1.8.16

Férias a convite

Recebo uma carta escrita pelo punho do próprio J. Eustáquio de Andrada, na inconfundível letra treinada nos clubes de caligrafia de Oxford. A tinta, azul cobalto, tem a gradação de traço que apenas a suavíssima S. T. Dupont Olympio confere. 

«Meu muito estimado amigo, 

Fontes que não irei identificar, mas que aqui ao lado limpam uma lágrima saudosa ao canto do olho, afirmam que o meu amigo, chegados que estamos ao primeiro de Agosto, não tem quaisquer férias marcadas. Presumo que estará a ponderar passar o mês nalguma esplanada, na companhia dessas profissionais de hotelaria e turismo a que chama Donas, quando não está com as orelhas enfiadas entre cartapácios bafientos. Pode não ser o melhor plano, mas é um plano, convenhamos. Não conheço mais ninguém, tirando o meu amigo, com tal plano, mas é um plano, convenhamos novamente. 

Ora bem, como sabe, o meu amigo é como se fosse um filho para mim, e por inerência, de Orchidée, esta flor que ilumina o meu ocaso. Claro que entenderá que filho meu seria homem de rijezas, de cartuchos, perdizes e saudável vernáculo. O meu amigo, que vive entre cozinheiras de restaurantes onde só se serve carpaccio de alface obviamente não podia ser meu filho, mas façamos de conta, para simplificação do raciocínio.

Eu e a dulcíssima Orchidée, esta sua mãe aqui ao lado, por assim dizer, que soluça pauvre, pauvre J. a cada passo, temos mais casa de férias do que a que precisamos, na Herdade de Andrada, mais cavalos do que precisamos, mais sombra do que precisamos, e finalmente, mais comida de gente do que conseguimos comer. Entenda portanto estas palavras como um convite. Mas não entenda mal, pela sua saúde, porque não o estamos a convidar para comer as sobras, não, não. Será cidadão de pleno direito na Casa de Andrada: entrará um rapazote, pálido, quase tísico, sairá um homem, de boas cores e nédio, até. Uma vida nova, é o que lhe prometemos, nesta sua novíssima família por uma semana, duas, as que quiser e as que conseguirmos aturá-lo. 

Sua mãe, perdão, a brilhante Orchidée, sopra-lhe beijos de ar. Agasalhe-se, que a corrente por eles causada ainda o constipa. O Reboredo irá buscá-lo amanhã, para ajudá-lo a transportar necessaires e assim. 

Aceite um abraço deste que muito o estima, um pai para si, por outras palavras, 

 J. Eustáquio de Andrada»