28.2.15

O mais alto dos céus

Paul Klee, Sol nascente, 1907
A Saulo de Tarso, após ter sido elevado ao mais alto dos céus, foi-lhe colocado no corpo um espinho, que o atormentava continuamente, para que não se envaidecesse com a grandeza do que lhe havia sido revelado. A minha força manifesta-se melhor nas fraquezas, afirmou, na carta que escreveu aos Coríntios. O amor revela-se de forma que Saulo poderia ter descrito com as mesmas palavras. Mas se para ele a experiência da elevação foi única e a da dor, permanente, quem ama sabe que permanente é a tensão entre os dois estados: o cume e o abismo. Mas talvez o espinho neste caso seja cá colocado para servir de referência à elevação. Quando me sinto fraco, então é que sou forte. E apenas acolhendo integralmente a fraqueza, se atinge a plenitude da força.

26.2.15

A ronda da noite

Recebo uma encomenda de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa em Oxford, acompanhada por uma missiva em cuidada caligrafia em azul cobalto, esmeradamente desenhada pelo aparo da sua S. T. Dupont Olympio.

"Meu muito estimado e saudoso amigo,

Estas linhas que ora lhe chegam à mão, escrevo-as na Bodleian (1), templo a que dediquei longos dias contemplativos da minha profícua existência. Se a casa de um inglês é o seu castelo, a Bodleian é a minha torre de menagem. Orchidée, esta flor cujas pétalas aromatizam o meu despertar, envia-lhe um ósculo, um apenas, citando Pessanha (2): Quão delicada te osculou num dedo / Com um aljôfar cor de rosa viva!... Ah, a minha orquídea alva e irisada, eflúvio dos dias meus, seda das minhas noites.

O livro do jovem Magueijo (3) fez assinalável sucesso entre os meus confrades, que estão a ponderar seriamente redigir uma resposta à altura, apresentando Portugal visto a partir de Plymouth, onde como sabe, com um bom óculo em dias claros, se avista o cabo de São Vicente (4). Hesitam, neste momento, no título a dar a esse opus magnum: dividem-se entre Tesos quem nem carapaus e Enquanto a senhora gorda cantar (5). Eu sei que são rebuscados, mas não duvido que esses seus dois neurónios serão capazes de os descodificar a contento.

Espero que vá mantendo os céus de Lisboa límpidos e azuis, que por aqui, meu caro, cães e gatos despenham-se das alturas a cada passo. Estaremos de regresso para a semana, e Orchidée já está a planear uma das nossas decantadas rondas da noite, deste sábado a oito dias, para a qual está desde já convidado. Não se trata de contemplação da obra de Rembrandt, nem da leitura declamada do livro homónimo da Maria Agustina (6), posso assegurar-lhe. Mas não aguçarei a sua curiosidade com mais pormenores porque, como diria Pasternak, a surpresa é a maior oferenda que poderemos receber da vida.

Orchidée pede para o avisar que para a ronda da noite, o dress code é fato escuro, camisa negra e gravata rubra. Orchidée recomenda-lhe que leve a Marinella (7) que segue apensa a esta humilde mensagem.

Aceite um abraço deste que muito o considera.

J. E. de Andrada."

(1) A maravilhosa Bodleian Library, em Oxford.
(2) Camilo Pessanha, claro.
(3) Refere-se o professor ao livro do físico português e professor no Imperial College, João Magueijo, Bifes mal passados.
(4) Um chiste do professor, só pode ser.
(5) Referência pouco subtil dos britânicos à dependência portuguesa da vontade germânica. Como é evidente, a senhora gorda é uma Valquíria de uma ópera de Wagner. 
(6) O ilustre Andrada tratava assim Agustina Bessa-Luís, quando se visitavam.

19.2.15

Rústicos eruditos

O nosso comum amigo Andrada disparou naquela sua voz agreste de proprietário de vastos prédios rurais, metido a literato, mais rústico que erudito: 

-- Moraes, você que parece ter mais tempo à sua disposição que um Ministro dos Negócios Estrangeiros, é que era bom para escrever naquele pasquim que aqui o nosso amigo J. mantém nas internetes. E além disso, confirme-me lá, você não é homem de paixões, ou é? Não se lhe conhece um alexandrino, um soneto, uma rima que seja. Apostaria este havano supimpa em como não leu um poeta madeirense sequer e na sua estante não constam autores que levam metade dos livros à procura dos tempos perdidos em Sines. Aquilo está é a precisar de gente à antiga, como o meu amigo, homens de rapé e pingalim, de verbo rápido e rédea curta nas emoções. Homens que o são por força da lei divina não se querem apaixonados. Isso, é para as almas a fenecer, os espíritos elevados pairam acima de tais minudências.

Orchidée olhou com comiseração para J. que baixou os olhos com ar compungido, atingido com mortal flecha no seu frágil e sofredor coração. 

-- Mon chou, proferiu a dulcíssima diva, naquela sua voz maviosa de cotovia de Bayreuth, deixe o coração cristalino do J. em paz, que ele tem tido mais que a sua quota de raisons para andar com as emoções assim, tatuadas na sua pálida pele. Le pauvre.

Um misto de agradecimento e ternura pareceu-me perpassar pelos olhos melancólicos de J. enquanto se dirigia a mim.

-- Moraes, pois se o meu amigo, que é homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, quiser agraciar aquele humilde espaço com a sua pluma, será, não recebido com vestais ocultando o sol com chuveiros de pétalas de rosas, que isso não consigo encomendar em tempo útil, mas pelo menos com um cálice daquele Hennessy que sabe que eu guardo especialmente para as suas visitas, aquele que quase nos fez perder o vôo em Frankfurt, e que nos obrigou a correr que nem uns evadidos pelos infindos corredores.

-- Ora vê, tonitruou Andrada, Moraes, aí tem a sua deixa. Não é todos os dias que temos oportunidade de contribuir para a sociedade de forma tão absolutamente inútil. O pasquim do nosso amigo J. que ele muito considera é, que eu saiba, apenas lido aqui por Orchidée, mon amour, e poucos mais que por lá chegam sem dúvida ao engano e rapidamente arrepiam caminho. Com o meu excelso amigo Moraes a prosar por lá, finalmente haverá um motivo para, até eu, by jove, even me, poder, num dia de chuva, encontrar frases que finalmente consiga ler sem sentir o arrepio que o romantismo elisiano me causa.

Os olhos de Orchidée ergueram-se para o céu, em prece que me fez recordar a famosa oração de Santa Teresa de Ávila. O amigo J., por seu lado, parecia-se mais com S. João da Cruz, a redigir os seus poemas no guardanapo, com uma caneta cujo aparo esborratava tinta com a facilidade com que Andrada escorropicha absinto.

E eu, A. de Moraes, homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, como diria o martirizado J., atentei no olhar celestial de Orchidée, e por ela, apenas por ela, única leitora conhecida destes editais, escrevi e assino o meu primeiro panfleto para este pasquim de publicação deveras irregular aqui nisto das internetes. Também pelo Hennessy, vá, que foi por minha causa que J. ia perdendo o avião nesse dia, e de certeza perdeu os pulmões pelo caminho, enquanto enrubescia, soprava e bufava, correndo e bradando, num aeroporto onde ninguém o entendia:

-- Sem mim, não. Sem mim, não!

13.2.15

Lago com neve ao fundo

Gustave Courbet, Lake Leman, 1874

Por uns dias, o escrevinhador deste blog irá seguir os conselhos do ilustre J. Eustáquio de Andrada, deixar-se de bibliotecas com confortáveis sofás Chesterfield e sujeitar-se à inclemência dos elementos. Até já.

11.2.15

Urgência, inevitabilidade

Paul Klee, No núcleo, 1935

Recorro a uma formulação de Enrico Fermi para ilustrar algo que sinto profundamente, de forma nuclear: se os resultados confirmam a hipótese, isso é uma medição, mas se a contrariam, então é uma descoberta. Digo eu: a essência da vida encontra-se no inesperado, no divergente, na descoberta, precisamente. Mas, e isto sim, atinge-me no centro da alma: na urgência, na inevitabilidade até, de descobrir essa diferença, tendo aprendido, sabendo, que apenas nela encontro a plenitude.

7.2.15

Solidariedade radical

Recebo uma caixa da Kent Haste & Lachter (1), acompanhada por uma carta manuscrita na elaborada caligrafia de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa no Magdalen College, em Oxford. 

"Meu muito prezado amigo,

O Yanis (2), que como sabe, conheci em 88 em Cambridge, não me tem dado pausa ao telefone. A discrição não me permite adiantar mais, mas o Yanis sabe mais de Economia a dormir que o Wolfgang (3) acordado, e como adicionalmente também é especialista nos arcanos da teoria de jogos, estar como mediador nas conversas entre os dois tem-me obrigado a descurar o que deveria ser a minha ocupação primeira por esta altura: cuidar da minha Orchidée, esta flor que pinta de ouro os meus dias e de platina as minhas noites. 

Ela encontrou-o, a si, naquele evento do hotel, e veio dizer-me que “a sua gravata ausente na camisa imaculadamente branca e de colarinho aberto se destacava muito mais que todos os nós Windsor que por lá peroravam.” Pois o meu estimado amigo agora, num afã neo-helénico recusa também um aconchego ao pescoço? Muito me conta, que o sei com apreço pelas belas sedas. Mas os ventos que vêm do Peloponeso e varrem a Europa, levam a eito também as ties – e não será por acaso que na língua de Sua Majestade, gravata (tie) e empate (tie) sejam palavras homónimas. Estamos em tempo de acabar por fim com as ties, meu amabilíssimo amigo.

Como sabe, ou não sei se saberá, a expressão solidariedade radical (4) que o Yanis usa naquele artigo lá dele, fui eu que o sugeri, estávamos ambos em frente a uma pint, no Eagle Pub, em Cambridge. E falando em solidariedade radical, a Orchidée, que lhe envia o que vai na caixa em apenso, sugere que já que optou por ser tie less, que faça a mudança radical, imite o Yanis com quem ela o acha parecido, e passe também de white collar para blue collar (5). Bem sei que o meu amigo está provido de plena capilaridade, ao contrário do Yanis, e não consigo perceber onde ela vê tal semelhança. 

A solidariedade dela, com o meu beneplácito, vai nesta caixa, sob  a forma de uma camisa azul, semelhante às do Yanis, que ela pede encarecidamente que o meu amigo envergue quando por cá aparecer amanhã à noite, para o nosso combinado jantar grego (aqui ao lado, os gritinhos de alegria dela quase me perfuram os tímpanos – por certo, manifesta o apreço por Païdakia e Bougatsa (6), a ementa du jour).

Agora tenho que interromper esta missiva, que já vai longa: o Wolfgang está furioso por ter perdido um jogo qualquer nas internetes (7) com o Yanis e não me larga o telefone a clamar por vingança. 

Cá o aguardamos amanhã. Apareça com a camisa para fora das calças, como o Yanis, reitera Orchidée, a minha fidelíssima musa, esta luz que ilumina o meu ocaso.

Deste que muito o estima e considera

J. Eustáquio de Andrada"

(1) Alfaiates e camiseiros estabelecidos em Saville Row, Londres.
(2) Yanis Varoufakis, claro, o ministro das Finanças de Grécia, doutorado em Economia, com uma tese sobre o impacto económico das greves industriais em Inglaterra e nos EUA.
(3) Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha, doutorado em Direito, com uma tese sobre o papel dos contabilistas nas empresas de contabilidade.
(4) O ilustre Andrada refere-se ao artigo: Toward a theory of solidarity, que Varoufakis publicou em 2003.
(5) É um chiste do grande Andrada: em terminologia anglo-saxónica, white collar refere-se aos executivos, e blue collar aos trabalhadores fabris. Há aqui uma velada referência de cariz revolucionário que me abstenho de comentar.
(6) Pratos da cozinha grega, obviamente.
(7) Yanis Varoufakis é consultor da Valve Corporation, uma empresa de jogos na Internet: é natural, pois, que aniquile Wolfgang Schäuble numa jogatana noturna no Counter Strike, um dos mais populares da Valve.

4.2.15

Homens do futuro

Paul KleeO homem do futuro, 1933
Assuntamos em torno das távolas redondas, debaixo dos tetos sumptuosos, enquanto os novíssimos magos descrevem, com as complicações e as safiras de um mecanismo de relojoaria fina, o futuro, à nossa frente. Em volta, as frondosas gravatas de aspeto seríssimo bebem as novas do que aí virá, com sorrisos alvos, mal contido alívio, levitação até. Terminada a adivinhação, saímos, repletos, deliciados, regalados: mesmo que aquele futuro se tenha desenrolado apenas naquele instante, sentimo-nos elevados. O futuro é belo, límpido, solar. Percebo o encanto dos videntes. Não nos enleiam por anteverem o presente. Embevecem-nos, por, instantaneamente que seja, obnubilarem o passado. E achamos, sim, candidamente achamos, isso incalculável.

1.2.15

O café que é uma ilha

Oh, que sortudo sou, cantaria o brilhante Lee Clayton. De madrugada, ainda o Sol se passeia em Bondi Beach, enviam-me de Madrid, o País, de Paris, o Mundo, de Nova Iorque, o Tempo. Assim prendado, voam as horas até sair, em passo dolente, rumo ao café do Chico. Coleridge acreditava que todas as letras estavam contidas numa só, na primeira, no Aleph. Eu, acredito que o país, o mundo, o tempo, se contêm neste café, uma ilha no meio da cidade. O Chico, o Crusoé, senhor da ilha, imperador de cem metros quadrados, mestre de cerimónias, discípulo de Apolo, excelso bailarino.

Abraça-me o Chico quando chego, como se me não encontrasse há décadas, ainda que me tivesse visto a semana passada, e a outra. Vem o café quente, aroma de diamante, e vem o pastel de nata, em dose dupla, que ainda é cedo, o domingo é longo, a conversa vasta. Vem o Augusto sentar-se ao pé, e o Luciano, depois a Fernanda, parte do grupo das noitadas de estudo, quando fazíamos os raides aos bolos acabados de sair do forno, ainda a queimar na boca, hoje falamos dessas noites infindáveis e de conversas nas escadarias. Cada um de nós se recorda como ontem, já lá vão tantos dias, transformados, um a um, em anos. É o tempo que nos chega, e parte, sem precisar vir de Nova Iorque. É o tempo que está aqui, tão perto como a chávena e o prato com os pastéis, que já se foram. É o tempo que dança connosco, como o Chico rodopia entre as mesas, distribuindo cafés e sorrisos, colhendo palavras e fragmentos de vida. 

E na mesa do centro, naquela que fica mesmo por baixo da ventoinha de grandes pás, da que tem as luzes, que quando se acendem fazem nascer o Sol à noite, nessa mesa, digo eu, estão o Ricardo e a Laura, também eles compagnons de route desses outros tempos, mas que se encontraram, ou reencontraram tardiamente. E enquanto  na minha mesa se recorda a vida que voou, o Ricardo e a Laura encontram a vida que virá. Olho-os, e vejo que não me veem, nada veem, tirando um ao outro, tantos anos depois, veem-se pela primeira vez. Na ilha que é o café, criaram uma ilha, uma outra. Também eles são sortudos, como cantaria o brilhante Lee Clayton, por estarem ali, um com o outro. Porque a maior felicidade que há é quando todo o mundo se desintegra e fica apenas uma ilha. Não importa onde está o Sol, não importa o que vem de Madrid, de Paris, ou Nova Iorque. Apenas a ilha conta, quem nela está, que seja uma ilha dentro de uma ilha, dentro de uma ilha. Uma ilha matrioska, como aquele boneca que uma vez trouxe porque era pintada à mão, em tons suaves, nada de cores garridas, industriais, atuais. 

Seria capaz de jurar que a ilha do Ricardo e da Laura tem luz própria, luz que cintila em torno deles. Os meus colegas de mesa, e de vida, céticos e racionais, diriam que é o reflexo do Sol na ventoinha por cima, que também é candeeiro. Mas eu, que sou um sortudo, como cantaria o brilhante Lee Clayton, às vezes encontro raios de luz perdidos e, à socapa, guardo-os para mim, catalogo-os na minha coleção. Sei que hoje vou levar estes, quando me for, daqui a pouco. Levo os abraços do Chico, da mulher do Chico, as palavras do Augusto, do Luciano e da Fernanda. E a luz da ilha do Ricardo e da Laura. Afinal, eles não precisam da luz exterior. Os olhares de um para o outro chegam para iluminar o País, o Mundo, o Tempo, que é a ilha. A sua ilha.