19.10.16

O rating da república

Fosse eu o responsável pela avaliação do país numa agência dessas de rating, das quais depende que o Banco Central Europeu continue a comprar a dívida da república como se fossem pastéis de nata quentes daqueles lá do café do Chico e havia de manter o dito rating sempre abaixo da linha de água, à beira do afogamento por exaustão de oxigénio enquanto os habitantes deste rectângulo continuassem a tomar como ofensa pessoal, crime punível com abalroamento, as mudanças de faixa devidamente assinaladas, atempadamente piscadas, mas que ainda assim, ainda assim leitora, levam a que quem vem à distância de centenas de metros, se sinta na obrigação de acelerar para fazer sentir a quem muda de faixa que é um salafrário, que vai passar a ocupar também a faixa de quem vem centenas de metros atrás, e que isso não se faz, é uma usurpação, um desaforo, um desatino. E eu, se fosse dessas agências, era capaz de me armar em Valente, Vasco Pulido Valente, ser pessimista irremissível, achar que este país não tem conserto, e dar uma nota daquelas de chumbo sem direito a revisão de provas. Porque a parte não é o todo, uma sondagem não é um censo, mas a amostra, a minha amostra, leitora, é diária, de quem anda de carro na cidade, a qualquer hora, e isto sucede preocupantemente amiúde. E é um sinal cultural relevante, o que os mercados chamam um evento significativo. E diria na minha recomendação, e era capaz de ser paternalista, aprendam a portar-se na estrada como habitantes de um país do primeiro mundo, se querem ter um rating do primeiro mundo. Até lá, andarão no clube dos que não saem da cepa torta. Talvez assim a tal amostra que encontro todos os dias, e se tenta encontrar comigo imediatamente em primeiro grau, entendesse. Tivesse eu a certeza, leitora, tivesse eu a certeza...

6.10.16

Como dois violinos em concerto


Bach, Concerto para dois violinos em Ré Menor