26.5.15

Caderno Diário

Acordou já passava bem das sete, que eu anotei — e cronometrei: catorze minutos de canto. E depois, silêncio. Não é bem uma tomada de posição, não é a greve do dia, é uma afirmação estética. O pássaro refina-se: já não acorda cedo, mas também não se espreguiça escandalosamente tarde; já não canta apenas para assinalar a presença no beiral, mas também não se alonga no recital; o seu trinado é um grafiti sonoro — é isso. Por altura da sua erupção lírica, estava eu às voltas com uma estrofe de um poema de Hart Crane: «as pequenas vozes dos cães da pradaria / são incansáveis...» Eu posso ter muito que aprender com Crane — não tudo — mas os cães da pradaria dele teriam muito que aprender com o pássaro que mora lá fora. A beleza breve — é-me infinitamente apreciada. Isso, o pássaro já percebeu. Anseio o início do canto, e tanto temo que se cale — que meço o tempo quando termina. Esperto, o canoro: apanhou-me.

25.5.15

Caderno Diário

Sete horas em ponto, olhei eu para o relógio, porque olhei. Um ímpeto wagneriano, de um pássaro que, por certo, adora o cheiro do sol pela manhã, irrompe pelo quarto, onde dou a volta ao mundo, não viajando como Maistre, mas vendo-o num aparato com ecrã, nesta janela que me permite olhar para o globo de pólo a pólo antes do canoro despertar. E estava eu a congeminar palavras para escrever neste caderno, sobre sentimentos profundos e histórias superficiais, e o bicharoco veio e varreu tudo: a arte lírica do voador tem sobre mim o poder da barrela, do sabão azul e branco com cheiro a lavado. O meu profundo desconhecimento das nuances do canto das aves não me permite dizer a que espécie pertence: terei que fazer um estágio nas obras de Messiaen, compositor de que não tenho sido muito assíduo, para o descortinar. Mas, por causa dele, redescobri a memória desse cheiro de tempos tão idos, tão levados de lavados, de tempos em que o tempo tinha todo o tempo; abro a porta da rua, com tempo e um sorriso; a semana começou bem.

24.5.15

Crónicas do Grémio Literário

«Um mentiroso deve ser um homem com boa memória,» afirma Andrada enquanto cofia a sobrancelha, aspirando a chávena de café,  de olhos fechados, ondulando a mão, conduzindo uma orquestra invisível, que apenas ele ouve, e eu intuo. «Os modos de um homem revelam as suas mentiras, meu caro,» contraponho, «não há boa memória que reponha a verdade.» Meço, com os olhos, as estantes da biblioteca dele, enquanto Andrada continua a conduzir o seu concerto imaginário: «Apostam na lei dos grandes números. A maioria das mentiras passa porque ninguém se dá ao trabalho sequer de as tentar apanhar.»  Apoio o queixo no polegar, para exclamar o meu ponto: «Se um homem diz que nunca mentiu, está já a mentir. Se for banqueiro, ou político, basta-lhe apenas mover os lábios.» Adivinho que Andrada esteja a conduzir o quinto concerto de Beethoven, e na entrada do piano, no segundo andamento, acrescento: «Apenas Fradique tinha a ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas.» Andrada interrompe a condução da sua orquestra: «E de formas absolutamente belas, o Fradique. Mas estes mentirosos de agora,» varre o ar com a mão, «nem na mentira têm gosto estético, quanto mais na verdade.»  Já terminámos o café, o reflexo da água dança no tecto da biblioteca: o sol lá fora aguarda-nos. Andrada levanta-se do sofá Chesterfield e conclui: «A vida são só mentiras, enganos e decepções. É pena é ser tão curta.»

23.5.15

Caderno Diário

Seriam umas oito horas quando o ouvi. O ouvido aguardava havia já muitos minutos quando o trinado irrompeu pelo quarto. Durou (estimo) um minuto: prova de vida; estou aqui; alguma coisa sobre que escreveres. Como um postal, isso, um postal, daqueles à antiga, em que o carteiro lia antes do destinatário: Espero que este vos encontre de boa saúde; nós por cá todos bem; saudades; um abraço. O pássaro já se viciou na arte da concisão: um minuto basta para dizer o que lhe voa na alma. Este pássaro é o meu alter ego. Um dia destes, já nem sei qual é qual.

21.5.15

Caderno Diário

O pássaro calou-se, o vento parou. No silêncio absoluto (e absurdo), tento descobrir algum ruído que me inspire o início da manhã. E enquanto escrevo, ouça passar uma revoada de voadores mesmo ao lado da janela — como que a recordar-me que o mundo exterior não desapareceu durante a noite. Sei que, daqui a pouco, ouvirei um canoro mesmo por cima, e esse é fiável, canta todo o dia, com espírito de missão. Mas é o que se espera num local de trabalho: até os pássaros vestem a camisola, se impregnam dos valores, cumprem objetivos. Ordem e progresso. E no entanto, descobrindo em mim uma faceta de anarquista, prefiro o aleatório pássaro do meu beiral, errático, que uns dias trova inopinadamente às seis, e noutros dorme até horas em que já não o ouço espreguiçar-se; gosto desta ave incerta; amo os alvoroços de doçura. 

18.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã, nada. Sete, ainda menos; pássaro, mudo; pio, perdido. Oito da manhã, já o dia ia alto para mim, já havia percorrido o mundo de pólo a pólo e Camilo, já me preparava para, em passo vigoroso, voltar ao ritmo da semana e da cidade, e eis que surgem os queixumes de relva a ser trucidada lá fora. Um diligente trabalhador, de macacão verde e capacete laranja, disparava estilhaços de erva em todas as direções, trabalho bem feito, metódico, meticuloso; ruidoso. Ruidoso como se em vez daquele desafinado instrumento de devastação massiva, de cor a condizer com o capacete, estivesse antes a conduzir um camião de longo curso; junta-se outro: somam-se os decibéis. E eis que, estremunhado, com pio ainda incerto, espreguiçando-se, decerto, o pássaro desperta: oh, alegria breve, finita vitória, gozo interior. Acordei primeiro que o pássaro, já estou fresco e pronto e de café tomado — e ele, ensonado, azoado, desatinado. Começo a acreditar naquilo do carma: obreiros da aparação da relva, vossa missão é, afinal, mais profunda do que parece: nada menos do que repor a ordem natural no universo. O pássaro piou um fio finamente melódico, viu que não se conseguia cotejar  com o roncar dos aparadores, virou-se para o lado; voltou a dormir.

17.5.15

Mergulho de fim de tarde de domingo

Recebo por correio eletrónico uma fotografia de uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa em Oxford, atualmente a desfrutar dos cálidos abraços da sua Orchidée junto à piscina da casa que está na família desde a primeira República, quando o bisavô Andrada conseguiu uma boa barganha num terreno para as bandas do Restelo, pertença de um carbonário, que teve que fugir às pressas do país. Mas deambulo e desvio-me — retomo já de seguida o rumo. 

“Meu muito estimado amigo, Orchidée, o sol que ilumina este dia e rejuvenesce o meu ocaso, far-lhe-á chegar esta carta por via dessas máquinas fotográficas que servem ocasionalmente para telefonar e que ela não larga nem quando flutua como agora aqui, esplendorosa, na piscina. 

Dizia ela há pouco: “le pauvre, pauvre J. deve estar enfiado naqueles livros dele, a empalidecer ainda mais, le pauvre. Não o quer inviter para se juntar a nous, ici? Le pauvre J.” 

Diz-me ela, que segue como se fosse religião aquele seu hebdomadário lá das internetes, que o meu amigo não dorme por causa de um pássaro (de um pássaro? ainda por cá tenho um arcabuz que pertenceu ao carbonário que vendeu o terreno ao bisavô — em querendo, o problema resolve-se rapidamente…) 

Não dorme, não apanha sol, passa os dias (ou pior, as noites) nessas suas bibliotecas bolorentas: em suma, não se lhe conhece existência digna de pessoa. Homem, ainda se fina sem chegar a fazer sombra que se veja. 

Pouse lá esse computador onde está a bater teclas (sim, porque está de certeza a bater teclas, mesmo num domingo como este), meta-se no carro, que ainda chega cá a tempo do mergulho de fim de tarde.

Noto agora que Orchidée está a chapinhar as mãos dentro d’água, como se estivesse em êxtase de felicidade. A água está, na realidade, com uma temperatura digna dos mares das Caraíbas, deve ser isso que a faz recuar aos tempos da inocência infantil. 

Cá o aguardamos, para o mergulho, seguido de jantar — que será de sã e honesta confeção portuguesas e não daquelas ervas e seitan, ou lá o que é aquilo que o vai mantendo nos limiares mínimos de sobrevivência. 

Ganhe vida de gente, criatura. 

Deste que muito o preza e considera. 

J. E. de Andrada”

Caderno Diário

Ah, domingo, finalmente, colocar o sono em dia, é a teoria; diria. Exceto, para quem tem um pássaro madrugador e errático no beiral. Seis e trinta da manhã, horas certas, tempo do meridiano de Greenwich, inicia o dito barítono o seu solfejo matinal, acordando-me como se de rebate a incêndio se tratasse: onde é, quantos são? Às sete em ponto, cala-se, extinto o fogo vocal, o ímpeto lírico, a memória de Tomás Alcaide. Silêncio total, finalmente, dormir, sonhar talvez, diz o príncipe da Dinamarca. É o dormes, digo eu. Meia hora de canto torrencial, deixam-me mais desperto que um banho glaciar depois da sauna. Aproveito para me inteirar do estado do planeta, correndo os jornais da porção do mundo que vai de Washington a Melbourne. Posso ser o zombie mais ensonado no raio de uma légua, mas sou o mais bem informado ao domingo de manhã. Graças ao raio do pássaro.

16.5.15

Caderno Diário

O pássaro hoje passou a noite fora, concluo, por ter acordado por mor da minha própria clepsidra interior, e não pelo cantorio desatado na janela. Ou tem segunda habitação, aproveitou alguma euribor ornitológica e expandiu o seu património imobiliário, ou foi debicar para a 24 de Julho, enganou-se, e em vez de água tónica, foi o gin que lhe aliviou a sede; saciou-se; inebriou-se; tramou-se. Agora, estou eu em cuidados com este cantor errático. Não se lhe conhece qualquer previsibilidade, nenhum ritmo, rotina nenhuma. Desaparece quando quer, tonitrua quando lhe apetece. Não consigo dormir durante a semana porque está; não estou descansado ao sábado porque leva sumiço. Veneta, a palavra veneta, provém do latim vena, que é como quem diz, veia. Faz o que muito bem lhe dá na veneta, pois, dá asas à liberdade que lhe corre nas veias, o safado. Aposto, tenho a certeza aliás, que é apenas por uma razão, que está bem à vista: é só para me fazer inveja.

15.5.15

Caderno Diário

Nos livros esgotados (eram dois, do mesmo autor, da mesma coleção) que mandei vir de um alfarrabista de outras terras, que os anunciava como em “estado novo ou quase novo” encontrei passagens sublinhadas a esferográfica azul, que me fez recordar as Bic cristal escrita normal, com que nunca marquei qualquer livro meu. Nem nome, sequer, escrevo, podem estar usados, estão, mas imaculados, os tomos da minha estante. Tiro desforra nos livros eletrónicos, nalguns deles pelo menos, que sublinho e anoto com minúcia de escrtiturário, como um estudante em noite longa antes de dia de exame. Mas divirjo. Num destes livros, de páginas tão brancas quanto a capa, excepto pelas linhas azuis que me causam o apelo irracional de ler em primeiro lugar as palavras que destacam, descobri hoje, na parte interior da contracapa, um pequeno bloco de folhas autocolantes, anotado ele também. E se o livro está marcado a azul, o bloco está escrito a vermelho; e se o livro está escrito em francês, as anotações são em inglês; e se o livro é de reflexões filosóficas, o bloco tem nome de “uma_empresa_que_desconheço.com”. E como este é um autor que tem dedicado parte da sua obra a pensar sobre o paralelismo das realidades, achei que deve haver alguma conclusão, brilhante, ou opaca a tirar deste achado. Talvez por não ter ainda tomado café, falta-me a parte do brilho, sobra-me a da opacidade. Pelo sim pelo não, voltei a colocar o bloco autocolante exatamente no mesmo local onde o achei. Percebi que faz tanto parte do livro quanto os sublinhados, que primeiro abominei, e sem os quais não passo, agora. Não sendo nenhuma epifania, mostra-me que o meu cérebro começa a destoldar. Depois de tomar café, só pode melhorar.

14.5.15

Caderno Diário

Voltou. Rejubilo na partilha da informação, de um facto deveras relevante, que hoje, pela alvorada exterior, quando interiormente era ainda início da noite, o pássaro do beiral tornou a dar largas à sua arte lírica. Não deu notas do motivo da ausência, justificações quaisquer, um singelo “olá, cá estou eu.” Simplesmente, regressou, e pegou ao trabalho, o que é deveras meritório, um exemplo de foco, daqueles que se aprendem em formações de dois dias, em luxuosos hotéis, conduzidas por gurus de barbas escorridas e grisalhas: abreviar-me ainda mais as noites, alongando-me os dias que se vão esvaindo. Serei pois, hoje, um zombie: dormindo menos ainda que o costume, que é o resultado esperado — mas um zombie feliz — embora associar estas duas palavras me cause um arrepio sintático. Ao lado da janela onde estou agora, os outros cantam, mas esses já por cá andavam. Neste momento tenho cantorio a trezentos e sessenta graus em torno da casa, o que me permite finalmente cumprir um sonho de sempre, daqueles que se transportam da mais tenra e inocente meninice: saber o que é estar no centro do palco, numa ópera de Wagner, rodeado de vozes de possantes sopranos em canto firme e ininterruptível. É, nem mais, nem menos, como me sinto, agora. O dinheiro que andava a guardar para ir a Bayreuth, vou antes aplicar na construção de um resort para passarada no beiral. Ah, a magnificência de acordar todos os dias, pela madrugada, ao som da abertura de Tannhauser.

13.5.15

Caderno Diário

Deve ser uma conspiração: ouço pássaros a cantar nos sítios mais improváveis. Onde me sento agora, com o computador ao colo, escuto-os a cantar, a uns metros, calculo que apenas a uns metros, de uns poemas do Ramos Rosa. Ontem à tarde, por cima, e não achei que fosse muito acima, de uns parágrafos do Vergílio Ferreira, também vieram, dar nota dos seus dons. E ainda hoje ao amanhecer, aí sim, um pouco mais longe de um rendilhado da Agustina, mas de forma que eu conseguia ouvir, lá estavam eles. O livro entre mãos influencia a forma como escuto o canto. E provavelmente, escutar o canto, vai mudando o modo como leio. Agora, apenas debico — leitura de pássaro, portanto. 
 *
Ontem ouvi de um helenista, de quem dedicou toda a vida a estudar a língua e a cultura gregas, e já passou o meio século de vida, que ainda lhe faltam mais vinte anos, pelo menos, para saber o que desejaria, dessa mesma língua e da cultura que ela representa. Aprendi, também, que a palavra êxtase, tem origem em escada. Depois, ao subir, não uma escada, mas uma rua fervilhando de gente, ao fim da tarde, pensei se a vida não é, afinal, a tal dita escada, os degraus que se logram subir — e  o êxtase, a consciência, que nos bate de frente, de que há sempre mais degraus a subir, de onde aqueles vieram. 
*
Dois colegas disto dos blogs, aqui e aqui, mostraram, à vol d’oiseau, como é possível colocar tantos de nós, sem ideias pré-concebidas, a olhar para obras de arte, em minucioso pormenor — com notável ironia, bom gosto e enorme prazer. Isto, afinal, sempre são mais do que blogs.

11.5.15

Caderno Diário

Estou chegando quase... Desperto na segunda e sei que o meu corpo já cá está, e sei-o porque sinto a vontade do pequeno-almoço, de assaltar o frigorífico, de ouvir estalar a torradeira, de abocar uma maçã de casca polida. Sei-o, vejo um céu de cor diferente da que tinha quando me deitei: o dia mudou de cenário, alterou a cara, incrementou um número, diminuiu outro. Mas a cabeça ficou no domingo, no sol avassalador da tarde, no ócio do café tomado sem tempo, no debicar de livros entre os passos em volta na cidade. Estou a chegar à semana. Mas, por enquanto, quase.

10.5.15

Esclarecido: a verdadeira origem disto, dos blogs

Em tempos, tomou-se por aqui a opção de usar o termo blog em vez de blogue.  Retomo os argumentos elencados na altura:

A palavra blog foi escrita pela primeira vez em 1999, pela mão de Peter Merholz, a partir do termo weblogcontracção de web e log (registo na web), criada dois anos antes por Jorn BargerWeblog estava mesmo a pedir que o partissem novamente ao meio e Merholz fez-lhe a vontade, ao escrever we blog no seu espaço na web. O we desapareceu depressa, ficando simplesmente blog. Que é uma bela palavra, curta e genuína, de que descobri que gosto mais do que de blogue. Daqui para a frente, se os estimados leitores não se opuserem, volto a usar blog

Aí há uns dias, ainda não totalmente satisfeito, e à procura então do motivo de se usar log para se designar um registo periódico de acontecimentos, concluí que a origem é náutica, isto é, que corresponde ao livro onde se apontava a velocidade do navio, medida por efeito de atrito de um flutuador que seguia atrás deste, preso por uma corda com nós feitos a distâncias regulares; devido ao atrito com a água, este flutuador ficava relativamente imóvel à superfície. Medindo o número de nós que eram largados durante determinado tempo para permitir que o flutuador não fosse arrastado, ou seja, contando o número de nós saídos do navio no período de medição, o sistema permitia obter uma estimativa da velocidade. 

Ora esse dito flutuador, que em inglês tinha o nome de log (originalmente seria algo como um toro de madeira), tem em português o nome de batel. O log é um batel. Logo, um web log é um batel na web, na teiaEu sugeria abreviar simplesmente para batel. O b inicial já lá está, para não se estranhar tanto a mudança de blog.

Não vou afirmar, desta vez, que passo a usar o termo batel para designar blog.  Nada de fundamentalismos, por cá. Mas, uma vez por outra, quem sabe, se a maré estiver de feição, talvez aqui se navegue em tal embarcação.

7.5.15

Caderno Diário

Do pássaro, nem pio — fico assim com um ninho vago no beiral. Considero seriamente lançar pregão: 

Aluga-se ninho a pássaro asseado. Passa-se recibo eletrónico.

3.5.15

Caderno Diário

Ainda andei em bicos dos pés, dei até uns pulos, mas ele foi ardiloso: o ninho está em local inacessível. Não deixou uma folha de despedida, nem uma penugem sequer. Abalou, simplesmente, e eu, hoje, dormi por fim até horas pagãs. No silêncio profundo da manhã de domingo, parece-me ouvir um trinado distante. Escuto, atento: é mesmo um harpejo, mas tão longínquo, que só pode ser noutro beiral. Tão ténue que não sei se é o mesmo, o do pássaro fugitivo. Mas não importa, porque entretanto noto em mim o mais insidioso dos sentimentos, uma inveja em tom de esmeralda intenso. Noutra janela, que não a minha, um pássaro solfeja: os vizinhos acordarão quando lhe apetecer cantar coisas da vida dele. Eu, estou condenado a aguardar, de ouvido saudoso, que outro se acolha no meu beiral.

2.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã e o quarto em silêncio. Sete horas, nem um pio. Às oito, já estava inquieto, e agora, a meio da manhã, estou apreensivo: do pássaro, nem um trinado, nem um arroubo lírico, nada. Ter-se-á afastado demais e perdido o caminho para o meu beiral? Seria vítima de emboscada de ave rapineira? Impensável ter sido alvo de um arremedo de fisga, daquelas fabricadas no oriente, de maus plásticos, versão horrenda das que eu elaborava meticulosamente com borrachas virgens compradas na papelaria do Senhor Paulino, um bocado de ramo de árvore em forma de “V” e uma tira de cabedal, implorada ao Senhor Jacinto, sapateiro, tudo bem atado com fio de guita. Se o soubesse atingido desta forma artesanal, ainda mitigaria a falta, intuindo a alegria do garoto que teria, finalmente, acertado uma fisgada. Agora assim, tudo ignorando, atormento-me. Dormi o mesmo, afinal, que nos outros dias: o pássaro está inocente das minhas madrugadas brancas. E eu, ganhei mais uma dor de ausência. Olha que esta, era só mesmo o que me faltava.

1.5.15

O estranho caso do livro que lia o leitor: Capítulo II

[Capítulo I: Palmier Encoberto]

Ainda a olhar por cima do ombro, o homem retirou do bolso da casaca um lenço de algodão egípcio onde, bordado a fio de ouro, o leitor decifrou, no monograma, a mesma caveira que vislumbrara no ombro da mãe do homem, no retrato. O homem limpou lenta, meticulosamente, o monóculo, como se fora para dar tempo ao leitor para voltar ao ponto de interrupção. O leitor reviu o elmo de bronze envelhecido, oxidado, e o sabre de luz, enquanto o homem se curvava de novo sobre os manuscritos. E foi então que notou o reflexo no monóculo. Dois erros, dois, contou o leitor, tinha cometido o homem naquele salto precipitado. O monóculo espelhava agora os pergaminhos, e o leitor conseguia lê-los ao mesmo tempo, ou antes até, que o homem. Esse, era o primeiro, mas não tão grave quanto o segundo. O leitor pousou o livro nos joelhos, esfregou as mãos e ajeitou os óculos. O segundo erro, o lenço, o monograma, invertia o equilíbrio de poderes: dava-lhe acesso à passagem secreta. E foi quando o seu indicador direito se aproximava já das palavras “tatuagem de uma caveira”, que o ruído ensurdecedor da grande janela de vitral a quebrar, o deixou estarrecido. Vidros coloridos voaram pela sala, enquanto o homem só teve tempo de tapar os olhos com os braços. No meio dos estilhaços de vidro, no chão, um tijolo de barro maciço, vermelho. Enrolado no tijolo, um papel, onde à transparência se viam letras manuscritas a tinta escarlate. O homem pegou no tijolo, desenrolou o papel, e foi então que o leitor o viu ganhar uma palidez mortal. O motivo, adivinhou-o facilmente. No topo do papel, marcado a letras douradas, o monograma, com a tatuagem da sua mãe: a caveira.

Caderno Diário

O pássaro é barítono, concluí hoje, dia feriado, pelas seis da manhã. Foi quando estava a pensar que os seus trinados se assemelhavam aos sons que ouço na cadeira de barbeiro, de tesoura que diria tenor. Mas notei, intervalados com os harpejos habituais, outros, mais baixos. Talvez este pássaro tenha andado a ouvir os discos de Bryn Terfel, baixo-barítono, de certo familiar meu, e me pretenda impressionar, a troco das horas que não me deixa dormir, nem sequer hoje. Ou, talvez, em vez de um pássaro, sejam afinal dois — o início de uma história de paixão, a desenrolar-se no meu beiral. Se este blog já tinha um pendor romântico, temo pelo seguimento.
A atração do perigo está na origem de todas as grandes paixões, afirma Anatole France. Não há voluptuosidade sem vertigem. O prazer combinado com o medo, inebria.
*
Ao trucidar-me o sono e a paciência, o pássaro sabe ao que se arrisca. Mas deve ter andado a ler Anatole por cima do meu ombro e com a sua paixão, optou por se perder na vertigem. Inebriar-se.