22.11.17

Não, não sou o único

Hoje, leitora, não sou o único na esplanada. Depois de me ter inteirado das novas sobre os dentinhos da pequena Soraia [cortesia de Dona Yara], sentei-me aqui numa das minhas mesas favoritas, aqueci as mãos na chávena, olhei em redor e detive-me na outra cliente em linha de vista, a três mesas de distância. Chamou-me a atenção por ser tão jovem, tão jovem é, estar a ler tão concentrada, e logo um livro RTP, dos originais, com mais décadas do que ela leva de existência, decerto. E não só lê para dentro, como para fora, com os lábios marcando o silêncio entre as palavras. Aqui não ouço, três mesas são muitas mesas, mas se estivesse mais perto, chegar-me-iam as frases aos ouvidos, talvez eu me encantasse também. De vez em quando pára e sorri, embevecida com o que acabou de ler. E eu viro a cabeça, e noto por detrás do meu ombro esquerdo, a duas mesas na diagonal, um casal a olhar para ela, com ar entre o espanto e a inveja, porque só se pode ter inveja de tal mergulho no mundo das palavras. É quando me disponho a espantar-me também e olhar o céu, admiravelmente azul depois do amanhecer cinzento. Não, não sou o único na esplanada, mas agora, leitora, sou o único a olhar o céu.

21.11.17

Alojamento local

Há poemas que entram no corpo através do cérebro,

mas que se alojam por detrás do esterno,

adjacentes aos orgãos vitais,

entre o coração e os pulmões.

É Hefesto que pergunta

Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e lhes perguntasse: «Que querem um do outro?» E se, perante o seu embaraço, de novo lhes perguntasse: «Porventura é isso que desejam, ficar no mesmo lugar, o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia sejam separados? Pois se assim o desejam, fundir-vos-ei e forjar-vos-ei numa mesma pessoa, de modo que de dois se tornem um só e, enquanto viverem, possam viver como uma só pessoa  e na vida depois da vida, no Hades, em vez de dois serem um, num corpo comum.»

Após ouvirem estas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas antes pensaria ter ouvido o que há muito desejava: sim, unir-se e confundir-se com o ser amado — e de dois ficarem um só.

O motivo é que a nossa natureza original assim era e nós éramos um todo — é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.

[Adaptado de O Banquete de Platão.]

Coração nas mãos

O que eu não faço pela leitora. Aqui na esplanada, onde sou o único utente, teclo sujeito à brisa matinal, dedos curvados sob o peso do frio emergente, ar fresco como sistema de arrefecimento sub quinze, recordando-me que sim, que estamos no final de novembro, apesar do azul escandaloso para esta altura do ano. Não que ao café falte freguesia: Dona Yara e Dona Aureliana, daqui ouço-lhes as vozes, desdobram-se servindo bebidas quentes e crescentes aquecidos a clientes com sobretudos e cachecóis. Mas os clientes não se atrevem ao ar livre. Eu, ainda convencido que estamos na primavera, estou sintonizado no sol, até no trajar, desafiando convenções e arrepios. Em breve terei que me render à evidência, a terra continua a sua elíptica viagem em torno do sol, e nada que eu faça ou pense, a fará estacar no espaço. O frio está a chegar, e é desvario inútil tentar detê-lo com esta teimosia de eterno veraneante. Embrulho a chávena entre os dedos, roubo todo o calor que posso e escrevo tão depressa quanto consigo esta minudência inconsequente. Escreve-se para aquecer o coração, como toda a gente sabe, mas desta vez, também para aquecer as mãos, o que é especialmente útil para quem anda com o primeiro nas segundas. É o caso.

20.11.17

Graça

Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti.

[Eucanaã Ferraz]

19.11.17

Revelar-se

Não há gesto de intimidade maior do que desnudar a mente.

Foco

Quando Faulkner morreu, encontraram-se pilhas de cartas, encomendas e manuscritos enviados por admiradores, que jamais havia aberto. Em boa verdade, apenas abria os envelopes enviados pelas editoras e estes com muitas precauções: fazia-lhe uma pequena ranhura e sacudia-os para ver se um cheque espreitava. Se assim não fosse, a carta tinha a espera eterna assegurada.

A força dos hábitos

Faulkner, soturno, apaixonado pelo silêncio, foi apenas cinco vezes ao teatro em toda a sua vida. Três vezes a Hamlet, e uma cada a Sono de uma noite de verão e Ben-Hur. O seu menosprezo por Freud manifestou-o desta forma: «Nunca o li. Sequer Shakespeare o leu. Duvido que Melville o tenha lido e tenho a certeza de que Moby Dick nunca o fez.»

Já ao Quixote, lia-o todos os anos.

18.11.17

Mania do destino

Ele estava de chegada do outro lado do Atlântico norte, ela de partida para o país de onde ele tinha vindo. Encontraram-se para almoçar ali, na mesa ao lado da minha. Tão compatíveis me pareceram, na idade, no aspecto, na língua, no modo de comer até. Ia começar a escrever mentalmente a história do futuro deles, argumento de filme, comédia romântica, talvez até trilogia, mas ah, não. Eu acabei, eles continuaram, mas num silêncio embaraçado, pontilhado por frases breves, como se, mais do que um encontro de sorte num país que não o de origem, o destino os tivesse obrigado a almoçar juntos. Guardo o argumento para outro par que não aquele. Ah, esta mania dos homens quererem escrever o destino, quando o destino tem a mania de se escrever sozinho.

A mão da Infanta

«Boas notícias, Madame! ... Trago a Sua Majestade paz e a Infanta.»

[Cardinal Mazarin a Ana de Áustria, em 1659, ao anunciar que havia conseguido a mão da Infanta Maria Teresa de Espanha para o filho daquela, Luís XIV.]

Duduk do norte

Jivan Gasparian JR, Duduk of the north

16.11.17

ourives

escolho palavras com as mãos

como se tacteasse diamantes na areia

jóias lapidadas em leito de oceanos

rios iridescentes nas faces lúcidas


sem ti o meu coração é obscuro

urge uma palavra tua para iluminá-lo

coração em jeito de prisma o meu

nele só de luz tua nascem arcos-íris

O caminho mais curto

Prokofiev estava doente e não pode comparecer à estreia da sua Primeira Sonata para Piano, tocada por outra pessoa. Ouviu pelo telefone.

[Notado por Anne Carson, que designou o facto de desapontamento musical. Discordo do desapontamento. Ao ouvir tocar pelo telefone, nada se interpôs entre o compositor e a sua música. O caminho mais curto entre ambos foi um fio de cobre.]

15.11.17

Os representantes

É curioso, e não creio que isto tenha sido observado até agora, que os países tenham escolhido para os representar, escritores que não se parecem demasiado com eles. Pensa-se, por exemplo, que Inglaterra poderia ter escolhido o Dr. Johnson como representante; mas não, Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é, digamos assim, o menos inglês dos escritores ingleses. O típico de Inglaterra é o understatement, ou seja é o dizer um pouco menos das coisas. Pelo contrário, Shakespeare tendia para a hipérbole na metáfora, e não nos surpreenderia nada que Shakespeare tivesse sido italiano ou judeu, por exemplo. Outro caso é o da Alemanha; um país admirável, tão facilmente fanático, escolhe precisamente um homem tolerante, que não é fanático, e a quem não importa demasiado o conceito de pátria; escolhe Goethe. Em França, não se escolheu um autor, mas há um apreço especial por Hugo. Hugo é estrangeiro em França; Hugo, com aquelas grandes decorações, com as vastas metáforas, não é típico de França. Outro caso ainda mais curioso é o de Espanha. Espanha poderia ter sido representada por Lope, por Calderón, por Quevedo. Mas não, Espanha está representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, mas é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes, nem os vícios espanhóis.

[De uma das conferências de Borges. Versão de x.]

14.11.17

Café de força dupla

São os dentes, diz Dona Yara, na fala lá dela que atravessou o equador, para justificar os seus olhos pesados de sono, o sorriso ausente, o gesto vivo, mas mais lento do que já o conheci. A pequena Soraia tem os dentes a irromper e Dona Yara as pálpebras a fechar. Tenho tanto sono, doutor, lamenta a Dona. Evidentemente não vou receitar o meu próprio remédio para noites curtas demais: um café de Dona Yara. Toda a gente sabe que um remédio não causa efeito em quem o prepara. Mas também não preciso receitar nada. É que a Dona volta, com o olhar de novo desperto e brilhante: Sabe que a menina faz amanhã um ano? Por acaso sei, que eu tomo nota destas coisas, mas isso não digo. Amanhã faço questão de lá estar de manhã bem cedo para dar os parabéns à mãe. Vou precisar de um café de força dupla, mas também quando é que não preciso?

13.11.17

Organização do mundo II

O profundo, visto em profundidade, é superfície.

[De uma constatação de Antonio Porchia.]

Organização do mundo

Há o real e o irreal.

Para lá do real e para lá do irreal há o profundo.

[De uma constatação de Henry de Montherlant.]

12.11.17

Para falar com os mortos

Para falar com os mortos
há que escolher palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como as suas mãos
reconheciam o pelo dos seus cães na escuridão

[Jorge Teillier, versão de x.]

Cantar de amor

Marionas, Francisco Guerau

Aroma da terra

Nos derradeiros tempos da sua vida, nada havia de que Rousseau gostasse mais do que deitar-se sobre  as ervas após as suas caminhadas. Mergulhava a cara no musgo ou na aveia a fim de sentir, dizia, o aroma da terra.

Aroma de flores

[...] e não sei se se deverá felicitar ou lamentar o homem sisudo e pouco sensível a quem o aroma de flores que a sua amada tem sobre o seio não faz jamais palpitar.

[Jean-Jacques Rousseau, Émile, Ou, De l'Education]

11.11.17

Intimo meo

E tu estavas dentro de mim, mais profunda do que o que em mim existe de mais íntimo, e mais elevada do que o que em mim existe de mais alto.

[Das Confissões de Santo Agostinho: Tu autem eras interior intimo meo et superior summo meo.]

10.11.17

Da arte de bem escanhoar a toda a navalha

Recebo uma carta a tinta azul cobalto, com a escrita inconfundível de J. Eustáquio de Andrada, professor emérito do Magdalen Cambridge, em Oxford, atualmente retirado nos abraços lânguidos da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

Homem com níveis mínimos de testosterona, quer-se barbado ou, pelo menos, apresentando pilosidade facial comprovadora da sua masculinidade, antónima de uma androginia tão galopante neste mundo novo quanto uma abertura de Wagner. É bem sabido que, ao longo das últimas décadas, a barba caiu tanto em desuso como a bengala, esse artefacto indispensável para um cavalheiro derimir afrontas, do meridiano ocular até ao meridiano de Aquiles. As faces glabras tornaram-se a regra, quando dantes não mais eram do que uma excepção apenas admitida ao clero, a pubescentes ou a eunucos. Onde estão os Hugos, Tolstóis ou Junqueiros hodiernos? Onde estão os cultores da antiga arte do pelo viçoso e vasto?  Felizmente, nos últimos anos, a tendência inverteu-se e já voltou a ser aceitável, bem visto até, um homem deixar que a lanugem se metamorfoseie em profícua e vistosa pilosidade. Mas o meu caro, cerrado nesse seu mundo de livros bafientos, desafia sempre a modernidade.

Dizem-me fontes normalmente bem informadas sobre o meu amigo, que aqui ao meu lado lacrimejam «Pauvre, pauvre J.», que o estimado está com cara pálida, borbulhenta, esfacelada, como a de um adolescente que surripiou pela primeira vez a lâmina ao pai. Isso, meu caro, deve-se, em primeiro lugar, em não seguir o exemplo imodesto deste seu amigo, deixando que a natureza siga o seu curso, que a face se coroe, orgulhosamente, de uma capilaridade vibrante. Depois, porque o seu barbeiro (nem quero admitir que o meu estimado recorra sequer a outra solução que não à disciplina diária de um bom barbeiro, de navalha afiada e toalhas quentes), merecia cem anos de calabouço, por grosseira e primária incompetência. Bem sei que o meu amigo prefere a navalha de Occam, mas essa há muito que está romba.

Dizem-me ainda as mesmas fontes que o olhar do meu estimado se parece cada vez mais com o dos peixes cozidos de que se alimenta quando não está a ruminar vegetais, e a textura da sua pele com a dos tubérculos mal cortados e destemperados com que os acompanha. Homem, você precisa de mudar de hábitos alimentares tanto quanto de escanhoador. As fontes anónimas («Pauvre, pauvre J.») que se afligem sempre que o meu estimado se desmorone por falta de conduto, suplicaram para que lhe endereçasse o convite para se apresentar amanhã ao almoço na casa d’Andrada, onde o prestimoso Reboredo se afadiga já em torno de uma bando de perdizes com tal desvelo que faria chorar de júbilo a Duquesa de Abrantes.

Não esqueça, one o’clock sharp. E antes disso, envio-lhe um barbeiro como deve ser aí a casa, com sharp razor, também, para não me aparecer cá de face quixotesca. Bem sei que admira Cervantes, mas não precisa de almejar ser Don Alonso Quijano.

Aceite um abraço deste que muito o considera e mille bisous da cintilante Orchidée, esta musa que replena de prata os meus dias e de ouro as minhas noites.


J. E. de Andrada.

8.11.17

Sem planeamento

Enquanto aguardo no balcão que Dona Aldina me entregue o café, ouço ao meu lado, não há como não ouvir, leitora, que o ente que nascerá daqui a sete meses para este imenso e belo mundo, Não foi planeado, mas surgiu na melhor altura, afirma-o a lucente futura mamã à amiga rejubilante. O saber não ocupa lugar, diz o povo e eu rubrico. E, portanto, este excesso de informação também não ocupará. O que é preciso é que tudo corra bem, pois não é verdade? Há-de correr, há-de correr, que neste retângulo o que as gentes melhor sabem fazer — é obra perfeita, mesmo que sem planeamento.

7.11.17

ponto de partida

Henri-Edmond Cross, Ilhas douradas, 1892
se tu fores uma ilha
o meu ponto de chegada
o meu ponto de partida
é soçobrar em ti

Hora a hora

Dali do canto, lugar estratégico de controlo, quando eu entro, Dona Aureliana ordena, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Aldina, tire um café cheio para o doutor, sem açúcar, mas com colher. E depois para mim: Acertei, pois não? Acertou, pois claro Dona Aureliana, no alvo. Estou cada vez melhor, vangloria-se, rasgando o sorriso alvíssimo. Recordo um provérbio que li, pela primeira vez, há muitos anos: «Hora a hora, Deus melhora.» Eu, que não tenho as certezas da Dona, nem a persistência de Deus, também não tomo como certo que seja agora melhor do que já fui. Mas posso dizer que não me lembro de ter sido alguma vez melhor do que sou. Abençoados os esquecidos, porque para eles o futuro é sempre uma folha em branco. É batota, mas é uma batota piedosa. E talvez Deus seja simplesmente esquecido: isso explicaria muita coisa.

5.11.17

pastoral da dádiva

Camille Pissarro, Manhã de outono, 1892
por entre as folhas do outono
há bandos de pássaros irrequietos
há sopros de vento enleados
há perfumes destilados de orvalhos
há cores invocadas por alquimistas
há fragmentos de céu unidos com luz
há reflexos de um olhar no rio
há palavras que me deslumbram
há dias que flutuam como navios
há tudo o que transbordo para te dizer
há um coração a demandar por ti
é o meu
e é teu

Decerto blogger

Na mesa luminosa onde eu me costumo sentar, junto à janela [e eu tive que me recolher à do canto], a ler um livro de volume desmesurado, caneta de sublinhar na mão, a erguer o telefone da mesa, a fotografar a página, a teclar velozmente em seguida, olhos a dez dedos do ecrã: não há dúvidas, só pode ser blogger.

Quantas máscaras usamos

Lisbeth Salander ficou, para mim, eternizada na cara de Noomi Rapace. Não é caso único na identificação que faço entre ator e personagem: Clarice Starling nunca será outra que Jodie Foster nem Gandalf terá face diferente da de Ian McKellen. Mas a associação, no caso da primeira, é biunívoca, isto é, Lisbeth Salander transporta-se também para as outras personagens interpretadas por Rapace, não por incapacidade desta para despir a pele vestida na trilogia Millenium [na primeira versão em cinema, sueca], mas pela força tão raiva da anti-heroína de Stieg Larsson, que lhe aflora o olhar a cada nova figura que encarna. How many masks wear we, and undermasks, questiona Pessoa. Por debaixo das sete máscaras de Karen Settman, encontro a máscara de Lisbeth Salander, como se Rapace a convocasse nas horas diamantinas. E nós, que máscaras convocamos, em cada uma das nossas horas?

3.11.17

O céu e a cabeça

Para quem gosta de escrever numa esplanada, este prenúncio de dilúvio coloca uma dúvida insuperável: permanecer aqui em atitude de desafio e arriscar-me a que o dispositivo das teclas deite chispas quando a água o afogar, ou mesmo que feneça apenas com um fumo ténue e um silvo arrepiante, ou bater em incorajosa e estratégica retirada, levando a cabeça e o dispositivo para longe do céu cadente? Ay, there's the rub, diria Hamlet. Caso amanhã não surjam prosas neste espaço, a leitora generosa que dedique um décimo de segundo de seu pensamento ao corajoso dispositivo das teclas, que resistiu até ao derradeiro instante enquanto este escriba se alongava no dilema, escrevinhando uma minudência que seria inconsequente se ele, o escriba, não se armasse em funambulista das águas livres.

2.11.17

Voar

A principal diferença entre os homens e os anjos é que a cada dia os homens têm que aprender a voar.

1.11.17

Fragrância do outono

Foi naquela altura que o silêncio se fez maior
E mais longo, a noite mais arredondada,
A fragrância do outono mais quente,
Mais próxima e mais forte.

[De On the Road Home, de Wallace Stevens]

Rainha de Sabá

Como a rainha de Sabá, a chuva faz-se anteceder por mestres de cerimónias e danças exuberantes. Umas pinceladas de aguarela cinzenta no céu, um redemoinho de folhas à minha frente, um vento súbito, são sinais de chegada da caravana real. Prevejo-a demonstradora de poderio imperial, caprichosa, afirmativa. E ainda que republicano convicto, curvo-me perante sua majestade. Mesmo preferindo ouro do sol, céus azuis, temperaturas idílicas, rendido à evidência da sua falta, sou capaz de a ir receber de braços tão abertos quanto a cabeça estará descoberta. Por esta vez, até considero perdoar-lhe chegar com quatro meses de atraso.

[Dizia Tia Conceição caso surgissem algumas gotas de chuva no início do mês oito: Primeiro de agosto, primeiro de inverno. Ah, mas o que era na altura um lamento, teria sido este ano uma benção.]

Tordesilhas revisitado

Um dia, dividimos o universo entre os dois,
e eu dei-te a minha parte.

30.10.17

Le Rêve d'Héraclite

Eu, que tantos homens fui, nunca fui aquele em cujo abraço sonha Matilde Urbach.

[D'après Borges.]

Da modernidade

Ao meu lado, o automóvel da novíssima plataforma, creio que é assim que se diz, de carros partilhados, é rebocado por uma viatura da empresa municipal de estacionamento. E se na frase anterior consigo juntar palavras da modernidade, plataforma, partilha, e da antiguidade, empresa, municipal, estacionamento, e elas convivem sem conflito, no mundo vivido, que não escrito, quando a primeira tem um embate com a segunda, a segunda ganha por knock-out arrasador: alguém terá agora que ir retirar a viatura de um depósito de carros rebocados, e pagar a respetiva multa. O problema, lá está, são novamente palavras da antiguidade, depósito, carros, rebocados, multa, sempre no caminho triunfante da modernidade.

29.10.17

Homem ocioso e curioso

Para um homem ocioso e curioso, diz Borges, a enciclopédia pode ser o mais grato dos géneros literários. Curiosidade não é carência minha, mas já de ócio sofro de uma escassez árida. Na grande balança dos dias poderia colocar, de um lado, um ócio que generosamente apelidasse de virtuoso e do outro, vinte ou trinta cartapácios pejados de cultíssimas vinhetas: uma enciclopédia. Grato, contudo, ficaria eu de não ter que a ler. Borges que me perdoe desta vez, mas fico-me pela curiosidade. O ócio pode esperar.

Exuberância

Não há moderação nos santos, nem nos poetas, apenas exuberância, diz Anne Sexton. Assim, descubro que exuberância é antónimo de moderação e que os santos e os poetas partilham idêntica essência de vida. Não creio que a exuberância, por si, gere santos ou poetas, mas um exuberante tem uma vantagem de partida face a um moderado e se não der um bom santo, talvez se consiga tornar, ao menos, num sofrível poeta.

Crocodilos

Quando chegar ao café, daqui a pouco, já ele lá estará, na mesa oposta à janela, com um sumo de laranja e um croissant misto à frente, cabelo meticulosamente abrilhantinado, óculos retangulares de metal cintilante, uma camisa com logótipo de crocodilo, umas calças com logótipo de crocodilo e uns sapatos de ténis com logótipo de crocodilo. O crocodilo ubíquo é, creio, um alerta, como se dissesse: Cuidado comigo, que eu sou imprevisível.

Tintinnabuli

Se a banda sonora evoca um ambiente semelhante, digamos, ao de Fratres, de Pärt, eu sinto-me como me sentiria a ouvir o tintinnabuli de tal peça. Claro que isto me causa uma dúvida insolúvel: sinto-me assim porque é aquele tipo de música que convoca tal efeito, ou porque é a memória do sentimento já antes causado pelo tintinnabuli que ressurge quando a oiço?

28.10.17

tudo isto: sinais

o sol poente que se oculta no futuro
a metade da lua que ascende ao céu
um verso copiado de um livro relido
a flor que renasce num dia de outono
os fios de palavras em que me salvo
tudo isto, não tendo o teu nome
são sinais de ti: melhor, tudo isto, és tu

Influência retroativa

Encontro um quarteto de Glass num de Haydn, pelo menos umas frases que admirava no de Glass. Na minha perspetiva, que admito não ser consensual, Glass influenciou Haydn: se eu não tivesse ouvido aquele quarteto de Glass primeiro, nunca notaria assim o dito fraseado em Haydn. Mas tenho a certeza de que Haydn se deixou influenciar com a melhor das intenções, e não posso negar a harmonia do resultado final.

27.10.17

Andante

Quando o primeiro violino atacou as notas de abertura do Andante, ela atacou, que eu bem vi, a mão dele, entrecruzou em gancho os dedos terminados em rubro nos dele, puxou-o para si, staccato, Andante era o andamento, mas dela não se arredaria ele.

Falar sem saber

Estes livros ao meu lado que tanto dizem de mim, nada sabem de mim, afinal.

26.10.17

Ilusão de ótica


Não fosse a cor de titânio do mar, e eu saber que titânio não arde assim, ontem diria que as nuvens emergentes do horizonte pareciam o fumo de um oceano incendiado.

Um mandato

É como se na génese da eficácia do homem que maneja a pá estivesse um mandato: o mandato para lacrar o rol que é resultado do labor inexorável do tempo. Como se ele soubesse, ou intuísse, que a sua missão é, na verdade, reconfortar os que assistem em silêncio aos seus gestos inequívocos: deles, a seu tempo, cuidará com igual parcimónia, destreza, precisão. Um dia, pensa, serei eu a fechar a contracapa do vosso livro. E a sua minúcia dá a todos, creio, a estranha tranquilidade que advém da contemplação do inevitável.

25.10.17

Da vida na ampulheta

Inexorável: como o tempo e a areia.

Homilia

Não somos anjos, graças a Deus.

24.10.17

Somos uma soma

Mais não somos do que uma soma cujo resultado jamais se conhecerá. A soma do que recordamos de nós, do que os outros recordam de nós, do que inferem dos trilhos que deixamos, em primeira, segunda ou qualquer outra ordem de intermediação. Ora, como recolher, fixar, somar tais fragmentos, esboroados pela erosão do olvido? Esse é o nosso drama: não temos total. Essa é a nossa salvação: a conta nunca está encerrada.

Samsara

Quantas vidas terão vivido juntos para se conhecerem desde sempre?

22.10.17

pescadora

os meus olhos
são dois peixes

na tua rede

Fragmentos

Abdul diz a Victoria: Toda a gente conhece Rumi. Victoria, imperatriz do maior império da Terra, não conhece: evidentemente, sendo senhora de tanta gente, não é toda a gente.

*

Quando os sicários do rei chegam para despojar o cardeal das suas possessões terrenas, Tomás pensa que deveria escrever em cada um dos itens inventariados: Este homem não tem preço.


*


O céu flutua no mar.

A real companhia de Shakespeare

Talvez todo o mundo seja um palco, homens e mulheres meros atores. Talvez representar Shakespeare esteja reservado aos melhores de entre estes, ou talvez representar Shakespeare os torne os melhores entre estes. Ou talvez não exista sequer relação causa-efeito, exista apenas correlação que, como se sabe, não é causalidade. Mas os meus atores preferidos, os melhores, no palco que está para lá do palco do quotidiano, foram todos companheiros da real companhia de Shakespeare. Eu, que sou céptico face a coincidências, sou especialmente descrente quanto a esta. Talvez representar Shakespeare obrigue a entender o mundo pelos olhos dele. Talvez transforme o que representa no escritor da peça. O mundo é o palco, e o palco de Shakespeare, o mundo. Os atores, meros homens e mulheres, afinal: a marca dos melhores, entre eles.

20.10.17

O semáforo e o polegar

Na fila longa do semáforo da avenida, acontece-me olhar para o lado e reparar então que o condutor gesticula animadamente, que levanta o polegar direito em jeito de saudação, que mostra os dentes alvos, num enorme sorriso, por entre a barba cerrada, que todo este entusiasmo a mim é dirigido, a mim que percorro então rapidamente a galeria de retratos que guardo na memória e não encontro aquela cara, segunda volta e nada. São vinte e uma horas de uma sexta-feira longa de uma longuíssima semana, faço o que julgo ser o meu melhor sorriso, levanto os meus dois melhores polegares do volante, posso fazê-lo porque estou parado, se alguém me visse do exterior pareceria decerto Mr. Bean transplantado para o centro da cidade, o outro condutor redobra o entusiasmo no cumprimento, o semáforo abre, ele arranca, ainda de polegar levantado, eu retorno os polegares onde pertencem, ao volante, polegares que justamente, têm a forma de ponto de interrogação: que fiz eu para merecer isto?

Muito bom

Choco? É peixe. Muito bom, afiança Dona Lucinha ao turista curioso, arrastando a fala como ele, que veio de para lá do Reno, em busca deste paraíso gastronómico do sul.

O melhor dia da semana

Hoje é o melhor dia da semana, anuncia Dona Yara, com aquela fala lá dela que atravessou o equador, enquanto tira para mim o café mais hercúleo do mundo, que eu bem preciso depois desta semana sem tréguas. Mas, sempre vai acrescentando, não sei porque dona de casa acha que sexta é dia bom. E eu: Mas Dona Yara, amanhã não trabalha aqui, não é? E ela: Ah doutor, não trabalho aqui, mas trabalho em casa. É que mulher e mãe não tem folga, mas é nunca. E remata: Mulher é empregada de serviço vinte e quatro horas sem receber salário. E abre aquele sorriso rasgado lá dela, que eu bem lhe vi nos olhos a alegria de ser sexta, e amanhã poder estar o dia todo com a pequena Soraia. E agora que penso nisso, a pequena Soraia está quase a fazer um ano: foi em novembro que Dona Aureliana se tornou tia, foi ela que me disse. Já viu leitora, como o tempo passa num instante? É por isso que não vamos para novos, essa é que é essa.

19.10.17

O beijo, em tempo real

O mancebo sentado no sofá do espaço público interrompe o seu teclar desenfreado e elevando o ecrã do portátil à altura dos lábios, apõe-lhe um breve beijo.

18.10.17

Palavra do Senhor, graças a Deus

E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso.
Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto.

[Levítico 16]

17.10.17

O lançamento dos dados

Enquanto estava em dúvida, foi-lhe dado um sinal. De repente, surgiu um ser de uma estatura e beleza maravilhosas que, sentado, tocava uma flauta de cana. Quando, não só os pastores se reuniram para ouvi-lo, mas também muitos dos soldados deixaram os seus postos e, entre eles, alguns trompetistas, a aparição tirou a trompeta a um, correu para o rio e fez soar uma nota guerreira, poderosa, avançado para a margem oposta. Então César disse: Tomemos o caminho que os deuses indicam. Os dados estão lançados.

[Adaptado por x. de De vita Caesarum, de Gaius Suetonius Tranquillus.]

16.10.17

Duas pequenas árvores

HandelLascia ch'io pianga

Eles são para sempre duas pequenas árvores
Isoladas numa planície leve
Nunca mais se separarão.

[Paul Éluard]

A psicologia da exceção

O calor é psicológico, tudo é psicológico, diz Dona Aureliana, com aquele fala lá dela que atravessou o equador, ao freguês ao meu lado, enquanto dá instruções detalhadas à sua nova estagiária sobre como tirar o café para mim. A estagiária, que será Dona assim que eu saiba o nome dela, entrega-me o café, que eu trago para a esplanada e bebo de um trago. Mas ah, não é o café da Dona, não tem aquela subtil densidade, aquele travo de terras onde o calor é tão absurdo que só pode ser psicológico, isso garanto à leitora. Pode ser uma minudência, mas não é inconsequente. Tudo pode ser psicológico, mas no tudo, o café arranjou forma de ser exceção.

A ubiquidade do cardeal

O cardeal Wolsey nunca vive numa realidade única, mas numa malha, numa sombra cambiante, de possibilidades mutuamente exclusivas, coletivamente exaustivas.

15.10.17

A flor de Coleridge

Se um homem pudesse passar pelo Paraíso num sonho, se lhe fosse dada uma flor como prova de que a sua alma lá estivera, e se encontrasse essa flor na mão ao despertar -- Ah, então?

[De Anima Poetae, de Coleridge.]

encontrasse eu o teu perfume na minha mão
ah, então?

Três mil e trezentos

Revendo qualquer um dos textos aqui publicados, consigo reconstruir as circunstâncias em que foi escrito e porque é que foi publicado, confiando que a minha memória não se engana e não me engana muito se lhe apresentar prova factual. Já o espaço entre os textos é como os furos de uma peneira, fecha os olhos ao escoar do tempo, prendendo apenas os grãos de vida maiores, deixando que os outros se esvaiam como ar de um balão mortalmente ferido. Posso congratular-me de consegui-lo três mil e trezentas vezes ou envergonhar-me de não o conseguir as restantes, que são em número infinito. Como acredito que uma das panaceias do infinito é diluir a culpa percebida, demoro-me uns segundos na íntima satisfação deste número redondo mas rapidamente caio em mim quando reconheço que se apenas vivi o que a minha memória acredita que vivi, caramba, tão pouco que vivi. Que parcimoniosa esta memória minha, que avara até. Eu, que julgava tanto ter vivido, afinal tenho as memórias, ou seja o capital vivido, aferrolhadas num cofre do qual a chave foi perdida, quiçá atirada de uma escarpa. Resta-me habituar-me à memória finita, ou tornar-me arrombador. Como não desisto facilmente, creio que vou começar por experimentar a segunda.

O milagre do cardeal

O cardeal Wolsey aceita mal que as propriedades terrenas não se transformem em numerário com a mesma velocidade com que ele transforma uma hóstia no corpo de Cristo.

14.10.17

é verdade

é verdade que sou e respiro e esboroo a terra e desafio o sol
é verdade que articulo palavras e outros as replicam e as contestam
é verdade que me movo irrequieto e onde paro dou o nome de casa
é verdade que deixo pegadas e sobre estas esvoaçam fiapos de mim

é verdade que este de que falo e assim defino sou eu
é verdade que este eu sem ti é só um vulto ou ninguém

Pedro e o lobo

Comovente é a ingenuidade dos futuros passados quando cotejados com os futuros presentes.

Satisfação incerta

Conhecido ou desconhecido? Tendo virada há pouco a última página do livro derradeiro, assalta-me a dúvida quanto ao próximo. Não que mos faltem para ler, há minutos acabei de comprar outro, mas é de coisas cá minhas, devoção que é obrigação, é para ir compulsando, quando o relógio indicar a hora certa para ele. Mas há aquele livro que me acompanha, aquele com que vou sofrendo com quem lá vive, aquele que serve para odiar o escritor quando discordo profundamente dele, ou admirar-me com a inteligência humana, seus artifícios infindos, seus labirintos sem fios: esse, está por decidir. De um autor que me fascina tenho ainda uns dez livros por ler, assim a sorte me proteja, mesmo na ausência da audácia para enfrentar um deles que tem mil e quinhentas páginas. Muitos dias de leitura. Mas é caminho trilhado: será satisfação garantida, nunca me falha. Dele direi, qualquer que seja o tomo eleito, tenho a certeza, caramba, nunca li livro melhor na vida. Será mentira, mas piedosa. Mentirei a mim próprio, mas tão convictamente que até eu acreditarei em mim. Por outro lado, correndo o risco de desesperar com o autor e o livro, e comigo por tê-lo escolhido para me acompanhar durante três ou quatros dias, tenho dois em vista, que são de satisfação incerta. Amanhã, será a minha cabeça que pagará pela escolha, direi, onde estava eu com a cabeça quando escolhi isto? E depois lembrar-me-ei mais dos livros que me irritaram do que daqueles em que naveguei em mares tranquilos. E a cabeça também sabe disto. A minha sorte é a minha cabeça conhecer-me melhor do que eu a mim próprio.

13.10.17

O espaço em branco

Mesmo num dia em que consigo miraculosamente que todas as peças encaixem, fica o espaço em branco para uma peça que falta.

Fragmentos

O homem que ontem, antes da meia noite, dançava na rua consigo próprio, a subir a calçada, dava um passo, parava, rodava sobre si, periclitante, pé hesitante, corpo desafiante das leis da gravidade. Estaquei a olhar, à espera de ter que fazer de samaritano, não sei se bom, de o levar ao hospital de emergência caso a dança etílica o fizesse voar sobre os paralepípedos. Chegou ao topo da calçada, eu respirei de alívio e voltei ao carro, estacionado propositadamente longe. E tanto mundo que se vê numa rua à noite. A rua, sendo uma casca de noz como a de Hamlet, é também um universo, como o de Borges, que cita Shakespeare, espelhando-o.
*
Ishiguro não leu Vinicius, quero crer. A escrita de Ishiguro é a de um ilusionista que mostra com uma mão e esconde com a outra. Não encontro beleza no ilusionismo, contudo. E, lá está, parafraseando Vinicius, o comité sueco que me perdoe, mas beleza é fundamental.
*
Sentado na esplanada, enquanto escrevo estas palavras, constato que o café, ainda que quente, esfriou mais depressa do que há uma semana. O outono surge-me de dentro de uma chávena. Já o frio surge-me de dentro de mim e nem o café outonal me vale.

11.10.17

Perdido

Daqui de onde os vejo, que é bem perto, leitora, olho para a cara dele, para o sorriso garoto, para o olhar dirigido, para os gestos de desenhador do ar, ouço, porque não tenho como não ouvir, as palavras que tudo têm de exatas, nada de românticas, mas, ah, a expressão não engana, é transparente como o ar da manhã, ele não sabe, se sabe não admite, não sei se ela sabe, e se souber não pode admitir, que ele está perdido por ela.

10.10.17

A espera

Chegou o outono e viu os dias esmaecerem, as folhas garimparem ouro, o céu pintar-se de esquecimento, o mar entrançar-se com o vento, a boca da terra esboroar-se de sede, o ar clarear-se de orvalho, os poetas enlouquecerem de saudade, as luas ocultarem-se numa alquimia de prata, os homens dançando em remoinhos súbitos, os cavalos com olhos de alvorada, as sementes do frio brotando do chão, o sangue cristalizar na alma. Tudo isto viu, enquanto a esperava.

9.10.17

Vamos então tu e eu

Guido Molinari, Paralèles Bleues
Vamos então, tu e eu,
quando a noite se abre contra o céu.

[De The Love Song of J. Alfred Prufrock, de T. S. Eliot.]

Audiências e um paradoxo

Não são as audiências grandes que me assustam, nem as pequenas sequer. Assusta-me é a força necessária para suster o estampido das palavras que galopam para sair.

8.10.17

Um espião e um detetive

Sentado em duas esplanadas em duas terras vejo, em ambas as vezes, o mesmo par dirigir-se para a porta do local onde estou. No penúltimo livro que li desaparece um espião e no que leio atualmente aparece um detetive. Poderia ser miragem influenciada pelas leituras correntes. Afinal, ambos os livros são oníricos, as coincidências abundam, os mistérios pululam, fragmentários, enevoados, difusos. Mas não, recordo com demasiada precisão o avistamento na tarde luminosa para ser fruto de sonho. Revejo o meu historial recente, para me assegurar se haverá razão para ser seguido: creio que não. Resta-me o cálculo das probabilidades de tal evento. Contudo, se bem as conheço, às probabilidades, manter-se-ão mudas, mesmo sobre o mais intenso interrogatório. Inicio a semana com um mistério, para além do que está nas páginas que me ocuparam horas de sombra destes dias. A explicação pode ser simples, até. Mas, pelo sim pelo não, preparo-me para, amanhã, oferecer dois cafés, noutra esplanada, noutra terra, às minhas gentis sombras.

7.10.17

Narrador duvidoso

Levantando-se o calor do dia, desvela-se a brisa da noite. O dia que esteve, justifica a noite que está. O narrador duvidoso que leio agora, leva-me a duvidar do narrador confiável que li antes. O confiável justifica o duvidoso. Maravilho-me com os pequenos contrastes, onde encontro refúgio dos grandes.

Imersão total

Aprende-se a nadar quando se percebe que o corpo deve estar submerso, totalmente imerso, para eliminar a resistência mista da água e do ar, quando fluímos na água como ela em torno de nós. Um nadador excelente não perturba a água. Para aguentar o calor de verono, esta estação que prolonga o verão outono dentro, decidi recorrer aos meus conhecimentos de natação: vou mergulhar no calor, fundir-me nele, literalmente até, talvez. Nadar no calor, em imersão total. Se eu não perturbar o calor, talvez ele não me perturbe a mim. É a coabitação possível e pragmática. Se resultar, eu explico como se faz.

6.10.17

O cliente que pergunta

Ao cliente que pergunta, Dona Aureliana aconselha o pão de deus com manteiga, Porque a manteiga aqui não engorda, viu? diz ela com aquela fala lá dela que atravessou o equador. O cliente tanto viu, que aprovou e provou. Afinal de contas, se não depositarmos a esperança, a fé, no pão que é de deus, onde mais a aplicaremos? Este pensamento não é da Dona, é meu, mas se lho disser, tenho a certeza de que ela o adota. Embora, no que se refere ao capítulo do otimismo, até o omnipotente teria uma ou duas coisas a aprender com Aureliana, já para não falar neste que escreve à leitora, que come o pão de deus sim, mas deixa a manteiga para clientes mais crédulos, digamos.

Extemporâneo

As laranjas estão ainda demasiado pequenas para que a sua sombra chegue a perturbar, de alguma forma, o calor extemporâneo deste outono.

5.10.17

acima do horizonte

olho 
para a lua 
com esperança 
que a olhes também
[ao mesmo tempo]
e nela refletidos
veja os teus 
olhos

As mentes mais retorcidas

O padre Campos apenas lê histórias de terror. Os seus olhos azuis e pequenos brilham enquanto fala torrencialmente dos seus autores prediletos, Poe, Lovecraft, King. Pergunto-lhe o porquê de tão peculiar opção. ‘Para um homem de fé,’ diz-me, ‘a melhor forma de estar próximo de Deus é aproximar-se do mal, acercar-se do inimigo. Sobre Deus aprende-se depressa, bastam poucos anos de estudo de teologia. A bondade não tem disfarces, e precisamente porque é bondade, não se encontra engano no seu seio, nela não se encontram subterfúgios. É imutável, simples e é fácil conhecê-la, mas também ser ameaçada. Para defendê-la temos que estudar o caráter do que a ameaça, os seus meandros, a sua imaginação. O mal é ardiloso. Nós, na nossa comunidade, não temos muitas ocasiões de entrar em contacto com o que é malvado, imaginativo. É através dos livros que escrevem as mentes mais retorcidas, as penas mais venenosas, que nos familiarizamos com ele.’ Pega no meu livro de Javier Marías, agita-mo frente aos olhos e diz-me: ‘No mês inteiro que você leva a ler isto, que não anda nem para trás nem para a frente, e quando anda para a frente, recua, leio eu quatro Kings e dois Koontz.’ Face a que eu acabei hoje de ler o livro que comprei quando saiu, há um mês, o padre tem a razão divina consigo, eu aceito. Ele sorri, levanta as sobrancelhas e faz um olhar à Jack Torrance. Sinto um arrepio subir pela nuca e mudo de conversa: ‘Que me diz dos trinta e dois graus hoje, em pleno outono, já viu isto?’

3.10.17

a ternura que sucede

talvez ninguém saiba
se a ternura é causa
ou consequência
de um amor

se o antecede
ou antes sucede

porque mesmo antecedendo
sucede sempre
antecede-se

a ternura é o amor
em estado flagrante

Tom deixou este mundo por um bocado

Disse ele: «Vou em queda livre para o nada / Deixar este mundo por um bocado.» E foi o que fez, ausentou-se. Talvez Tom acreditasse no Salmo 23, que entrelaça nas palavras da sua queda livre: «Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.» Faz parte, é condição original, de se ser humano, o medo da irrelevância. De todos os medos, o mais poderoso. Enquanto se ausenta deste mundo diria que, quanto a esse medo, Tom pode seguir o instinto, e o salmo. Não é a morte que lhe fará sombra. Imortais são os que, quando deixam a vida, o fazem apenas por um bocado.

[Thomas Petty, 1950-2017. A canção referida é Free Fallin'.]

2.10.17

Saída da secção

Não sei se encontrarei o juiz daqui a pouco, e se não o encontrar nem tão cedo saberei se ficou contente com os resultados, mas faço questão de saber, mais tarde se não mais cedo. Encontrámo-nos ontem à saída da secção de voto, ia sozinho, a mulher, coitada, aquilo das costas, não a deixa dormir, mas o juiz não falharia umas eleições nem que tivesse que vir de barco a remos nalgum dia de inundação. Saio com ele, digo, e andamos em linha reta, a descer a alameda da escola onde votamos, em direção ao portão, e eis que o juiz começa a desviar-se do caminho a direito, que é coisa inaudita para um juiz, convenhamos, até que se encontra mesmo junto à senhora das sondagens, abranda o passo, eu ao seu lado, e acontece o pedido inevitável, O senhor não quer fazer aqui uma sondagenzinha, votar tal e qual como votou lá dentro? E o juiz não se faz de delongas, vota, e acredito que tenha votado tal e qual votou lá, dentro, é jubilado, mas juiz é-se para toda a vida, já mo disse. O dia está de sol, e há, noto então, mais duas estações de sondagens, que as televisões, tal como os guarda-redes, sabem que o segredo está na antecipação. E o juiz em todas pára, vota, tal e qual votou lá dentro, contando com o voto real, a sério, vota quatro vezes. Eu ia lá perder a sondagenzinha, diz-me, com aquela voz pausada lá dele, tão ponderada como o seu passo quando o vejo passar para as comprar matinais com a mulher, coitada, aquilo das costas. Quando o vir, já sei que me vai dizer, Já viu? Voltaram a falhar, falham sempre, uma pessoa bem se esforça para que aquilo saia bem, mas baralham sempre tudo, trapalhões. E saberá dizer-me quais as sondagens que falharam redondamente, não apenas para a nossa autarquia, a minha e dele, mas nas outras. Nas eleições, o juiz gosta é das sondagens, mesmo com as trapalhadas dos sondadores, ou talvez por causa delas. É que ele, sábio, ponderado como a sua voz, sabe que, ao menos essas, ao contrário das outras que se vão seguir, são temporárias, finitas, não fazem dano, corrigem-se depressa. As outras, ah, ele também sabe, não têm correção à vista.

1.10.17

Da noção de pleonasmo

Acabei de ver, com estes meus olhos céticos, que não tenho outros, um candidato culpar os eleitores pela sua derrota.

Mar d'outubro