26.11.16

Caderno diário

No meio da bátega de chuva, não, do dilúvio universal, que me despertou hoje, e antes de mergulhar na leitura de memórias de vitorianos céticos quando não cínicos, pareceu-me ouvir uns trinados no beiral. Vicente Aleixandre escrevia a sua poesia no estado de semi-sonolência, imediatamente antes de adormecer. Eu, Aleixandre não sou. Talvez tenha que me contentar em ouvir um pássaro, porventura ensopado, pobre canouro, no beiral, em estado de semi-sonolência (eu, não o dito trinador). De vez em quando surge, assim como um trovão, uma vaga de saudade do pássaro. Já não sei se ouvi-lo é real ou antes uma coisa mental, como o calor sentido por quem o deseja, ao calor, ardentemente, passe o pleonasmo. Não sei se faz muita diferença, também.