20.11.15

Pilosidades supralabiais

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora retirado algures no Restelo, nos braços da dulcíssima Orchidee. Como habitualmente, a missiva apresenta-se na cuidada letra treinada nas tertúlias caligráficas contíguas à Bodleian, escrita pelo aparo suavíssimo da S. T. Dupont do venerando mestre.

«Meu muito estimado amigo, 

Fontes que não posso nomear, mas que lacrimejam copiosamente aqui ao lado, dizem-me que o meu prezado deixou de ter vida, deixou de dormir, de comer, de ler, de ver a luz do sol, e o disco da lua. Parece-me uma decisão sensata, e não totalmente inesperada. Julgo que escolheu o caminho menos viajado, como diria Frost. Veremos se isso lhe faz toda a diferença. Em boa verdade, nunca soube muito bem que vida era a sua, e os desenvolvimentos recentes vieram apenas solidificar esta minha convicção. 

Sugiro-lhe que deixe medrar as suas pilosidades supralabiais e ninguém lhe negará o estatuto de um Tomás de Alencar do século vinte e um. Note bem que eu não disse a estatura, menos ainda a poética, que tirando fonte que insiste em manter-se anónima, não acredito que mais alguém tenha paciência para ler os seus eflúvios líricos, por demais açucarados e eivados de um saudosismo hercúleo (para não dizer «herculaneano»), caduco, decadente, deprimente. Mas não leve demasiado a peito esta minha apreciação. Considere-a uma crítica construtiva.

Jane Austen escreveria que a natureza humana precisa de mais lições do que um sermão semanal pode transmitir. Eu diria que a natureza humana precisa é de um bom jantar, diário de preferência (coisa que o meu amigo não parece saber já o que é) ou, ao menos, semanal. Está, portanto, intimado a comparecer por cá amanhã às dezanove para tratarmos dessa fome acumulada, com juros. O diligente Reboredo está, neste preciso momento, a amanhar um anho com as suas próprias mãos de antanho, que nos servirá com todo o gosto dele e maior prazer nosso. Esqueça lá essa sua mania de se alimentar apenas de capim e cardos. Por um dia, não morrerá se comer algo que tenha corrido em cima das próprias pernas. E se morrer, olhe — faremos publicar um belo obituário nos hebdomadários em papel e até nalguns nas internetes, pois então. 

Orchidée, soluçando aqui ao lado («Pauvre, pauvre, J.») segura-me a mão para travar esta minha torrente de amizade. Sabe que é sempre por amizade que digo o que digo. Cá o aguardamos impacientemente, uns mais do que outros, evidentemente. Não se atrase. O amável Reboredo costuma ficar de mau feitio quando serve o seu afamado anho já a esfriar. Não vai querer enfrentar o olhar fulminante dele, em caso de tal desinfeliz desenlace.

 Aceite um abraço, deste que muito o estima e considera, 
 J. E. de Andrada»

9.11.15

Bach, o social

A Deustsche Grammophon avisa-me, via Twitter, que é altura de eu conhecer tudo sobre Bach! (ponto de exclamção incluído, coisa lá deles, com hashtag apensa: It's all about #Bach!). Apresenta-me o retrato de John Eliot Gardiner a apontar para outra hashtag: #50BachMasterworks. E uma foto de um telefone, com o perfil de Bach no ecrã, e as ligações para os serviços de música da moda, onde posso, finalmente, ouvir tudo sobre Bach, em cinquenta obras, primíssimas, as mais primas de todas. «Bach e Gardiner pertencem simplesmente em conjunto», dizem-me. E eu vou até à estante, onde param todas as obras de Bach que sobrevivem — e não conto, claro, com as outras tantas que a mulher teve que vender, após a morte dele, para pagar as contas da família numerosa e que nunca mais se encontraram — e pergunto-me se Bach merece ser tratado assim, na modernidade de hashtags e no despautério de tantos pontos de exclamação. É inegável que é um sinal geracional, isto de ter esperado que Gardiner publicasse as cantatas, gravadas numa magnífica peregrinação que passou por Portugal; de preferir a versão dele à de Koopman; de ter penado até encontrar uma interpretação perfeita da Chaconne para Violino Solo (Kremer, meu caro, chapeau). Não sou pela sacralização da música — aliás, sou pela sacralização de muito poucas coisas, quase nenhumas delas relacionadas com arte, música, literatura, ou criação humana. Eu sei que a Deutsche Grammophon tem que se adaptar aos tempos, como eu me adaptei. Só não gosto que me sirvam sopa de cogumelos feita de pó hermeticamente selado como se fosse dos ditos acabados de colher e ainda a saltar de frescos quando mergulham na água. É um preciosismo, mas é o meu. E gosto dele assim.