29.6.15

sombra

Paul Klee, Personagens em amarelo, 1937
de nada
me serve a luz
se não encontro
a sombra
de ti

23.6.15

A dança é a criação de uma escultura visível apenas por um momento


Lully, Passacaille de Armida, pela companhia Neveux de Rameau, de São Petersburgo

21.6.15

O café das águas cristalinas

O Chico já sabe que, nestes dias assim, antes do café, eu bebo uma garrafa de água, fresca, ainda enevoada de gotas minúsculas, baça por fora, cristalina por dentro. Traz-me então um copo brilhante, ainda vem com o pano na mão a puxar lustre, e através do copo vejo a luz da rua que se escoa por todos os vidros, luz matinal, que só pela manhã é que se aguenta o café quente, e cheio — cheio para o prazer da cafeína se alongar. Ainda tenho Diário de Notícias e Público e Correio da Manhã à escolha, toda a informação à minha espera, que no café estou só eu. E o Chico, pois claro. E, de repente, não me apetece ler, apetece-me apenas ficar na palheta com o dono dançarino, aluno de Apolo, tribuno de balcão. Apetece-me falar como se entre os dois se tivesse juntado a sabedoria dos anos e a curiosidade das infâncias. Dos dias que correm rápidos, tanto, que ainda ontem era domingo, e amanhã o será de novo. Já me explicaram o fenómeno: quanto mais vivemos, menor é a percentagem de um dia, de um simples dia, no total da nossa vida. O primeiro dia de vida, é cem por cento, o segundo, cinquenta, e depois, sempre a diminuir, por isso o tempo passa tão depressa quando já lá vão tantos dias, cada um a retalhar mais ainda a percentagem. Já me explicaram, e eu ainda não entendi: a água que corre nos rios da minha mente não é cristalina — quem dera que fosse —  como a que corre agora para o copo. O Chico tem que interromper a conversa sobre o tempo, eis que chega a Alda, a segunda freguesa do dia, madrugadora também — foi do calor, diz Alda, como que a justificar o que não é preciso. E Alda bebe também água antes do café, o Chico vai ter que mudar o nome do estabelecimento, o modelo de negócio, como se diz, já está em transformação. A competência nuclear do Chico deixou de ser tirar cafés, passou a ser servir águas. Águas cristalinas, como os olhos de Alda, a segunda freguesa da manhã, já o disse, ainda antes de falar dos olhos. Hoje não leio, limito-me a olhar, fito os olhos de Alda, que com eles baixos, fita os jornais que estavam todos livres. De vez em quando, Alda levanta os olhos e o que leio neles, não está nos jornais. Cada qual em sua mesa, e eu sei que não se brinda com água, mas que fazer, se esta não é ainda hora de vinho, levantamos os copos, que se cruzam no ar. Não é um brinde, é um cruzamento de vida, por via de água cristalina. Cruzam-se águas, como as linhas que o grande arquiteto cruza na vida das gentes. O Chico, esse senador omnisciente, sorri atrás do balcão, enquanto vê os olhares a cintilar pelos ares do café. O Chico hoje não fará mais negócio comigo — nada mais levo. Não levo rissóis, nem pastéis de nata: o tempo, este tempo assim, não pede, não puxa. Só pede água fresca e olhares cristalinos. Digo bom dia, saio para o calor. Levo água para me saciar uma hora e olhares para me saciar o dia. Em termos de percentagens, parece-me o melhor dos compromissos. 

19.6.15

Famosas últimas palavras

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora retirado algures no Restelo, nos braços da dulcíssima Orchidee. 

«Meu muito estimado amigo, 

Chegam-me notícias de que voltou a editar esse seu hebdomadário lá nas internetes, e que reabriu também a secção de cartas ao diretor (melhor dito, no seu caso, será mais cartas ao dirigível, dada a volubilidade de que o meu amigo dá mostra na condução dessa coisa que mais parece um zeppelin escrito). As mesmas fontes que me informaram (e que, aqui ao lado, lhe atiram beijos de ar), indicam-me que deixou de falar de pássaros. Se o canoro, como me dizem que chama ao bicharoco, voltar a piar, o Reboredo, que ainda por cá anda a acarretar uns blocos de granito para a nova fonte, está à disposição para tratar do assunto.

Relatam ainda as ditas fontes, que o meu estimado anda envolvido em animadas tertúlias sobre temas económico-sociológicos, que quer marcar posição, sair da sua proverbial «zona de conforto», como sói dizer-se por estes tempos. 

Um homem avisado, que se mete em tais batalhas retóricas, tem que ter sempre as suas derradeiras palavras prontas, na ponta da língua. Nunca se sabe quando serão necessárias. Sabe o meu amigo que, quando o Sidónio levou um tiro no meio do peito, a propaganda da época fez correr o boato de que as suas últimas palavras teriam sido: «Morro bem. Salvem a pátria.» A verdade, que me chegou pelo testemunho do avô Eustáquio de Andrada, que assistiu a tudo, é mais prosaica: o que o Presidente disse, verdadeiramente, foi: «Não me apertem tanto, rapazes!» (1)

Orchidée, aqui ao lado, de lágrima brilhante ao canto do olho, suplica-me para parar de apertar consigo. Assim sendo, apareça é por cá ao jantar, que as perdizes que o prestável Reboredo andou a apertar para entrarem na receita do Convento de Alcântara prometem ser históricas, dignas da Duquesa de Abrantes. 

 Deste que muito o estima e considera, 
 J. E. de Andrada»

(1) O avô Eustáquio de Andrada sabia do que falava.

15.6.15

Caderno Diário

O pássaro, que ontem cantou como um tenor numa ópera de Donizetti, denodadamente, sem pausa, sequer, para retomar o fôlego, hoje nem pio. Não precisei dele para acordar a horas que não se recomendam: suspeito que não quis ser o alibi da minha espertina. Todos os dias são mágicos, não diria Calvin, mas pensaria. Todos os dias são mágicos, especialmente a segunda, diria eu, após maturada ponderação. Especialmente quando, chegadas as 23h59, temos a certeza absoluta (ou para lá da dúvida razoável, digamos) que dali a um minuto, cinquenta e nove segundos, cinquenta e oito,... se inicia terça. Essa é a magia, única, particular, reciclável cinquenta e duas vezes por ano, da segunda. Suspeito que o pássaro sabe isso também, este meu Wittgenstein de beiral.

14.6.15

Um hebdomadário nas internetes

Recebo, de J. Eustáquio de Andrada, via Snapchat de Orchidée, uma foto de uma mensagem escrita a esferográfica azul, que me parece Bic Cristal, escrita normal. Estranho, deveras estranho.

«Prezado amigo,

O bem mais precioso de um homem, depois do seu castelo e da sua donzela, é o seu sossego. E se o meu castelo é bem defendido, como saberá, já a minha donzela, esta Orchidée que ilumina o meu doméstico ocaso, anda a inundar-me os cantos ao castelo com lágrimas, de saudades lá do pássaro que cantava no hebdomadário que o estimado mantinha pelas internetes. Já prometi arranjar-lhe um canário, que ainda para mais será útil em caso de fuga de gás, mas tal sugestão só fez aumentar os prantos. 

Não sei se o meu amigo conhece aquele rapaz, o Reboredo, que trabalha lá na herdade, foi comando e agora é pegador no Grupo de Forcados do Barrete Encarnado. Acontece que ele está de serviço cá por casa, por estes dias, a mudar umas estantes de lugar, a carregar o piano para a ala nova, e a acarretar umas pedras para a fonte que estamos a reformular no jardim. É um rapaz de vastas capacidades, bem vê. Por mor do meu sossego, o bem mais precioso de um homem, repito, estou capaz de prescindir dos préstimos dele por umas horas e mandá-lo ter consigo, para em conjunto discutirem o que é que faz falta para voltar a colocar nas internetes esse seu hebdomadário. Se achar que isso ajuda, disponha. Tem aqui, como sabe, um amigo às ordens. 

E se, entretanto, mudar de ideias, apareça cá para o jantar, soluça Orchidée aqui ao lado. O Reboredo trouxe um par de faisões da herdade e ouço lá fora o piar desesperado da bicharada ao avistá-lo, façanhudo, decidido, frio e insensível, de navalhão na mão, a preparar-se para lhes tratar da eternidade.

Já sabe, se precisar, os amigos são para as ocasiões.

Deste que muito o estima e considera.

J. E. de Andrada»

9.6.15

Caderno Diário

Quando, daqui a pouco, escolher a mesa debaixo da laranjeira para tomar o café, sei que no líquido preto da chávena se refletirá a laranja, por cima. Todos os dias vejo a laranja, junto com as outras que também lá estão, companheiras de horas matinais e de outras em que lá vou, e de outros que lá vão como eu. E a laranja está ali, tão à distância da mão, que a fotografia sai tão clara como se estivesse fresca no ecrã. Aquela é uma laranja tranquila: vê os cafés de cima, observa os almoços, ouve as conversas, quase sempre em vozes baixas. Talvez seja da laranjeira, sim, mas há uma certa reverência, em quem ali conversa, como se cada palavra fosse tão importante como aquela laranja, que a cada dia amanhece, intocada, intocável. Como habitualmente, pousarei o café, sentar-me-ei e fotografarei a laranja. O café pode esperar, pode sempre esperar. Um dia, talvez conte a história da laranja, fotografada, documentada. Mas por agora, acho que ela é que seria capaz de contar a minha, pela forma como pego na chávena, como a deixo permanecer longamente no ar, olhar distante, sorriso perdido de ternura, de nostalgia. Perspicaz, a laranja.

6.6.15

Caderno Diário

Ao sétimo dia descansou. Depois de uma semana em que tentou criar os céus e a terra, as coisas visíveis e invisíveis, as macieiras e as serpentes, ao som de arias schubertianas e de cantos de ortodoxias milenares — o pássaro calou-se. E eu dormi, dormi por seis dias de sonos cerceados ainda em tenra madrugada, o sono dos justos, ou do justo em que amanheci, finalmente. E, também eu, ao sétimo dia, descobri que isso de dormir: é bom.

3.6.15

Do Restelo a Zurique num remate à barra

Recebo de J. Eustáquio de Andrada, em mão própria, uma missiva escrita a tinta azul cobalto, no traço elegante da S. T. Dupont Olympio do professor do Magdalen College. No papel noto, discreta, uma fragrância, que bem conheço. 

 «Meu muito estimado amigo, 

Espero que a presente, que lhe será entregue por diligente mensageiro, o encontre de boa saúde e em pleno uso das suas faculdades mentais, porque sobremaneira precisará delas para o que se segue. Não desconhecerá o caríssimo, por certo, que com a retirada de Sepp (1), fica aberto uma vaga que se adequa como um sapato Ferragamo ao pé deste seu servo. O que me move é, como imaginará, um intuito de puro e seguro patriotismo, o de levar o nome pátrio aos cumes do football mundial. Espírito de missão, sacerdócio até, portanto. 

Orchidée, esta maré que continuamente me inunda de felicidade, já intercedeu junto de son papa a quem o Michel (2) deve, digamos, alguns favores. Ao que a minha diva me comunica, está bem encaminhado o apoio das terras francas à minha candidatura. Eu estive a falar com o Ali (3), que, como decerto não ignorará também, conheci quando ele era estudante na Velha Albion, e que tutorei, aliás, por pedido encarecido do pai. O Médio Oriente também já se entusiasma com o nosso avanço. Aquele outro rapaz português, o de cabelo empastado com gorduras animais (4), não me parece estar, ainda, na linha de partida: eis-me assim, como perceberá, a preparar a mudança para Zurique — a vitória é inevitável, como a morte e os impostos.

Orchidée lembrou, acertadamente como sempre, que o meu amigo, com essa sua mania de querer morrer saudável, anda magro que nem um coiote em ano de seca, se passeia de medonho carão, e acha, a minha musa, que talvez fizesse bem ao pauvre J. uma dieta daqueles fondues de queijo que se comem num restaurante que o pai Andrada frequentava, nas suas viagens frequentes àquela abençoada terra, onde o leite e o mel brotam copiosamente de doiradas torneiras.

Bem sei que o meu amigo acha que football é um jogo em que a bola é oblonga e não consegue distinguir um porteiro de um árbitro. Mas decerto, na sua vasta biblioteca, encontrará algum tomo que lhe explicará que o football é um jogo simples, onde vinte e dois adultos correm atrás de uma bola e, no final, ganham os alemães (5). 

Arranjar-lhe-emos um pelouro qualquer que combine com o seu perfil contemplativo: guardião das Laws of the Game, talvez. Poderá ficar calmamente lá nas suas bibliotecas, a olhar para o lago, e a assegurar que ninguém altera uma vírgula nas leis. Acho que era um trabalho bom para si, que me diz?

Avisa-me Orchidée que o portador da missiva aguarda à porta e tenho-a, de mão estendida, aqui à minha frente, como pobre de pedir, quase a arrancar-me a carta. Prepare pois o seu bordão de peregrino, meu estimado. Primeiro tomamos Zurique, depois, tomamos Berlim (6).

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada.»

(1) Blatter, evidentemente.
(2) Michel Platini, presidente da UEFA, candidato a califa no lugar do califa.
(3) Príncipe Ali bin Hussein, vice-presidente da FIFA para a Ásia, já de si, califa, ou perto disso.
(4) Refere-se o ilustre Andrada, depreciativamente ao que é, certamente, brilhantina da mais fina qualidade.
(5) O grande professor foi, obviamente, influenciado, pelo grande Gary Lineker.
(6) J. Eustáquio e Angela Dorothea têm uma longa história de combinar como água e azeite.

1.6.15

Caderno Diário

O pássaro anda a tomar anfetaminas, substâncias proibidas, cafeínadas, ou suplementos proteicos, parece-me a única justificação possível. Canta, mas por deus, canta, como se de cantar dependesse o mundo, não, o universo. Canta de noite e de dia, canta nas jornas da semana e nas sornas do fim d'ela. Para ele não há horas de descanso, há apenas horas de canto. Deve ter-me lido, aqui, uma referência encomiástica à sétima de Beethoven. Pois quer-me parecer que quer provar que ele, também ele, pode ser não apenas compositor, mas também maestro, orquestra completa, audiência efusiva. Canta e aplaude-se, e bisa para agradecer o aplauso, e leva nisto todo o dia. O pássaro tornou-se num Beethoven a compor a sétima, para vencer Napoleão, vindicar Viena, qualquer que seja o pequeno corso que lhe motiva as efusões canoras. Eu, depois de dias sem dormir nada de jeito, já encontrei o meu waterloo. Vou dependurar uma bandeira branca no beiral: rendo-me, mas rendo-me tanto, com tamanhas ganas. Ah, dormir, sonhar talvez! Mas sobretudo, dormir sim, que coisa maravilhosa, deve ser bom, isso de dormir. Que saudades.