28.1.15

Omeletes calvas

Escreve Eça, n'O Distrito de Évora: Um ministro, por exemplo, abre um jornal: lê o artigo de fundo, boceja; o artigo ataca-o: diz que ele vai levando a pátria ao abismo, que esbanja a fortuna pública, que é amaldiçoado pelas almas honestas, etc.; o ministro boceja; ele ouve aquilo todos os dias, está cansado de escutar e sorri-se, cumprimentando, quando alguém lho vem bradar. Por isso não se altera. Mas passa adiante; a política estrangeira, também boceja; a correspondência do Reino em que o fulminam: boceja; então passa a crónica, lê, lê mais, lê avidamente, dá um pulo, empalidece, dá um grito, esmorece, sufoca-se, passeia furioso: o que viu? Eu sei? Qualquer coisinha: viu-se descrito, com o nariz bicudo e joanetes nos pés; vê a notícia de que no seu último jantar várias pessoas tinham encontrado bichos nos legumes, e outros, cabelos na omelete, pelo que um cavalheiro lhe bradou:
-- Sr. Ministro, eu gosto das omeletes calvas!
Vê-se mais acusado de trazer chinó, e de não lavar a cabeça, e de se deixar espancar pela mulher. Etc. Aquele homem, que o artigo de fundo não abalou, foi fulminado pela própria crónica. Daí, manda imediatamente comprar o cronista; e daí, o cronista manda-se imediatamente vender. 

22.1.15

Em defesa das leguminosas

Escreve-me José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, uma carta na sua precisa caligrafia lavrada a tinta azul safira, e saída do aparo iridiado da S. T. Dupont Olympio, brilhante nas suas múltiplas e genuínas camadas de laca da China.

“Meu muito prezado amigo,

Chegou-me aos ouvidos que para além dessa sua existência de eremita laico, que lhe dá à cara o ar pálido mais adequado num salão do século XVIII do que na Lisboa chuvosa e fria de dois mil e quinze, agora tem sido avistado – e acredito, porque é um grande amigo comum nosso que mo diz, compungido – a alimentar-se com sucedâneos de comida a sério, coisas com nomes de seitan e tofu, cuidadosamente trabalhadas para parecerem o que não são, nem nunca serão, por mais refogados e estufados em que se vejam embuçados. Impostura há por todo o lado, meu caro, e já nos basta a do espírito com que nos deparamos a cada hora que olhamos para os curadores da res publica: poupemo-nos à hora sagrada da refeição. 

Que se alongasse pelas leguminosas ainda compreendia. Este seu amigo que muito o estima, não dispensa um bom prato de favas na época delas, desde que sejam pequenas e se desfaçam apenas com o olhar, acompanhadas com toucinho frito, estaladiço como nunca comi um bacon em terras de Sua Majestade. Agora favas com seitan? Homessa? Ao meu lado, a dulcíssima Orchidée até se arrepia, sussurrando-me com ar preocupado se não será desta que os seus ossos finalmente se verão à transparência da pele. 

Se quer ser o vate Elmano que insinua lá por esse pasquim que mantém nas internetes, pois que o seja, mas não consta que o Talaya(1) se movesse a fibras de soja. Homem que se quer de espírito também se quer de carne – caso contrário, temos casa sem pilares, sistema solar sem Sol, Andrada sem Orchidée (“credo!”, suspira a meu lado a sublime musa que alonga os meus dias e encurta as minhas noites.)

Apareça por cá ao jantar de sexta: mandarei vir de Negrais um leitão ainda fumegante e estaladiço, que regaremos com aquela magnífica reserva do Dirk (2). 

(Orchidée aplaude em saltos que desafiam a gravidade – uma revelação, não a sabia tão apreciadora de couchonnet.)

E saia, homem, apanhe sol, ou apanhe chuva, ou apanhe a tipóia para Sintra. Em suma, apanhe alguma coisa, qualquer coisa, o que quer que seja.

Deste que muito o considera.

J. E. de Andrada"

1) Refere-se o grande Andrada a João Dias Talaya Sottomaior, panegírico do Séc. XVIII a quem Bocage deitou a sua rede mordaz. 
2) O ilustre Andrada trata assim o não menos ilustre Eduard Dirk Niepoort, actual responsável pela casa Niepoort.

17.1.15

Klee da Bolívia

Paul Klee, Flores em pedra, 1939

Diz Manoel de Barros: Um tempo antes de conhecer Picasso, eu tinha visto na aldeia boliviana de Chiquitos, perto de Corumbá, uma pintura meio primitiva de Rômulo Quiroga. Era um artista iluminado e um ser obscuro. Ele mesmo inventava as suas tintas. Trazia dos cerrados: seiva de casca de angico (era o seu vermelho); caldos de lagartas (era o seu verde); polpa de jatobá maduro (era o seu amarelo). Usava pocas de piranha derretidas para dar liga aos seus pigmentos. Pintava sobre sacos de aniagem. Mostrou-me um ancião de cara verde que havia pintado. Eu disse: mas verde não é a cor da esperança? Como pode estar em rosto de ancião? A minha cor é psíquica — ele disse. E as formas incorporantes. Lembrei que Picasso depois de ver as formas bisônticas na África, rompeu com as formas naturais, com os efeitos de luz natural, com os conceitos de espaço e de perspectiva, etc etc. E depois quebrou planos, ao lado de Braque, propôs a simultaneidade das visões, a cor psíquica e as formas incorporantes. Agora penso em Rômulo Quiroga. Ele foi apenas e só uma paz na terra. Mas eu vi latejar rudemente nos seus traços milagres de Klee. Salvo não seja.

13.1.15

Uma outra realidade

Paul Klee, Peixes, 1925

Diz Roberto Juarroz em Poesía y creaciónA poesia é a máxima fidelidade à realidade. É o maior realismo a que fui exposto na minha existência. E, entre outras coisas, porque a poesia implica esse reconhecimento do absurdo. Reconhecimento que faz com que ela, como tal, seja o não absurdo. Há um pensamento em Paul Klee que sempre me comoveu, aquele onde diz que o visível é só um exemplo do real. A poesia seria então a intenção de revelar os aspetos da realidade que não são visíveis.