14.6.15

Um hebdomadário nas internetes

Recebo, de J. Eustáquio de Andrada, via Snapchat de Orchidée, uma foto de uma mensagem escrita a esferográfica azul, que me parece Bic Cristal, escrita normal. Estranho, deveras estranho.

«Prezado amigo,

O bem mais precioso de um homem, depois do seu castelo e da sua donzela, é o seu sossego. E se o meu castelo é bem defendido, como saberá, já a minha donzela, esta Orchidée que ilumina o meu doméstico ocaso, anda a inundar-me os cantos ao castelo com lágrimas, de saudades lá do pássaro que cantava no hebdomadário que o estimado mantinha pelas internetes. Já prometi arranjar-lhe um canário, que ainda para mais será útil em caso de fuga de gás, mas tal sugestão só fez aumentar os prantos. 

Não sei se o meu amigo conhece aquele rapaz, o Reboredo, que trabalha lá na herdade, foi comando e agora é pegador no Grupo de Forcados do Barrete Encarnado. Acontece que ele está de serviço cá por casa, por estes dias, a mudar umas estantes de lugar, a carregar o piano para a ala nova, e a acarretar umas pedras para a fonte que estamos a reformular no jardim. É um rapaz de vastas capacidades, bem vê. Por mor do meu sossego, o bem mais precioso de um homem, repito, estou capaz de prescindir dos préstimos dele por umas horas e mandá-lo ter consigo, para em conjunto discutirem o que é que faz falta para voltar a colocar nas internetes esse seu hebdomadário. Se achar que isso ajuda, disponha. Tem aqui, como sabe, um amigo às ordens. 

E se, entretanto, mudar de ideias, apareça cá para o jantar, soluça Orchidée aqui ao lado. O Reboredo trouxe um par de faisões da herdade e ouço lá fora o piar desesperado da bicharada ao avistá-lo, façanhudo, decidido, frio e insensível, de navalhão na mão, a preparar-se para lhes tratar da eternidade.

Já sabe, se precisar, os amigos são para as ocasiões.

Deste que muito o estima e considera.

J. E. de Andrada»