31.3.15

Prioridades

Paul Klee, Lua cheia, 1933
Faz por seres feliz hoje
O que é que te trará o dia de amanhã?
Alegria ou tristeza
Calmaria ou borrasca
Vida ou Morte?

Agarra uma garrafa de vinho
O colo de uma mulher
Senta-te à luz da Lua
E bebe
Pensando que amanhã
Talvez seja em vão
Que a Lua te procure

Dos Rubáiyát de Omar Khayyám

29.3.15

O café das horas encontradas

Chego cedo ao café do Chico, mas é já tarde, roubaram a hora, sem que eu o quisesse ou ela o desejasse. Mas, raptada, sei que ma devolverão, a troco de dias e meses, sem contratos que envolvam entregas da minha alma, em prazo a definir. O Chico, que é poeta e dançarino, diz que a hora não foi roubada: saiu para bailar uma milonga com o céu azul, e voltará quando ele se retirar para outro hemisfério, quem sabe o de Gardel, exausta e feliz. Pois seja. Surge o café nas mãos do Chico, naquela magia dele que ninguém sabe replicar, menos ainda explicar, não uma chávena, mas duas, que o professor Vilareal também bebe, enquanto inicia a sua dissertação sobre a dissertação. Que bem disserta, que só lhe posso acenar razão, quando me dá conta da sua estranheza, pois — dizia ele — que já foi vasculhar o catálogo da biblioteca e a tese que originou o livro tão falado, que a jornalista diz que afinal foi feito por encomenda, que foi um catedrático a escrever, fluente que é na língua de Racine e Montaigne, e conhecedor das temáticas da perda de confiança no mundo: pergunta o professor se alguém terá perguntado a Astrid, que foi orientadora da tese, o que acha ela da teoria de que o trabalho onde pôs o nome — e que como é o seu papel, deve ter acompanhado ao pormenor — afinal não foi feito por quem se sentava à sua frente nas discussões de temas e referências, e que assim ela também está envolvida numa intriga internacional, mas eu não tenho resposta, tenho só uma opinião, mas uma opinião não conta, pois não? Diz o professor que não viu tal pergunta na notícia, repetida por tantos jornais, e eu respondo que também não, e o Chico acena que ele ainda menos. O Chico é dançarino de passos porteños, mas como Sá de Miranda, umas vezes s’espanta, outras s’avergonha, com as danças com a verdade que vê. Eu, menos idealista que o dono do café, menos me admiro que ele, e me ocorre é a nostalgia da hora que se foi, dançando. A mulher do Chico traz pastéis de nata, daqueles dela, da receita recebida em herança da mãe, que são mais divinais e mais estaladiços que os da antiga fábrica belenense. E perante tais porções de paraíso, até o professor Vilareal ganha a confiança no mundo, se bem que apenas pelos minutos que leva a comê-los. E esses minutos, afinal, valem a hora que se foi, mas voltará, em tempo, de outro hemisfério. Antes de me ir, encomendo mais pastéis, para levar comigo. Raciocínio de lógica imbatível: se um pastel me faz recuperar uma hora, meia dúzia dar-me-ão mais um quarto de dia. Despeço-me do professor, do Chico e da mulher, e saio com as minhas horas encontradas na mão. Não ganhei o dia mas ganhei uma questão interessante, e umas horas adicionais para viagens de exploração. Hoje é um dia bom.

24.3.15

Como um adolescente

Paul Klee, Canção de amor na lua nova, 1939
E como um adolescente, tropeço de ternura — por ti.

De um poema de Alexandre O’Neill

20.3.15

O estranho caso da chave da biblioteca de Alexandria

Lê-se nas memórias de Balião, o Novo, que quando a biblioteca de Alexandria foi mandada incendiar por ordem de Omar, a chave do cofre onde se guardava o Livro de Todos os Livros, aquele que foi ditado pelo Deus dos Deuses, foi levada em fuga por Balião, o Antigo, para não cair nas mãos do esbirros do Sultão. 

Longos dias viveu Balião, tendo a chave legado a seu filho, antes de entregar a alma para ser transportada no carro de fogo, para as paragens de Sempre. O cofre, que só se abrirá com tal chave, permanece nas catacumbas do Louvre, guardado à vista por um membro dos Chevaliers de Sangreal. Diz a lenda, mas só o Deus dos Deuses é que sabe, que quem abrir o cofre com a chave será senhor do tempo, mestre da Eternidade, terá o poder de dar vida aos que morreram e morte aos que vivem. Será senhor e escravo, porque o poder absoluto é a mais profunda das servidões.

Longe do Louvre, perto do Tejo, Jorge de Burgos, bibliotecário cego, guarda a chave do cofre. A chave foi-lhe confiada numa noite longínqua, por uma mãe que a soluçar lhe entregou uma criança dizendo: A ti confio a minha vida e a chave do Universo. Cuida da minha vida, e o Universo por ti olhará. 

Foi há muitas voltas da Terra, mas Jorge recorda essa noite como a de ontem. Recorda-a enquanto pelos seus olhos passam as memórias de viagens infindas em busca de livros e sabedoria, em busca do zero e do infinito, em busca das origens do futuros e das portas do presente. Sente Jorge, nesta noite de chuva que a chave o chama. Levanta-se, afasta a estante que gira silenciosamente, desvendando um cofre de bronze. 

No cofre, só a chave salva por Balião das mãos de Omar, o incendiário. Jorge roda-a nas mãos e, de repente, sente o tempo a escoar-se, a urgir. Não pode adiar mais a passagem da chave a quem ela pertence, por direito dos Deuses. A passagem ao único descendente vivo da linhagem de Balião, o Antigo. O descendente que lhe foi entregue há noites sem fim por uma mãe em desespero de medo, a quem ele ama como pai, a quem irá agora passar o destino dos tempos que virão.

Senta-se, agarra com ambas as mãos a chave, porque sabe, sabe-o bem, que serão estes os últimos minutos em que as suas mãos sentirão o frio e milenar metal. 

Junta Jorge de Burgos os seus derradeiros fiapos de voz e chama:

— Maria...

[Homenagem às autoras da irresistível história que se inicia aqui.]

17.3.15

Autorretrato com vista para a Acrópole

Recebo uma carta na caligrafia treinada de J. Eustáquio de Andrada, letras azuis traçadas pelo aparo da sua ST Dupont Olympio, conjuntamente com uma fotografia de duas mulheres sorridentes, com o Parténon em fundo. 

“Meu muito estimado amigo,

Dizem-me que, por aí, as chuvas estão a chegar, mas aqui, o sol brilha frondosamente, empalidecido embora pelo sorriso de Orchidée, esta flor que me ilumina a alma no seu ocaso, que é também um apogeu, por motivo d’ela. Estamos nesta cidade onde todas as casas têm varandas abertas para a vida, a pedido do Alexis e do Yanis. Os motivos do convite, como intuirá, são reservados, mas pela amizade que me une a Yanis, desde que ele estava em Cambridge e eu em Oxford e nos cruzávamos no Eagle Pub, nunca poderia recusar passar aqui esta pré-primavera europeia.

Ontem estivemos a jantar em casa do Yanis, aquela que o meu amigo já conhecerá decerto das páginas de Paris Match. Orchidée e Danae tiraram um autorretrato (a que elas chamaram selfie, vá-se lá saber porquê, uma vez que são duas na película digital). Orchidée pediu logo a Danae para imprimir para enviar para o pauvre, pauvre, J. como ela lhe chama. A comiseração que esta doçura tem por si, comove-me, deveras. Empatia pela miséria em que encontra sempre a sua alma, acredito que seja a razão. Orchidée comove-se com os bebés que choram desabridamente, com os cães que uivam ao anoitecer e aparentemente, com as causas perdidas, como o meu prezado amigo.

Por falar em comoção, eu e o Yanis partilhamos esta paixão pela Austrália, e não ignorará o meu amigo que ele tem também nacionalidade australiana. Estamos a pensar voar, em Julho, até Darling Harbour acompanhados pelas nossas divas, as nossas darlings (a piada é algo seca, mas todos nos rimos dela, ontem à noite). Arranje o meu amigo companhia e ainda lhe estendemos o convite. À pendura é que não, nem sequer com o olhar suplicante que Orchidée me endereça agora.

Sabe o meu amigo, o problema da reportagem da revista, toda a exaltação em torno dela, não tem que ver com o retrato com o Parténon em fundo, ou o Yanis ao piano. O problema é que Yanis e Danae são modernos, bem-sucedidos, cosmopolitas, que não precisaram da política nem de favores alheios para chegar àquele ar de felicidade com que por lá aparecem e que eu posso comprovar. Yanis e Danae representam, de certa maneira, o ideal europeu. A união harmoniosa entre a ciência (sim, a Economia é uma ciência, the dismal science, como lhe chamava Carlyle) e a arte, entre a Europa e os outros continentes todos, onde eles, juntos ou em separado, já habitaram. Que seja um casal grego a mostrar à Europa a personificação da verdadeira aspiração de modo de vida europeu, isso é que é insuportável em Paris, Londres ou Berlim. Da nossa Lisboa, ainda tão fin-de-siècle, já nem falo.

Vá então tratando de arranjar sociedade para aquilo lá da Austrália. O tempo foge: para fazer a reserva, tem que saber o nome que vai indicar para o outro bilhete. Não deixe também isso da parceria para a última hora.

Receba um abraço deste que muito o considera (e daquela que agora junta o autorretrato, sempre murmurando, pauvre, pauvre, J.)

J. E. de Andrada”

9.3.15

O problema das mulheres (e o dos homens também)

Trovejava o ilustre J. Eustáquio de Andrada: 

-- Oh Moraes, você que já passou também algum tempo a lamber papel, sabe que naquelas coisas da ciência, o que conta não são os grandes avanços, são os pequenos, pois não é verdade? Não temos que mudar o mundo de uma vez só, apenas em pequenos passos, como lhes chamava o Popper. Você, que já leu o Popper, confirma, claro?

Assenti, acenando com a cabeça e notei também o nosso amigo J. que, agarrado àquele seu telefone esperto (como ele lhe chama) balançava gravemente a fronte, no movimento gracioso de um bote na doca. Orchidée, mais distante, olhava para o telefone dela como se de um espelho se tratasse, sorrindo, certamente como Marguerite, de se voir si belle en ce miroir. De vez em quando soltava um trinado em forma de risada. 

-- Mas, oh Moraes, estas gentes modernas acham que a vida tem que ser mudada toda de uma penada: salte lá o Euromilhões, ou engravidem de um romance, e tudo se resolve em ritmo presto, como numa sonata de Paganini. Não pode ser, as engrenagens do mundo não giram assim -- prosseguia o grande Andrada.

As lágrimas assomavam aos olhos de Orchidée, que continha as gargalhadas, enquanto J. continuava a acenar automaticamente com a cabeça. Parecia exercitar ritmicamente os músculos do pescoço, ou preparar alguma das asanas lá dele. Com a língua ao canto da boca, J. assestou uma dedada decisiva no seu telefone – e quase de imediato, decerto por coincidência, Orchidée deu um gracioso salto na cadeira, enquanto de seus belos e cerrados lábios saia apenas uma abafada e gargalhante exclamação.

Andrada atirou os braços ao ar, em sinal de desistência.

-- A juventude recreia-se. Mas, oh Moraes, e não acha você que o problema das gentes, é acharem que querem mudar tudo, quando afinal não querem senão mudar umas minudências nas suas vidas? Olhe, não vamos mais longe: Orchidée, que ali vê, aquela flor que enche de sol o meu ocaso, adora abraços. Pois não os adoram as mulheres todas? E quantos dos seus colegas, desses que se sentam nas cadeiras de pele de vitela albina italiana a criar produtos estruturados como mestres do Universo, oh Moraes, colhem as suas flores aos braçados? 

Pois que eu não sabia, mas desenhei casualmente uma função a tender para zero no papel à minha frente.

-- E as flores, quantas se enrolam, quais heras murmurantes, trepando em direção ao céu, aos seus colegas, senhores do mundo e arredores? Oh, Moraes?

Pois que não estou lá para assistir, mas escrevi uma percentagem com muitos zeros do lado direito da vírgula. Andrada concordou.

-- O problema dos homens, oh Moraes, é acharem que as mulheres querem o Mundo. E o problema das mulheres, é acharem que os homens querem o Universo. E todos querem é o mesmo, oh Moraes. Todos querem é amor. Esta coisa do amor não passa de moda com a idade, mas as gentes acham que sim, que isso das flores se enlearem como heras é coisa dos vintes, mas já não é precisa aos trintas, menos ainda aos entas todos, ad aeternum. 

-- É um problema, um verdadeiro problema, oh Andrada – confirmei.

Andrada olhou com uma ternura milenar para Orchidée: 

-- Minha Orchidinha, viens dans mes bras -- tonitruou, enleando a sua orquídea, como uma hera, num formidável amplexo. 

Do telefone de J. elevaram-se umas vozes desconhecidas a cantar uma canção que bem conheço: all you need is love, love is all you need. 

-- Como diria o grande Camilo, o amor tem céus e resplendores que banham de luz as mais tristes almas, oh Moares -- proferiu J., ponderosamente. E acrescentou o imprevisível editor deste hebdomadário:

-- Um ferro, isto do Spotify não ter as músicas originais dos Beatles. Temos que nos contentar com estas bandas de cover, já viu? Assim, nunca as novas gerações perceberão desta coisa dos males de amor, como nós percebemos. Um problema, oh Moraes, um problema.

-- Um problema, oh J., um verdadeiro problema – confirmei, encolhendo os ombros.

8.3.15

O problema das mulheres (e dos homens também)

Trovejava o ilustre J. Eustáquio de Andrada: 

-- Oh Moraes, você que já passou também algum tempo a lamber papel, sabe que naquelas coisas da ciência, o que conta não são os grandes avanços, são os pequenos, pois não é verdade? Não temos que mudar o mundo de uma vez só, apenas em pequenos passos, como lhes chamava o Popper. Você, que já leu o Popper, confirma, claro?

Assenti, acenando com a cabeça e notei também o nosso amigo J. que, agarrado àquele seu telefone esperto (como ele lhe chama) balançava gravemente a fronte, no movimento gracioso de um bote na doca. Orchidée, mais distante, olhava para o telefone dela como se de um espelho se tratasse, sorrindo, certamente como Marguerite, de se voir si belle en ce miroir. De vez em quando soltava um trinado em forma de risada. 

-- Mas, oh Moraes, estas gentes modernas acham que a vida tem que ser mudada toda de uma penada: salte lá o Euromilhões, ou engravidem de um romance, e tudo se resolve em ritmo presto, como numa sonata de Paganini. Não pode ser, as engrenagens do mundo não giram assim -- prosseguia o grande Andrada.

As lágrimas assomavam aos olhos de Orchidée, que continha as gargalhadas, enquanto J. continuava a acenar automaticamente com a cabeça. Parecia exercitar ritmicamente os músculos do pescoço, ou preparar alguma das asanas lá dele. Com a língua ao canto da boca, J. assestou uma dedada decisiva no seu telefone – e quase de imediato, decerto por coincidência, Orchidée deu um gracioso salto na cadeira, enquanto de seus belos e cerrados lábios saia apenas uma abafada e gargalhante exclamação.

Andrada atirou os braços ao ar, em sinal de desistência.

-- A juventude recreia-se. Mas, oh Moraes, e não acha você que o problema das gentes, é acharem que querem mudar tudo, quando afinal não querem senão mudar umas minudências nas suas vidas? Olhe, não vamos mais longe: Orchidée, que ali vê, aquela flor que enche de sol o meu ocaso, adora abraços. Pois não os adoram as mulheres todas? E quantos dos seus colegas, desses que se sentam nas cadeiras de pele de vitela albina italiana a criar produtos estruturados como mestres do Universo, oh Moraes, colhem as suas flores aos braçados? 

Pois que eu não sabia, mas desenhei casualmente uma função a tender para zero no papel à minha frente.

-- E as flores, quantas se enrolam, quais heras murmurantes, trepando em direção ao céu, aos seus colegas, senhores do mundo e arredores? Oh, Moraes?

Pois que não estou lá para assistir, mas escrevi uma percentagem com muitos zeros do lado direito da vírgula. Andrada concordou.

-- O problema dos homens, oh Moraes, é acharem que as mulheres querem o Mundo. E o problema das mulheres, é acharem que os homens querem o Universo. E todos querem é o mesmo, oh Moraes. Todos querem é amor. Esta coisa do amor não passa de moda com a idade, mas as gentes acham que sim, que isso das flores se enlearem como heras é coisa dos vintes, mas já não é precisa aos trintas, menos ainda aos entas todos, ad aeternum. 

-- É um problema, um verdadeiro problema, oh Andrada – confirmei.

Andrada olhou com uma ternura milenar para Orchidée: 

-- Minha Orchidinha, viens dans mes bras -- tonitruou, enleando a sua orquídea, como uma hera, num formidável amplexo. 

Do telefone de J. elevaram-se umas vozes desconhecidas a cantar uma canção que bem conheço: all you need is love, love is all you need. 

-- Como diria o grande Camilo, o amor tem céus e resplendores que banham de luz as mais tristes almas, oh Moares -- proferiu J., ponderosamente. E acrescentou o imprevisível editor deste hebdomadário:

-- Um ferro, isto do Spotify não ter as músicas originais dos Beatles. Temos que nos contentar com estas bandas de cover, já viu? Assim, nunca as novas gerações perceberão desta coisa dos males de amor, como nós percebemos. Um problema, oh Moraes, um problema.

-- Um problema, oh J., um verdadeiro problema – confirmei, encolhendo os ombros.