3.6.15

Do Restelo a Zurique num remate à barra

Recebo de J. Eustáquio de Andrada, em mão própria, uma missiva escrita a tinta azul cobalto, no traço elegante da S. T. Dupont Olympio do professor do Magdalen College. No papel noto, discreta, uma fragrância, que bem conheço. 

 «Meu muito estimado amigo, 

Espero que a presente, que lhe será entregue por diligente mensageiro, o encontre de boa saúde e em pleno uso das suas faculdades mentais, porque sobremaneira precisará delas para o que se segue. Não desconhecerá o caríssimo, por certo, que com a retirada de Sepp (1), fica aberto uma vaga que se adequa como um sapato Ferragamo ao pé deste seu servo. O que me move é, como imaginará, um intuito de puro e seguro patriotismo, o de levar o nome pátrio aos cumes do football mundial. Espírito de missão, sacerdócio até, portanto. 

Orchidée, esta maré que continuamente me inunda de felicidade, já intercedeu junto de son papa a quem o Michel (2) deve, digamos, alguns favores. Ao que a minha diva me comunica, está bem encaminhado o apoio das terras francas à minha candidatura. Eu estive a falar com o Ali (3), que, como decerto não ignorará também, conheci quando ele era estudante na Velha Albion, e que tutorei, aliás, por pedido encarecido do pai. O Médio Oriente também já se entusiasma com o nosso avanço. Aquele outro rapaz português, o de cabelo empastado com gorduras animais (4), não me parece estar, ainda, na linha de partida: eis-me assim, como perceberá, a preparar a mudança para Zurique — a vitória é inevitável, como a morte e os impostos.

Orchidée lembrou, acertadamente como sempre, que o meu amigo, com essa sua mania de querer morrer saudável, anda magro que nem um coiote em ano de seca, se passeia de medonho carão, e acha, a minha musa, que talvez fizesse bem ao pauvre J. uma dieta daqueles fondues de queijo que se comem num restaurante que o pai Andrada frequentava, nas suas viagens frequentes àquela abençoada terra, onde o leite e o mel brotam copiosamente de doiradas torneiras.

Bem sei que o meu amigo acha que football é um jogo em que a bola é oblonga e não consegue distinguir um porteiro de um árbitro. Mas decerto, na sua vasta biblioteca, encontrará algum tomo que lhe explicará que o football é um jogo simples, onde vinte e dois adultos correm atrás de uma bola e, no final, ganham os alemães (5). 

Arranjar-lhe-emos um pelouro qualquer que combine com o seu perfil contemplativo: guardião das Laws of the Game, talvez. Poderá ficar calmamente lá nas suas bibliotecas, a olhar para o lago, e a assegurar que ninguém altera uma vírgula nas leis. Acho que era um trabalho bom para si, que me diz?

Avisa-me Orchidée que o portador da missiva aguarda à porta e tenho-a, de mão estendida, aqui à minha frente, como pobre de pedir, quase a arrancar-me a carta. Prepare pois o seu bordão de peregrino, meu estimado. Primeiro tomamos Zurique, depois, tomamos Berlim (6).

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada.»

(1) Blatter, evidentemente.
(2) Michel Platini, presidente da UEFA, candidato a califa no lugar do califa.
(3) Príncipe Ali bin Hussein, vice-presidente da FIFA para a Ásia, já de si, califa, ou perto disso.
(4) Refere-se o ilustre Andrada, depreciativamente ao que é, certamente, brilhantina da mais fina qualidade.
(5) O grande professor foi, obviamente, influenciado, pelo grande Gary Lineker.
(6) J. Eustáquio e Angela Dorothea têm uma longa história de combinar como água e azeite.