30.4.15

Caderno Diário

Claude Monet, Medas de feno, 1884
Hoje, pareceu-me notar alguns traços de um Werther em ascensão no pássaro tenor que se aninhou por cima da janela. Talvez esteja a tentar atrair a minha atenção, para o apresentar a certas pessoas que conheço nos mundos da música. Como se fosse necessário fazer algo mais para ter o meu ouvido pleno do que acordar-me quando o sol ainda se espreguiça.
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No parágrafo acima, os leitores mais atentos notarão que a escolha de Porquoi me réveiller como ária demonstrativa das capacidades vocais do pássaro não será mera coincidência.
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Para se documentar para Bouvard et Pécouchet, Flaubert escreveu, a 25 de janeiro de 1880, que já tinha devorado mil e quinhentos livros. No final, a contagem terá chegado a cerca de dois mil. Esta superabundância de documentos permitiu-me não ser pedante, afirmou depois.
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Monet treinou-se a pintar um campo com medas de feno oitenta e três vezes.
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Anatole France resumiu bem este trabalho até que tudo pareça simples: A naturalidade é o que se acrescenta no fim.
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Acho que o pássaro, para além de frequentar a minha janela, anda a espreitar os meus livros.

29.4.15

Caderno Diário

Há pouco, na Antena 2, um músico confessava-se hesitante quanto a prosseguir a carreira operática. Que bom seria que o pássaro que fez ninho na janela ainda estivesse nessa fase de reflexão. Mas creio que já decidiu: só assim se justifica o afinco do treino e a hora a que o inicia. Ou isso, ou é para me acelerar a insanidade precoce.
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Como nuvens coloridas, descreve Nabokov a chegada de uma revoada de anjos. E ao olhar para as nuvens hoje, pareceu-me distinguir um irizado entre o branco e o cinzento. Divertem-se, a fingir de camaleões, eles.
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Os bloggers estão a saturar o globo, escrevia Zinsser há nove anos. Ora cada ano internet são sete anos comuns, como se sabe. Que dirá ele agora, sessenta e três anos depois?

26.4.15

A felicidade por contágio, no café, ao domingo

Há também o café da Cláudia, acho que ainda não tinha falado nele. Se o do Chico é o dos salgados, o da Cláudia é dos doces: do folhado como um transatlântico, do pão de Deus como uma nave povoadora, do croissant que pede meças a uma broa de Seia. Tanta tentação no balcão. Sentado apenas com o café, não vi o Correio da Manhã, não levei o Público, estive só a observar o Henrique Sá Pessoa, lá bem alto, na televisão da parede, a massajar umas beringelas como se fossem clientes de SPA em tratamento de reposição de beleza. E beleza, verdade se diga, daquela da melhor espécie, a serena, tem ainda a Florinda, que o Manico —  que por ela se perdeu d’amores —  chama Flor Linda, aparecida, por encantamento, na mesa em frente, enquanto os meus olhos deambulavam algures. E assim descobri que a adoração que o Manico tem por Flor Linda foi herdada pelo filho de ambos, que segurava a cara enternecida da mãe entre as mãos, como já vi o pai fazer, e a da filha, que lhe tinha tecido um colar feito de braços. Não precisei dos jornais, deixei o Sá Pessoa sozinho a espalhar óleos essenciais sobre as beringelas, fiquei reduzido à minha condição anónima de espetador, quase não respirando para não perturbar o quadro, deixando que o tempo parasse, e percebendo que a felicidade, essa ilusão que às vezes buscamos debalde entre o nascer e o desaparecer do Sol, por vezes se acha apenas por contágio da que está ali, mesmo ali, a desenrolar-se à beira dos nossos olhos.

25.4.15

O café do Dia da Liberdade

O Berto da Julinha estava mais perto da minha mesa, por isso consegui apreciar em pormenor a elegância do traje de Dia da Liberdade: camisola de moletão de um azul tão vivo como o dos sofás que estão na montra do loja de móveis da mulher desde a abertura, para venda, já lá vão cinco felizes anos, seis a fazer em julho; e calças a condizer, mas de molengão, no tom cinzento do Clio, benza-o Deus, que já passou os duzentos mil. O Doutor Jacinto, médico de clínica geral, um sábio paciente, diria que o Berto da Julinha era um rapaz forte, com os cento e dez quilos a arrendondarem a figura de um metro e sessenta e cinco, bem medidos. O corte de cabelo a pente três, deixava-lhe a cabeça tão brilhante quanto o cálice de branco, que se notava fresco pela condensação, aperitivo para o almoço, assim tomado ao meio-dia e meia hora, que eu confirmei no relógio do café do Chico. Do meu ângulo de visão mal conseguia ver o espetado do cabelo abrilhantinado do Quim Figueira, que, assim o percebi, tinha uma camisola de rugbi, azul escura, com finas riscas vermelhas. O símbolo, não o consegui descortinar, se fosse eu teria escolhido dos All Blacks da Nova Zelândia, minha equipa favorita no planeta, mas isso sou eu, e não vem ao caso. 
— E não deixam os moços beber álcool, lá nos Estados Unidos, antes dos vinte e um anos, afirmava o Berto.
— Mas podem entrar numa loja e comprar armas logo aos dezasseis e começam a matar-se uns aos outros, indignava-se o Quim.
— Por isso é que aquilo lá são todos malucos, rematou o Berto, conclusivo. Solenemente, como para firmar o pacto de entendimento, pegaram nos cálices de branco, e escorrupicharam-nos, e logo de seguida:
— Enche aqui, ò Chico, ouvi o Quim Figueira dizer, enquanto a cabeça oval do Berto oscilava, como aquela do cão de louça na traseira do Clio.
O Chico desviou os olhos das calças de cabedal preto da Francisquinha Miranda, que acabava de chegar, e que eu, se me pedissem opinião, diria que estavam demasiado justas, tirou a garrafa do frio, e atestou os cálices. A mulher do Chico, que não perde uma, desferiu-lhe um merecido piparote na orelha, antes de me entregar as minhas merecidas empadas de galinha, ainda quentes. À Francisquinha Miranda, por via de dúvidas, foi ela levar o café, enquanto o Chico, com ar falsamente amuado, resolveu entrar na conversa, fazendo eco do Berto:
— É um país de malucos, é pois, que a gente bem vê nos filmes.
E se a gente vê nos filmes, deve ser verdade, penso eu, já com a água a borbulhar na boca, das empadas a escaldar na mão. Acho que irão muito bem com um branco fresco, daqui a pouco, quando fizer um brinde ao Dia, este, o da Liberdade.

22.4.15

Os mistérios da mente

As mulheres, mesmo que mostrem respeito pelos méritos ou autoridade dos homens, veem-no sempre, secretamente, com comiseração, com uma sensação próxima da piedade. O que o homem diz ou faz, por mais brilhante que seja, raramente as engana; veem-no como ele é por dentro e não raro o acham vazio, patético até. Neste fato, talvez resida uma das melhores provas da intuição feminina. As características desta intuição são simplesmente uma aguda e acurada percepção da realidade, uma imunidade natural ao encantamento emocional e uma incansável capacidade para distinguir claramente entre a aparência e a substância. A aparência do homem, até pode ser de um magnifico herói, de um semideus. A substância, para elas, é a de um pobre coitado (*).

J. Eustáquio de Andrada, in A sabedoria ao alcance da juventude

(*) Nota-se que o ilustre Andrada continua a beber nas fontes de Mencken.

A sabedoria ao alcance da juventude

Nenhum homem acredita cegamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar numa ideia, mas não num homem, não com a mesma cegueira. No mais elevado grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o perfume da dúvida — uma sensação entre o instintivo e o lógico de que, no fim das contas, deve haver sempre uma carta qualquer na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é mais do que justificada, porque ainda ainda está para nascer o homem merecedor de confiança ilimitada — a sua golpada espera, no máximo, por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas antes que tendem a confiar demais — e de que ainda continuam a confiar noutros homens, mesmo depois de experiências amargas. Acredito que as mulheres sejam, sabiamente, menos sentimentais, tanto nisto como noutras coisas. Nenhuma mulher põe as mãos no fogo por um homem, nem age como se confiasse nele. A sua principal certeza assemelha-se à de um carteirista: a de que o guarda que o apanhou em flagrante o deixa ir em paz, desde que leve no bolso, bem arrecadado, o seu quinhão (*).

J. Eustáquio de Andrada, in A sabedoria ao alcance da juventude

(*) O ilustre Professor inspirou-se, por aqui, claramente, em Mencken.

12.4.15

Tu e eu


Yiruma, Blind Film

Tu e eu não somos dessa gente boa que aparece nos poemas — somos feitos da mesma matéria que incrementa os incêndios.

De um verso de René Morales Hernández.

Sobre a economia das palavras

Por vezes, pergunto-me se os livros não beneficiariam se os seus autores tivessem que os telegrafar a expensas próprias — escreve Frank Laurence Lucas, fellow da Universidade de Cambridge, mestre de J. Eustáquio de Andrada.

8.4.15

O problema dos homens (que não é das mulheres)

— Oh, Moraes, você que é um homem lido, para além de investido — perguntava J., o editor deste pasquim a que ele dá o nome de weblog, ou, se muito insistirmos, blog — conhece as teorias do Baumeister, pois não conhece? “Outro, pensei eu, com a mania do Andrada, de que eu já li tudo o que há para ler na Biblioteca de Alexandria.”
— Não, oh J., não, mas não duvido que vá colmatar tal falha cultural da minha parte.
— Pois decerto sabe qual é o problema dos homens, Moraes, não sabe? Isso é um tema importante por aqui, nisto dos weblogs.
— Meu estimado J., há mais problemas nos homens, do que aqueles que são sonhados por nossa vã filosofia. Sei sobre muitos, não tenho a certeza de que são os mesmos em que pensa agora.
— Pois, meu caro, o problema dos homens é que a natureza joga aos dados com eles, mais do que com as mulheres, não sabia, decerto? Era Einstein que dizia que Deus não joga aos dados, não era? Pois abriu uma exceção com o género masculino, os homens foram feitos para serem descartáveis, diz o professor. Já as mulheres, pois olhe, todas fazem falta.
— Oh, J., isso não é lá uma dessas teorias românticas suas, será? É que já ninguém o atu…
— Ah, Morais, claro que não. Sabe o meu amigo, análises recentes de ADN mostram que oitenta por cento das mulheres que já existiram desde os tempos lá do Serengueti, conseguiram deixar descendência. Já os homens, foram apenas quarenta por cento. Ou seja, a maioria dos homens, que viveu desde o início dos tempos, não procriou. Apenas cadáveres adiados, sem a procriação. Nós somos um ramo da árvore dos que se multiplicaram e encheram a terra. E esses, foram os que não morreram por inépcia, inanição ou pelejando, ou que conseguiram, simplesmente, arranjar uma mulher que lhes quisesse dar filhos. Não é comovente, oh Moraes?
— Estou de lágrimas nos olhos, J. Siderado.
— Não seja cínico, Moraes. A natureza joga aos dados com os homens. Há mais homens gigantes do que mulheres, mas há também mais anões. Há mais génios, mas há também mais idiotas. Só por terem sobressaído e sobrevivido, os nossos tetravôs, nos doaram os seus genes, oh Moraes. Lá diz Baumeister, as sociedades não se fizeram opondo os homens às mulheres. Foi colocando os homens a competir uns contra os outros e dando aos que venceram a oportunidade de se reproduzirem. Os que perderam, olhe, dos fra...
— Está você a dizer, oh J., que o melhor é apressar-me, antes que me ponham para aí numa arena de gladiador?
— Pelo sim pelo não, o melhor era frequentar umas aulas de esgrima. Isso de se apressar era boa ideia, oh Moraes. Ouvi dizer que a concorrência anda terrível. Vai ver, atrasa-se e perde a vez. Um problema, Moraes.
— Pois é, J. um problema, um verdadeiro problema. Oh, Cristo!

5.4.15

Fernando Pessoa, esse poeta árabe

O fim do longo, inútil dia ensombra.
A mesma ‘sp’rança que não deu se escombra,
Prolixa... A vida é um mendigo bêbado
Que estende a mão à sua própria sombra.

Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça
Sonhos; e a ébria confluência humana
Vazia ecoa-se de raça em raça.

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.

Cada dia me traz com que ‘sperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da ‘sperança.
Mas vivo de ‘sperar e de cansar.

Raças da cor do ouro ou cor do cobre,
A mesma terra as tem e o sol as cobre,
Nem fica da cor de uma ou da cor de outra
Mais nada que lembrar, nem sob nem sobre.

Dos Ruba'iyat de Fernando Pessoa

Umar-i Khayyām, esse poeta português


Baseado em quadras de Umar-i Khayyām

Quando for afrontado pela hora da morte,
Arrancado pela raiz da esperança da vida,
Do barro, meu abrigo, moldem uma jarra,
Enchendo-a com o vinho, ressuscitarei de novo.

Dos Rubā‘iyat de Umar-i Khayyām, versão de Ha­lima Nai­mova

3.4.15

Os problemas da modernidade

— Moraes, meu caro, você que é um homem lido, para além de investido, já leu Huxley, por certo.

— Mas claro, Andrada, o Admirá… 

— Homem, mas acha que eu lhe ia falar de trivialidades, do que toda a gente e o seu periquito leram? Pois não leu The Perennial Philosophy, Moraes, um homem do seu arcaboiço intelectual? Até Orchidée, esta estrela que ilumina a Via Láctea que é o meu ocaso, o tem como livro de cabeceira, n’est-ce pas ma precieuse perle de pluie?

Orchidée não pareceu ouvir o digníssimo professor, ocupada que estava com o ecrã do telefone.

— Pois eu, Andrada confesso que esse… 

— Afirma Huxley, por lá, que os homens de espírito, os criadores do intelecto, são de fraca compleição, e que é por isso que a sociedade os protege das agruras do mundo, dando-lhes acolhimento na academia, no mosteiro, no laboratório de investigação. Os que nascem contemplativos, diz ele, ou morrem cedo, ou estão demasiado ocupados a sobreviver para serem capazes de devotar atenção a mais alguma coisa. Daí andarem ao colo da sociedade, como se fossem infantes. Ora veja ali o nosso estimado amigo J., um contemplativo exemplar: fraco de corpo, ainda mais de espírito, deixado a si só feneceria de inanição. Não se lhe conhece obra, tirando aquele pasquim que penosamente mantém nas internetes.

Pauvre, pauvre J. — lamentou Orchidée. 

— Mas, oh Andrada, bem sabe que eu, aqui onde me vê, sou inteiramente ASICS, que é como quem diz, Anima Sana In Corpore Sano — protestou o pauvre J. Vou ao health club como à igreja.

— O que, meu caríssimo J., no meu dicionário é sinónimo para não colocar lá os pés — retorquiu o ilustre Eustáquio de Andrada. Pois não acha, oh Moraes?

Pauvre, pauvre J. — tornou, consternada, a bela Orchidée. 

Andrade fez aquele sorriso de mefistófeles que solidificou a sua lenda nos corredores do Magdalen College, com a fama de fazer as orais mais temíveis de história de Oxford. 

O estimável J., obviamente combalido no seu amor próprio, refugiava-se com afinco no seu telefone inteligente. Orchidée, com todos os dedos e olhos no telefone, sorria como se estivesse numa sessão fotográfica para o seu portfolio book

— Pois não concorda você, oh Moraes: de que serve um homem ler Tertuliano, que escreveu há quase dois mil anos, se o seu invólucro frágil não aguenta um sopro de vento mais forte, dos que se encontram nas avenidas da vida? Já não se fabrica gente como nós, Moraes, robustos de corpo, rijos de espírito, digo-lhe eu. Partiram o molde, não foi, oh Moraes?

Orchidée apontava o telefone para a cara sorridente; J. fazia olhos asiáticos, enquanto dividia o sorriso entre o ecrã onde aparecia o sorriso de Orchidée, e o dito sorriso, ao vivo, em frente. 

— Pois foi, oh Andrada, partiram o molde. Partiram o molde — repeti.