu e ao perceber que é um dos melhores de um autor que é dos que melhor escreve pelos dias que correm, e ao ver que ele opta por situá-lo num passado recente, mas ainda assim no passado, naquele passado em que as pessoas marcavam encontros e diziam com que sinais podiam ser identificadas, um passado em que notícias não podem ser verificados por uma consulta a um ecrã, em que uma história citada se torna um enigma menor porque não se consegue verificar a origem, em que distância é uma circunstância sem atenuantes, percebo que a ficção morreu.
Morreu finalmente como previsto há muitos anos, mas só agora concretizado, por falha dos elementos que a movem: ausência, desencontro, desconhecimento.
O mundo atual matou a ficção ao matar a suspensão do acreditar. Nenhum leitor hoje acreditaria em circunstâncias ficcionais causadas por impossibilidades, quaisquer que estas sejam. E o que é a ficção senão possibilitar o impossível? Ao tornar tudo possível, o mundo atual seca as raízes da ficção. Resta aos ficcionistas criar as suas histórias no passado, que é o que os melhores, os mais lúcidos, os mais céticos também, fazem.
O título deste texto está incompleto, não é da morte da ficção que se trata, é da morte da ficção assente na atualidade. Recordemos que Eça, ou Camilo, ou José Cardoso Pires, ou Carlos de Oliveira, nunca sentiram tal necessidade: o mundo real que encontravam era dotado de abundantes impossibilidades sobre as quais assentar o edifício das suas obras.
Para encontrarem universos ficcionais credíveis, aos romancistas atuais resta serem historiadores, ou futurologistas, mas não recriadores do presente. O presente é terreno infértil sobre o qual ficcionar. Talvez vivamos em tempos interessantes, talvez estes tempos interessantes deem origem a bons livros. Talvez eu é que ainda não os tenha encontrado.

Conflitos, ambiguidades e intensidades

O tipo de conflitos, ambiguidades e intensidade que a mim me interessam são anteriores [a 1995]. As pessoas já não são tão assim, agora. Nos anos noventa, ainda havia essa densidade, essa substância, essa complexidade. Produziu-se um estranho fenómeno de superficialidade. Tem que ver com a pressa e a impaciência. Como não estou disposto a escrever novelas bobas sobre tontices da vida quotidiana, continuo a interessar-me por coisas que interessavam às gentes no século XVII ou XIX ou em 1995.

[Javier Marías sobre o facto de o seu mais recente livro, Berta Isla, publicado este mês, decorrer nos anos que precederam 1995.]

26.9.17

Desterrados do Universo

O Professor Wheeler diz a Tom que o Universo nos muda a cada instante, mas nós não conseguimos mudá-lo nem de forma mínima. Nem Platão, nem Shakespeare, nem o descobrimento da América, sequer a Revolução Francesa, o alteraram. Embora nos pensemos como parte dele, embora tenhamos, por vezes, a ilusão da nossa influência, na verdade somos periféricos, ou menos ainda. Somos desterrados do Universo, diz o professor. Borges, mais pragmático, ou mais romântico, pega numa mão cheia de areia e alegra-se por estar a mudar o Sahara. Eu, com a consciência plena de que deixarei o Universo como o encontrei, e de que mais me mudaria o Sahara a mim do que eu a ele, limito-me a ir-me mudando a mim próprio, que é o que tenho mais perto para mudar, e um bocadinho a cada dia. Talvez assim tenha apenas a ilusão do desterro ser menor, ou talvez assim tenha apenas uma ilusão. Ainda não decidi qual das duas é verdadeira, se é que é alguma.

25.9.17

definitivamente talvez

talvez sejamos duas árvores par a par
ou duas estrelas na mesma constelação
ou duas faces da mesma lua

talvez nasçamos como dois sóis
talvez nos juntemos como dois rios
talvez voemos como dois anjos

talvez eu veja muito de mim em ti
talvez tu te vejas, muito, em mim
talvez nos vejamos além de nós

ou talvez, sabes, nada disto importe
talvez me baste que tu sejas tu
talvez te baste que eu seja eu

tu existes
a mim basta-me

A vida de Tom

‘Tudo o que chegava aos seus ouvidos, compreendia-o com facilidade, memorizava sem esforço, e logo o reproduzia com exatidão e arte.’ É nesta parte do livro que estou, melhor, estou uns parágrafos mais à frente, quando o professor de Tom, em Oxford, o aborda pela primeira vez para o cativar para os serviços secretos. É claro que eu sei que Tom se deixará cativar, sabe-se logo no início, mas nesta fase ele ainda não sabe. Ou seja, por agora, eu sei mais sobre Tom do que Tom sabe sobre si próprio, ou, ao menos, sei mais sobre o futuro de Tom do que ele sabe. Que faria Tom se soubesse o que eu sei, e que é admitidamente pouco, porque pouco me foi revelado ainda? É que Tom, com os seus dons, preencheria de imediato os intervalos em branco, de dois pilares construiria uma ponte, da escassez do que sei, reescreveria o livro. Sabendo o que eu sei, Tom determinaria uma história diferente para si próprio. Claro que eu nunca o saberia, porque ainda não li as páginas seguintes. Quando as lesse, seria a versão do Tom informado e não do Tom desconhecedor. Tom sairia incólume da reescrita da sua história, como um perfeito espião.

E eu, que livro escreveria da minha vida, se soubesse o que não sei agora?

[Tom, ou seja, Tomás Nevinson, habita nas páginas de Berta Isla, de Javier Marías.]

24.9.17

Completam-se para voar

Há um príncipe, que anda por aí, pela cidade, e cujo braço esquerdo é como o de qualquer outro homem, mas o direito é uma asa de cisne. Sobreviveu a uma história antiga, os seus onze irmãos foram transformados, com sucesso, de cisnes em príncipes. Príncipes perfeitos, diga-se. Casaram-se, cada qual com a sua princesa linda, tiveram filhos, lindos também, viveram felizes até agora, que é o mesmo que dizer para sempre, se o tempo parar neste instante. Mas, ah, a magia esgotou-se mesmo antes da transformação ficar terminada no décimo segundo, este nosso príncipe. E assim temos onze histórias que terminam bem, como devem terminar as histórias de magia, de príncipes e princesas, e uma que termina assim-assim. Michael recomendou-me que, se encontrasse o príncipe, lhe pagasse uma bebida, e ficasse a ouvir as muitas histórias que ele tem para contar. Mas eu, incorrigível romântico, prefiro pensar que o príncipe está, neste momento preciso, a encontrar uma princesa, que o braço direito da princesa é como o de qualquer outra mulher e o braço esquerdo é, nem mais, a asa de um cisne. Prefiro pensar que se estão a apaixonar, que é amor ao primeiro olhar, e que ao abraçarem-se descobrirão que as asas de cisne, as duas, se complementam. Prefiro pensar que os posso ver, daqui da janela, contra a lua, a voar por esse céu fora, felizes, como só um príncipe e uma princesa que se completam para voar, abraçados, conseguem ser.

O mundo ao contrário

Podia escrever textos em jeito de complemento, ou legenda, ou vinheta, de fotografias. Mas não. Penso nas palavras, encadeio-as mentalmente, escrevo os textos, e depois tiro as fotografias, como se pretendesse que o mundo real legendasse o meu mundo interior. Como se o mundo real não tivesse, de facto, mais que fazer do que me validar.

23.9.17

O ofertante previdente

Se hoje me sonhares, reserva uma jarra, porque levo flores acabadas de colher, para ti.

Aquilo que somos

Antes de morrer, um viticultor revelou, ao ouvido de Marcela, o seu segredo, ‘A uva,’ sussurrou, ‘está cheia de vinho.’ Marcela contou a Eduardo, que mo contou e a outras gentes, acrescentando, ‘Se a uva está cheia de vinho, talvez nós sejamos as palavras que contam aquilo que somos.’

22.9.17

O funcionamento do mundo

E foi apenas porque algo no mundo não funcionou, que ele sobreviveu para estar comigo naquela conversa, longa conversa, sobre o funcionamento do mundo. O mundo funcionou afinal quando não funcionou, na minha perspetiva egoísta de ter um amigo novo, ou seja, um amigo que nasceu de novo e, claro, na perspetiva egoísta, compreensivelmente egoísta, dele, por poder estar ali a contar-me o seu nascimento. O mundo funciona melhor do que nunca, mesmo quando não funciona, sobretudo quando não funciona, quando um homem pode narrar a outro o seu próprio nascimento, por si mesmo presenciado.

21.9.17

Horas extraordinárias

Tantas horas extraordinárias que somei hoje. 

Elegância

Foi ao escrever ‘não’, melhor, enquanto pensava de que forma escreveria ‘não’, com ou sem eufemismo, contornado ou direto, aguçado ou boleado, que me apercebi que o ‘não’ pressupõe uma elegância a que o ‘sim’ se pode eximir com facilidade: descuidado, distraído, diletante. O ‘sim’ pode aparecer tal como se acabasse de se levantar, desgrenhado, piscando à luz, por escanhoar. Já o ‘não’, ah, o ‘não’, exige laço, sapatos de verniz, e aquele ‘je ne sais quois’ que transforma em invisível o que é visível e em visível o que é invisível. Um ‘não’ elegante não pode ser menos do que um clássico.

Exuberância irracional

‘É um café assim tipo duplo. Tipo dois em um.’ E a cliente à minha frente na fila sorri, com ar comprometido, como se houvesse algum segredo na composição daquele café, alguma alquimia que transforme o sono em exuberância irracional. No café tipo duplo dela pousa o meu olhar inquiridor, e é bem menos duplo que o que Dona Yara me entrega com aquela fala lá dela que atravessou o equador, ‘Seu café, doutor,’ sem eu pedir sequer. O meu café, se as contas não me falham, e se o da cliente à minha frente na fila é tipo duplo, o meu café, digo, é tipo quádruplo. O que, tendo em conta que o sono hoje até está domesticado, me atemoriza no que causará na minha dose diária da exuberância irracional, e a leitora fará o favor de me desculpar a repetição, assim tipo pleonasmo.

20.9.17

Afinidades


‘Li e achei que gostarias’, ‘visita, se alguma vez lá fores’, ‘se fosses tu, como farias?’, ‘contigo, não tenho medo de ser ridículo’, ‘que cor é esta que só tu e eu vemos?’ 

Afinidades: linhas paralelas que se cruzam antes do infinito.

Sair a dançar de manhã

Daqui da esplanada ouço Dona Aureliana a cantar no café. É cedo, estamos apenas três sentados cá fora, as Donas lá dentro, cirandando, e Dona Aureliana chegou dançando, ao som de uma música lá da terra dela, que atravessou o equador. ‘De manhã é que se dança o dia,’ digo eu e ela responde ‘É preciso é alegria logo ao amanhecer’ e é, porque não havendo de manhã, quando é que há, penso eu? A alegria é assim uma espécie de peixe fresco, não é leitora? [E se esta não é a pior metáfora da história deste blog, também não é a melhor, não.]

Conto os trocos, as moedinhas de cobre oxidado, para aliviar a carteira do peso e pago assim o consumo. ‘Darão mais jeito à senhora do que a mim, decerto, Dona Aureliana,’ digo eu. A Dona faz um sorriso mefistofélico, e assegura-me, ‘Vou guardar aqui à parte e amanhã vou devolver todos ao doutor. Eu gosto é de ser assim má.’ E sai a dançar ao som da morna que se ouve em fundo. E eu não acredito nela. Isto é, quem dança pela manhã não pode gostar de ser má, assim. Mas amanhã é capaz de me devolver os trocos, nisso acredito.

19.9.17

um ser quase

reconstróis

me?

Dar alguma ordem a nós próprios

Willem de Kooning, Composição, 1955
A atitude de que a natureza é caótica e que o artista tem que a ordenar é um ponto de vista absurdo, penso eu. Apenas podemos esperar dar alguma ordem a nós próprios.

[Willem de Kooning]

O meu paradoxo com os blogs

Apesar do carácter transitório, volátil, flutuante, de um post, que tem como destino inevitável desaparecer no fundo da página, que tende para o fundo do tempo, tenho para mim que os melhores blogs, ou aqueles a que volto com mais ânsia, ou aqueles que começo a ficar inquieto se levam dias ou semanas sem atualização, são precisamente os que mais se aproximam da intemporalidade, que por uma qualquer combinação mágica de talento, bom senso e bom gosto, conseguem, sei que conseguem, arrancar-me um ‘ah, caramba’ quer os leia agora, quer daqui a um ano ou três. São raros, delicados, preciosos, e ah, caramba, não sei sequer se o sabem.

18.9.17

Vibrações na alma

Wassily Kandinsky, Vermelho e azul, 1926
A cor é o teclado, os olhos são as harmonias, a alma é o piano com muitas cordas. O artista é a mão que toca, uma corda ou outra, para causar vibrações na alma.

[Wassily Kandinsky sobre a pintura como outra forma de música.]

17.9.17

Suave melodia


Andrea Falconieri, La Suave Melodia

Conversas leves que dissimulam o enamoramento

Há muito de decisão elementar e arbitrária, também estética ou presumida (olhamos em volta e dizemos: ‘Combino bem com ela’), nesses amores que por força começam com timidez, com olhares breves, sorrisos e conversas leves que dissimulam o enamoramento, o qual no entanto se vai enraizando a seguir e parece inamovível até ao fim dos tempos.

[Javier Marías, Berta Isla, versão de x.]

16.9.17

A ver o mar

Hoje encontrei o mar exatamente com a cor das nossas palavras.

15.9.17

camadas sobre camadas

as capas e proteções e escudos
que colecionei em mim
volatilizam-se como éter ao ar
por ti

quando nenhuma restar
que restará do que sou eu?

reconhecer-me-ei?
reconhecer-me-ás tu a mim?

14.9.17

Palavras raras

Muitas vezes penso que deveria ter palavras somente para ti. Não que criasse um vocabulário, um tesauro, ou mesmo uma língua nova. Não. Queria ser capaz de guardar palavras, fossem cem, fossem mil, só para falar de ti, dizer-te, desenhar-te, letra após letra. Falar de ti é falar contigo. Mas como falar do que é único usando palavras plurívocas? Por vezes, sabes, consigo, julgo que  almejo uma linha, uma estrofe, um parágrafo até, mas é proeza breve, arte incompleta, ilusão efémera, como uma aguarela de cores voláteis. Pudesse ter um jardim murado ou uma ilha ou um óasis para as palavras que seriam as tuas, as palavras minhas de ti, para ti. Mas, oh, de quantas formas posso falar de ti? De quantas palavras preciso? E uma vez tendo-te em palavras tais, como viver não te tendo senão em palavras?

O corpo, o luxo, a obra

Sento-me na mesa junto à janela, não na esplanada, que este é outro café, e em torno de mim os computadores abertos nas mesas, os telefones freneticamente digitados, as conversas em fundo sobre quotas e propostas e clientes e cotações, o mundo a irromper por aquele templo de sossego. E eu abro exceção, levo apenas o livro que ando a ler, bebo o café quente, leio umas páginas do desenlace intermédio  que me intrigava, fecho o mundo lá fora e sinto o corpo, o luxo, a obra, como diria Herberto: um luxo, aqueles dez minutos, somente o corpo e a obra. Deus, se existe, está nas pequenas coisas, lá está.

13.9.17

Sardinhas e alfacinhas

‘Lisboa cheira a sardinha,’ diz Dona Aureliana. ’Os lisboetas gostam muito de sardinhas assadas, pois não gostam?’ pergunta a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador, e eu olho em volta, a ver se há algum lisboeta que se acuse, que se chegue à frente, ainda que ali sentado. Mas a Dona não espera, e continua, ‘Ora o que é que umas sardinhas assadas estão mesmo a pedir?’ As respostas possíveis são múltiplas e a única errada é um fio de azeite, que sardinhas das boas não precisam de azeite para nada, mas isso não disse à Dona, até porque ela respondeu, ‘Estão mesmo a pedir uma salada, é que uma salada é que vai mesmo bem com as sardinhas.’ Pois vai, confirmo e assino por baixo, até levo ao notário para reconhecimento. ‘Ora a salada leva o quê?’ A Dona adotou um método socrático, vai levando a audiência através de perguntas, pescando a sapiência ancestral dos ouvintes da hora de almoço. ‘Alface, a salada leva alface,’ concluiu, triunfante, perante os assistentes siderados com tal conclusão inesperada. ‘Os lisboetas comem muita alface por causa das sardinhas. Daí o nome.’ E a Dona rasgou o sorriso vitoriosamente alvo. Poderia ter terminado em latim, ‘Quod erat demonstrandum,’ sob o aplauso apoteótico dos poucos, mas entusiásticos, comensais na mesa. Minutos antes a Dona não sabia ainda que lisboetas e ‘alfacinhas’ são sinónimos, ‘Alfacinhas? Ah sim? E porquê?’ e eu titubeei e os restantes pigarrearam e todos olhámos uns para os outros, com olhar de gamos apanhados em plena luz a meio da estrada. Veio a Dona em auxílio de si própria, cozinhando na hora a teoria supra, que foi recebida com graves sinais de assentimento. Eu comi algo com bacalhau e muitas verduras, e nada de alface, menos ainda sardinha. Mas que a conversa me abriu a vontade de uma sardinhada com uma salada rica de alface, lá isso não posso negar.

12.9.17

O estranho caso do homem que bordava o nome completo no interior de um casaco barato

O nome é Reboredo, mas pode tratar-me apenas por Senhor Reboredo, um criado ao seu serviço. A profissão é ortopedista, se quer saber, especialista em ossos. Inteiros e ex-inteiros. Aqui tratam-se todos os ossos, de forma individualizada, pelo método Temperance Brennan, com a atenção que merecem. Ora, por exemplo, vamos lá ver a sua falangeta. Frouxinha, não está, mixuruquinha, que dor, que dó. Sabe que estalar os dedos faz mal, dez em cada dez ortopedistas desaconselham. Ora vê? Faz mal, confirma, não é? Aqui também se tratam os músculos. Ora deixe cá ver esse esternocleitomastoideo? Riqueza da sua avó. Ah, a luz? Muito forte? Pois é, é para o ver melhor, já dizia o lobo ao capuchinho, buh, bricadeirinha, só para rir. Doutor Porfírio Mascaranhas, é assim? Fez-me lembrar Mascarpone, sabe, aquele queijo que se usa no tiramisu. Falando nisso, que me diz se eu telefonar à Io a encomendar um tiramisuzinho, hein? Ou dois, até. Ajudava a passar a noite, parece que vai ser longa. Um tiramisuzinho ia que nem ginjas. Melhor ainda com elas, ora que me conta? Com elas, a preceito, vermelhinhas, como o glorioso. Já mandamos vir também do Rossio. Charters. A noite vai ser longa, como o nome do Doutor, Porfírio Manuel da Cunha Lencastre e Silva de Almeida Gonçalves Azeredo Mascarpone. Desculpe, Mascaranhas, pois um lapsus linguae, é latim, pois é. Linguae quer dizer língua, sabe o Doutor que isto da língua faz cá uma falta para cantar. Já sem língua... cantar é um problema. Dizem. O Doutor sabe cantar, não sabe? Não vale a pena negar que eu sei que canta como um rouxinol. Sabe aquela canção do Bob Dylan, o prémio Nobel, uma musiquinha chamada Man in the Long Black Coat. Ah, não sabe? E sobre casacos mais curtos, assim como o seu, sabe alguma modinha? Não. Pena, pena, pena. E de nomes bordados nos bolsos dos casacos, sabe? Assim nomes grandes como a noite, esta nossa noite, com tiramisu e ginjas e o Doutor a cantar? Vai ser que nem a Grande Noite do Fado. O que nos vamos divertir, Doutor. Ora eu vou dar o mote. Setenta e duas letras tem o seu nome, Doutor. Ora, meu amigo, um dos nomes está errado, porque a soma final devia ser setenta e três, que é número primo, primo do meu coração, o que eu gosto de primos, e não esse número banal, setenta e dois, demasiado divisível, três ao quadrado vezes dois ao cubo. Achava que passava, Doutor? Que ninguém notava, hein? Há um nome trocado, meu caro Doutor. E esse nome é a chave do segredo tenebroso da família Mascarpone, perdão, Mascaranhas. Está na altura de cantar a cantiguinha toda Doutor, sem falhar uma nota. Ora comece lá que eu dou o . Um, dois, ...

[Esta história está de tal forma atravessada, um tal polvo de referências tentaculares, que apenas Mr. Maltese Gipsy, himself, tem conhecimento de causa para a destrinçar.]

10.9.17

A melhor geração

Falem da fixação no Instagram, da vida no WhatsApp, das noites perdidas no Youtube, do encerramento nos quartos, dos ‘shots’ de fim-de-semana, dos desmandos em Lloret de Mar, falem da inebriação dos festivais de verão, das incertezas e das arrogâncias, do desinteresse pelos livros, falem dos universos substitutos, de Westeros e da Marvel e do ‘anime,’ falem de como antes era bom e agora é mau, falem de como os pais dividiram orações n'Os Lusíadas do Restelo a Calecute e de como os filhos não sabem distinguir o género humano do Manuel Germano, falem do individualismo, da competição, de gerações X e Y, falem de telefones ubíquos, de vidas em exposição permanente, falem sim, mas assestem neles os olhos com espanto e admiração e maravilha. Não há, nunca houve, geração mais determinada, persistente, focada no que quer, capaz de saltar barreiras cada vez mais elevadas, de vencer um presente que os catapulte para um futuro para o qual eles se preparam como nenhuma outra anterior sequer almejou. Que ninguém vá ao engano da demagogia fácil, lacrimosa, saudosista de um passado que nunca existiu: entrar em cursos universitários com as exigências de agora, obriga não a um ano ou dois de trabalho, mas a um quarto de vida, que é do que falamos, um quarto de vida, de dedicação plena, de estoicismo, sem paragens nem abrandamentos nem perda de vista do alvo. Se eles prepararam assim o presente, o futuro está em boas mãos.

7.9.17

The Office

Na mesa diretamente em frente, a senhora com o computador aberto, revestido por capa, os auscultadores brancos, o telefone sobre a pilha de papéis, gesticula, enrola os cabelos longos cor de palha, fala para o ecrã, uma ‘conference call,’ imagino. Na fila ao lado, o senhor do relógio Omega Seamaster de aço brilhante e de olhar baço, descreve de forma audível os aceleradores, as quotas, o funil de vendas. Atrás, a rapariga de cabelo apanhado, que já estava quando cheguei, concentrada, imperturbável, ausente, continua alheia, até se por ali irrompesse um furacão, face a outro ecrã, dedos voando intrepidamente sobre o teclado. Não fora o discurso torrencial, salpicado de ‘bués,’ das adolescentes na mesa do lado esquerdo, no outro lado do corredor, imediatamente junto à janela e diria que estou num qualquer escritório partilhado, em espaço aberto, num ‘office’ digno de série, e não na minha mesa habitual, enquanto escrevo esta minudência inconsequente e vejo arrefecer o café.

5.9.17

da insuficiência da arte

como não posso viajar no tempo
contigo
levo-te em viagem no espaço
comigo

e estás
em tudo o que vejo estás tu

e digo-te
todas as minhas palavras
quando dizem o mundo
te dizem a ti

mas tudo o que digo
me soa a tão pouco

é tamanho o que sinto
é tão pobre a minha arte

que a ti não chegam senão ecos
do que fervilho para te dizer

ai de mim

almejo encher um oceano
e só tenho uma gota de água

Antena 2 Ópera

Não creio que seja de conhecimento generalizado que a Antena 2 tem uma ‘web radio’ dedicada à transmissão de ópera vinte e quatro horas por dia, que pode ser ouvida aqui.

Impermanência

Ensina Siddhartha que nada é o que parece, como diz também Agustina, que encima esta página, com uma sua reflexão, iluminada, ainda de menina. Nada é o que parece e, ainda que fosse, não o continuaria a ser longamente, porque tudo muda, a cada instante ou intervalo ou volta do tempo. Custa entender isto de tudo mudar mais depressa do que absorvemos a mudança, não nascemos com amortecedores sintonizados para a transformação constante, precisamente, faz-nos falta a constância. E, no entanto, ainda que tudo mude, há os ritmos, os padrões, os visíveis e os ocultos, que são o que nos resta de determinismo no indeterminismo da existência.
Sentado na esplanada, escrevendo a lápis numa folha de papel branco, rodeado pela diáspora do mundo, por vozes dialogando em mil línguas, assim me soam, sei que nunca tive uma hora de café exatamente igual a esta, que muito é novo e já antigo, entretanto, já passado a esta hora, que a conversa de há pouco já se esfumou, que retive apenas uma parte e que amanhã, dessa parte, restará apenas um conjunto de fragmentos. Mas noto o ciclo, o ritmo, dentro do imprevisível, aquilo que não me espanta, dentro do novo, o renovado.
Ali ao fundo, Dona Aureliana, a almoçar cedo entre o final dos cafés matinais e o afluxo da freguesia do almoço, marca um ponto num desses ritmos, podia acertar o relógio por ela. Se o lugar é o epitome da impermanência, o acaso encarrega-se de dizer à impermanência que até ela é impermanente, ou seja, no efeito cerceador da dupla negação, tem momentos ou pontos ou intervalos em que se anula a si própria. A própria impermanência cria as suas âncoras, os seus pontos de constância, de referência. De sossego, digo eu.

4.9.17

O valor presente dos infinitos passados

Talvez consistamos naquilo que somos e no que não fomos, no comprovável e quantificável e recordável, mas também no incerto, no não decidido, no difuso, talvez estejamos feitos em igual medida do que foi e do que podia ser. Talvez o meu e o teu presentes sejam também o somatório dos infinitos passados que não vivemos e que são nossos, assim.

Ano Novo

Não sei, estou ainda a pensar, se mais tarde, depois de almoço, quando for tomar o café ‘chez’ Dona Aureliana, chegarei de sorriso aberto eu também, que já sei que a Dona o terá, aquele sorriso que é marca registada em nome dela, de uma alvura de porcelana fina, se chegarei, dizia, anunciando ‘Feliz Ano Novo, Dona Aureliana,’ e se a Dona olhará para mim, de olhar brilhante, pálpebra interrogativa, e pensará que mais vale não contrariar, é o que se deve fazer com os lunáticos, os abstraídos e os poetas, e modelando aquela voz lá dela que atravessou o equador, entrará no jogo, e dirá, ‘Feliz Ano Novo, doutor.’ E eu, assim validado, selado o trato com um café como não tomo há semanas, estarei então pronto a avançar, com denodo, teimosia e inconsciência, pelo Novo Ano adentro.

3.9.17

Provando a afinidade entre o eterno feminino e a multiplicidade de tarefas

A jovem condutora do carro ao lado guia com um cigarro numa mão e um telefone inteligente, intensivamente digitado, na outra.

A menina dança?

Michael Pretorius, Courante

O suave milagre

‘Eu tenho que falar com a minha neta,’ disse, com voz imperativa, já estava a colocar um pé no palco proibido para ele, já a orquestra se tinha retirado, já os espectadores faziam filas ordeiras para sair. Não disse ‘Eu tenho que ver a minha neta,’ decerto porque a tinha visto durante o concerto, talvez fosse uma das violinistas, uma das violistas ou violoncelistas, não estava na secção dos metais, que são monopólio masculino, precisava falar com ela, e antes tinha que passar as pedras no meio do caminho, os obstáculos, fossem os que estavam à porta e que o tinham encaminhado para o palco, fossem os que estavam no palco e lhe indicavam a porta de novo, para aceder a um camarim onde, diziam-lhe, encontraria a neta.
Quando voltava a subir para a porta vi-o bem de frente, teria passado os setenta, tinha barba branca bem cuidada, afilada, que contornava a face fina e terminava em ponta de pincel, cabelo alvo penteado por forma que rios se desenhassem em direção à nuca, casaco bege, calças cinzentas, sapatos castanhos com pendentes, olhos azuis faiscantes da ira crescente. A mulher seguia-o, no afã calmo mas inútil de abafar as labaredas que via ascenderem, de conter a deflagração, de atenuar a escalada tonal que atingiu o pico à porta de acesso aos camarins, na altura em que estava a explicar de novo, ‘Eu tenho que falar com a minha neta,’ com voz trémula de ânsia, de desespero, de cólera, antes de a porta se abrir e um rosto surgir, iluminado, apaziguador, feliz: ‘Avô!’

1.9.17

As pessoas e as coisas estão todas relacionadas umas com as outras

Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassínio e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso, e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não e como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história.

[José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis]

Quain ha muerto en Roscommon; he comprobado sin asombro que el Suplemento Literario del Times apenas le depara media columna de piedad necrológica, en la que no hay epíteto laudatorio que no esté corregido (o seriamente amonestado) por un adverbio. El Spectator, en su número pertinente, es sin duda menos lacónico y tal vez más cordial, pero equipara el primer libro de Quain ­The God of the Labyrinth­ a uno de Mrs. Agatha Christie y otros a los de Gertrude Stein: evocaciones que nadie juzgará inevitables y que no hubieran alegrado al difunto. Este, por lo demás, no se creyó nunca genial; ni siquiera en las noches peripatéticas de conversación literaria, en las que el hombre que ya ha fatigado las prensas juega invariablemente a ser monsieur Teste o el doctor Samuel Johnson... 

[Jorge Luis Borges, Examen de la obra de Herbert Quain]

As casualidades da vida são uma realidade, bastará dar-lhes um mínimo de atenção para compreender que as pessoas e as coisas estão todas relacionadas umas com as outras, o que acontece, infelizmente, é que nem sempre sabemos onde se encontra o fio que as liga, e algumas vezes temo-lo na mão e só nos apercebemos demasiado tarde. A mim surpreende-me muito que Borges não tenha escrito, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Borges não ignorava, certamente, que o poeta português era médico e monárquico, que tinha ido para o Brasil em 1919, e que em 1935, depois de receber a notícia da morte de Fernando Pessoa, regressou a Lisboa. Foi deste pouco que se veio a fazer o romance. Ora, se Borges tinha sido capaz de inventar Pierre Menard e Herbert Quain, está claro que para ele teria sido uma brincadeira de crianças dar vida a Ricardo Reis. Talvez não o tenha feito precisamente por ser tão fácil.

[José Saramago, Algumas provas da existência real de Herbert Quain]

31.8.17

Fecho de agosto

Robert Delauney, Corredores, 1926
Não tendo sido poucos os livros que se conseguiram encaixar entre as frinchas de agosto, há um, o derradeiro, que insiste em ter que ser terminado hoje. Não sei como lhe cheguei a dar tal confiança, talvez me tenha apanhado menos alerta, mais condescendente, ou mais mergulhado na história que escondia, mas o último dia flagra-me a virar páginas como se me assaltasse o receio de, ao bater da meia-noite, o livro se transforme em abóbora e eu, em leitor salta-pocinhas que se deixa tomar pela volubilidade a cem páginas da derradeira. Mas não: de tais sinas está o livro a salvo, e eu também, pelo menos isso consigo confirmar a esta hora avançada do fim do mês.

30.8.17

Está no Face

Ao lado delas há uma janela de um lado, um corredor do outro e ao lado do corredor estou eu, café já a meia chávena, olhos a deambular lá para fora, pensamento volante como um melro. Falam de férias, parece-me, narram piruetas de crianças, cochicham sobre adultos, e a do lado esquerdo diz para a outra, pegando no telefone, ‘Se visses as fotos que eu coloquei ontem no Face. Pá, tão giras.’ Os dedos folheiam páginas no ecrã até que enuncia um ‘Ah!’ e estende o telefone para a do lado direito. Creio notar nesta um lábio torcido, um sobrolho arqueado, um enfado, ou então são os meus olhos a ver contraluz, as emoções são visíveis à luz, menos contra ela, mas não se desmancha, ‘Pá, tão giras’, ecoa. Pareceu-me um ‘Gosto’ de sorriso amarelo, polegar hesitante, apreço caridoso, daquele que, quando apercebido, dói como uma topada. Mas a do lado esquerdo não se apercebeu, como não se apercebe, quero crer, das caras dos outros que lhe frequentam o Face.

29.8.17

Olhos azuis deslumbrados

O filho adorável, que tem caracóis e olhos azuis deslumbrados, mete-se no caminho do carrinho de compras da mãe, quer subir à boleia, vê as pretensões rechaçadas, que o caminho até ao fundo do linear é longo e a mãe tem pressa de ir e voltar. O pai coleta embalagens ali mesmo, o filho fica a ajudar a arrumá-las no cesto, empilhando-as como a blocos de construção, arquitetando edifícios periclitantes. A mãe regressa entretanto, respiração acelerada, acariciando o ventre arredondado, proeminente. Ouço uma voz a chamar: ‘Mãe?’ Não confere com a voz do filho, é uma voz alta, modulada, encorpada; a resposta célere da mãe desvanece dúvidas: ‘Sim, pai?’ Aquele filho tem então um irmão, que é o seu pai, e uma mãe, que sendo futura mãe do seu irmã ou irmã, é sua irmã, por simultaneamente chamar ‘pai’ ao seu, dele, pai. O futuro irmão ou irmã, será também seu tio ou tia, por ser irmão ou irmã do pai e da mãe. Seria mais simples esta complexa relação familiar se o pai tivesse um nome, chamemos-lhe Alberto, ficaria bem, e a mãe idem, Isaura, não iria mal Isaura. Mas Isaura adotou Alberto como ‘pai’ e Alberto adotou Isaura como ‘mãe’, quando ambos tiveram este filho. Recuperarão alguma vez o nome próprio? Quem o sabe? Valha-nos o deslumbramento daqueles olhos azuis, tão ávidos de descobrir o mundo, tão alheios a tais minudências inconsequentes.

28.8.17

Tonitru e fulgor

‘Depois das sete da tarde aconteceu um trovejar quase constante até às oito, onde o tonitru e o fulgor, o barulho e os relâmpagos, foram tão terríveis, que puseram a cidade inteira num estupor e muitos de nós em oração.’ A trovoada que se abateu esta tarde sobre o meu sossego, menos duradoura que a testemunhada por Sir Thomas Browne, ainda assim irrompeu como se ‘dois ou três canhões’ tivessem disparado aqui ao lado, e reincidissem, mesmo que o cheiro da chuva fresca não fosse como o que permanece no ar ‘depois da descarga de um canhão’. Menos bélica também, mas assaz tonitruante. Como se esta fosse a forma de o Universo me acordar do pasmo de semanas, marcar o tempo a ferros, me atirar para o lago arrefecido da realidade, me sacudir vigorosamente os ombros, me passar ordem de marcha. ‘A resistência é fútil’, parecia dizer-me na sua voz de maço em bigorna; mas resisti, hoje ainda resisti: por um dia, vou a meças. Para já, alardeou o tonitro e o fulgor e alheou-se, afastou-se, desistiu, ou assim parece; já eu, estou-me a aguentar. Doce ilusão esta de vencer o Universo no seu jogo de paciência.

Antes do crescente

Inevitável não olhar para esta lua antes do crescente e não ver nela uma mensagem, um sinal, uma exigência: ‘Para abraçares, primeiro coloca os braços em arco, assim, olha para mim, toma-me como modelo, segue-me o exemplo. Depois, abraça, abraça, abraça como se disso dependesse haver rumo para os viajantes, marés nos mares, plantas que apontam o céu, aves migratórias, poemas frescos, enamoramentos eternos, olhos marejados, declarações desabridas, cabelos de prata, quedas de impérios, alvorecer de civilizações. Como se sem o abraço mais não sejas que poeira atirada ao ar, no coração do vento. Como se só com ele, com esse abraço, ressuscites tu.’

27.8.17

Sumptuoso café

‘Expresso’, peço eu ao Senhor do outro lado do balcão, sem especificar que prefiro mais cheio do que curto — para perdurar quente mais tempo —, apesar do calor que já se sente logo ao amanhecer, ainda antes de cruzar a porta do lugar. A palavra ‘expresso’ é mais universal do que ‘café’ ou ‘coffee’, presta-se menos a interpretações ambíguas, diluídas, sensaboronas. Ou seja, até num Starbucks se consegue beber um razoável ‘expresso’ por contraste com um vagamente tolerável ‘coffee’. Mas o Senhor não é barista de Starbucks, daqueles que me perguntam o nome e o escrevem, reinventado, a marcador preto, num qualquer copo de papel onde o meu ‘expresso single shot’ se perde no vasto fundo cilíndrico como gota de água deitada à areia do deserto. O Senhor é dono do lugar e gosta do que vende. Fico ao balcão a aguardar, mas o Senhor indica-me, na língua lá dele, que me sente, que ele trará. É manhã cedo, sou cliente único, o café chega, em chávena de bom tamanho, sem o meu nome rebatizado, e uma colher, senhores, uma colher de belo aço dezoito dez, que cabe na chávena, que não é de chá, que não é de plástico, que não é de faia, de bambu, ou sequer de mogno. Uma colher de ‘expresso’, em suma, como as que Dona Isaura me entregava, quando me estreei nos prazeres da infusão de grão torrado, surgida, fumegante, das entranhas da locomotiva vermelha de marca Cimbalino. Um café de boa colheita, com ‘pedigree’, crescido sem ser ‘tall’, quente sem ser ‘hot’, amargo sem ser ‘bitter’. Sumptuoso café: assim, até considero mudar-me para aqui, Dona Aureliana que me perdoe a heresia.

25.8.17

Aos ombros do Adamastor

Há um horizonte como uma linha fina a dividir listras de azuis límpidos, há as ondas que rolam ainda timidamente, como se estivessem a aprender o ofício de ondular, há as gentes que giram aqui em volta numa dança aquática que em permanência renova o elenco, e há este vulto gigantesco à minha frente, costas de largura desmesurada, salpicadas de inumeráveis manchas castanhas, pele enrubescida do sol inclemente de dias passados, braços largos com formas de cilindros almofadados, fios de barba indomados, encharcados, gotejantes, voz despejando em torrente palavras num francês trovejante, e em cima dos ombros de arrombador, um corpo pequeno, uns braços cobertos com umas braçadeiras rosadas, uns cabelos repletos de caracóis caindo em cachos louros, um dedo que aponta o barco grande ao longe, e uma voz de papel de seda plena de excitação: ‘Papa, papa, regarde!’

24.8.17

Livre como um golfinho [momentaneamente]

O filho mais velho chapinha junto à rebentação, num daqueles lagos espontâneos, de água tão quente que parece provir de profundezas vulcânicas e onde as ondas perderam o ímpeto num bocejo de espuma branca, lá atrás num banco de areia. Ao mais novo, segura-o ao colo. Na cabeça dela, um boné preto por cima da face trigueira, sombreando o nariz fino, de elegante e suave arco descendente; no corpo um traje de banho completo, lilás, que a cobre do pescoço aos tornozelos, com largas manchas escuras e brilhantes da água salgada. Debaixo do chapéu, no areal, o marido observa, de não muito longe, vasto torso, cabelo rapado, calção preto pelo joelho. Chego a pensar que secar aquele traje sobre a pele talvez não seja a melhor ideia, mas o meu pragmatismo ocidental não é para ali chamado, menos ainda bem vindo. Volto ao meu volume de Machado de Assis. Quando levanto os olhos, três páginas adiante, vejo-a na água, mais ao largo, sozinha, ainda com o boné que — presumo — faz as vezes de véu. Estou longe dela, agora, vejo apenas os gestos, mal identifico a expressão. Mas de todos aqueles que os meus olhos abarcam, não vejo nem um, ninguém, a quem este jardim de água, onde ela salta, nada, flutua — mancha cor de vinho na tela azul do mar —, pareça fazer tão feliz.

23.8.17

Os cartazes do Senhor Chen

Recordemos que o Senhor Chen desapareceu no passado dia onze e que a minha ralação por ele não amainou, antes se robusteceu, com o gotejar dos dias. Ontem voltei propositadamente à avenida onde os cartazes com as duas fotos, uma de cara a três quartos, outra de corpo completo, e mais algumas linhas descritivas, estavam afixados aos postes de iluminação com fita gomada. De um poste recordava-me: neste, o cartaz estava rasgado. Será possível sentir um alívio inquieto? A história tem desfecho, o Senhor Chen terá sido encontrado, alguém teve o cuidado de retirar o cartaz, eu podia encerrar o tema, ainda que não lhe sabendo o fim. Atravessei a passadeira até outro poste de iluminação. Contornei-o, para confirmação: lá estava o cartaz inteiro e o desvanecer do meu descanso. E se o rasgão no anterior tivesse sido obra de um vandalismo inconsiderado? Intranquilo, regressei lá há minutos: hoje, também o segundo cartaz está reduzido a metade. O Senhor Chen, com Alzheimer e diabético, esteve em parte incerta durante onze dias. Nada mais sei dele: apenas que a cada passo sinto o golpear das arestas vivas daqueles cartazes.

22.8.17

O Conde ao lado

É sina ou já hábito: o Conde está novamente ao meu lado, sentado na cadeira de onde só se levanta para ir alumiar outro havano. Outros trarão para o areal uvas, bolachas, água ou champanhe e caviar. Não o Conde: vive de puros, fumiga como uma furna, fuma como se Cuba acabasse amanhã e com ela se fossem para a eternidade as mãos artísticas que enrolam os Cohibas. O Conde não será Abílio, nem Abranhos, menos ainda português. Mas parece digno herdeiro daqueloutro que, sendo ministro do mar, descobriu na Assembleia que Moçambique fica na costa oriental de África. Este Conde vira-se de costas para o mar, a leste do mundo, rendido ao cilindro de folhas de tabaco. Ao seu lado, a mulher fuma cigarros comuns, enquanto suporta o silêncio do marido, avançando intrepidamente por um livro com as dimensões de uma boa caixa humidificadora para cem charutos.

Muitos anos depois

El padre Rentería se acordaría muchos años después de la noche en que la dureza de su cama lo tuvo despierto y después lo obligó a salir. Fue la noche en que murió Miguel Páramo.

[Juan Rulfo, Pedro Páramo, 1955]

Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.

[Gabriel García Márquez, Cien Años de Soledad, 1967]

21.8.17

Olhos negros

É o lenço atado em turbante na cabeça que me faz lembrar alguma atriz dos anos doirados do cinema italiano. Vestida para a ocasião, vestido justo de finas riscas azuis, parece combinar perfeitamente com o ambiente do restaurante, mas não creio que ela repare nos quadros, nos candelabros, ou sequer no prato que tem à frente. Durante o jantar, todo o jantar, os dedos deslizam velozes e precisos pelo ecrã do telefone. No lado oposto da mesa, ele, madeixas louras em fundo castanho, fato de linho branco, come em silêncio distraído, olhar assestado no horizonte das paredes. Não acredito que chegue, sequer, a ver os grandes olhos negros dela, enquanto ali permanecerem.

Il mar è perfetto

-- Mamma, oggi il mar è perfetto -- anuncia, por detrás de mim, o petiz acabado de chegar, aos pais.
O jovem de óculos azuis, a condizer com os calções banho, sentado numa cadeira perto, em pose de adorador do sol, tem tatuado no braço, em cursivo: -- Thank you mother for my life.
Uns metros mais adiante, uma senhora de chapéu de palhinha levou a cadeira até dentro de água e assim permanece, pernas felizes, dedinhos dos pés dançantes.
O vizinho do meu lado esquerdo, exemplar queirosiano, Conde de Abranhos, recosta-se nos prazeres fumegantes de um havano.
Oggi il mar è perfetto, na verdade.