9.11.15

Bach, o social

A Deustsche Grammophon avisa-me, via Twitter, que é altura de eu conhecer tudo sobre Bach! (ponto de exclamção incluído, coisa lá deles, com hashtag apensa: It's all about #Bach!). Apresenta-me o retrato de John Eliot Gardiner a apontar para outra hashtag: #50BachMasterworks. E uma foto de um telefone, com o perfil de Bach no ecrã, e as ligações para os serviços de música da moda, onde posso, finalmente, ouvir tudo sobre Bach, em cinquenta obras, primíssimas, as mais primas de todas. «Bach e Gardiner pertencem simplesmente em conjunto», dizem-me. E eu vou até à estante, onde param todas as obras de Bach que sobrevivem — e não conto, claro, com as outras tantas que a mulher teve que vender, após a morte dele, para pagar as contas da família numerosa e que nunca mais se encontraram — e pergunto-me se Bach merece ser tratado assim, na modernidade de hashtags e no despautério de tantos pontos de exclamação. É inegável que é um sinal geracional, isto de ter esperado que Gardiner publicasse as cantatas, gravadas numa magnífica peregrinação que passou por Portugal; de preferir a versão dele à de Koopman; de ter penado até encontrar uma interpretação perfeita da Chaconne para Violino Solo (Kremer, meu caro, chapeau). Não sou pela sacralização da música — aliás, sou pela sacralização de muito poucas coisas, quase nenhumas delas relacionadas com arte, música, literatura, ou criação humana. Eu sei que a Deutsche Grammophon tem que se adaptar aos tempos, como eu me adaptei. Só não gosto que me sirvam sopa de cogumelos feita de pó hermeticamente selado como se fosse dos ditos acabados de colher e ainda a saltar de frescos quando mergulham na água. É um preciosismo, mas é o meu. E gosto dele assim.