21.6.15

O café das águas cristalinas

O Chico já sabe que, nestes dias assim, antes do café, eu bebo uma garrafa de água, fresca, ainda enevoada de gotas minúsculas, baça por fora, cristalina por dentro. Traz-me então um copo brilhante, ainda vem com o pano na mão a puxar lustre, e através do copo vejo a luz da rua que se escoa por todos os vidros, luz matinal, que só pela manhã é que se aguenta o café quente, e cheio — cheio para o prazer da cafeína se alongar. Ainda tenho Diário de Notícias e Público e Correio da Manhã à escolha, toda a informação à minha espera, que no café estou só eu. E o Chico, pois claro. E, de repente, não me apetece ler, apetece-me apenas ficar na palheta com o dono dançarino, aluno de Apolo, tribuno de balcão. Apetece-me falar como se entre os dois se tivesse juntado a sabedoria dos anos e a curiosidade das infâncias. Dos dias que correm rápidos, tanto, que ainda ontem era domingo, e amanhã o será de novo. Já me explicaram o fenómeno: quanto mais vivemos, menor é a percentagem de um dia, de um simples dia, no total da nossa vida. O primeiro dia de vida, é cem por cento, o segundo, cinquenta, e depois, sempre a diminuir, por isso o tempo passa tão depressa quando já lá vão tantos dias, cada um a retalhar mais ainda a percentagem. Já me explicaram, e eu ainda não entendi: a água que corre nos rios da minha mente não é cristalina — quem dera que fosse —  como a que corre agora para o copo. O Chico tem que interromper a conversa sobre o tempo, eis que chega a Alda, a segunda freguesa do dia, madrugadora também — foi do calor, diz Alda, como que a justificar o que não é preciso. E Alda bebe também água antes do café, o Chico vai ter que mudar o nome do estabelecimento, o modelo de negócio, como se diz, já está em transformação. A competência nuclear do Chico deixou de ser tirar cafés, passou a ser servir águas. Águas cristalinas, como os olhos de Alda, a segunda freguesa da manhã, já o disse, ainda antes de falar dos olhos. Hoje não leio, limito-me a olhar, fito os olhos de Alda, que com eles baixos, fita os jornais que estavam todos livres. De vez em quando, Alda levanta os olhos e o que leio neles, não está nos jornais. Cada qual em sua mesa, e eu sei que não se brinda com água, mas que fazer, se esta não é ainda hora de vinho, levantamos os copos, que se cruzam no ar. Não é um brinde, é um cruzamento de vida, por via de água cristalina. Cruzam-se águas, como as linhas que o grande arquiteto cruza na vida das gentes. O Chico, esse senador omnisciente, sorri atrás do balcão, enquanto vê os olhares a cintilar pelos ares do café. O Chico hoje não fará mais negócio comigo — nada mais levo. Não levo rissóis, nem pastéis de nata: o tempo, este tempo assim, não pede, não puxa. Só pede água fresca e olhares cristalinos. Digo bom dia, saio para o calor. Levo água para me saciar uma hora e olhares para me saciar o dia. Em termos de percentagens, parece-me o melhor dos compromissos.