9.6.15

Caderno Diário

Quando, daqui a pouco, escolher a mesa debaixo da laranjeira para tomar o café, sei que no líquido preto da chávena se refletirá a laranja, por cima. Todos os dias vejo a laranja, junto com as outras que também lá estão, companheiras de horas matinais e de outras em que lá vou, e de outros que lá vão como eu. E a laranja está ali, tão à distância da mão, que a fotografia sai tão clara como se estivesse fresca no ecrã. Aquela é uma laranja tranquila: vê os cafés de cima, observa os almoços, ouve as conversas, quase sempre em vozes baixas. Talvez seja da laranjeira, sim, mas há uma certa reverência, em quem ali conversa, como se cada palavra fosse tão importante como aquela laranja, que a cada dia amanhece, intocada, intocável. Como habitualmente, pousarei o café, sentar-me-ei e fotografarei a laranja. O café pode esperar, pode sempre esperar. Um dia, talvez conte a história da laranja, fotografada, documentada. Mas por agora, acho que ela é que seria capaz de contar a minha, pela forma como pego na chávena, como a deixo permanecer longamente no ar, olhar distante, sorriso perdido de ternura, de nostalgia. Perspicaz, a laranja.