26.6.16

Daqui a pouco

Daqui a pouco irei ao café do Chico, e ele receber-me-á de braços abertos e passo dançante, falará do jogo que eu não vi, do golo in extremis que ele viu, falaremos de Inglaterra que ele nunca viu e de Espanha, que vimos ambos. Falaremos do mar que nos falta, a ele também, e para compensar, dar-me-á um café mais forte — o truque é simples, basta um breve puxão no dispensador, mais meia dose de café num café normal, e eu receberei o café diretamente no cérebro como uma injeção de adrenalina. E talvez veja o Sandro e a Lara, e talvez o Chico me pisque o olho, dizendo sem dizer, que o Chico sabe tudo, sabe mais que um presidente e um assessor em conjunto. E comerei um pastel de nata, e se a fome de doçura apertar, talvez um segundo, e a mulher do Chico trará depois os rissóis ainda quentes, e no meio de dois beijos, um para cada face, que não há poupanças no que importa, dir-me-á para não me queimar — nos rissóis, evidentemente. E eu deixarei o meu melhor sorriso com ambos e sairei para o sol um homem novo. Mesmo que seja o mesmo, saio sempre novo, do café do Chico.

25.6.16

Pompa e circunstância

Recebo uma carta do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora jubilado nos braços da dulcíssima Orchidée. 

«Meu estimado amigo, 

Dizem-me fontes que costumam estar bem informadas sobre a sua pessoa, e que não denunciarei, principalmente por estarem aqui ao meu lado, que o meu amigo parece lamentar nesse seu hebdomadário nas internetes, que o veredito popular do meu país de adoção se tenha inclinado para a porta de saída. Não me espanta: sempre achei que isso de se alimentar sobretudo de ervas deveria toldar-lhe a mente, mais cedo ou mais tarde. O resultado está à vista. 

Ora o meu amigo não enxerga que a saída é melhor para toda a gente? Esta união «tem-te-não-caias» é invenção de continentais. Tudo assente em fardos de palha, em vez de sólido betão. A casa de um inglês é o seu castelo, como o meu amigo bem sabe. E quando ameaça deixar de ser, levantam-se as pontes, soltam-se os jacarés, atira-se o pez a ferver. Foi o que aconteceu. Os continentais são uns lassos. Agora fazem voz grossa, mas ouve-se o esganiçar galináceo lá por trás. Estão aterrados. 

Então o meu amigo acha que as casas que mexem com dinheiro que se veja se vão mudar para Frankfurt? Para ficaram na obesa supervisão da Ângela e do Wolfgang? Fat chance, como se diria na Velha Albion. 

Não, meu amigo, ao sair, a Inglaterra será mais forte. O dinheiro não tem pátria. A Inglaterra livre dos olhos indiscretos de Berlim, e da sua sucursal em Bruxelas, será a não pátria do dinheiro, que afluirá a Southampton em frotas de navios carregados de lingotes (é uma forma de dizer), como nunca na história. Frankfurt é que se mudará para a City, meu prezado amigo, não o contrário. 

O tempo é de celebração e não de apreensão! 

Junto segue um convite para um jantar amanhã à noite, aqui na casa de Andrada. Orchidée, esta luz que encurta os meus dias e alonga as minhas noites, está aqui aos pulinhos com a perspectiva de o ver finalmente a comer comida de gente e não esse alpiste de canário que, evidentemente, lhe rouba a lucidez e a força anímica. 

Homem, arrebite, apanhe sol, deixe os alfarrábios polvorosos, apareça. Tocaremos Elgar, faremos a nossa noite de Proms, cantaremos 'God Save the Queen'. E ainda o salvaremos a si, vai ver. 

 Deste que muito o preza, 

 J. E. de Andrada»

21.6.16

Circunavegações de um palavreador

A Terra é redonda, disse ela, para que quem parte, ache sempre o caminho de regresso.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

5.6.16

Máquinas inquietas e outros milagres

Deixou de dar corda ao relógio de areia numa derradeira tentativa de parar o tempo.

[Fred Serras]

4.6.16

Uma introdução geral à teoria do som das palavras

Não são palavras, se não nos desenlaçam a alma ao ouvi-las.

[Fred Serras]

3.6.16

O lunático com os pés na relva

As fómulas da física são algoritmos de compressão do universo.

[Compactado a partir de uma afirmação de Elon Musk, obviamente um parente distante de Fred Serras: o título foi pedido de empréstimo a um verso de Roger Waters.]

2.6.16

O palavreador transforma o tempo em harmónio

A eternidade pode ser momentânea se a observarmos de perto.

[Fred Serras]

1.6.16

O palavreador encontra uma metáfora para a luz

O sol é como o teu rosto.

[Fred Serras]

Eterna é a noite

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]