15.8.17

O caçador

Perla-lhe o suor a cabeça lisa e brilhante, escanhoada, ou já mesmo naturalmente glabra, que a idade a isso o habilita. Subiu até cá ao topo, como eu, mas mais carregado, que ando leve. Faço as contas mentalmente, que o ar raro ainda mo permite: entre o binóculo, o tripé, a câmara, e a desmesurada lente transporta com ele um valor superior ao do carro que o trouxe até mais não poder. A caça do amor é de altanaria, disse mestre Vicente. Só por amor à altanaria se caça assim, digo eu.

Sem esforço

Sem esforço, as águias dançam, acima de mim, de asas enfunadas, levadas pelas correntes do céu, como galeotas de corso.
Abaixo delas, sem esforço, apenas consigo mover os globos oculares para segui-las. Por vezes, mudo uma página, o que me exige esforço no polegar. Infinitamente mais elegantes as águias do que eu: trocava esta posição horizontal e as frases belas que leio por tal arte de voar à bolina. Pressinto-lhes a indiferença com que me olham, de cima, a mim, que a única proeza que almejo alcançar é observá-las enquanto, magníficas, navegam o azul lazúli dos ares.

14.8.17

O verão de Mr. Gordon (Epílogo)

«Imaginar que é possível reescrever o passado, é um desvario inútil», afirma Mr. Gordon, para logo complementar: «Mas quem de nós nunca sentiu a vontade de poder fazê-lo, ao menos uma vez?» Desenha uma linha reta na mesa, com o dedo. «Tive uma vida preenchida, exerci a profissão que escolhi, mas muitas vezes pensei: e se eu não tivesse tido que ficar e Rosa que partir? Que seríamos nós, agora?»

Gordon estava abalado mas não tinha nada partido. Rosa amparou-o até ao carro, levou-o à Covilhã, às urgências hospitalares, esperou com ele, conversaram como conhecidos de longa data — não mais do que isso —, deixou-o em casa, recusou o convite para um almoço tardio. «Tough», sorri Gordon. Mas ao entardecer ainda lhe telefonou, para saber dele. No domingo, ele sentia-se suficientemente bem para ousar conduzir e telefonou a convidá-la para jantar. Sentia-se, disse-lhe, em dívida para com ela, uma dívida de grandeza tal que nem mil jantares chegariam para pagar um por cento. A dívida fazia-o sentir como se andasse descalço pelas rochas, confessou-lhe. Do outro lado, ouviu uma gargalhada: «Para a próxima, vai descalço. Não tombarás de certeza.»

«Amanhã vou para Berlim», remata Gordon, examinando o copo de água borbulhante, raiado do reflexo verde da hera do caramanchão. Desde que tinha sido desmobilizado, nunca mais voltara à cidade onde ele e Rosa se conheceram. Acompanhou, em Denver, emocionado, a queda do muro em 1989, a unificação alemã. Mas voltar lá, sempre pensou, apenas com uma pessoa.

«E Rosa?», pergunto.
As maçãs do rosto de Mr. Gordon tornam-se mais salientes, os cantos da boca sobem em direção aos olhos vivazes: «Vamos juntos.» E resplandece.

[Parte V]

13.8.17

O verão de Mr. Gordon (IV)

«Eu e as montanhas temos uma relação conflituosa», diz Mr. Gordon. Arregaça a manga e mostra-me uma longa cicatriz no braço direito, ainda rósea. «E por vezes, elas levam a melhor.» Conta-me que uma vez, nas Rocky Mountains, teve que ser retirado de helicóptero, após uma queda que o imobilizou no hospital durante semanas. «Ganhei alguns lingotes de platina nos ossos.» Era mais novo, então: passados poucos meses, e alguma fisioterapia, voltou à montanha. «Agora esta, devo-a à Star Mountain», anuncia apontando para a cicatriz recente.

Mr. Gordon, na verdade não tinha um plano B para voltar à fala com Rosa, após a última recusa: queria apenas estar próximo dela. Sabia, ou intuía, que um dia o destino os colocaria no mesmo caminho, como o fez em Berlim, quando ela ia a correr à chuva, escorregou e não fora agarrar-se a ele, teria caído aparatosamente. Assim se conheceram.

Julho chegou. Gordon refugiava-se nos trilhos da serra, que lhe começavam a ser tão familiares como os que frequentava nas Rocky Mountains. A cada dia, os caminhos levaram-no para mais perto de Gouveia, a terra dela. A curiosidade metódica de geólogo amador impelia-o a trepar a zonas instáveis para recolher amostras. Um risco calculado, mas ainda assim um risco, que ele assumia com um zelo de colecionador. No segundo sábado de julho, ao final da manhã, num declive especialmente acentuado, sentiu um pé a deslizar, arrastando consigo o corpo que se enrolou sobre si próprio, um cilindro humano fora de controlo. Colocou instintivamente os braços em torno da cara e rolou, com a carne a macerar-se na descida como se estivesse a ser triturada numa mó. Uma pedra aguçada rasgou-lhe um lanho no braço. Quando finalmente parou, sentiu que os músculos não mais lhe obedeciam. Mexeu cuidadosamente as mãos, depois as pernas, ouviu-se respirar. Parecia inteiro, mas debaixo da pele o corpo era um saco cheio de vidro moído. Estava estendido num caminho de terra batida, o sol a pique, mordente. Com os olhos semicerrados, entreviu uma sombra por cima e, de seguida, uma voz a repreendê-lo: «Hartnäckiger Mann.» Sim, um homem teimoso. Era Rosa.

[Parte IV]

11.8.17

O verão de Mr. Gordon (III)

«Ela disse não.» Rosa mantinha a mesma determinação de propósitos que Mr. Gordon lhe conhecera em Berlim décadas atrás. Quando decidiu procurá-la, baseou-se nos dados que tinha dela: um nome e um local. Depois de semanas de pesquisa e de ajuda de um ex-colega de Berlim colocado no State Department, conseguiu contactá-la por correio eletrónico.

Não, não o queria ver. O passado deles ficara em Friedrichstraße; entretanto, tinha tido uma filha, um filho e já três netos, o casamento terminara nove anos antes e vivia agora entre Aveiro e a Serra da Estrela, sozinha e tranquila. Nem trocar fotografias, nem uma chamada telefónica, nenhuma proximidade: estava bem como estava. «Tough», diz-me Gordon, após o segundo café. Havia tirado o chapéu, segurando-o pela aba larga, abanando-o como se fosse um gigantesco leque. Rosa e Gordon são gente das montanhas, o que quer dizer que o seu grau de dureza se mede pela escala de Mohs: as palavras de Gordon não fariam qualquer risco na negativa de Rosa. Gordon é geólogo amador, sabe que as rochas estilhaçam sob o impacto de um escopro, mas moldam-se sob a água persistente. Decidiu fazer-se água. Em Junho, resolvidos os assuntos profissionais no Chidren’s Hospital Colorado, onde colaborava, voou para Portugal, alugou um carro, rumou à Covilhã, instalou-se para estadia prolongada. Não procurou Rosa, nem sequer ficou na mesma terra para não impor a sua presença, mas disse-lhe onde estava e deu-lhe um número de telefone para contacto. A resposta veio célere e curta: «Não.» «Tough», repete ele, enterrando o chapéu na cabeça até às sobrancelhas, o que faz com que o seu riso se assemelhe deveras ao de um garoto travesso.

[Parte III]

O verão de Mr. Gordon (II)

Mr. Gordon tira um retrato da carteira e passa-mo para a mão: uma rapariga de cabelos rubros, sorriso sereno, os mesmos olhos vivos que vejo à  minha frente. «Sondra, a minha filha.» Desvia a cara e fica a olhar o rio, a outra margem, o horizonte. «Morreu em 2012, em Aurora.» Numa sessão de cinema, à meia-noite, no Centro Comercial de Aurora, em Denver, um atirador matou vinte pessoas; Sondra estava entre elas.

Após o seu regresso a Denver, depois do destacamento em Berlin, Gordon estudou e passou a exercer pediatria e casou, aos trinta e dois anos, com Sarah, cinco anos mais nova do que ele, descendente de pai irlandês e mãe americana. Sondra foi a única filha do casal. Após o choque da morte de Sondra, a vida de Gordon e Sarah ganhou uma rotina triste e silenciosa. Para se afastarem da omnipresença da tragédia, viajaram: Canadá, Caraíbas, Hawaii. Mas a cada saída, Sarah cansava-se mais, a tez progressivamente mais sombria. Os dois últimos anos, não passaram das imediações de casa. Sarah morreu na véspera do Thanksgiving de 2016. Depois da partida dos irmãos e respetivas famílias, que compareceram no funeral e permaneceram uns dias, a vida de Gordon tornou-se tão árida quanto as Rocky Mountains, junto às quais cresceu e para onde se escapava nesses dias de chumbo, com esperanças de por lá se perder de vez. Regressava sempre, contudo. Foram as Rocky que lhe indicaram o caminho para outro, e maior, regresso. «Quando eu lhe falei das Rocky Mountains, Rosa contou-me da sua Star Mountain. Era para lá que Rosa voltava, quando saiu de Berlim», diz-me Mr. Gordon. «Para a Star Mountain», e sorriu com enlevo.

[Parte II]

10.8.17

O verão de Mr. Gordon

Os olhos de Mr. Gordon movem-se com vivacidade na face pintalgada pelo sol intenso da véspera e as palavras saem-lhe céleres no inglês além-Atlântico. Debaixo do caramanchão, no jardim semeado de estátuas de mármore onde nos encontramos, o Tejo espraia-se lá em baixo, à distância, do meu lado direito. O vento desafia as abas largas do seu chapéu de palhinha, ao jeito da representação do Infante ali perto, mas é mais seguro mantê-lo na cabeça do que pousá-lo na mesa. Havia-me perguntado se eu falava inglês, frente à Natividade de Ghirlandaio. Pois que sim. Vimos e comentámos os restantes em conjunto e continuámos a conversa na mesa café do Museu. Mr. Gordon nasceu no dealbar da década de cinquenta, em Denver, o terceiro filho de Annie, e de Charles, veterano de Iwo Jima, que casaram assim que este foi desmobilizado. Aos dezoito anos também ele, Gordon, entrou para o exército, vindo a ser colocado em Berlim, em plena guerra fria. Foi lá que conheceu Rosa, luminosa como as rosas no seu vestido de chita, radiosa como o amanhecer. Mr. Gordon mal sabia alemão na altura e ela não falava inglês, embora o seu alemão fosse fluente. Enquanto me conta dos seus cinco dias com Rosa, em Berlim, as palavras de Mr. Gordon tornam-se mais lentas, como se pretendesse agarrar as horas que precederam o embarque dela para Portugal. Tivesse na altura podido e não a deixaria partir; ou então, teria vindo com ela. Mas nenhuma das duas era opção. Apenas o nome da terra dela lhe ficou, e uma vontade de a voltar a ver que o perseguiu toda a vida e que finalmente o leva a estar aqui neste jardim, hoje.

[Parte I]

9.8.17

Ciência documental

A rapariga de face asiática, na mesa em frente, retira do saco a máquina — e fotografa a sopa. Depois, repete a operação, agora com o telefone. A sopa, que indiscutivelmente é feita com abóbora e cominhos, depois meticulosamente passada, e que apresenta uma bela e uniforme cor de cenoura, emoldurada pelo prato largo e branco, merece ser duplamente imortalizada — concordo em pleno.

7.8.17

la luna

todos os dias
tenho polido a lua
hoje resplandece

quando mirares
o espelho cósmico
refletirá o teu olhar

então ver-te-ei
para ti há a lua
por ti hei-me eu

Lado a lado

A linha que nos une é um horizonte vertical.

Qualidade fisionómica

«Cada coisa diz aquilo que é... o fruto diz ‘Come-me’; a água diz ‘Bebe-me’; o trovão diz ‘Teme-me’; e a mulher diz ‘Ama-me’»

[Kurt Koffka, 1935, Principles of Gestalt Psychology, pág. 7]

6.8.17

sonho do navegador

almejo alcançar
o mar
dos teus olhos
e nele
naufragar

Sentimentos transbordados


E onde colocarei aquilo que sinto e que transborda da arrumação que faço nas palavras?

Uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência

«A generala não tem passado bem desde a sua partida para a malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência que a conserva horas e horas imóvel sobre o sofá, no Pavilhão do Repouso Discreto, com o olhar vago e o lábio cheio de suspiros... »

[Eça de Queirós, O Mandarim]

4.8.17

Posições extremas e perigosas

— Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas — bramava J. E. de Andrada. — Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?

— Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nos Orientes, são boas para quem ganha o pão nosso no Forex.

— Mas quem é que está a falar disso? — clamou J. Eustáquio. — Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?

— Já eu, sublinho a torto e a direito — sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J.

— Mas você não é exemplo para ninguém — atirou J. E. de Andrada. — Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.

— Pauvre, pauvre J. — murmurava a dulcíssima Orchidée. — Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?

— Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?

— Eu sou de ascendência nórdica — disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho, saltitante como um arpejo.

— Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?

— Uma praga, Andrada, indeed. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.

— Não esperava menos de si, Moraes. Já aqui do J....

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante.

— Eu bem digo, já aqui do J.... — concluiu Andrada. — Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?

— É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada — sugeri eu.

— Há que cortar o mal pela raiz! — corroborou o lente jubilado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado embrenhados nos telefones para lhe prestar atenção.

[A. de Moraes]

3.8.17

O girar das engrenagens do mundo

Trovejava o ilustre J. Eustáquio de Andrada: 

— Oh Moraes, você que já passou também algum tempo a lamber papel, sabe que naquelas coisas da ciência, o que conta não são os grandes avanços, são os pequenos, pois não é verdade? Não temos que mudar o mundo de uma vez só, apenas em pequenos passos, como lhes chamava o Popper. Você, que já leu o Popper, confirma, claro?

Assenti, acenando com a cabeça e notei também o nosso amigo J. que, agarrado àquele seu telefone, balançava gravemente a fronte, no movimento gracioso de um bote na doca. Orchidée, mais distante, olhava para o telefone dela como se de um espelho se tratasse, sorrindo, certamente como Marguerite, de se voir si belle en ce miroir. De vez em quando soltava um trinado em forma de risada. 

— Mas, oh Moraes, estas gentes modernas acham que a vida tem que ser mudada toda de uma penada: salte lá o Euromilhões, ou engravidem de um romance, e tudo se resolve em ritmo presto, como numa sonata de Paganini. Não pode ser, as engrenagens do mundo não giram assim — prosseguia o grande Andrada.

As lágrimas assomavam aos olhos de Orchidée, que continha as gargalhadas, enquanto J. continuava a acenar automaticamente com a cabeça. Parecia exercitar ritmicamente os músculos do pescoço, ou preparar alguma das asanas lá dele. Com a língua ao canto da boca, J. assestou uma dedada decisiva no seu telefone — e quase de imediato, decerto por coincidência, Orchidée deu um gracioso salto na cadeira, enquanto de seus belos e cerrados lábios saía apenas uma abafada e gargalhante exclamação.

Andrada atirou os braços ao ar, em sinal de desistência.

— A juventude recreia-se. Mas, oh Moraes, e não acha você que o problema das gentes, é acharem que querem mudar tudo, quando afinal não querem senão mudar umas minudências nas suas vidas? Olhe, não vamos mais longe: Orchidée, que ali vê, aquela flor que enche de sol o meu ocaso, adora abraços. Pois não os adoram as mulheres todas? E quantos dos seus colegas, desses que se sentam nas cadeiras de pele de vitela albina italiana a criar produtos estruturados como mestres do Universo, oh Moraes, colhem as suas flores aos braçados? 

Pois que eu não sabia, mas desenhei casualmente uma função a tender para zero no papel à minha frente.

— E as flores, quantas se enrolam, quais heras murmurantes, trepando em direção ao céu, aos seus colegas, senhores do mundo e arredores? Oh, Moraes?

Pois que não estou lá para assistir, mas escrevi uma percentagem com muitos zeros do lado direito da vírgula. Andrada concordou.

— O problema dos homens, oh Moraes, é acharem que as mulheres querem o Mundo. E o problema das mulheres, é acharem que os homens querem o Universo. E todos querem é o mesmo. Todos querem é amor. Esta coisa do amor não passa de moda com a idade, mas as gentes acham que sim, que isso das flores se enlearem como heras é coisa dos vintes, mas já não é precisa aos trintas, menos ainda aos entas todos, ad aeternum. 

— É um problema, um verdadeiro problema, oh Andrada – confirmei.

— Como diria o grande Camilo, o amor tem céus e resplendores que banham de luz as mais tristes almas, oh Moares — proferiu J., ponderosamente.

— Só aqui ao nosso J., este poeta elisiano, é que ninguém lhe pega, — ditou Andrada —  nem o diabo, e olhe, oh Moraes, o diabo pega em tudo.

Oh, le diable est dans les détails — proferiu casualmente, lá do fundo do salão, a subtilíssima Orchidée.

[A. de Moraes]

2.8.17

Da pluma do Editor at Large

O nosso comum amigo Andrada disparou naquela sua voz agreste de proprietário de vastos prédios rurais, metido a literato, mais rústico que erudito: 

— Moraes, você que parece ter mais tempo à sua disposição que um Ministro dos Negócios Estrangeiros, é que era bom para escrever naquele pasquim que aqui o nosso amigo J. mantém nas internetes. E além disso, confirme-me lá, você não é homem de paixões, ou é? Não se lhe conhece um alexandrino, um soneto, uma rima que seja. Apostaria este havano supimpa em como não leu um poeta madeirense sequer e na sua estante não constam autores que levam metade dos livros à procura dos tempos perdidos em Sines. Aquilo está é a precisar de gente à antiga, como o meu amigo, homens de rapé e pingalim, de verbo rápido e rédea curta nas emoções. Homens que o são por força da lei divina, não se querem apaixonados. Isso, é para as almas a fenecer, os espíritos elevados pairam acima de tais minudências.

Orchidée olhou com comiseração para J. que baixou os olhos com ar compungido, atingido com mortal flecha no seu frágil e sofredor coração. 

— Mon chou, — proferiu a dulcíssima diva, naquela sua voz maviosa de cotovia de Bayreuth — deixe o coração cristalino do J. em paz, que ele tem tido mais que a sua quota de raisons para andar com as emoções assim, tatuadas na sua pálida pele. Le pauvre.

Um misto de agradecimento e ternura pareceu-me perpassar pelos olhos melancólicos de J. enquanto se dirigia a mim.

— Moraes, pois se o meu amigo, que é homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, quiser agraciar aquele humilde espaço com a sua pluma, será, não recebido com vestais ocultando o sol com chuveiros de pétalas de rosas, que isso não consigo encomendar em tempo útil, mas pelo menos com um cálice daquele Hennessy que sabe que eu guardo especialmente para as suas visitas, aquele que quase nos fez perder o voo em Frankfurt, e que nos obrigou a correr que nem uns evadidos pelos infindos corredores.

— Ora vê, Moraes — tonitruou Andrada — aí tem a sua deixa. Não é todos os dias que temos oportunidade de contribuir para a sociedade de forma tão absolutamente inútil. O pasquim do nosso amigo J. que ele muito considera é, que eu saiba, apenas lido aqui por Orchidée, mon amour, e poucos mais que por lá chegam sem dúvida ao engano e rapidamente arrepiam caminho. Com o meu excelso amigo Moraes a prosar por lá, finalmente haverá um motivo para, até eu, by Joveeven me, poder, num dia de canícula, encontrar frases que finalmente consiga ler sem sentir o arrepio que o romantismo elisiano me causa.

Os olhos de Orchidée ergueram-se para o céu, em prece que me fez recordar a famosa oração de Santa Teresa de Ávila. O amigo J., por seu lado, parecia-se mais com S. João da Cruz, a redigir os seus poemas no guardanapo, com uma caneta cujo aparo esborratava tinta com a facilidade com que Andrada escorropicha absinto.

E eu, A. de Moraes, homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, como diria o martirizado J., atentei no olhar celestial de Orchidée, e por ela, apenas por ela, única leitora conhecida destes editais, escrevi e assino o meu primeiro panfleto para este pasquim de publicação deveras irregular aqui nisto das internetes. Também pelo Hennessy, vá, que foi por minha causa que J. ia perdendo o avião nesse dia, e de certeza perdeu os pulmões pelo caminho, enquanto enrubescia, soprava e bufava, correndo e bradando, num aeroporto onde ninguém o entendia:

— Sem mim, não. Sem mim, não!

[A. de Moraes, Editor at Large neste espaço, na ausência de Le pauvre J.]

1.8.17

Troca de mãos

Quando, em mil novecentos e noventa, Reinhard Goebel, então o maior violinista do mundo da música antiga, se viu confrontado com um problema na mão esquerda, fez o impensável: reaprendeu a tocar, trocando o violino de ombro e a posição das mãos. Anos depois, já proficiente na nova forma de tocar, regressou à antiga, e começou depois a tocar alternadamente numa posição ou na outra, após ter sido submetido a uma operação. Durante quinze anos continuou a carreira de violinista, até que em dois mil e cinco se dedicou à direção de orquestra. Atualmente, se não está a dirigir ou a dar aulas, lê. Oito horas por dia. «Está ver a vantagem?» perguntou Goebel numa entrevista à Van. «Leio mais num dia do que muitos num ano.»

31.7.17

Parabéns a você


[Reinhard Goebel faz hoje sessenta e cinco anos. Aqui aparece a dirigir a Filarmónica de Berlim na Abertura de Amadis, de Johann Christian Bach.]

Sem país

Continuo a escrever, sem país, sem liberdades, sem nenhuma segurança, quase sem esperanças e sem ti.
Continuo a escrever e não, não vou render-me.

[Maria Gabriela Rosas, poetisa venezuelana.]

A caminho da segunda centúria

Dona Aureliana, acabada de regressar de férias, entrega-me o café por cima do balcão, perfeitamente tirado, cremoso que baste, sem açúcar, como deve ser, colocando ao mesmo tempo outro café do meu lado esquerdo, para a cliente  que ouve a pergunta cantada com aquela fala lá dela que atravessou o equador: vai querer com açúcar, que faz mal? Não fora a cliente consumidora habitual, que eu cá a vejo amiúde, havia de rever a sua vida em câmara lenta, e deixaria o pacote de açúcar nefasto em cima do balcão, em troca do café em estado amargo nativo. Eu, que estou nas boas graças da Dona, graças a Deus, não ouvi tal reparo ainda, preservo a fama, que não o proveito, de fazer só escolhas que me garantirão uma saúde férrea quando me adentrar pela minha segunda centúria. Regressando à esplanada para um almoço ao sol oculto, a Dona sempre me vai avisando que: as azeitonas engordam, doutor. Olho-me de cima a baixo, ainda que sentado e vou adiantando, com o ar mais sério que consigo arregimentar: creio que arranjo margem para comer duas ou três azeitonas, Dona Aureliana, mesmo que sejam dessas assim carnudinhas. Entre a escrita destas duas metades da minudência inconsequente passou uma manhã completa, creio que a leitora, sempre arguta, terá notado. Isto de preservar a fama e o proveito é um trabalho de Sísifo. O que a gente não faz para chegar na linha à segunda centúria. Mas sob o olhar vigilante da Dona, começo a crer que até a terceira centúria está ao meu alcance. É uma esperança que eu cá tenho, leitora.

30.7.17

Ensaio sobre a rouqueira

Recebo uma missiva escrita a tinta azul cobalto pelo punho de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a passar os seus anos dourados no cálido amplexo da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

Espero que esta o encontre em estado de saúde menos deplorável do que aquele que fontes normalmente bem informadas sobre si me descrevem, por entre penosos soluços de «Pauvre, pauvre J.» Dizem-me as ditas fontes que o meu amigo, por viver como uma planta de estufa, em permanência em ambientes climatizados, está constipado no pico do verão como se fora o pico do inverno, com uma voz, salientam-me, que o tornaria o filho perdido de Tom Waits e Bryn Terfel (as palavras não são minhas, meu caro, não levante o sobrolho assim).

Adiantam-me as ditas fontes, que estão aqui ao lado a olhar para cada palavra que escrevo, e me vão dando cotoveladas que acabarão por me depositar sem remissão nas urgências hospitalares, que o meu estimado amigo, afadigado por entre esplanadas a perturbar o normal fluxo do serviço, na palheta (uso a palavra como ma disseram) com as zelosas funcionárias de balcão, e os locais sombrios e bafientos onde gasta as horas dos seus dias, não terá decerto tratado ainda das férias. Nem planos, nem reservas, nem bilhetes, nada. Sabe que estamos em altura de férias, pois não sabe?

Está portanto intimado a comparecer nesta casa na próxima terça-feira, ao alvorecer, o que pelo que me dizem as minhas fontes, não será problema para si, uma vez que creio que para além de não comer comida d’homem, também não tem descanso d’homem. Aliás, não dorme, ponto. Faça-se acompanhar apenas de um «necessaire» e daqueles seus Vilebrequin amarelos, sempre um sucesso público, que o estimável Reboredo está a tratar de tudo o resto. As minhas fontes já lhe arranjaram até um protetor solar com fator 100 ou 200 ou lá o que é, porque o «pauvre, pauvre J.» tem a pele alva e frágil de um infante, assim me informam.

A única promessa que lhe podemos fazer é que chegará aqui pálido, rouco, subnutrido, olheirento, ensonado e que o devolveremos a si próprio dourado, mavioso, nédio, coruscante e elétrico. Por outras palavras, de um monte de rolhas e de uma pilha de maravalhas reconstruiremos um sobreiro.

Aceite um abraço deste que muito o preza e da fuzilante Orchidée, esta flor argêntea que enche de luz os meus dias e de estrelas as minhas noites. Não se atrase, por quem é, na terça, senão terei que enviar o persuasivo Reboredo para o trazer, a bem, ou mesmo que não. Não importa quantos «Pauvre, pauvre J.» eu ouça das fontes anónimas e lacrimejantes aqui ao lado.

J. Eustáquio de Andrada

Intensidade necessária

Joan MiróAzul II, 1961
Sinto necessidade de alcançar a máxima intensidade com o mínimo de meios.

[Joan Miró]

Escrito na livraria

Pedir a Gonçalo M. Tavares que prefacie um livro de Agustina é uma maldade terrível perpetrada sobre o desinfeliz Tavares.

29.7.17

com as minhas palavras

o ar da minha boca
esvai-se para o seu olhar
as minha palavras com ele
e eu com as minhas palavras

#parecesosvelhotes

Eu sou do tempo em que se podia ver cinema sem estarmos rodeados de um ruído fervilhante de ruminância de pipocas brotando em fluxo constante de bidões com a prolixidade de uma arca de Pandora. Eu sou do tempo em que o cabelo de Valérian se separava a meio da cabeça, num risco que nunca esteve na moda e o de Laureline era ruivo, de um tom de fogo que nunca passou de moda. Eu sou do tempo em que Rutger Hauer encarnado em androide que não sonhava com ovelhas elétricas, morria como uma lágrima na chuva, sem ter ainda ressuscitado como Presidente da Confederação Mundial de Planetas. Eu sou do tempo em que Clive Owen fazia um credível Rei Artur de maxilar quadrado, e não um sofrível e quadrado comandante de exército com um boné que parece roubado a um señor presidente sul-americano, um patriarca no seu outono. Eu sou do tempo em que o herói dos filmes de Luc Bésson era do tipo forte e calado, um leão profissional, ao jeito de Jean Reno, e não um sósia fala-barato de Leonardo DiCaprio, o que não é dizer pouco, tão perdido num papel do adulto que embora sendo, não parece, como nas entranhas da cidade dos mil planetas. Eu sou do tempo em que Herbie Hancock era um respeitável músico das teclas, e não um ministro da defesa de uma confederação planetária que aparece geralmente em forma de holograma, exceto quando reencarnado no corpo ectoplásmico que havia antes enformado Riahanna. Eu sou do tempo em que ia ver um filme de Luc Bésson e não olhava tanto para o relógio, e não, não foi para ver no mostrador a frequência cardíaca absolutamente estável, mas antes porque Bésson conseguiu a proeza inédita de fazer-me bocejar numa fita sua, mesmo face à sequência alucinante de tantos e tão formidáveis eventos.

Ou talvez seja mesmo coisa que dá com a idade, quem sabe.

[Seguindo a ideia da hashtag n'a voz à solta, continuada por Pipoco Mais Salgado.]

28.7.17

demasiadas carícias

aguardam na minha mão
demasiadas carícias
para fechá-la

[inspirado em wafi salih]

27.7.17

Como diria o outro

Eu e Dona Yara falamos da pequena Soraia, leitora, que já vai à praia, ainda cedinho doutor porque não pode apanhar muito sol, diz-me a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador e um sorriso extremoso. A semana está quase a terminar, talvez no sábado ou no domingo a pequena Soraia volte a colocar os pezinhos na areia, já falta pouco Dona Yara, digo eu, com esta fala cá minha ligeiramente rouca, leitora, do ar excessivamente condicionado em que vivo nos dias cálidos. Só a esplanada me cura deste mal, Dona Yara, digo eu na altura da sobremesa. Tenho ali o remédio ideal, doutor, diz a Dona e traz-me uma fatia de bolo de chocolate, que está mesmo muito ótimo, afiança a Dona. Eu faço-me rogado, por uns dez segundos, aproximadamente. Depois, por motivos evidentemente terapéuticos, acabo por ceder, em decisivo xeque-mate. E não é que a voz melhorou? Não que tenha ficado maviosa, menos ainda muito ótima, que isso nunca será. Mas é natural, é a minha e está paga, como diria o outro.

26.7.17

Guardador de esperanças

Florival, que exerce a profissão de guardador de esperanças em Alfache, aprendeu o ofício com o pai, Idavide, que por sua vez aprendeu com o avô, Jansênio, que se dizia descendente em linha de sangue real de Nivaldo I, dito o Esperançoso, Imperador de Altineia e primo de Luis XIV, o Rei-Sol. Contava Idavide que, durante o grande incêndio que destruiu Axela, a capital de Altineia, vendo o desespero dos homens perante do fogo, incitou-os Nivaldo a atravessarem o grande rio Touro, vinde comigo sem medo, com esperança, para a outra margem onde estareis a salvo e de onde voltaremos para reconstruir a nossa cidade ainda mais esplendorosa do que antes, assim falou. Ele próprio foi à frente enquanto as labaredas corriam atrás dos axélios, rosnando como uma matilha de cães. Atónitos, os axélios viram o Imperador avançar sobre o rio, caminhando com as passadas largas com que atravessava os longos corredores do palácio logo que os primeiros raios de sol desenhavam estradas retas nas paredes que ligavam o chão ao teto. Os homens, as mulheres e as crianças descobriram então que podiam andar sobre as águas do rio, que as pequenas ondas faziam cócegas nos pés refrescados pela corrente. Os mais bravos, ou antes, os mais estouvados, começaram a correr e só não chegaram primeiro que o Imperador à outra margem porque era coisa de desrespeito fazê-lo. O cognome de Esperançoso nasceu dessa travessia, passou para os filhos e destes para os filhos dos filhos até aos berços de nascimento de Idavide e depois de Florival, que é, diz-se acima, guardador de esperanças em Alfache, fiel depositário de esperanças que podem ser reclamadas pelos próprios depositantes em alturas posteriores em que delas advenha escassez ou emprestadas a quem façam falta. Irmino, presidente da câmara de Alfache acumulou ao longo dos anos um precioso património de esperanças, das quais se tornou um grande depositante nos cofres de Florival. Nos dias em que o vento estaca e as nuvens estacionam em frente ao sol, ou nos dias em que as folhas das árvores vibram ao ritmo do ruído de fundo do cérebro, ou nos dias, enfim, em que os peixes no mar precisam de vir à tona para respirar, sufocados, Irmino vai visitar Florival, preencher o talão, levantar uma esperança. Então o vento volta a soprar, as folhas das árvores caem num sono de bebé, os peixes passam a respirar a plenos pulmões debaixo de água e Irmino volta para o edifício da Câmara a assobiar La donna é mobile, enquanto Florival anota a transação no grande livro do deve e do haver das esperanças de Alfache, com o sorriso lá dele, descendente do de Nivaldo, que atravessou o grande rio Touro a pé firme.

24.7.17

Viver na era da velocidade

No inverno de 1705 Bach empreendeu a sua viagem a pé para Lubeck, para ouvir Buxtehude. Talvez lhe tenha sido proposto assumir o lugar do velho organista e talvez o tenha recusado, porque o cargo trazia consigo um requisito extra-musical: quem o aceitasse teria que casar com uma das filhas do titular. Buxtehude, ele próprio, assumiu o lugar a 11 de abril de 1668 e casou com a filha mais nova do seu antecessor a 3 de agosto desse ano. Após uma vida bem sucedida no lugar, quando morreu, Buxtehude foi enterrado a16 de maio de 1707, e o seu sucessor, anteriormente seu assistente, foi nomeado a 23 de junho e viria a casar a 5 de setembro, com a filha do mestre. Não sei o que para mim será motivo de maior admiração: se esta tradição do emprego incluir noiva e boda, se a celeridade de todo o processo. Podemos achar que vivemos na era da velocidade: francamente, estamos deveras enganados.

Sonata a dois

Dieterich Buxtehude, Sonata V à due, Op. 2


[Para ouvir Buxtehude viajou Bach quatrocentos quilómetros a pé, num bravio inverno.]

Como proa de submarino

A rapariga que vendia livros escorou-se com a muralha de um sorriso bonito às arremetidas do escritor com canetas no bolso da camisa manchada pelo suor. Contava-lhe ele as suas aventuras na escrita e na vida com face rotunda, raiada de vasos sanguíneos rubros, olhos vítreos, abdómen proeminente como proa de submarino. A mulher do escritor aguardava, sentada, com um livro comprado à menina do sorriso, enquanto o marido se alongava no monólogo pastoso como massa tendida. Naquele espaço curto, e andando eu em maré de coincidências, haveria de aparecer um conhecimento comum, a mim e ao escritor. Do conhecimento comum, todas as minhas memórias envolvem momentos agradáveis. Mas a ele, não. O conhecimento comum tinha-lhe colocado a carreira em ponto morto, recordou à mulher, em tom preciso, quando regressou temporariamente ao porto de abrigo, junto a ela. Vislumbrei num segundo as horas infindas de ódio fermentado, ocorridas muitos anos antes do fortuito encontro. Não quereria ter estado por perto dos dois, então, como estava ali agora. Desabafou e perscrutou o espaço em silêncio. As manchas de suor haviam-se tornado amazónicas. O livro de apontamentos espreitava, como periscópio, do bolso das calças amplas. Respirou fundo, duas ou três vezes. Puxou os ombros para trás e, reposto o amor-próprio, rumou de novo em direção à rapariga que vendia livros, que o recebeu, admiravelmente, com o bonito sorriso com que se escusava às investidas dele.

23.7.17

mudança de luz

sabes? a cidade precisa
de toda uma pintura
nova 
com a luz do teu olhar

vê quão bonitos ficaram
o mar o céu a lua
já pintados por ti

O vento da tarde

Se todos os ventos são o mesmo, este é o vento da desgraça de Eréndira, a cândida, o que começou quando ela estava a dar banho à avó, que se parecia com uma formosa baleia branca no tanque de mármore.

[O vento que fez estremecer a enorme mansão de argamassa lunar, na orla do deserto, que entrou no quarto como uma matilha de cães e derrubou o candelabro contra os cortinados.]

Calor a sério

Calor forte, calor a sério, é em Comala, que está sobre as brasas da terra, sobre a boca do inferno. Muitos dos que por lá morrem, quando chegam ao inferno, regressam para vir buscar um cobertor.

[Para Comala, viaja-se à procura de Pedro Páramo.]

Drama inquietante

O crítico da Variety refere-se-lhe como um drama inquietante, concretizando a inquietação na violenta ambiguidade moral do filme. A história de Lady Macbeth funciona como a de uma Lady Chatterley emendada por Dostoievsky, mas em que o realizador se concedesse a ele próprio o benefício de emendar Dostoievsky. A história original é de Nicolai Leskov e não de Dostoievsky, embora tenha sido publicada na revista deste. Mas há um fio dostoievskiano subjacente, tal como o há shakespeariano. Creio, contudo, mais do primeiro que do segundo, apesar do nome. A inquietação é causada pela inversão das premissas morais convencionais, mas também, creio, e porque li apenas críticas escritas por homens, pelo facto da protagonista ser mulher. De algum modo, a violenta ambiguidade moral que passaria incólume numa história com protagonista masculino é, para os que escreveram sobre o filme, perturbadora como não o seria caso a personagem central fosse um homem. Talvez me tenha perturbado mais esta constatação do que a história cortante como o cinzento frio do céu sobre o mar do norte, que enquadra o filme como uma moldura de aço.

21.7.17

um compêndio finito

como é que o compêndio
finito de formas
da tua ausência
pode conter
o tempo infinito
da tua ausência?

Uma minudência após a indulgência

Se Potemkin não era couraçado, muito menos o será um banal escrevinhador a viver neste jardim de amenas temperaturas, em esplanadas tranquilas, onde a couraça é inútil sobrecarga. Um homem não é de ferro, ia quase dizendo, mas não disse, quando pedi a sobremesa indicadora de gulodice reprimida, caindo a pique no poço da tentação. Dona Yara, diligente, lendo nos meus olhos a metanoia de dois mil anos, pelo menos, de herança judaico-cristã, disse com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Leva frutos, doutor. [Intervalo grande.] E soja. [Com tom de contrabandista de uísque na era da proibição.] Ah, leva soja. É praticamente como obter uma indulgência trazida pela pomba do Espírito Santo da Praça de São Pedro. Já me salvou a alma, Dona Yara. E agora aproveito para escrever à leitora esta minudência inconsequente, enquanto não desfaço o sabor do pecado com o café a seguir. Pecar por pecar, ao menos tira-se partido do dito, pois não é leitora? E como leva soja é, quando muito, um pecadilho, coisa de nada. Minudência, também.

20.7.17

O descouraçado Potemkin

Como trabalhavam em partes diferentes do palácio durante o dia, Catarina e Potemkin escreviam bilhetes um ao outro, continuando as conversas da noite: declarações de amor, misturadas com negócios de estado, mexericos da corte,  notas sobre a respetiva saúde e admoestações carinhosas.

a gaiola

por vezes abria a porta da gaiola
onde guardava o coração

Uma corda partida

Hans Holbein, Os embaixadores [pormenor], 1533
Talvez a corda partida do alaúde fosse uma forma de Holbein enviar uma mensagem a Francesco Sforza. Uma aliança só é harmoniosa, como o som de um alaúde, se não houver deserções, se todas as cordas estiverem inteiras.

19.7.17

Rodas dentadas

Na vida, que nos surge a girar como uma roda livre, é possível vislumbrar por vezes as rodas dentadas subjacentes, tão perfeitamente ajustadas que parece predestinação, trabalho de arquitetura, obra de precisão. Nessa altura, duvidamos das nossas descrenças mais profundas, e somos capazes de criar um criador suficientemente engenhoso para gerar tal esmerado mecanismo. Da observação das rodas dentadas em funcionamento, advém a tranquilidade do que é inevitável. Dente após dente, o presente absorve o futuro. O ruído exato do encaixe das rodas dá o conforto de que o criador que criámos tem o mapa do caminho, sabe onde quer ir e como lá chegar. Ao estado decorrente de tal observação podemos, até, chamar felicidade.

aprendiz de poeta

espalho outra película de luz
sobre camadas lucentes
que antes pintei
na minha ânsia insana
de te captar de corpo inteiro
nas três dimensões
de um poema relevado
na tela da página

18.7.17

Entrelaçamento


Biber, Passacaglia



Bach, Ciaccona

[Bach nasceu quarenta e um anos depois de Biber. Não é improvável que tenha conhecido a Passacaglia para violino desacompanhado. De algum modo, sendo cada uma delas peças supremas no legado dos dois compositores — estão entrelaçadas uma à outra, diria.]

17.7.17

cartografias

previdente
foste deixando nos caminhos
traços da tua passagem

por eles recrio
o mapa de nós
antes de nós

imortalizados
no tempo que foi

eternizados
no tempo que será



O caso do tio embaraçoso no jantar de Natal

«A experiência examinou as hipóteses de que as pessoas mais velhas se baseiem mais em estereótipos, e apresentem mais preconceitos, do que as pessoas mais novas, por causa de um défice na capacidade de inibição de informação. De modo consistente com as predições, as pessoas mais velhas baseiam-se em estereótipos mesmo quando são instruídas para não o fazerem, ao contrário das mais novas. As pessoas mais idosas têm mais preconceitos que as mais novas, e estas diferenças na forma como se baseiam em estereótipos e preconceitos são mediadas pelas alterações que a idade causa na capacidade de inibição. Uma vez que as pessoas mais velhas indicam um desejo mais forte do que as mais novas de controlar as respetivas reações preconceituosas, estes resultados sugerem que uma falha na capacidade de inibição pode tornar as pessoas mais preconceituosas do que pretendem ser.»

Sabe-se, pelo menos desde há dezassete anos, quando William Von Hippel e colegas publicaram o resultado acima transcrito, que a idade avançada causa alterações a nível da função executiva do cérebro que modificam o modo como introduzimos preconceitos e estereótipos no nosso discurso. Sim, é uma anomalia de ocorrência natural. Aplica-se ao tio embaraçoso no jantar de Natal, ao escritor frontal e despeitado ou ao médico ilustre e desbocado. Aplicar-se-á a cada um de nós, assim tenhamos vida e saúde para lá chegar.

[Von Hippel, William, Lisa A. Silver, and Molly E. Lynch. "Stereotyping against your will: The role of inhibitory ability in stereotyping and prejudice among the elderly." Personality and Social Psychology Bulletin 26.5 (2000): 523-532.]

cosmogonia comum

quantos universos
quantas galáxias
quantos sistemas
quantos planetas
quantos milénios
quantos anos

quantos sonhos

até ti

16.7.17

Está omisso

No filme está omisso, mas a mulher do derradeiro vice-rei da Índia apaixonou-se pelo futuro primeiro primeiro-ministro do novíssimo país, e foi correspondida: quando ela morreu, anos mais tarde, ele enviou destroyers indianos para acompanharem o funeral, realizado no mar. A história é escrita pelos vencedores, somos avisados no início. Para os estados envolvidos, este é um assunto para manter fora do ecrã, para ser reescrito. O amor é tão perigoso que pode mudar o destino de nações ou continentes, afetar a vida de milhões de pessoas, ameaçar a paz mundial. Falai de campos de refugiados, de genocídios e guerras civis mas, por quem sois, omiti os amores que decidem secretamente o devir da história. Há limites para tudo.

análise concreta

resumo do dia:
o sol girou para poente
o mar recuou para o horizonte
as saudades irromperam a contraciclo

15.7.17

Duas orelhas mas uma só boca

Dizia Tia Frederica há pouco: A natureza deu ao homem duas orelhas mas uma só boca, para ouvir mais do que fala, disse um grego antigo. O bom grego esqueceu-se que a natureza deu dois cotovelos ao homem e estes por ele também fala, disse eu. Fala, mas fala com dor, rematou Tia, esfregando o cotovelo.

Em memória de Maryam

Há três anos, Maryam Mirzakhani tornou-se a primeira mulher a ganhar a medalha Fields, o equivalente ao prémio Nobel da matemática. Disso se deu conta aqui, então. Maryam morreu hoje precocemente [que mortes não são precoces?] aos quarenta anos, de cancro de mama. Teria muito para ensinar aos deuses, decerto, por isso a levaram tão cedo.

O cheiro do quotidiano pela manhã

Antes de sair para o café, e já vestido aprimoradamente com o calor do dia, venho apenas acenar à leitora um fresquíssimo bom dia. Ouço a passarada lá fora, que faz as vezes do pássaro do beiral, desaparecido desde há dias em parte incerta: espero não seja uma frigideira de casa petisqueira ou uma pena remanescente na boca de um gato. Ainda não é altura para cuidados: quando for, levantarei a bandeira branca, solicitando a maior atenção caso a leitora vislumbre o foragido canoro. As cigarras, que já se manifestaram ontem, a esta hora estão ainda descansadamente recolhidas. Silêncio, portanto. À tarde talvez passe chez Tia Frederica, para beber uma infusão de realismo. Será nosso um dia, diz ela a propósito, o mundo do quotidiano, aquele a que estamos demasiado alheios para lhe reivindicar a propriedade. Vou reclamar agora um bocadinho do meu quinhão, acompanhá-lo com um café quente e uma sombra amena: gosto do cheiro do quotidiano pela manhã.