1.6.15

Caderno Diário

O pássaro anda a tomar anfetaminas, substâncias proibidas, cafeínadas, ou suplementos proteicos, parece-me a única justificação possível. Canta, mas por deus, canta, como se de cantar dependesse o mundo, não, o universo. Canta de noite e de dia, canta nas jornas da semana e nas sornas do fim d'ela. Para ele não há horas de descanso, há apenas horas de canto. Deve ter-me lido, aqui, uma referência encomiástica à sétima de Beethoven. Pois quer-me parecer que quer provar que ele, também ele, pode ser não apenas compositor, mas também maestro, orquestra completa, audiência efusiva. Canta e aplaude-se, e bisa para agradecer o aplauso, e leva nisto todo o dia. O pássaro tornou-se num Beethoven a compor a sétima, para vencer Napoleão, vindicar Viena, qualquer que seja o pequeno corso que lhe motiva as efusões canoras. Eu, depois de dias sem dormir nada de jeito, já encontrei o meu waterloo. Vou dependurar uma bandeira branca no beiral: rendo-me, mas rendo-me tanto, com tamanhas ganas. Ah, dormir, sonhar talvez! Mas sobretudo, dormir sim, que coisa maravilhosa, deve ser bom, isso de dormir. Que saudades.