30.10.14

Relatório e contas

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

[Poderia duplicar as palavras de Vinicius, com uma excepção: hoje não fui triste.]

12.10.14

O café do pão de Deus

É por causa da missa que não há lugar para estacionar. 

Ao lado do passeio já não consigo, o parque, pequeno, cheio, com tanto terreno livre e os paisagistas da câmara tiveram que liliputizar, apenas encontro no largo, invento um rectângulo no chão, fico a rezar para que nenhum autocarro precise passar pelo espaço estreito. Os fiéis anteciparam-se, devia ter vindo antes deles, ou então percorrido o caminho a pé, afinal não chega a um quilómetro, mas a chuva, a chuva lava as virtudes, intensifica as fraquezas, e uma das minhas é a preguiça domingueira. 

Diria Kierkegaard sobre os estágios da vida do homem, que há os que se levantam de manhã para servir a Deus, e muitos dos que vão à missa vivem essa vida religiosa; há os que se levantam para bem dos outros, como o Chico, que me ocorre dizer, vive uma vida de serviço, ética; e há os de vida básica, como eu, que apreciam um café não muito cheio, se faz favor, e um pastel de nata que pode vir sem canela nem açúcar em pó, que ao domingo se preocupam apenas com o nível zero da sobrevivência, algum prazer, vá, desligam o cérebro, ligam o sistema autónomo de navegação, coisa futurista saída da cabeça de algum Elon Musk que em vez de carros, produzisse humanos.

É quase hora de almoço, o êxodo começou, mas encontro o Correio da Manhã numa mesa, a revista de domingo noutra, e o Paulo e o Alberto, ao balcão, cada com sua mini. Olho para os pães de Deus do Chico, ao lado das minis e valha-nos Deus, precisamente, que aspecto divino, só que não posso comê-los antes de almoço, tiram-me o apetite para o cozido, e antes de atacá-lo há que estar com o estômago dominical em estado de pureza absoluta. 

O Paulo e o Alberto, com a quarta mini cada um terminada, a caminho da quinta, não têm cozido à espera, ou se calhar têm, mas estão na idade em que minis e cozidos não são mutuamente exclusivos. E eis que entre minis se sente o perfume no ar, ainda longe se percebe, o perfume viaja mais depressa que a luz. A Vitória, namorada de Paulo, desliza, felina, até ele, enlaça-o, beijo de tentação. Alberto bebe um gole. Por puro fascínio continuo a olhar, Vitória depõe um beijo na face de Alberto, ele já sem mini, a boca dela tão perto, tão perto da dele, quase tangente, quase secante. Paulo sacia a seca com outro gole.

O Chico, dança atrás do balcão, discípulo da ética de Kierkegaard, para elevação dos outros, eu, hedonista, já bebi o café, penso no cozido, vou levar uns pastéis de nata para depois. Necessidades primárias, vida básica. Vitória leva uma caixa de pães de Deus, numa mão, Paulo na outra. Alberto segue-os de perto. O Chico chama-me, com eles já longe, e diz-me, casualmente: partilham o pão de Deus.

Não me detenho a pensar no que Søren diria, qual o estágio a que corresponde tal partilha. Suspeito, mas é apenas uma hipótese, que mesmo sendo pão de Deus, não será o religioso. A mulher do Chico vem entregar-me os pastéis, ela sabe que são para depois do cozido, dá-me dois beijos, diz-me: vai em paz e que o Senhor te acompanhe. Eu imito a dança do Chico e vou, sim, vou em paz. 

5.10.14

De Alcochete a Peramanca, uma viagem pela teologia etílica

I.

Borrachas, borrachões assinalados,
Que de Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca d'antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permite a gente branca,
Em Évora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II.

Também as bebedices mui famosas
D'aqueles que andaram esgotando
O império de Baco, e as saborosas
Águas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valorosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.

(...)


Deste modo glosavam quatro estudantes de Évora, por volta de 1589 o primeiro canto de Os Lusíadas e o editor da obra, Francisco Soares Toscano, descreve assim a sua génese, numa história que verte luz às catadupas sobre a vida e os tempos dos teólogos aprendizes por esses tempos.

Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no ano de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel do Vale, deputado da Santa Inquisição, que compôs o livro dos Salmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartolomeu Varela, natural de Viana, junto a Évora, o qual faleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este ano às Cortes, que El-rei D. Filipe II fez em Lisboa, por Procurador desta cidade de Évora. Foi Bartolomeu Varela clérigo e grandíssimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes de Vasconcelos, criado do Arcebispo D. Teotónio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o ultimo da oitava 17; porque estando eles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:
Desterrando a água-pé d'esta cidade.

O quarto e principal autor foi o Licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este ano de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor desta obra, e a fez quase toda, ou o melhor dela.

Quando a fizeram eram então todos teólogos; e às tardes, acabado o estudo, saiam pela porta de Machede, e assentados num ferragial, iam traduzindo para a bebedice as tais oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Évora, como Camões a de Portugal para a India Oriental; e compuseram a tal obra dentro em dois meses, no cabo dos quais saíram com ela: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma aplicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fora dos muros, e comunicarem seus papéis, sem darem conta disso a ninguém.

Finalmente, saída a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutíssimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel do Vale traz uma carta no seu livro) e falando-se nela, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca saíra nem ele vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vai, a trasladei do próprio original e letra de Bartolomeu Varela, que está em poder do Chantre da Sé desta cidade, Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varela, e lhe fiz algumas cotas para inteligência da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.

1.10.14

Dia mundial da elegância, também dito da música


Jean-Baptiste Lully, Passacaille d' Armide