27.1.16

Reboredo, um ortopedista ao seu dispor

Recebo uma folha de papel A4 por baixo da porta do escritório, de onde bucolicamente observo as árvores espraiando-se como fractais contra o céu vestido de branco em cama de azul. A escrita, a letra larga e redonda, é a esferográfica vermelha.

Meu muito estimado doutor J.

Escrevo esta mensagem a pedido do senhor professor Andrada. 

Solicita-me o senhor professor que venha apresentar as minhas credenciais e os meus préstimos ao senhor doutor. Como talvez o senhor doutor saiba, depois de uma comissão de serviço como ortopedista na Legião Estrangeira francesa, entrei para o serviço do senhor professor, a quem ajudei a resolver uns pequenos problemas nas herdades no Alentejo e nos terrenos que a família Andrada possui no Brasil. Frequentei, depois, cursos de actualização e aperfeiçoamente da minha arte na faculdade de King Saul Boulevard. Sempre com excelentes classificações, afirmo, sem falsa modéstia.

É com orgulho que posso afirmar que sou considerado um especialista de primeira água em certas e determinadas questões do foro ósseo. A minha obra fala por si e o senhor professor Andrada poderá dar de mim as melhores referências.

Chegou aos ouvidos do senhor professor, através de diligências da menina Orchidée, que o senhor doutor J. poderá vir a necessitar das minhas competências muito em breve. Solicita-me o senhor Professor que permaneça junto à porta do escritório do senhor doutor até que o senhor doutor tome decisões que podem, ou não, implicar a minha intervenção. 

A minha paciência como afirma, e bem, o senhor Professor, só tem par no brio com que exerço o meu ofício.

Aproveito para apresentar os meus protestos da maior estima e consideração.

Reboredo

Assistente do senhor professor Andrada. 
Ortopedista.

5.1.16

Caderno Diário

Há uns seis meses, passaram tão depressa, que não ouço o pássaro no beiral. Hoje acordei para lá de cedo e lembrei-me dele. Se lá estivesse, era eu que o ia despertar. Abriria a janela e iria assobiar até ao pé do desinfeliz, acordá-lo-ia estremunhado. Não sei assobiar nenhuma marcha daqueles de tamborileiro, menos ainda daquelas de tambores de tamanho familiar, à maneira d'O Ó Que Som Tem, mas era capaz de ajeitar-me com a Ritirata Notturna de Madrid, de Boccherini, mais suave, mais galante, até parece passo de faisão. O pássaro, por onde andar, não deve ler este hebdomadário que se publica nas internetes, senão é que não voltava, assustado, com medo das partidas, ou Partitas, musicais que este escriba lhe pudesse pregar. Mas caso leia: pássaro do beiral, onde estiveres, podes regressar em sossego. Prometo não te acordar a desoras com a minha verve musical. Mais, até te volto a fazer outsourcing do meu despertar. Dormia mais e melhor quando te sabia à janela. Não devia dizer-te isto, porque nem tudo se pode contar aos pássaros, ainda ficas todo ufano, de penas altaneiras. Mas o teu lugar lá está, intacto, num brinquinho. E tenho guardadas umas sementes de chia, daquelas que dão a um passaroco o vigor de um pterodáctilo. Tudo para ti, oh canoro fugitivo. Prefiro acordar às seis contigo no beiral, do que às quatro, sei lá tu onde, oh voador. Seu desinquietador.