28.9.14

O café das luzes reflectidas

Chego ao café do Chico a tempo de estrear o Correio da Manhã, ainda as mesas vão vazias, os pastéis de nata cheiram a viagens, a massa a estalar para acomodar o creme encantado pelos anjos, as pinceladas de negro a mergulhar no dourado luminoso.  O Chico dança aquele tango dele, o tango dos abraços, as mãos batem-me fortes nas costas feitas timbale, a mulher junta-se, enquanto não há freguesia para atender, rodeiam-me, beijos e abraços, e abraços de novo, é bom voltar a casa.

Saudades tinha eu do café, viagens e ausências, outros cafés noutras terras, nada que se compare ao do Chico, Campo Maior torra especialmente para ele, vêm os lotes em furgonetas expresso, não encontrei pastéis  iguais em lado nenhum, nem numa pastelaria do Estoril onde me diziam que eram magníficos, são nada. A mulher do Chico tem a receita e tem a mão, deve ser daquele pequeno diamante que o Chico lhe deu quando a arrancou dos braços do Jesuíno, já estava tudo apalavrado e eis que chega o Chico, homem dos tangos, Gardel dos cafés, e a arrebata numa dança eterna, todos os dias, até hoje dançam, atrás do balcão, em passos evolados. 

Agora, já não sou cliente único, Lucinda chegou, e é esmeralda, digo eu à mulher do Chico. Ela diz-me que eu sou é daltónico, não é nada esmeralda, é turmalina. E enquanto pondero se serei tão ignaro em matérias de alfaiataria geológica que não consiga dizer a cor exacta de uma camisa, tingida a pedras preciosas, noto os reflexos da luz matinal nos brincos longos de Lucinda, que atrai a luz, deve vir daí o nome. Nem a Irina na capa do Correio me faz desviar os olhos da cintilação na face de Lucinda, que nome perfeito, ela acena de longe, e a atenção volta ao livro, que chegam mais fregueses, e ela gosta de poupar os olhares, de se poupar a eles. 

Sentou-se o Joaquim na minha mesa, Joaquim, o obcecado, o apaixonado, Joaquim a quem só falta usar o monóculo de Ega, já que também me trata por menino, mesmo sendo mais novo. Por cima do ombro do vituperante Joaquim sigo o olhar de Lucinda, o brilho do reflexo da luz, e seguindo o raio de luz, vejo que sai pela porta e chega o Alberto que vem lá ao longe ainda, a Lucinda e o Alberto juntos pela mesma luz, há lá forma melhor de união, partilhar a luz. Sai Lucinda, perseguindo a luz, quase a correr, noto-a a conter-se no passo, e Alberto dá passos como o Chico dança, até que juntam os reflexos num só, e se abraçam a metros do café, o Chico e a mulher a ver também, enleados, enlevados. 

Está na minha hora, despeço-me de Joaquim, da Dona Fernanda e do Senhor Amadeu, do Doutor Felismino que desta vez não diluiu a verve do Joaquim, despeço-me do Chico, da mulher que me entrega os rissóis para o almoço, ainda estão quentes, vou agasalhá-los quando chegar a casa, quero manter este calor, quero mantê-los assim, aos rissóis. E noto que Lucinda e Alberto se mantêm assim, abraçados, envoltos em reflexos de luz. E eu sei que não se jura que é feio, já me dizia Frei João, não jures que é feio, e eu não juro, mas estava quase capaz, que vi com estes olhos, nem ele nem ela tocam o chão. Envoltos no abraço, pairam, e vão girando lentamente, com aquela tranquilidade infinda que apenas se encontra nos ungidos pela luz.

20.9.14

Vénus de ambrósia

Recebo de José Eustáquio de Andrada, anteriormente professor de Literatura Portuguesa em Oxford e actualmente tutor a título perpétuo de Orchidée, uma mensagem manuscrita em papel com o timbre do Mercer Hotel, em Barcelona.

"Meu estimado amigo,

Não sei se saberá, ou se o assunto lhe desperta sequer vago interesse, que o meu saudoso colega Isaías(1) leu pela primeira vez o Dr. Jivago durante a lua de mel, quando aproveitou também para visitar o Bóris(2). Suponho que terá sido uma época tão inesquecível para o magnífico orador que o que passou à posteridade foi a notícia das suas leituras, não a dos seus amplexos.

Não somos todos, é bem certo, os que decidimos contrair matrimónio aos 47 anos, e menos ainda os que optamos por ir passar esses tempos de aconchego a um local tão desaconchegado como Moscovo. Talvez fosse esta a secreta razão que levou a rainha a fazê-lo cavaleiro do império britânico, Sir Isaías, não tanto por ele mas mais para dar algum motivo de alegria à noiva, a pobre Aline, que de pobre, verdade seja dita, nada tinha, herdeira que era de alguns poços de petróleo e de um ou outro banco.

Estou em Barcelona, onde vim porque Artur(3) me ligou de lágrimas nos olhos e voz embargada, para consultas por causa do aborrecimento do referendo. A minha Orchidée, esta estrela que me aponta o caminho para a eternidade, tem-se desvelado a cuidar de mim, a ponto tal que, não sendo eu homem já em idade para uma lua de mel, tenho chamado a esta viagem a minha vénus de ambrósia. Não me alongarei em mais pormenores, como poderá decerto entender. O pundonor assim o obriga.

Conta-me Orchidée que já reabriu a secção de cartas ao director no seu hebdomadário, o que lhe despertou um profundo sentimento de gratidão para comigo, seu tutor de literaturas e filosofias, pelos conselhos que em boa hora lhe fiz chegar. Fala-me ela, no entanto, em voz comiserada,  do tom melancólico das suas prosas, das irrelevância dos temas, de quanto lhes falta colorido, animação nas palavras da minha esmeralda, de quão sorumbático lhe parece o meu amigo. Banhos de água fria, meu caro, banhos de água fria. Não há nada que não se resolva com sobreabundante água fria, logo pela manhã, antes de atacar o seu porridge. Vá por mim, vá por mim.

Isso e a nossa perdiz de escabeche, que aguardará por nós na próxima semana, não está decerto esquecido o meu amigo. Posso pedir aqui a Orchidée, este rio onde os meus olhos ganham luz, para lhe enviar uma destas mensagens de poucas palavras, como o meu amigo, das do telefone móvel, para lhe fazer lembrar a data. Sei que ela muito o aprecia e não permitiria que essa sua cabeça de Suão o deixasse ficar mal.

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O ilustre Andrada refere-se a Isaiah Berlin, filósofo, historiador das ideias e professor de Orford.
(2) Bóris Pasternak.
(3) Artur Mas i Gavarró, presidente do Governo Regional da Catalunha.

17.9.14

Cartas ao director

J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, envia-me, em papel do Reid’s Palace, uma missiva a tinta sépia, saída do aparo generoso da S. T. Dupont Olympio, caneta que só troca pelo amplexo caloroso da sua Orchidée. 

"Meu muito estimado amigo,

Orchidée encontra-se inconsolável e pediu-me para interceder por ela, por esta via. Diz-me a pérola que ilumina os dias do meu ocaso, ter tido o meu angustiado amigo, nesse hebdomadário que publica na Internet, uma secção de cartas ao director, a que ela chama misteriosamente comentários, e que por algum capricho incompreensível, como são sem excepção os seus, terá decidido encerrá-la sem dar explicações aos três leitores que ainda têm a generosidade, direi mesmo a complacência, de o ler.

Pois, se até Agustina, meu caro, até Agustina, enquanto directora d’O Primeiro de Janeiro manteve tal secção, porque carga d’água, terá optado por calar, sim calar, a voz dos leitores, evitar o contraditório, cercear opiniões mais ajuizadas até que, dizem-me, as das suas croniquetas? Que diriam Camilo, Oliveira (1), Antero, Eça, todos escribas d’O Primeiro de Janeiro, antes de Maria Agustina como terá percebido, todos polemistas de verve aberta e verbo rápido, e todos apreciadores,  decerto, da leitura de uma boa carta ao director, nunca lhes minguando a pena ou o bordão para a volta do correio?

Diz Orchidée, este anjo que transforma os meus dias em noites e as noites em dias, andar ela a esboçar há vários dias, nai, semanas, uma missiva para enviar  à sua gazeta, e eis senão quando o meu queridíssimo amigo, como ela diria e cito (sic) se corta como gente grande, e obriga a missiva a ficar na gaveta, e à minha orquídea, inconsolável nos meus braços.

Ora faça-me então o obséquio de reservar, nesse objecto electrónico onde aparentemente arquiva a agenda, um espaço generoso para repastarmos no Pabe, na próxima semana, quando estarei de regresso a Olissipo. Quem sabe se almoçar finalmente como manda a lei, não lhe trará a luz que se lhe escurece com tanta leitura nocturna de Schopenhauer, Kierkegaard e Cioran. E até, com o auxílio daquele Hennessy da minha garrafa guardada, retomar isso das cartas ao director. 

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Oliveira Martins, e não Manuel de Oliveira, como se poderia pensar, dado o contexto.