27.11.16

Caderno diário

Do pássaro do beiral, nem pio. Aguardei ouvir um trinado que fosse antes de ir à janela: nada. Claro que agora o compreendo. Com este sol radioso de primavera tardia pós-dilúvio, o que faz um canouro que se preze preso num beiral? No lugar dele, nem já cá estaria: andaria pelos céus do rio, pelas areias do mar impaciente, pelas árvores acolhedoras. No lugar dele, digo. No meu, vou à procura de uma esplanada para tomar um café tardio. É o mais que consigo fazer e, creia-me a leitora, já não é pouco.

26.11.16

Caderno diário

No meio da bátega de chuva, não, do dilúvio universal, que me despertou hoje, e antes de mergulhar na leitura de memórias de vitorianos céticos quando não cínicos, pareceu-me ouvir uns trinados no beiral. Vicente Aleixandre escrevia a sua poesia no estado de semi-sonolência, imediatamente antes de adormecer. Eu, Aleixandre não sou. Talvez tenha que me contentar em ouvir um pássaro, porventura ensopado, pobre canouro, no beiral, em estado de semi-sonolência (eu, não o dito trinador). De vez em quando surge, assim como um trovão, uma vaga de saudade do pássaro. Já não sei se ouvi-lo é real ou antes uma coisa mental, como o calor sentido por quem o deseja, ao calor, ardentemente, passe o pleonasmo. Não sei se faz muita diferença, também.

24.11.16

O estranho caso de Tagik, o berbere contador de estórias: digressão por uma biblioteca

A biblioteca, disse-lhe o velho cego, é o universo. E pegou na mão do rei, conduzindo-o no labirinto dos corredores, onde as estantes que ligavam o chão ao teto tão alto que tocava o céu, se esmagavam sob o peso dos livros. Vou perder-me aqui, pensou o rei, ao ensaiar os primeiros passos no corredor. Lembrou-se então de que transportava consigo um saco de sementes de chia, que lhe tinha sido dado por Tajik, o berbere contador de estórias. Rei, havia-lhe dito Tajik, estas são as sementes mágicas que fazem com que os índios Tarahumara, das distantes terras quentes de outro continente, corram centenas de quilómetros sem nunca se cansarem. Parecem, os índios, nascidos para correr, acrescentou Tagik desafiando o ceticismo da corte. Disto se recordou o rei e enquanto o velho cego o conduzia, foi deixando cair as sementes pelos corredores. Se as sementes eram para os corredores, era nos corredores que agora estavam. Riu-se de si para si, com o seu chiste, o rei, que apreciava como ninguém um bom trocadilho. O velho cego abria os livros e deles entoava bocados de histórias ao rei boquiaberto com a visão de quem, não vendo, tão bem lia. Afinal, pensou o rei, se a biblioteca é o universo, e a biblioteca é onde vivem as histórias, há tantas histórias quantos os átomos do universo. Há mais histórias do que homens – concluiu o rei, que era bom a fazer contas de cabeça. Mas se há mais histórias do que homens, onde se originam? O rei já tinha mais perguntas do que respostas. O velho cego, parado no corredor, fitava-o agora fixamente, com o olhar na direção do infinito. Eu, que tantos homens fui, dizia, nunca fui aquele em cujo abraço desfalecia Matilde Urbach. Mas quem diabo é Matilde Urbach, e o que é que está a fazer nesta biblioteca? perguntou-se o rei. Tomou nota mental para perguntar a Tagik, caso alguma vez voltasse a ver o berbere. Pensando nisso, achou que estava na altura de voltar às viagens. Só tinha que sair da biblioteca, deixar o velho guardião, encontrar a porta, banhar-se na luz. Felizmente, tinha deixado cair as sementes de chia, teria apenas que seguir a pista de volta. As sementes, as sementes… onde estavam as sementes? Ao seu lado, um pássaro azul chilreou satisfeito, de papo cheio. O rei deu uma palmada na testa, quando a consciência da sua condição tomou conta dele. E agora, pensou o rei, que farei no meio da biblioteca, sem caminho de retorno, com o velho cego que não se cala com a Matilde Urbach? A minha rainha lá tão longe e tão vulnerável. Deu-lhe, de súbito, a urgência de estrangular o berbere com as suas próprias mãos. Se ao menos conseguisse sair dali...

22.11.16

Metalurgia dos sentimentos

Talvez um dia descubra qual o metal base das agulhas da saudade. Não que isso impeça o respetivo avanço irreversível, menos ainda me permita criar algum antídodo, inútil, mas para lhes poder dar nome, a cada agulha, para poder designá-las com especificidade, com precisão. Não as podendo vencer, saberei de que matéria são feitas e que as tornas de tal modo eficazes. O conhecimento será, ao menos, e assim me iludo, um bálsamo parcial.