31.12.17

Receção condigna

Beethoven, Sinfonia nº 8, Primeiro Andamento

[Para receber o décimo oitavo ano do milénio, não imagino melhor que o apoteótico primeiro andamento da oitava. E a todos os que por aqui passam, aproveito para endereçar os votos de um magnífico ano de dois mil e dezoito.]

30.12.17

felizmente

exatamente
trezentos
e sessenta
e cinco
os dias
em que não te tive

este ano

felizmente não
foi bissexto

Distância

Quanto mais de perto se olha uma palavra, mais ela nos olha de longe.

[Karl Kraus, citado por Ana Hatherly.]

29.12.17

Fastidiosa condescendência

Gostaria de conseguir descobrir, um dia, qual a livraria em Lisboa em que Steiner foi iniciado na obra de Borges, em meados dos anos cinquenta, mais precisamente no princípio de cinquenta e cinco. Nos fundos cavernosos de uma livraria em Lisboa, assim descreve ele. Reportando-me às livrarias que se mantêm, talvez a Bertrand ou, mais improvável, a Morais. Os livros foram-lhe então mostrados com «fastidiosa condescendência» e com razão, reconhece: tinha chegado tarde ao lugar secreto. Que grau de condescendência me seria aplicável, a mim, que pensava que tinha chegado cedo e que, afinal, cheguei décadas depois dele?

28.12.17

O imperador omisso

Uma tal coletânea levanta não a questão de se o imperador leva alguma roupa, mas se há sequer algum imperador.

[George Steiner, em 1984, no New Yorker, sobre uma coletânea de aforismos de Cioran.]

27.12.17

Dois axiomas sobre a beleza

A beleza materializa-se apenas quando observada.

A beleza materializa-se em pleno apenas quando compartilhada.

Revelações

Os melhores poetas conseguem libertar as palavras ocultas dentro das palavras.

26.12.17

À transparência

O poeta observa a palavra à transparência, como o lapidador o diamante.

Tudo o resto são histórias

A. de Moraes, que é um homem pragmático e de cético palato, diz-me que só há um padrão para apreciar um vinho: «As histórias que nos apetece contar depois de bebê-lo, meu caro. Tudo o resto são histórias.»

25.12.17

Borges e os Tigres

Vi-o avançar sem medo nenhum, sabia que a floresta de sombra por onde caminhava ao meu encontro era a dos versos de Blake, e os olhos calmos, onde o tigre demorava o ardor dos seus, eram os meus, multiplicados por não sei que espelhos. Jantara com Borges e adormecera tarde, com essa voz, cava, a que a cegueira aumentava a fundura, dentro de mim —Tiger, tiger, burning bright / In the forests of the night… — e acordara com a cantilena do muezin a chamar  para a primeira oração. De manhã, perguntou-me: — Ouviu o muezin? — Ouvi, mas foi pena ter-me interrompido a contemplação do tigre. — Curioso: também eu sonhei com ele, esperava-me às portas do deserto; desde o tigre da alquimia chinesa, e das lendas budistas ao do seu sonho, sempre ali esteve, de olhos frios. Não respondi, sem coragem para lhe dizer que não era o mesmo, que no meu mundo havia, pelo menos, dois tigres: o meu tinha grandes olhos claros, e ardiam.

[Escrito por Eugénio de Andrade em 1956, e publicado em Vertentes do Olhar, 1987.]

24.12.17

Feito para a noite de Natal

Corelli, Concerto Op. 6, nº 8, «Feito para a noite de Natal»

Gestão de expectativas

O restaurante ostenta na janela o «Menu de Natal» e na porta o aviso: «Estamos fechados a 24 e 25 de dezembro».

23.12.17

Os votos deste hebdomadário

Norman Rockwell, 1931

22.12.17

Missiva alusiva à quadra que atravessamos

Recebo uma carta a tinta azul cobalto com a inconfundível letra cuidadosamente treinada nos clubes de caligrafia de Oxford, redigida pela S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado de literatura portuguesa no Magdalen College, agora retirado nos braços envolventes da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

Fontes que não irei nomear, falam-me da improbabilidade de o meu amigo ter quaisquer planos para o Natal, que nem se lembre sequer que é Natal e que, em desespero de causa, quando se aperceber, esteja condenado a correr a sua cidade em busca de um restaurante desses que servem guisados de cardos que aceite servi-lo, numa altura em que devia estar rodeado por todos os lados de gente e de bacalhau com couves. Ou seja, as ditas fontes, que aqui ao meu lado soluçam «Pauvre, pauvre J.» temem que o meu amigo passe a quadra que atravessamos a comer ensopados de acelgas bravas e sopa de urtigas brancas, ou lá o que é que o mantém num estado que, tecnicamente, se pode considerar «vivo» embora, em boa verdade, há quem lhe chame «estacionário».

Homem das coisas de espírito que pertença à espécie humana, e este é um grande se, que não está provado que se aplique ao meu amigo, precisa de, uma vez por outra, deixar os ares com escasso teor de oxigénio e elevado teor de ácaros das salas pejadas de livros e morcegos, e olhar gente de carne, osso e alguma gordurinha (excetuando-se a luz da minha vida, de quem acabo de receber uma cotovelada e cuja elegância estonteante assenta sobre zero por cento de tecido adiposo), de ver a luz da lua refletida no mar em vez das luzes mortiças de candeeiros vetustos, e de sentir calor humano em vez do dos ares condicionados dessas estufas onde deixa esturricar os seus dias.

Esta missiva tem, portanto, um objetivo que se poderia chamar humanitário: convidá-lo a deslocar-se à casa d'Andrada, para passar a consoada com gente em vez de cartapácios e comida a sério em vez de simulacros com nomes vagamente orientais. Para não se sentir totalmente deslocado, fora de borda, por outras palavras, o diligente Reboredo afadiga-se neste preciso momento em torno de um faisão a quem foi dado o nome de Tofu, em atenção ao meu estimado amigo.

Orchidée, este sol que ilumina os meus dias de ouro, e única leitora conhecida daquele hebdomadário que insiste em publicar lá pelas internetes, afadiga-se em torno de papéis vermelhos e laços sedosos e manda dizer que marque presença pelas dezanove horas de dia vinte e quatro. Cá o aguardamos para o jantar de Tofu.

Aceite um abraço deste que muito o considera,

J. E. de Andrada.

20.12.17

Mau gene

Adão transmitiu-nos o pecado original, que é um mau gene teológico.

[Adaptado de Juan David Garcia Bacca.]

Revelações

Talvez o amor esteja sempre lá. Talvez se revele quando se retiram os restantes sentimentos que o ocultam.

Um só minuto

Por fim havia dado com uma rua de um só minuto...

[Jacobo Fijman]

19.12.17

vibração

a música
de um poema
advém
da vibração
do silêncio
que contém

Tratado da natureza humana

Lamenta-se Hume: «No que a mim diz respeito, sempre que entro mais profundamente no que chamo de mim mesmo, tropeço, a cada momento, com uma ou outra perceção particular, seja de calor ou frio, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de dor ou prazer. Nunca consigo apanhar-me a mim mesmo em caso algum sem uma perceção, e nunca posso observar outra coisa que não a perceção.»

[Versão de x.]

18.12.17

Cantável

Arcangelo Corelli, Concerto em Ré maior, Op. 6, Nº 4

Autodesconhecimento

Talvez existam legítimas razões para ter inveja daqueles que veem pelo lado de fora aquilo de que só nos conseguimos aperceber com distorções, vendo a partir do lado de dentro.

15.12.17

Pinga-amor

Impecável no colete preto e camisa branca, tão alva quanto o cabelo que rareia já, e enquanto me serve o vinho, o Senhor Vieira vai adiantando que um homem, a partir de certa idade já não se apaixona. Pode ter uma inclinação, pode gostar, pode ter um fraquinho, é verdade, mas paixão, paixão como a que ele teve aos dezanove anos, um homem a partir de certa idade já não tem. Paixão daquelas, assim de amor da vida dele, que ele já teve outros amores, mas como aquele, nunca voltou a ter e agora, já homem de certa idade, não há paixão que lhe chegue, que passe o enguiço. Alonga-se, que encontrou aqui bom ouvinte, alonga-se dizia eu, pela história das paixões, e eu que sou bom ouvinte, como já afirmado, mas homem que sabe guardar segredos, vai-me desculpar a leitora, mas o que o Senhor Vieira contou, daqui não sai, o espaço do restaurante é público, mas o que ele contou é privado. E o que ele contou são histórias comoventes, de encontros, de incêndios, de desencontros, de amores distantes com continentes de permeio, e agora de reencontro tímido por via escrita há meses, de potencial encontro dentro de semanas, e o Senhor Vieira empolga-se, adensa a narrativa, e eu a pensar que o senhor Vieira podia escrever um livro que eu lia, de certeza, quando lá voltar digo-lhe, aquele amor dava novela, assim ele pegasse na pena para escrevê-la, e à medida que ele fala, quanto mais fala mais me convenço, que o Senhor Vieira, um homem de certa idade, que não se apaixona desde os dezanove anos, pois na verdade, não se apaixona porque, nestes anos todos, o Senhor Vieira não deixou de gostar mais do que muito da Dona Alberta, e eu era capaz de jurar, era capaz de apostar até, se houvesse forma de desempatar a teima, era capaz de por bom dinheiro em cima de mesa se encontrasse parceiro de aposta, em como o Senhor Vieira, aquele pinga-amor, está perdido de paixão. 

14.12.17

O universo

Pois que é o universo senão o nome que damos ao conjunto das nossas perceções?

[De uma ideia de Chantal Maillard.]

13.12.17

A metáfora

Talvez não existisse outra metáfora mais cristalina: duas pétalas da mesma flor. Assim os via.

11.12.17

Uma forma

Se o outro, o saudoso, o insofrido, o cartesiano, o cerebral, partisse, eu seria tranquilo, álacre, intuitivo, leve. Talvez a felicidade tivesse outra forma. Uma forma. Mas o outro continuaria a ser o outro, e eu não seria eu.

A luz e as sombras

Sonhamos, com frequência, a preto e branco e acordamos em cores. Os sonhos aproximam-se dos primórdios do cinema [ou os primórdios do cinema aproximam-se dos sonhos]. Ambos estão próximos da mais primordial das cenas: a luz e as sombras.

[A partir dos diários de Jean Baudrillard, Cool Memories.]

10.12.17

Primeiro violino

Ao ver a forma como o primeiro violino conduz a orquestra, maestro por inflexões, um arquear de sobrancelha, um inclinar de face, um certo ângulo do arco, um meneio de cabeça, cordas, metais, andante, suavíssimo, imagino o ser supremo a dirigir assim o vento, um golpe de olhar e este revolta-se, enovela-se, arrasta consigo o ar no compasso certo. Os melhores maestros, os que sabem no coração, par coeur, o número de cada compasso, deixam os músicos dirigir a orquestra de um que cada um é. O ser supremo, se existir, consente que o vento faça o que sabe melhor fazer, rebelar-se, encher espaços, atemorizar almas incautas. Inútil tentar adivinhar a pauta do crescendo do zéfiro até à rajada. No que toca aos desígnios da orquestra deste primeiro violino, a única resposta correta é olvidar a pergunta.

9.12.17

À espera da onda

Sentado na areia, à beira da água, as pernas cruzadas, o sol de frente perfurando-me os olhos como um punção, enquanto o mar se insinua pelo meu aroma, deixando pleno de sal e iodo o ar que respiro. Sou a minha própria estátua de areia, eu esculpido por mim com as mãos em concha, saibro escorrendo por entre os dedos virtuosos. À espera de uma onda ao entardecer, da lâmina de luz, espada de prata que se abaterá sobre a minha construção meticulosa. Ao tempo do impacto, serei e não serei. Tudo o que de mim existe, continuará. Cada porção, cada átomo, será tão eterno quanto o universo. Mas, pós-onda, eu serei tão efémero quanto um incêndio nesta superfície azul. Quando as águas recuarem sugadas pelo horizonte, parecerá até que nunca estive aqui.

8.12.17

Subversão

O conde von Metternich, ao ler um poema de Heine: «Excelente. Confisquem todas as cópias imediatamente.»

Kora[ção]

Mamadou DiabateJamanadiara

Autobiografia

Sobre a sua primeira obra, escrita aos dezoito anos, diz Javier Marías: «Pode dizer-se que era autobiográfica, na medida em que correspondia a uma série de vivências que teve o seu  autor, ainda que sentado na cadeira do cinema ou lendo num cadeirão.»

5.12.17

Porção inabitual de horas

Encontrando-se Menina Vera um dia com poderes plenipotenciários sobre uma porção inabitual de horas minhas, sendo culpado eu de delegação longânime, Marque, Menina Vera, marque, ora essa, eis que recebo nota no calendário do resultado do meu gesto vasto. Resumo executivo: amanhã não há crónica de café, não há café quente ao ar frio, não há minudências inconsequentes, menos ainda consequentes, não sei se há vida fora da sala de reuniões, sequer. Ao contrário de Proust, já estou à procura das horas perdidas, antes mesmo de as perder, leitora.

Meio de comunicação

O utente da mesa ao lado encosta o lado fino do telefone, aquele onde está o conetor que se liga à corrente, ao pavilhão auricular, e assim comunica. Telefone na horizontal, orelha de metal e vidro a sobressair da outra orelha de carne e cartilagem, numa ligação simbiótica demasiado avançada para a minha compreensão. Concentro-me a escrever esta minudência inconsequente à leitora para esconder o meu fascínio pelo que não entendo.

4.12.17

É o que se tem que escrever

Há coisas que não se podem dizer, é certo. Mas o que não se pode dizer é o que se tem que escrever.

[Maria Zambrano. Versão de x.]

Nota de vinte

Desculpe, Dona Yara, hoje tem que ser assim, não tenho trocado, digo eu ao estender a nota de vinte, para pagar o café. A Dona sorri, com aquele sorriso lá dela que atravessou o equador, e responde, Mas está certo, doutor, hoje o café é mesmo vinte euros.

De rir

E que autor lhe interessa?

A mim interessa-me Vargas Llosa porque é para rir. É muito mau.

[Rafael Sánchez Ferlosio, em entrevista ao El País no dia em que faz noventa anos.]

3.12.17

A cada sobressalto

Porque é que a cada sobressalto...
te regressam à mente os troncos
e o rio e a colina com a lua
por trás e o caminho....?

[Do Diário de Cesare Pavése, dezanove de agosto de quarenta e seis. Versão de x.]

Cantabile e suonabile

Tartini, Cantabile e suonabile

Caballo Blanco

Estou tentado a pensar que o homem que corria há minutos junto ao rio, de calções e havaianas adaptadas a huaraches saberia quem foi Caballo Blanco, e quem são os Tarahumara. Não parei para perguntar e a velocidade dele era superior à minha, ainda que estando eu motorizado, dentro de um casulo aquecido a mais nove graus que a temperatura a que ele se movimentava. Nada pode estar mais longe da Sierra Madre Occidental do que a margem deste rio. Mas o homem era, para além de corredor, idealista, quero crer. E idealismo é uma ponte capaz de transpor um oceano e ainda mais um bom bocado de um continente, tenho a certeza.

[Caballo Blanco foi um corredor lendário de ultramaratonas, que passou muito tempo junto dos índios Tarahumara, eles também naturais maratonistas. Huaraches são as sandálias de corrida dos Tarahumara. Os membros desta tribo mexicana usam uma bebida à base de chia como fonte de energia. Sim, a chia que agora prolifera nas prateleiras de produtos naturais dos supermercados, tornou-se conhecida fora do México devido à súbita popularidade dos Tarahumara, por meio do livro Born to Run, de Christopher McDougall.]

Campos amarelos

Fogo nos campos amarelos:
em corpos muito tempo unidos
a claridade gravou uma espada.

[Pere Gimferrer]

2.12.17

Viajantes

Não consigo dizer
precisamente
a primeira vez que vimos
esta lua os dois.

Em mais lugares
do que os muitos anos,
em tantos séculos
de vidas entrelaçadas.

Junta-nos a lua próxima,
e a viagem
eterna porque sem início,
eterna porque sem fim.

E terna,
como a noite
onde os teus olhos brilham,
na memória dos meus.

O que não acontece

Escrevemos também para relatar o que não acontece: a chuva que não chega, a luz que se desvanece, a quietude da alma, os sons que não se arrumam em palavra alguma, cada um dos mistérios que jamais entenderemos.

[Com um agradecimento devido a Carlos Skliar.]

Não reencontro

Ao vê-lo, alcandorado numa insustentável superioridade moral, rebaixar publicamente a funcionária do local, decidi que não valia a pena recordá-lo de que nos conhecíamos da infância. Os caminhos divergem por um acaso ou por um motivo. No caso, o acaso transformou-se em motivo.

A salvação

O pincel serve para salvar
as coisas do caos.

[Shitao]

1.12.17

Primeiro de maio

É boa ideia escrever um poema sobre o primeiro de maio em novembro ou dezembro, quando sentimos uma necessidade desesperada de maio.

[Vladimir Mayakovsky, Como são feitos os versos? (1926)]