31.7.16

Paralelismos temporais

Robert Ludlum, o autor da trilogia de Bourne, era um homem do teatro, antes de ser escritor. Seca a fonte da sua escrita — os livros que deixou já foram vertidos em filme — os argumentistas regurgitam numa fita sem qualquer traço dele, apenas os lugares comuns, a súmula do fogo de artifício, sem chama, só artifício. Joanne Rowlling, vem da escrita, e estreia-se no teatro com Harry Potter and the cursed child, a primeira obra com Potter depois de seca a fonte dos sete livros originais (não contando com os derivados). Quem for ler, é melhor saber ao que vai: é uma peça de teatro, melhor, o argumento de uma peça de teatro — até indica no fim quem são os atores que atuaram ontem, na estreia. Talvez seja uma história requentada de Potter, e quem a ler como se apenas de outro livro de Rowling se tratasse, sentirá desilusão, talvez profunda. Mas quem ler o argumento de uma peça de teatro, bem, estamos a falar de algo absurdamente complexo de imaginar em palco — e perguntar-se-á, múltiplas vezes, Como é que se encena isto? Talvez absurdo seja subestimar a complexidade de recrear tudo o que se passa no livro que é, recorde-se, o argumento final, aquele que quem tiver bilhete para hoje, verá no Palace Theatre, em Londres. Se há lugares comuns em The cursed child? Inúmeros, tantos os que quem conhece a escrita da escritora escocesa, consegue imaginar — e mais alguns. Mas pelo meio há pérolas que podiam ter sido escritas por Tom Stoppard. Ou talvez esteja a ser demasiado condescendente, mas creio que não. Enquanto via Jason Bourne lastimava a ausência de um argumentista competente e a falta da mão de Ludlum. Enquanto lia The cursed child, abençoava a existência de um argumentista competente, obviamente com a omnipresença de Rowling. Tanto um como o outro exemplares de cultura popular são absolutamente dispensáveis: o espetador, ou o leitor, que tenham outras prioridades, nada perdem se faltarem a estas. Mas este leitor ficou com vontade de ver a peça ao vivo, mesmo já com as surpresas devidamente estragadas. Se for, sei ao que vou. Mas apetece-me ir, ainda assim.

[O título deste texto é uma referência ao que se passa no livro, mas este não é lugar para spoilers.]

19.7.16

Navegador

O barco balouçou ao primeiro pé, e estabilizou miraculosamente ao segundo; equilibrou-se. O sol, no horizonte, assinalou-lhe o caminho. Assestou a mão em cunha sobre os olhos, para melhor avaliar o percurso longo; soltou as amarras; desfraldou as velas. Sentiu o estalar das madeiras, ouviu o som de chicote do cordame. Encheu os pulmões com o ar do molhe, como se tivesse toda a viagem para o respirar. Olhou para trás: em terra ficou apenas um homem de vago olhar: ele próprio. Olhou em frente — e não mais se olhou.

8.7.16

Da arte da voz e de outras artes

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, que noutros tempos foi professor de literatura portuguesa em Oxford e que atualmente é tutor dileto da dulcíssima Orchidée nas artes de bem aproveitar todos os dias da vida.

«Meu tão estimado amigo,

Então o meu caríssimo fala, dizem-me. Não só fala, como recita. E não só recita, como grava. E há quem o ouça, dizem-me também! O meu amigo virou radioamador lá nisso das internetes, locutor de telefonia com fios, Fernando Pessa dessa BBC que funciona vinte e oito hora por dia, sorvedoro de horas, engendradora de olheiras, mirradora de orelhas.

Roufenho, dizem-me também, fontes que não irei revelar, nem sob a mais tenaz tortura (só as cócegas da minha Orchidée me fazem confessar até o assassínio de Lincoln, sim, eu sou John Wilkes Booth). Rouco e de voz sumida ao fundo do túnel, anti-herói perdido no seu labirinto, sem Ariana nem fio dela, perdido de fio a pavio. Que de Roma e Pavia já se sabe, são como as obras de Olíssipo, hão-de terminar um dia.

Belas dicções há entre os seus confrades lá dos hebdomadários das internetes, dizem-me as mesmas fontes incógnitas que suspiram aqui ao lado. Ao lado delas e deles, meu amigo, parece um disco de vinil a tocar em rotação lenta.

Pauvre, pauvre J. ouço. Ora o meu amigo, que parece passar os dias enfronhado em tomos absurdos, e dedica as suas horas vagas a discutir os temas prementes da confecção de brigadeiros com as cozinheiras das casas de chá que frequenta, é o alvo dileto da compaixão desta que ilumina o meu ocaso com o fulgor resplandecente da sua juventude.

O que o meu estimado precisa, para além de uma vida, claro, é de uma boa dose de hidromel, para ver se aclara essa lassas e oxidadas cordas vocais. E depois do hidromel, os laureados faisões do nosso Reboredo, a ver se come algo que tenha marchado sobre a terra, em vez dessas raízes e sementes de que parece subsistir (isto quando não está a confabular com cozinheiras de casas de chá, não sei se já referi).

Está pois intimado a comparecer na casa d’Andrada amanhã, antes do anoitecer. Não se atarde, porque o Reboredo anda com saudade de o ouvir, não a falar, mas a cantar. Outras artes, outras vozes.

Deste que muito o estima e o considera e da suspiradora incógnita aqui ao lado,

J. E. de Andrada & Orchidée»