28.6.17

destinatária

as minhas palavras dirigem-se para ti

como o meu tempo é dirigido por ti

céleres são as palavras que voam para ti

glacial é o tempo que se escoa vazio de ti

Uma ameaça ao gnomo

Os livros desaparecem-me para um limbo qualquer até que num dia o gnomo sub-reptício que os levou os devolve para um local mesmo em frente aos meus olhos, daqueles de sonora palmada na testa e insidiosa interrogação: porque é que eu não pensei nisto? Anda um livro meu no limbo há uns meses, é um livro pequenino, mas tem valor sentimental. Já revirei tudo o que havia para revirar nas estantes e o livro permanece regaladamente nas mãos do tal gnomo, que eu bem o imagino, o vira-casacas. Fará daqui a nove dias quatro anos que coloquei aqui no blog [ainda lhe chamava blogue, então] um poeminha de lá. A leitora não tem forma de comprovar, devido a esta estapafúrdia mania minha de enviar para rascunho os posts passados de prazo [chamar a isto um conceito vago é o eufemismo dos eufemismos], mas pode aceitar a afirmação à confiança. Em desespero de casa e de causa, hoje deparei-me com o livro numa estante de livraria, e o livreiro disfarçou o melhor que pode o riso discreto quando me viu bailar de alegria, aceitou de bom semblante uma nota e um nif, e o equilíbrio bibliográfico foi reposto. Daqui a oito dias se, entretanto, me lembrar, publico o mesmo poema, mas desta vez copiado do livrinho novo. Isto é uma promessa e ao mesmo tempo uma ameaça ao gnomo. Ai dele se me fizer passar uma vergonha aqui em frente à leitora, não é mesmo?

27.6.17

de surpresa

quando o final da tarde
rasgou um quadrado azul
por entre a moldura branca das nuvens

as folhas da laranjeira
apanharam-me de surpresa
e foi o teu nome que desenharam

Ânsia desusada de crocante

Dona Aureliana assoma-se da cozinha para explicar a Dona Sarita o segredo para a delícia que está no forno ficar crocante. Pelo meio, bondia-me: Bom dia, doutor. Bom dia, Dona Aureliana, bondio-a eu de volta. Sarita, é um café para o doutor, ordena a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Cheio, ecoa Dona Sarita. Cheio sai, e eu saio com ele, periclitante na chávena, para a esplanada. Hoje bebi quente, porque sei que a leitora fica horrorizada pelo desperdício de calor do café, que é como quem diz, pelo desperdício da flor do café. Esta minudência inconsequente é escrita quando um segundo café já ia bem, já combinava com o final da manhã. Mas terá que aguardar pelo início da tarde. A ideia do que quer que seja o crocante que estava no forno, que tinha segredo contado em voz miudinha, não me sai da cabeça contudo, dá-me fome antes do tempo. Ainda me rendo, o café da tarde está a candidatar-se a ser tomado com o sol a pique. Certa vez, Kafka foi visitar o amigo Max Brod, e ao passar despertou o pai deste, que dormitava no sofá. Kafkiano como só ele, sussurrou a Brod sénior: Eu sou só um sonho, pode continuar a dormir. Bem sigo o exemplo, bem digo à vontade de ir almoçar a desoras: É só um sonho, dorme mais um bocadinho. Mas a rebelde continua aqui a insistir numa ânsia desusada de crocante. Orwelianamente, posso fingir que esta fraqueza é uma força. Que almoçar mais cedo me dará vigor redobrado para uma tarde mais produtiva. Mas sou muito fraco a convencer-me a mim próprio do que não quero ser convencido. A bem dizer, é uma força que tenho.

26.6.17

arte de tecelagem

quisera ser tecelão
entrelaçar na tua
a minha mão

e rematar-nos
sem costuras
nem nós

só nós

A chegada da nostalgia insidiosa

Entre a minha mesa e a dele não havia senão espaço vazio. Chegou, pela mão do empregado, a taça de Chimay e ele, que estava com o computador aberto, fotografou-a e teclou um arpejo rápido. Quase de imediato chegaram elas, um abraço longo na de olhar brilhante. As mãos entrelaçadas em cima da mesa. Nenhuma escolheu Chimay, mas a de olhar brilhante pediu o mesmo que eu bebia. Foi então que a melancolia entrou pelos vidros amplos e apanhou o meu melhor ângulo. É o problema das janelas vastas: assim como não impedem os raios de sol desenfreados, pouco ou nada barram a chegada da nostalgia insidiosa.

Que precede o desmaio

Na mesa em frente [onde mais?] a cliente com todas as unhas de ambas as mãos em que foi aplicado um lacado Steinway, exceto as dos anelares, que são cinzentas, analisa, a microscópio de distância, a cliente na mesa da diagonal, a que tem todas as unhas daquele tom rosa que precede o desmaio.

25.6.17

Estoicismo dominical

Escreveu Cesário: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.»
Estou convicto de que os versos lhe apareceram a um domingo à tarde. A soturnidade e a melancolia a que se refere têm aroma dominical. Creio também que Cesário devia ser discípulo de Séneca. O desejo é absurdo porque o sofrimento já lá está. Abraçando os ensinamentos dos estóicos, Cesário vem anunciar que o que quer é o que tem. Nem mais. Anulando a vontade de ter o que não tem, atendo-se apenas ao que tem, vive numa agonia serena. Se me tornar estóico, começarei ao domingo. Tal é a soturnidade, tal é a melancolia, que ganho logo um avanço até pelo menos meio da semana. Se é para sofrer, que seja assunto sério.

Lágrimas na chuva

Vi coisas em que vocês, gente, não acreditariam. Vi naves de ataque em fogo no ombro de Orion. Assisti ao brilho de feixes-C no escuro, perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.

[Do monólogo de Roy Batty, em Blade Runner.]

Desobediência civil

Virgílio deixou a dois amigos a tarefa de destruir a Eneida, por publicar. Os amigos desobedeceram. Kafka incumbiu Max Brod de queimar a sua obra. Brod, como se sabe, rebelou-se. Santa Rita Pintor pediu que lhe destruissem os quadros. Mais submissos, os amigos ainda deixaram algumas, poucas, pinturas. Estava eu neste elencar, a pensar como é que será neste mundo digital desmaterializado e lembrei-me: este blog, que fará um dia destes quatro anos [eu aviso, quando chegar a altura] tem algures nos rascunhos mais de três mil ex-posts. É certo que pouco há aqui de mérito, menos ainda de valor. Mas se um dia me quiser desfazer disto, faço um apagamento sistemático, um posticídio, ou deixo a palavra-passe e instruções a um amigo, esperando que faça o que eu não tenho coragem para fazer, e secretamente ansiando que seja um desobediente civil, tão meu amigo que não faz de certeza o que eu lhe pedirei veementemente para fazer?

24.6.17

Marginália

Descobri, ou redescobri, que aquilo de que mais gosto nos grandes escritores são as suas obras menores. Papéis perdidos, textos para as quais não olharam segunda vez, livros impossíveis de achar, folhas salvas in extremis da fogueira. Descobri também que, mais do que dos grandes escritores, gosto dos escritores menores, dos que não são consensuais, dos que, quais salmões, avançam ainda no sentido oposto ao da corrente viçosa. E, claro, dos escritores menores prefiro as obras ínfimas às vistosas, as sumidas face às presentes, as dispersas face às apuradas. Se descubro o rasto de uma obra noutra obra [como uma rosa esquerda que deixou uma marca rubra no trajeto virgem], rejubilo em silêncio. No que é pequeno, procuro a marginália. Apaixonado pelas grandezas do ínfimo, creio ser assim que se chama esta minha maladia.

[A expressão «grandezas do ínfimo» devo-a a Manoel de Barros.]

23.6.17

tão frágil

gosto de te pensar intrépida
capaz de dançar cirandas
no cerne dos tornados
de rachar ondas a voz de comando
como se das tuas mãos
dependesse um povo em fuga

venha a criação ou o desmoronar do mundo
venham cavaleiros prenhes de apocalipse
venham anjos em enxames crepusculares
tu não fugirás
assim gosto de te pensar

e: não sabes

gosto também de te pensar
couraçada pelos meus braços
no baluarte do bater do coração
onde seguramente estarás
segura

e denodadamente frágil
tão frágil
tão tu

Vocês desculpem tocar nesse assunto

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente, diria o Velho Braga. Em 2015 ocorreram 31.953 acidentes com vítimas, nas estradas portuguesas, 41.076 feridos, 473 mortos. Em 2015 aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), que em 2014. Em 2014, aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), quem em 2013. O facto de os carros serem mais seguros provavelmente ajuda a que se morra menos, mas não que existam menos acidentes, pelo contrário. Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito. Morrer na estrada em Portugal é tão banal, tão pouco digno de nota, como morrer na guerra civil em Aleppo. O pior é que a cada dia o número dos que estão no «lado de lá» vai aumentando, e se a gente demorar muito[*], diria o Velho Braga, por aqui acaba falando sozinho.

[*A deixar de banalizar a morte que não dá manchetes. O dados são da Pordata.]

21.6.17

a soma dos pensamentos

há um verde de mar que nunca verei contigo
há um horizonte dourado que nunca observarei refletido nos teus olhos
há um aroma de ervas cortadas que não nos inebriará em conjunto
há um punhado de areia que nunca correrá da minha mão para a tua

a vida de um homem é a soma dos seus pensamentos
mas quando subtraio tudo o que nunca viverei contigo
o resultado ainda és tu
és toda tu

Ficam lindas, lindas, lindas

O Senhor Estrelinha tinha o estúdio de fotografia no primeiro andar de uma casa que era de primeito andar. No andar de baixo, o irmão tinha uma retrosaria. À retrosaria nunca fui, mas sempre que precisava de um retrato para o cartão da escola, era o Senhor Estrelinha que me imortalizava por mais um ano. De imortalidade em imortalidade cheguei aqui, nem tudo se perdeu.

Contavam que o Senhor Estrelinha era cruel com as Modelos.
Modelo: Mas oh Senhor Estrelinha, estou tão mal nesta fotografia.
Senhor Estrelinha: Nessa e nas outras todas, senhora. Sou fotógrafo, não faço milagres.
Modelo: Malcriadão. Nunca mais cá ponho os pés.
Senhor Estrelinha: E eu ralado, não venha. 
O Senhor Estrelinha tinha o monopólio dos retratos. A Modelo voltaria, ele sabia que voltaria.
Já eu, ficava sempre bem, modéstia à parte. Mas eram outros os tempos.

Ontem lembrei-me do Senhor Estrelinha. Olhei para o cartaz e lá estava a Candidata em tamanho irreal. Bem apessoada. Sorriso inabalável. Pele forrada a seda. Muito melhor do que quando me cruzei com ela, estava ela em tamanho real, numa superfície de tamanho irreal, onde ambos comprávamos coisas inúteis. O Senhor Estrelinha chegou cedo ao ofício. Os fotógrafos agora são milagreiros. 

A conclusão moral desta minudência impõe-se assim. O monopólio é mau. A concorrência é boa. Não havendo concorrência, as gentes ficam mal nos retratos [exceto eu, mas eram outros os tempos]. Havendo concorrência, ficam lindas, lindas, lindas. Quem sabe se agora, eu... 

20.6.17

O melhor café

Eu cheguei ao café há já longas horas. Antes que a leitora me olhe de olhos demasiado abertos de admiração e alguma reprovação, direi que faz horas também que já lá não estou. Mas quando cheguei, era Dona Aureliana que estava no posto de comando.
Dona Aureliana: Bons olhos o vejam doutor. Vai ser o melhor café para o senhor?
Eu: Dona Aureliana, hoje tem que ser mesmo o melhor de todos os cafés.
Dona Aureliana: Pois aqui a Jânia vai tirar para o senhor o melhor café. Jânia, é o melhor café para o doutor.
Eu: Dona Jânia, é o melhor café bem cheio, se faz esse favor.
Dona Jânia: Silêncio eficientíssimo.
Dona Jânia afadigou-se em torno da máquina fumegante, perante o olhar atento de Dona Aureliana, coordenadora de serviço do café, controladora de qualidade de líquidos cremosos em chávena, dona de uma fala lá dela que atravessou o equador. E sai um café orgulhoso de ser o melhor café. Por todos os deuses que os homens criaram, leitora, há tempos que não bebia tão bom café. Verdade. Primeiro porque estava na temperatura certa. Não arrefeceu enquanto eu escrevia minudências, que essas escrevo agora. E depois, porque estava mesmo bom, qualquer que seja a definição de bom café. Bom café e boa brisa, deixei-me ficar à sombra, despachando missivas importantíssimas para a esquerda e para a direita. Dona Aureliana mandando no mundo lá dela, eu vigiando o mundo cá meu, a leitora aí a franzir o sobrolho, que eu bem imagino. Pois se isto é forma de passar uma manhã, na esplanada, por mais importantes que sejam as missivas enviadas para a esquerda e para a direita? Quando se tornou demasiado escandaloso até para mim estar tão bem, mudei para lugar mais formal. Tão escandaloso, que o meu plano para amanhã é repetir o escândalo todo, sem nada omitir.

19.6.17

o sussurro das estrelas

por um instante me quedo
mudo
como quem escuta
no fundo da noite
o sussurro das estrelas
e o compreende

falar baixo

falasse eu hoje contigo
falaria baixo
de mim não se ouviria mais
do que uma nuvem a deixar um traço no azul
do que um raio de sol a mergulhar no poente
do que palavras a atravessarem uma página

e no entanto eu sei
por todos os deuses que os homens criaram
ainda que falando baixo
não haveria palavra minha que não ouvisses

as minhas palavras são tuas
a ti regressavam apenas

neste falar tão baixo do silêncio

18.6.17

A esplanada era outra

A brisa salvou-me do calor da tarde, numa esplanada [tenho um mapa completíssimo de esplanadas, leitora]. O meu café ia a meio quando ela chegou, que eu ouvi, no silêncio das horas de calmaria: «Um café cheio e um copo com gelo». Ora de café cheio percebo eu, que é o que dá tempo para escrever uma minudência inconsequente, mas eu, que havia recusado a oferta de pedras de gelo para a minha água efervescente com rodela de limão, não acompanhei a necessidade de tal combinação [ah, a minha ingenuidade]. Sentou-se na mesa ao lado [nestas histórias, reparará a leitora, toda a gente se senta na mesa ao lado], despejou o café para dentro do copo com gelo e mais depressa do que eu levo a escrever a palavra «minudência» engoliu a frankenbebida de um trago. Abalou como chegou. Em cima da mesa ficaram um maço de tabaco vazio e um copo com umas pedras de gelo com cor de café. Dona Aureliana não estava nem por perto, que a esplanada era outra. Por perto apenas o meu espanto e a brisa. E no fim, apenas a brisa, que acabou por levar o espanto com ela.

Um assombro antigo

(...) o fulgor do fogo  / Que nenhum ser humano pode olhar sem um assombro antigo (...)

[Jorge Luis Borges]

Assombro, horror, comoção: antigos sim, mas atuais, presentes, imediatos, como facas finas cravadas na nossa consciência coletiva.

Instagrafias

O pássaro anda numa onda de vir picar o pio e zarpar. Irrompe em cantorio, um pico lírico e ala, para outras paragens. Outras passaragens, diria.

Melhorou o panorama da esplanada. Mais afoitos à sombra. É verdade que o céu está mais sombrio. A sombra puxa a sombra, por cá. É isto que nos diferencia de outros povos, também.

Diz-me que eu estou elegante por devoção e ele elegante por obrigação. E sinto-me na obrigação de ficar envergonhado por não o ter reconhecido, assim, tão eufemisticamente elegante.

Leu decerto mais livros que eu e não gostou do filme. Fiquei contente por ter lido menos livros que ele: eu gostei. Não lendo tanto, m'espanto às vezes [outras m'envergonho, como diria Sá de Miranda e eu confirmo no parágrafo anterior].

O cão tem menos de meio metro. Enganei-me nas contas. E o olhar do homem há pouco, vazio. Nem uma tatuagem no ombro no horizonte.

Tenho anotado no caderno: «Almoça-se hoje, onde?» perguntaram eles quando chegaram ao restaurante onde vou há anos. Perguntaram para dentro da cozinha, quando tanto lugares estavam vagos na sala. «Aqui na cozinha é que não», respondeu a cozinheira, explicitamente pragmática. Tenho «isto» anotado no caderno. Senão como é que enchia tantas páginas em branco?

17.6.17

a melhor página

de todos os versos de amor
as rimas e frases reinventadas
as jogadas de efeito
os subterfúgios e os hai-kais
anotações de diário
de todos os nomes que dei
para crises de adolescência
e carências plagiadas
de todo o minimalismo
clichês e letras de música
de toda minha literatura
você ainda é a melhor página

[quem dera ter sido eu a escrever, mas é de Martha Medeiros]

16.6.17

A rosa quer perdurar como rosa

Dizia Sui, o chinês, que cada coisa que surge na terra projeta o seu arquétipo no céu. Algures existe o arquétipo da clepsidra, o arquétipo do barco, o arquétipo do soneto, o arquétipo da equação, o arquétipo da catedral, o arquétipo do mapa, o arquétipo do livro. Kant, interpretando Espinoza, observou que cada coisa quer perdurar no seu ser. A rosa quer perdurar como rosa, o rouxinol como rouxinol. Ao procurar-te, encontrei o meu arquétipo. Eu, sabes — eu quero perdurar como nós.

15.6.17

Tal era o seu esplendor

Quando Seth chegou ao Paraíso confundiu-o com um incêndio: tal era o seu esplendor.

[Victorinus, séc. IV]

14.6.17

morrer de imortalidade

quero aguardar o beijo
como o sol nascente
depois da noite desperta

quero que os nossos lábios
cerceiem do tempo
todas as franjas das horas

quero viver o fulgor
do amor a irromper
com a urgência do vulcão

quero no instante do beijo
mensurar o infinito
morrer de imortalidade

Modo de ler

Os livros que tenho comprado são dos que se começam a ler em qualquer ponto e em qualquer ponto se termina a leitura. Leio de forma circular e não raras vezes volto ao ponto de partida, relendo a página que tinha começado por ler antes de todas as outras. Neste modo de ler, pergunto-me se compro livros ou antes fitas de Möbius.

O ar condicionado pode esperar

Vindo de conversar com Dona Yara sobre os calores do dia que se inicia, sento-me na esplanada a escrever uma minudência inconsequente à leitora. A brisa amena convida a espraiar o momento muito para lá do tempo que demora o café a ficar frio. O cliente da mesa em frente bebe um café gigantesco, à maneira anglo-americana e come fatias de fiambre retiradas da embalagem como se desfolhasse um livro precioso. Fiambre às fatias. Na esplanada, apenas os dois e o vento ameno. Ao longe, a fala de Dona Yara com aquela entoação que atravessou o equador. Tal é a calma que os pombos por aqui aterram e ficam, também eles no remanso. O ar condicionado pode esperar, penso eu. Monto escritório à sombra. Mandasse eu nisto do mundo, e deixava esta brisa ligada todo o dia. Feitos à imagem e semelhança de Deus, estou em crer que ele está sentado numa esplanada algures, deitando de vez em quando um olhar distraído para nós, enquanto aspira o aroma do café fresco, quiçá a esfriar mesmo.

13.6.17

Podem sair da sala

«E agora as crianças podem sair da sala» anuncia Jerónimo Pizarro antes de ler ao ar livre, com aquela fala lá dele que atravessou o equador, o soneto dos insultos, de Fernando Pessoa. Recordei-me de Mozart e dos seus versos escatológicos e escabrosos. Mozart sabia mais de composição que Pessoa, e este mais da arte de versejar que o vienense. Mas a insultar, Mozart tinha a opulência do Império Austríaco, e Pessoa, a decrepitude do Português. A queda dos impérios é precedida pela esvaziamento dos seus insultos, até se tornarem irrisórios, olvidáveis, pífios, em suma.

Ganha sempre

«Chamei o pássaro.» diz Mia Couto, «E o pássaro comeu o céu.» O pássaro do lado de fora da janela trina desaustinadamente. O céu não terá comido, e eu não o chamei. Mas trina ele como se me chamasse. Estão mais de trinta graus lá fora. É um jogo de paciência: ele desafia-me, eu resisto. Mas o pássaro, que me deve vigiar e anotar os hábitos, sabe que cederei. É uma questão de paciência, num jogo que estou condenado a perder. Eu contra um pássaro: e o pássaro ganha sempre.

Da pastorícia em Vila Meã e Nova Iorque

Ao ler a opinião de Susan Sontag face à escrita aforística: «Escrever aforismos é assumir uma máscara - uma máscara de desprezo, de superioridade», fico a pensar que Susan Sontag não gostaria de ler Agustina. Mas Sontag descreve os aforistas de forma aforística, ou seja, como Agustina o faria. Já Agustina chama ao aforismo uma pastorícia cultural. A diferença é que Agustina admite que pastoreia e gosta de pastorear, e Sontag pastoreia, mas proclama: «Que horror. Pastorear, eu?» É diferente nascer em Vila Meã ou em Nova Iorque, no que toca à pastorícia.

12.6.17

orçamento zero

começo
todos os dias 
buscando apenas palavras 
acabadas de cunhar 
para ti

Eu também

Salomão diz que uma boa resposta é como um amoroso beijo. Eu prefiro um amoroso beijo a uma boa resposta.

[Agustina]

Vertiginosos na altura

Talvez pela idade pudessem ser meus pais, o que já é dizer alguma coisa. Na mesa ao lado direito da minha não havia como não os notar, também. Ela de cabelo de ouro faiscante, calças brancas rasgadas nos joelhos, sapatos de malha de rede, vertiginosos na altura. Ele de cabelo longo, alvo, apanhado, gigantesco telefone inteligente em uso constante. Apenas faltaram as selfies. Mas tal como os vizinhos da mesa do outro lado, os que se prodigalizaram em autorretratos, também estes tentavam estacar o tempo. E logo à beira do mar, que é onde ele mais se recusa a ser imobilizado.

11.6.17

Proximité

xilre, proximité, 2017

pastoral

não podes dizer que não
hoje reconheci um traço teu
foste tu que pintaste o céu
retocaste o mar
e o meu coração

Seráfico

Na mesa ao lado da minha, não havia como não ver. As selfies, incontáveis selfies, devo eu ter ficado como cenário de fundo de algumas, selfies a um, selfies a dois, selfies de cara de pato, selfies com molduras flutuantes, selfies de face de bebé e selfies de espelhos de feira. Ali mesmo em frente, o imenso mar azul, tão bom de contemplar.

Levado pelo apelo

«Frederico Lourenço vai estar a autografar a sua tradução da Bíblia no pavilhão da Quetzal», proclamava a Voz acima de todas as vozes. Estava perto, tenho o primeiro volume mas não o segundo: podia ter sido levado pelo apelo. As epístolas de Saulo autografadas por Frederico. Mas tal como aconteceu a Saulo, eis que uma luz forte me fez cair do cavalo. Tive a epifania do ridículo de ter uma Bíblia com assinatura e dedicatória de alguém, ainda que seja o tradutor. Felizmente, ao contrário de Saulo, ainda via a luz do dia. Continuei, como até ali, a fotografar capas de livros, que comprarei num raide noturno, quando a feira estiver a fechar, a temperatura for amena, e os autógrafos tiverem há muito cessado.

10.6.17

intimidade

um dia
lerei
para ti

ler-te-ei

Sensibilidade

Todo o cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam.

[Clarice Lispector, Onde estiveste de noite]

Main

xilre, main, 2017

9.6.17

Habitar os sonhos

Tenho-te encontrado em cada página de cada livro que leio. A tua ubiquidade surpreende-me, intriga-me, fascina-me: como podes ter sido tema para cada escritor dos que habitam ao meu lado, nestas pilhas instáveis, a que sempre volto, escorando, derrocando, em páginas que tendem a desvelar-se novas à minha mão de leitor repetente. Não em cada parágrafo, como bem sabes, combinaste com os autores o teu lugar, por vezes na primeira das linhas, outras no parágrafo do centro, notei que preferes esperar por mim mesmo antes de virar a página. Jogas comigo, corro a página seguinte, numas escondidas entre o olhar e as palavras. Se o confessasse a outros, diriam que eu é que te vou semeando no campo das letras, para que brotes e que eu te encontre em flor quando por lá regressar. Mas ainda acho que foi conluio teu, uma magia das que alteram o tempo, que te fez habitar os sonhos dos que escreveram os tomos que me preenchem as noites em claro. E assim te encontro, dizia, nos meus sonhos, e nos sonhos que outros, antes de mim, sonharam. Não sei como o conseguiste, como viraste o ciclo dos dias, como quebraste tantos impossíveis, como soubeste antes de eu saber, o que eu iria ler, o que iria ver, o que iria sentir. Sei, isso sim, reconheço, posso dizer-te com segurança, com algum orgulho até: Venceste.

matéria-prima

talvez eu chegue a ti como matéria-prima
talvez sejas tu que me crias a partir de mim

8.6.17

o erro de Newton

dizem os físicos
que dois corpos
não podem ocupar

o mesmo espaço
ao mesmo tempo

estão errados

num abraço
podem

num abraço
devem

O que existe em paralelo

Asak espetou dois paus na areia e sentou-se num tapete a tomar chá de menta. O sol banhava de luz o deserto com a exceção das duas sombras paralelas, filiformes, à sua frente. Longa era a viagem do sol, mas tempo, que é a areia da eternidade, não lhe faltava. Nem chá. Eventualmente, as duas sombras que eram paralelas, sobrepuseram-se. O que é paralelo não se encontra senão no infinito, dizem os homens. Mas Alá, que fez o sol e a sombra, sabe mais. Encontram-se sim, no finito. Nem que seja preciso rodar um mundo. Quando o sol começou a separar as sombras, Asak rodou os paus, por forma a que continuassem sobrepostas. Ou nem que seja preciso contrariar a rotação do mundo, pensou Asak. E bebeu mais chá de menta, que tomava amargo, ao invés de todos os outros. Sempre do contra, pensou. E sorriu.

7.6.17

Rolar, rolar

Asak chegou ao topo da duna e bebeu um chá de menta. O sol do ocaso alongou-lhe a sombra até à duna que começava imediatamente a seguir. Levantou-se, enrolou o corpo sobre si mesmo, fechou os olhos e deixou-se rolar pela areia, sentindo-se acelerar, rocha feita de gente, velozmente azul. Com o impulso, atravessou o pequeno vale e subiu a duna seguinte. Como um milagre, mas Alá sabe mais, atingiu o topo. Em pé, mirou a silhueta do bule e do copo onde havia tomado o chá. Rolar nas dunas, pensou, é como atravessar os dias. Estamos no pico, estamos no vale, voltamos ao pico. Ao vale tornaremos. É a descida de uma duna que faz ultrapassar a seguinte. Asak foi buscar o chá de menta para a duna que havia primeiro subido a rolar. Olhou as seguintes. Numas rolaria, noutras não. Mas haveria de beber chá de menta na duna do horizonte.

As palavras de amor

Não as digas,
se não quiseres;

não é necessário.

Quando
me olhas
dessa forma,
às vezes…

sei que estão
todas aí.

[Baseado em Karmelo C. Iribarren. (Quando aqui aqui escrevo «baseado» é porque acredito que a poesia é intraduzível.)]

Tão cedo

Chego ao café mais cedo que nunca, mais cedo que Dona Aureliana, mais cedo que Dona Yara, apenas Dona Patroa chegou mais cedo, que isto a responsabilidade de mandar num mundo é coisa de peso, arreda o sono antes que a noite se arrede. Hoje fui eu a acordar o pássaro, creio, que imagino estremunhado a esta hora, enquanto o café arrefece aqui à frente e eu escrevo minudências inconsequentes à leitora.
Entretanto, vejo Dona Yara que acaba de chegar, ainda em traje civil, e já num afã sobre-humano. Posso ter acordado antes da lua se ir, pedido um café ainda o sol esfrega os olhos piscos, mas aquele afã, leitora, ainda aqui não está. Apenas o pensamento se afadiga, que esse é rápido de manhã e gasta-se depressa. Começa a funcionar muito cedo e vai travando, até que estaca, ainda a lua está a uns dez graus no horizonte. Agora que estou nisto, pergunto-me se a lua não tem efeito no pensamento, como tem nas marés. Eu vivo sempre no mundo da lua, diz a canção. Já eu não. Passo a vida a fugir do mundo da lua, leitora. O problema, sabe, o problema é que o mundo da lua me encontra sempre.

6.6.17

Desordenadamente

Os teus olhos
que estão plenos de selvas e são um manifesto,
desordenadamente
fazem de mim aventureiro
                        e revolucionário.

[Baseado em Luis Garcia Montero.]

Constatação de Asak

Um oásis é uma porção ínfima de água rodeada por um deserto infindo por todos os lados.

Plácida terça

O meu Plácido Domingo de beiral veio cantar Wagner ao alvorecer, atropelando com o seu afã multidões de trinados incautos. Que fulgor, que vigor, que furor por me acordar assim. Plácido é o tenor, que ao canoro falta em placidez o que lhe sobra em audácia. Comigo aprendeu que deitar tarde e cedo erguer, pode não nos dar saúde [que é sempre adquirida em leasing] mas faz crescer. Não o vejo há meses, acredito que agora peça meças com uma águia ou, quiçá, um flamingo. Com ele eu teria muito para aprender: esta arte de desaparecer e reaparecer, retomando o canto na nota em que o deixou, esta arte de barítono tão plena de oitavas que me deixa num oito, e sobretudo, ah, sobretudo, a arte de voar. Eu, que só consigo voar num casaco de fuselagem, que jeito me dava voar assim, em mangas de alva camisa. É que nem hesitava: voava já. Tomava o segundo café e, inclua-se aqui onomatopeia, num ato de fé, inflava asas pelos ares, tomava a escada para o céu. Como um leve zeppelin, diria.

5.6.17

perpétuo movimento

todos os dias a tua imagem irrompe em mim
como se eu fosse terra fresca e de ti nascessem
raízes e ramos e folhas e sóis

Milheiros cronológicos

Sentado no meu posto de comando, com uma das estantes a alguns metros dos olhos, e em linha reta, direta, duas mil páginas de livros carinhosamente selecionados na feira do livro de há dois anos, às quais se juntarão, por outras estantes, similares milheiros do ano passado e dos adquiridos no intervalo entre feiras, que é o ano todo. Páginas e páginas de prosas magníficas, poemas eternos, não ficções, ficções, pulsões e paixões. A aguardar a oportunidade de serem lidas. Fosse eu a ler por ordem cronológica de chegada à fila de espera e creio que a vez destes mesmo à minha frente aconteceria daqui a uns setenta anos, mais dezena menos dezena. Um ótimo incentivo para buscar uma vida longa, não se desse o caso de ter a certeza de que este fosso crescente de anos nem que eu chegasse a idade de Matusalém seria ultrapassado. Aquiles e a tartaruga, mas com uma tartaruga mais rápida do que Aquiles, por outras palavras. Posto isto, ajude-me a leitora: porque é que eu teimo em ir à feira do livro todos os anos?

4.6.17

a espera

esperava longamente
pela aceleração do tempo

esperava para esperar
desesperava

Leitura dinâmica

Não há leitor mais impaciente que o vento.

Sistema global de poetamento

Quando estou perdido, há sempre um poema que me encontra.

Café forte

Com tal vento, na esplanada só o café muito forte resiste.

3.6.17

Fado tropical


Constantinople, Cissoko, Tabassian e Martel, Lountang

2.6.17

fusion

xilre, fusion, 2017

ex-líbris

fechava os olhos e conseguia ver perfeitamente
onde ela o havia marcado

1.6.17

Carta a propósito de um panda bebé

Recebo, por um estafado estafeta, uma carta manuscrita a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada.

«Meu muito estimado amigo,

Escrevo-lhe instado pela dulcíssima Orchidée, aqui ao meu lado desfeita em lágrimas de dó pela sorte de um panda bebé que, diz ela, está prestes a fenecer se o meu amigo não tomar determinada ação ainda hoje. Pelo coração d'oiro desta que ilumina as horas do meu ocaso sou capaz, como decerto sabe, de tudo, até de o instar a tomar alguma ação, coisa a que o meu estimado é, como é do conhecimento geral, avesso.
Passo a explicar a situação. Informa-me a minha soluçante Orchidée («pauvre, pauvre panda») que o meu amigo recebeu um ex-líbris qualquer lá nessa coisa dos hebdomadários das internetes. Como é que é alguém o nomeia para alguma coisa que não seja contar teias de aranha em bibliotecas empoeiradas, é um mistério para mim, mas avancemos. Informam-me ainda que o meu amigo terá que retribuir o ex-líbris a outro escriba desses de hebdomadários, numa espécie de «merry go round». Ora se bem o conheço, o meu amigo ficará a contar as estrelas do céu e a dividir pelo cardinal de livros da sua biblioteca, para ver se encontra o número que representa o significado da vida enquanto o ex-líbris jaz esquecido e arrefece. O problema é o panda («pauvre, pauvre panda») que assim fenecerá totalmente fenecido, como diria o Herberto, que não disse totalmente assim. O problema, meu estimado amigo, serão as lágrimas desta que aqui ao meu lado se esvai em compaixão pelo «amoroso e fofo pandinha». O problema, enfim, é a minha noite.
O meu amigo sabe que eu não sou versado nisto dos hebdomadários das internetes. Fraco aconselhamento posso dar, mas ainda sou homem para ter uma vida bem vivida e uma considerável memória. Há uns anos, na esplanada do Hotel Mont Blanc em Megève, frente a uma garrafa de Château Lafite Rothschild, o meu estimado amigo Lancastre apresentou-me o sobrinho, cavalheiro de refinado espírito, que tinha também um desses hebdomadários nas internetes, mas que ao contrário do pasquim do meu prezado amigo, falava de coisas que interessam aos homens como carros descapotáveis, «football», vinhos do Loire e montanhas suíças, tudo isto com prosa eivada de um espírito, meu amigo, que o seu sonharia ter, fora o seu um hebdomadário em bom, como sói dizer-se agora. Pareceu-me coisa de valor. Por quem é, procure lá o hebdomadário do sobrinho do Lancastre e envie-lhe o ex-líbris. Diga-lhe que vai da minha parte, olhe. Salva-se o «pauvre, pauvre panda» e salva-se a minha noite, e se calhar a sua, porque a radiosa Orchidée já se preparava para enviar uma orquestra de tocadores de alfaias de cozinha para a frente da janela do seu quarto, onde habitualmente pousa aquele seu pássaro.
Veja se faz alguma coisa ainda hoje, nem que seja publicar esta carta. Quem sabe se algum dos seus dois ou três leitores saberá do paradeiro do sobrinho do Lancastre. Aqui ao meu lado soluçam «pauvre, pauvre panda». Aproxima-se a hora de recolher. Aja depressa, por quem é.

Aceite um abraço deste que muito o considera,

J. Eustáquio de Andrada»