27.3.16

Escrevendo

Tendo passado uma parte irrazoável das minhas horas menos afobadas nos últimos meses a ler diários e cadernos de apontamentos de escritores sedimentei o que já sabia, mas que ainda assim me soube bem confirmar: quem gosta de escrever não consegue colocar um ponto final à urgência de grafar os pensamentos — e se o fizer, sofrerá de tal sentimento de perda que não torna improvável a recaída. Aplica-se isto aos diaristas, como aos bloggers, que o fazem pela pulsão da escrita, substituindo o papel pelo ecrã, a caneta pelo teclado, a privacidade pelo anonimato público. Se me disserem que os blogs estão a morrer, rio-me. Só nas últimas semanas li magníficos blogs de Samuel Butler, de Cioran, de Susan Sontag, de Vergílio Ferreira. Todos antecederam a existência das plataformas de blogging, todos sobreviverão quando elas forem irreconhecíveis. O blog, ou o diário, ou o caderno de apontamentos, são apenas a materialização de uma vontade primordial: a de guardar o mais longamente possível o tempo que se escoa, inexorável. O meio onde (debalde) o tentamos prender mais não é que um pormenor. E o menos importante, afinal.

25.3.16

A senhora condessa, regressada

Cheguei do café do Chico onde, quando ia a entrar, vinha a sair Margarida Eduarda, há que anos não a via, e acompanhava-se da mãe, e do padrasto, e do marido, e de mais uma comitiva de gente minha desconhecida. Casou e eu sabia que tinha casado, o marido foi-me apresentado, e falámos de viagens e de tempo, que é o refúgio dos que nada têm ainda, ou nunca terão, para dizer. Detive-me na face que entretanto arredondou harmoniosamente, sem excessos ainda. E tentei recordar-me de quem é que me fazia lembrar. Há anos, pois há, que não a via, já disse acima, mas a memória não prega tal partida, que seria a de uma face fazer-se recordar a si própria, numa recorrência digna de Escher. Não, Margarida Eduarda trazia-me outra recordação e foi preciso voltar aqui para descobrir: Margarida Eduarda está igual à condessa de Haussonville, pintada por Ingres. Num paradoxo temporal, Ingres pintou quem estava agora à minha frente, ou existiu alguém igual a Margarida Eduarda, no tempo de Ingres, e era Louise de Broglie, a condessa de Haussonville. Não disse ao Chico, nem contei a ninguém: apenas a leitora agora sabe. Ainda achavam que eu via coisas e ao menos a leitora eu sei que não pensaria tal coisa de mim. Palavra de honra.

21.3.16

Notícias sobre a indagação de notícias

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo punho de J. Eustáquio de Andrada, professor do Magdalen College, actualmente retirado nos braços da sublime Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Insta-me a dulcíssima Orchidée a fazer-lhe chegar esta missiva, e só por ser a pedido dela o faço, porque o assunto, meu prezado, não podia ser mais distante do que habitualmente ocupa as minhas células cinzentas, como sabe vastas como a Herdade de Andrada. Diz-me a minha musa solar que esses hebdomadários que se publicam nas internetes atravessam uma crise de ausência dos seus curadores, gente ao que parece relapsa ao cumprimento das suas obrigações. Mas os hebdomadários não têm uma periodicidade fixa, by Jove? E os assinantes não pedem o estorno dos cabedais que aí investem (incompreensível investirem em tais prosas bárbaras, bem sei, mas os labirintos da mente humana são insondáveis)?

Ora o meu amigo faz parte lá desse clube de escrevinhadores, actividade que, aliás, condiz com a sua natureza de merlo intelectual (diz-me a solar Orchidée que anda a ver merlos a todas as horas) e portanto estará em melhor posição de saber porque é que neste mês de Março uns desaparecem, outros se ausentam, outros se perdem. Os idos de Março, meu amigo, parecem ter apeado esses escribas lá da sua guilda. Não foi apenas Caio Julio que caiu neste mês, pelo que entendo.

Por quem é, indague lá, e reporte, se me fizer favor, que a minha orquídea anda deveras intrigada e eu não quero a belíssima fronte da minha diva enrugada por temáticas tão áridas. 

Quanto a si, meu caro, bem sei que nessa sua natureza de eremita não cabem conceitos como celebrações onde constem mais do que você e dois ou três livros — mas se porventura quiser variar de lentilhas e nabos cozidos, ou lá o que é que o mantém de pé, cadáver adiado, como diria o poeta, e aparecer por cá no dia de Páscoa, teremos todo o gosto em recebê-lo com as iguarias de Dona Miraldina, cozinheira ímpar, d’aquém e d’além mar.

Reboredo, o fiel Reboredo, que bem conhece, está ausente em férias e tive que recrutar a Dona, cozinheira emérita da Herdade. Ad augusta per angusta, mas augusta é a arte culinária Miraldina, facto que terá oportunidade de comprovar se aceitar deslocar-se a esta sua casa para celebrar a ressureição do Senhor e se deleitar com o anho de leite que neste momento ainda salta livre como um ribeiro de cristalina água, na Herdade dos egrégios avós da casa de Andrada.

Orchidée, aqui ao lado, sopra beijos de vento para o pauvre, pauvre J. Serem de vento parece-me deveras adequado à cabeça d’aquele a quem se destinam. 

Não leve a mal, meu caro, esta minha natureza chistosa: sabe que é tudo por amizade. Como diria o pai Andrada, o que arde cura. E mesmo que não cure, o arder já ninguém lho tira. 

Aceite os protestos de estima e consideração deste seu, 

J. E. de Andrada»

18.3.16

Música de mesa

Estou longe de ter, como Luís XIV, vinte e um violinistas a tocar para mim às refeições. Nem um, na verdade, não é que lamente, seria incómodo andar com tal pequena banda, assim se chamava a secção de cordas do rei sol, imagine-se o que considerariam uma grande banda, mas adiante, música não me falta hoje. Ao almoço foi cítara, a condizer com a delicadeza das especiarias e agora, aqui onde escrevo estas palavras que a leitora olhará certamente de relance, ao lanche, é algo indizível, que passa numa antena qualquer que não a dois, mas creio que não acederiam a um pedido de mudança de estação, sinto-me tão fora do meu ambiente quanto um tuaregue no polo norte. Abstenho-me de tirar apressadas conclusões sobre retrocessos civilizacionais. Preferia a cítara, pois claro, ou a música de Lully, a dos violinos do rei Luís. Mas talvez seja eu que esteja deslocado no tempo e no espaço, afinal. Ou então a explicação é mais simples: estou apenas deslocado de mesa. Não segui o meu sensato princípio de me sentar na esplanada: mereço este martírio, culpado me confesso.

14.3.16

Um dia, quando eu já não esperar, regressar-me-á a vontade de ler ficção. Pegarei nalgum tomo daqueles que me tentam nas visitas tri-semanais às livrarias, afundar-me-ei no sofá e embrenhar-me-ei horas perdidas, como quando lia Hemingway de Paris a Kilimanjaro. Mas agora não. As histórias, diz Gottschall, são simuladores da vida real, preparam-nos para as situações que enfrentaremos no escoar da clepsidra dos dias. Não lendo ficção, não leio histórias. Não simulo, o que significa que os dias me colhem impreparado, ingénuo até. Viverei ou morrerei, figurativamente falando, pela minha espontaneidade. Até voltar a ler ficção, levarei esta existência de fogo-fátuo. Depois de a voltar a ler, provavelmente também.

6.3.16

Passacaille

Jean-Baptiste Lully, Passacaille, de Armide