22.4.16

Update

A dulcíssima Orchidée ao volante, o brilhante J. E. de Andrada de pendura e eu -- no banco de trás, com um livro de Calvino como bagagem.

21.4.16

Epístola sobre os hebdomadários de cavalheiros

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo aparo da S. T. Dupont de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a residir no abraço envolvente da dulcíssima Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Levado pela mão gentil de Orchidée, esta musa que ilumina os dias do meu ocaso, andei a ver isso dos hebdomadários nas internetes, como esse de que o meu amigo é editor, ou redator ou tudo por atacado. Percebi que há uma categoria, um segmento, como diria o nosso Moraes, dos hebdomadários de cavalheiros. E concluí, depois de prolongada deliberação —  e alguns protestos audíveis de pauvre, pauvre J — que o meu prezado não está nesse mundo. Aliás, há muito que julgo que nem neste está, mas isso seria uma longa conversa. 

Nos hebdomadários de cavalheiros, os estimáveis editores sabem daquelas coisas elementares da vida, que se aprendem desde, direi, um bom berço:

— Sabem diferenciar Bolívar Belicosos de Ramón Allones, ainda que vendados. O meu amigo, se lhe dessem um cigarro de barbas de milho a experimentar feneceria, qual Caio Júlio César sob a adaga de Bruto.
— Sabem distinguir um Carrera S de um Carrera Turbo, num dia de nevoeiro, apenas pelo som que fazem ao passar por um semáforo amarelo tintado de vermelho. O meu amigo aproveita todos os amarelos tintados de qualquer cor para digitar no teclado desse seu telefone dito inteligente. Mas muito tecla, criatura; quem tem tanto para teclar? (aqui ao meu lado, alguém insiste: pauvre, pauvre J).
— São visitas de casa de Adrià, almoçam no Gagnaire, ceiam no Bottura. O meu estimado alimenta-se de tofu, rúcula, abóbora e, num dia bom, junta-lhe, num gesto de extravagância, umas rodelas de beterraba.
— Já jogaram, pelo menos, no Royal Dornoch e em Pine Valley. O meu estimado, se lhe passassem um putter para a mão, ainda assassinaria algum pássaro distraído. 

Após tal investigação, concluí que o meu amigo não tem qualquer futuro, visível ou invisível, nisso dos hebdomadários das internetes, no ramo de atividade dos de cavalheiros. Nem noutro qualquer, conforme deduzi.

Conhecendo o seu espírito macambúzio, meditabundo e romântico-depressivo, imagino que esteja, por esta altura, a olhar já para os horários dos comboios da linha da Ajuda (há comboios para a Ajuda, não há?). 

Antes que tenhamos que mandar recolher o que de si restar à Calçada do Mirante, ou ladeira limítrofe, o melhor é vir passar o fim de semana à Casa de Andrada (ouço uns gritinhos que mais parecem miados de gato aqui ao lado). Apresente-se amanhã por aqui, e irá connosco para a herdade, onde chegará pálido, olheirento e desnutrido e de onde sairá, com alguma sorte, daqui a quatro dias, nédio, rutilante e direito como um pingalim. 

Quem é quem que lhe quer bem, quem é?

Deste que muito o estima e preza.

J. E. de Andrada»

18.4.16

Tudo uma questão de perspetiva

Já nem me lembro onde li — isto é, se procurar bem, descubro — que nunca se ouviu tanta poesia e que, na verdade, também nunca se leram tantas páginas de livros. É tudo uma questão de perspetiva. Toda a gente ouve poesia, e muitos sabemos dezenas de poemas de cor: basta que estejam acompanhados de música. A poesia está nas canções que transportamos, aos milhares, para todo o lado — e ouvimos em qualquer altura. Quem isto dizia, acrescentava também que os sete volumes de Harry Potter fazem duas vezes o tamanho da Guerra e Paz, que é um livro de dimensão apreciável. Poucos escritores, se é que alguns, terão atingido, ao longo de toda a vida, a fortuna que Joanne Rowling, a autora da saga de Potter, conseguiu a meio da sua. 

Enrolado nestes pensamentos no trajeto para casa, conjeturei: será melhor incensar Tolstoy e ignorar Rowling ou saber de isqueiro na mão o Homem do Leme e nunca ter lido um poema de Fiama? E não encontrei ainda a perspetiva certa.

5.4.16

Ana, Natália e os gostos

Gosto de ler a Ana de Amsterdão. E continuarei a gostar igualmente de ler a Ana de Amsterdão mesmo que a Ana Cássia Rebelo goste menos de ler a Natália Correia por esta não ter gostado de Bach. E eu gosto de Bach.

2.4.16

Haver Dever

Escolho a cápsula preta, coloco na máquina, o manípulo emite um clique reconfortante, o líquido aromático flui com reconfortante previsibilidade. Sento-me junto à janela, a olhar as árvores reconfortantes, procuro o sol hesitante, ainda distante. Folheio o Expresso: página após página a previsibilidade, também. Menos reconfortante, esta. Dívidas nas páginas ímpares, imparidades nas pares. Retratos do país do dever acima de tudo, como diria J. Eustáquio de Andrada, sempre reconfortantemente atento.