19.6.15

Famosas últimas palavras

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora retirado algures no Restelo, nos braços da dulcíssima Orchidee. 

«Meu muito estimado amigo, 

Chegam-me notícias de que voltou a editar esse seu hebdomadário lá nas internetes, e que reabriu também a secção de cartas ao diretor (melhor dito, no seu caso, será mais cartas ao dirigível, dada a volubilidade de que o meu amigo dá mostra na condução dessa coisa que mais parece um zeppelin escrito). As mesmas fontes que me informaram (e que, aqui ao lado, lhe atiram beijos de ar), indicam-me que deixou de falar de pássaros. Se o canoro, como me dizem que chama ao bicharoco, voltar a piar, o Reboredo, que ainda por cá anda a acarretar uns blocos de granito para a nova fonte, está à disposição para tratar do assunto.

Relatam ainda as ditas fontes, que o meu estimado anda envolvido em animadas tertúlias sobre temas económico-sociológicos, que quer marcar posição, sair da sua proverbial «zona de conforto», como sói dizer-se por estes tempos. 

Um homem avisado, que se mete em tais batalhas retóricas, tem que ter sempre as suas derradeiras palavras prontas, na ponta da língua. Nunca se sabe quando serão necessárias. Sabe o meu amigo que, quando o Sidónio levou um tiro no meio do peito, a propaganda da época fez correr o boato de que as suas últimas palavras teriam sido: «Morro bem. Salvem a pátria.» A verdade, que me chegou pelo testemunho do avô Eustáquio de Andrada, que assistiu a tudo, é mais prosaica: o que o Presidente disse, verdadeiramente, foi: «Não me apertem tanto, rapazes!» (1)

Orchidée, aqui ao lado, de lágrima brilhante ao canto do olho, suplica-me para parar de apertar consigo. Assim sendo, apareça é por cá ao jantar, que as perdizes que o prestável Reboredo andou a apertar para entrarem na receita do Convento de Alcântara prometem ser históricas, dignas da Duquesa de Abrantes. 

 Deste que muito o estima e considera, 
 J. E. de Andrada»

(1) O avô Eustáquio de Andrada sabia do que falava.