25.6.14

Por vezes apetece abrir uma música como um vinho há muito nas caves, à espera do dia exacto


Jean-Baptiste Lully, Chaconne des Scaramouches, Trivelins et Arlequins

24.6.14

Galos literários e outras aves madrugadoras

Quando aparecem pessoas a dizer "Leio só bons livros", aflige-me que não se reaja como se reagiria a um nutricionista que recomendasse ao povo comer apenas bifes de lombo e cherne fresco. Já no livro mais ilegível de todos os tempos -- Finnegans Wake -- Joyce falava, sem essas pretensões autoritárias, de "esse leitor ideal sofrendo de uma insónia ideal".
Num país onde se liga tanto ao "comer bem" e ao "beber bem", porque é que os amigos e familiares não começam a preocupar-se com quem não lê? Porque é que não se há-de dizer "Ela não anda bem, sabes? Ultimamente, tem estado a ler muito mal...". 

Miguel Esteves Cardoso, Ler, A causa das coisas

Hoje, um galo instalou-se-me na cabeça quando, ao afundar-me no sofá, num café que não frequento habitualmente, logo o Chico não teve culpa, uma estante terá sentido um impulso irresistível de me agitar os neurónios, até então no estado contemplativo matinal. Depois de ter visto não apenas estrelas, mas a Via Láctea por inteiro, concluí que o Universo (a que alguns chamam a Biblioteca) escreve direito por linhas tortas: tenho andado a ler mal, confesso a minha gula, demasiados livros em aberto, debicando volumosos tomos com belas lombadas, letras douradas, saídas da melhores editoras americanas, tasquinhando outros electrónicos, gentilmente cedidos pelo meu bom amigo Bezos, a troco de modesto estipêndio, nesta inconstância até "A Morte sem Mestre" é degustado a um poema por dia, perco-me em tapas literárias, não usufruo de cherne fresco por inteiro, muito menos de bife de lombo. Justiça literária, portanto, a perpetrada pela estante.
Espero que o galo não cante durante a noite, com o fito de me dar a tal insónia ideal: já bastam os pássaros que se aninharam na varanda, certamente me sabem melómano e decidem pagar a renda com a  sua irrepressível veia lírica. A partir das seis da manhã. 

22.6.14

O café das viagens

Ainda nem o Correio da Manhã tinha chegado ao café, já a chávena à minha frente concentrava o reflexo da janela, julgo que é também por isso que o bebemos, pensando bem, é a única bebida que contém a luz toda: negra.  Não tinha chegado o Correio, o da manhã, mas esta trouxera consigo o Alexandre, gestos urgentes, de quem tarda uma viagem, o carro parado frente à farmácia, o que vale é que é domingo. Conto ao Chico do Janus, colega dele com estabelecimento aberto ao público no outro lado do mundo, onde as gaivotas são grandes, diria como galinhas poedeiras, com vista para Darling Harbour, é a única coisa que falta ao café do Chico, tem os melhores pastéis de nata dos hemisférios norte até ao sul, mas não tem vista para um porto, menos ainda para um onde o sol se doira antes de despertar. O Chico dança atrás do balcão, avia o farnel do Alexandre, caixas de empadas, pastéis ainda quentes, rissóis a saltar de vivos, que isto é uma forma de expressão. 
Dizia eu que em Darling Harbour há gaivotas e na esplanada do Chico não, embora às vezes, raramente, uma ave perdida, vinda do rio longínquo por ali acoste ao entardecer. Mas o entardecer ainda vem distante, e eu vejo uma gaivota branca, não bem uma gaivota, mas antes a Sofia, a chegar ao carro do Alexandre, está ele ainda aqui a abraçar os embrulhos meticulosos do Chico, enquanto ela, alvamente vestida, olhos finos com lâminas, fatia todos os cantos da vizinhança antes de entrar. Alexandre, como Sofia, lamina o ar à porta do café, preparando o avanço para o carro, clandestino. Sem o Correio, tenho todo o tempo para completar a viagem de Alexandre e Sofia, traço no tampo, com o dedo, lavrando em açúcar os caminhos das casas de ambos até este ponto, no presente, e do café para a liberdade, no carro repleno das iguarias gizadas pela mulher do Chico. O Chico, que é fino como uma taça de cristal, terça olhares comigo, mas não precisamos trocar palavras. 
Por falar em taças, esta tarde ainda volto ao café: vejo no balcão uma máquina nova de cerveja, Chimay, que me eleva o espírito, sinto já o sabor da viagem até ao mosteiro trapista. Não havia Chimay no Janus, apenas Reschs, que é de New South Wales e não da Bélgica. Nem o outro lado do mundo é perfeito: podem ter um porto rutilante de ouro polido ao amanhecer, mas não têm Chimay, nem os pastéis de nata do Chico, os que há são imitações. Alexandre e Sofia, bem levam os genuínos na viagem: não sei se chegarão a encontrar gaivotas pantagruélicas, mas encontrar-se-ão, ou assim esperam, um ao outro. E eu, ao entardecer, tenho encontro a sós com a Chimay. Stravinsky dizia do último quarteto de cordas de Beethoven que, na sua simplicidade, era prosaico. Se tem que ser assim, que o seja: apenas uma taça plena de cobre liquefeito, um pôr-do-sol, retratos do passado, quadros do futuro. Prosaico, mas meu, este quarteto.

20.6.14

Contrariedades, só contrariedades

Orchidée envia-me, da Croisette, pelo Snapchat, enquanto J. E. Andrada proseia com Bernard Pivot (1), umas palavras escritas pela tinta safira do professor, onde reconheço a adjectivação de Fialho:

-- Aquele tipo de santo austero, numa alma de sonhador, sempre calado.

Diz-me ela serem notas do ilustre belenense, sobre a minha pessoa, para as memórias com que já fez contrato com a W. W. Norton & Company (2), tendo auferido copioso adiantamento.

Calado, eu? Mas calado? Eu?

(1) Presidente da Académie Goncourt.
(2) Uma das mais reputadas editoras independentes americanas. José Eustáquio não ia fazer por menos.

19.6.14

Arte poética

Naufragada a minha inspiração prosadora nas ondas mercuriais de Bondi Beach, aconselha-me J. E. Andrada, professor retirado de Magdalen College, a partir do seio acolhedor da sua Orchidée, ao largo de Valletta, que colhendo a minha Coquelicot, me dedique à poesia e com ela alcance quiçá a fortuna, seguindo o receituário camiliano, de que ele se protesta, mais do que seguidor, devoto:
"O meu amor àquela mulher tem quatro estações em cada ano, e cada estação tem três meses. Amo-a em Janeiro, Fevereiro e Março. Cada semana, escrevo-lhe uma poesia palpitante de ternura. No fim de três meses são doze poesias. Depois, Abril, Maio e Junho, são para o ciúme: escrevo doze poesias enfurecidas, tétricas, e incisivas como o rugido do chacal ao qual roubaram a fêmea. Julho, Agosto e Setembro, escrevo doze poesias de cepticismo, estilo híbrido, despedaçador, lancinante, cáustico, enfim, um quírie de insultos contra as mulheres. Em Outubro, Novembro e Dezembro, escrevo doze poesias de desalento, estilo lamuriante, pieguice brava, um memento de fazer chorar as mulheres dos nossos alfaiates, um adeus de Chatterton à vida, uma maldição de Gilbert à sociedade, uma coisa horrível que eu escrevo sempre depois de jantar, com o pesadelo de uma digestão laboriosíssima. No fim do ano de quarenta e oito semanas, tenho quarenta e oito poesias, que vendo a um editor por cinquenta moedas, o mínimo."

18.6.14

As flores de Mrs Dalloway

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa em Oxford, acolhe-se em Mdina (1) à sombra de Orchidée, a diva que lhe alegra os dias recentes e envia-me, para o outro lado do mundo, uma mensagem de correio electrónico escrita a tinta safira, saída do aparo vítreo da invicta S. T. Dupont Olympio.

"Meu prezado correspondente,

Orchidée esteve a ler aquele hebdomadário que publica na Internet e ao ver lá a foto do porto de Sidney veio saltitante como um dos descendentes do Skippy (2), que encontrará decerto aí nos fundilhos do mundo. 
"Diga-lhe que não se esqueça de ir a casa da Nicole, a Milsons Point (3)" solicita-me a minha Butterfly que lhe transmita. 
Sabe como é a Orchidée, ficou amicíssima da Kidman, desde aquela coisa lá da rodagem das Horas, do Cunningham. Afirma-se mesmo "BFF", numa terminologia que o nosso estimado Malaca não aprovaria decerto para o seu magnum opus.
Admitia eu que nesta idade os meus sentimentos seriam mais superficiais do que já foram, como diria o chorado Bernard Anthony (4), mas esta Orchidée, sacia de ambrósia cada hora do meu ocaso. 
O que o meu amigo precisa, para aliviar essa sua tez de Rasputine escanhoado seria, não diria uma Orchidée, que esta é exemplar irreproduzível, mas ao menos uma Coquelicot. Tal como Mrs Dalloway, está na altura de ir colher as suas flores (5).

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Antiga capital de Malta, conhecida pelos seus monumentos bem preservados e pelo calor esmagador que por lá se faz sentir
(2) Um canguru, estrela de uma série de televisão australiana, que o professor terá visto nos seus tempos de universitário
(3) Local onde o escriba destas linhas não desdenharia fazer parte da vizinhança do casal K&K
(4) Antigo agente do MI5, estabelecido há muitos anos na Várzea de Sintra, onde se tornou conhecido como escritor obscuro
(5) O professor deturpa a frase de abertura mais famosa da história, mas sabe que o faz

12.6.14

Sobre o uso do rapé

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, residindo esta semana nos braços de Orchidée, em Positano, na Costa Amailfina, envia-me uma mensagem escrita a tinta safira, saída do aparo profícuo da sua S. T. Dupont Olympio. 

"Meu prezado amigo,

Recorda-se por certo que Calisto Elói (1) trocou o rapé, costume indicativo do homem pensador e estudioso, pelos charutos, pelo motivo de que alguns escritores modernos atribuíam ao amoníaco, parte componente do rapé, o desaparecimento das capacidades retentivas pela acção deletéria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encefálica.

Com a profusão de lojas revivalistas a vender os produtos d'antes, era inevitável que lado a lado com o Musgo Real (que sumptuoso creme de barbear, não concorda o meu amigo?) ressurgisse o rapé. Suspeito, meu caro, que nos corredores de São Bento, o cheiro a alcali é intenso, dada a acção deletéria que se vai tornando notória na massa encefálica de alguns leais parlamentares da Pátria. 

Orchidée, esta Bartolli que preenche as minhas horas, solarengas e luarengas (sabe que partilho com Teolinda (2) a preferência pelo Guimarães(3), por isso perdõe-me certas inovações de linguagem), bem me gaba a minha excelente dentição, para a idade. Devo-o a também aos conselhos de Elói, esse filósofo olvidado, que afirmava que a fumarada do charuto, além de ser purificante e antipútrida, dá aos alvéolos solidez e consistência aos dentes.

Não se tente também o meu amigo, que se considera homem estudioso e pensador, pelo rapé. Uma visita à Casa Havaneza, e uma viagem à Lombardia, farão decerto maravilhas por esse ar macilento que lhe notei durante o almoço no Pabe.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O professor de Magdalen refere-se "A queda de um anjo" de Camilo

(2) Teolinda Gersão, que Andrada trata com esta familiaridade excessiva

(3) João Guimarães Rosa, que José Eustáquio terá encontrado ainda durante uma passagem pelo Brasil, na adolescência

11.6.14

Postal de Positano

Recebo um postal de José Eustáquio de Andrada, na sua bela caligrafia cuidada nos clubes de escrita artística de Oxford. O professor de Magdalen, que insiste em não se separar da S. T. Dupont Olympio até para escrever correio electrónico, fotografou as elegantes letras a azul safira e enviou do telefone o seu bilhete de férias. Diz-me ele:

"Meu caro, 

Estou tentado a dar razão ao estimável P. G. (1) que dizia: "Tudo o que na vida dá prazer, como alguém sabiamente observou, é imoral, ilegal ou engorda." 
Tirando ter evitado meticulosamente dar qualquer motivo aos Carabinieri para me visitarem nos modestos aposentos que me cabem, e à Orchidée, neste  hotel periclitantemente encavalitado na rocha (sabe que me contam que a Madonna já por cá pernoitou? o que é que isto lhe diz sobre a decadência dos meus gostos?), podia gastar aqui rolos de fotografias destas de telefone a tecer encómios às horas aprazíveis que passei desde que saímos do Restelo (ah, a Orchidée, meu caro, uma Butterfly, uma autêntica Gheorghiu (2)).

Uma vez que não vá parar ao Torel (3) e mantenha esse IMC que tanto lhe custou a atingir, veja se decide fazer qualquer coisa que lhe levante esse ar sorumbático.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O professor refere-se, claro a P. G. Woodehouse, que ele afirma ter conhecido num clube em Londres, ainda antes de se estabelecer em Oxford.
(2) O ilustre Andrada prefere notoriamente Gheorghiu a Callas no papel de Butterfly.
(3) Para o reformado de Magdalen, Torel ainda é sinónimo de prisão.

10.6.14

Descendo a Braamcamp até Positano


José Eustáquio de Andrada acaba de me falar do hotel em Positano, no Sul de Itália, para onde parte amanhã, abraçado ao seu amor primeiro, ou seja, o inaugural deste mês de Junho, enquanto descemos a Braamcamp, ele em passo miúdo, cabeça reluzente, cara tisnada de quem passa tempo em excesso a reflectir nas questões prementes da humanidade, junto à piscina.
Reformado, regressado ao Restelo, à casa que Andrada, Pai, lhe deixou em legado, sem saudades evidentes dos pátios do Magdalen College, Oxford, onde ensinou Literatura Portuguesa desde o ano em que Thatcher se tomou de razões com Galtieri (1). Anos passados na Velha Albion, causaram-lhe um lábio superior rígido (2) que neste trajecto está notoriamente ausente. À minha curiosidade sobre o ar seráfico que lhe ilumina o rosto, cita Russel para justificar a viagem:
-- Itália, a Primavera e o primeiro amor devem fazer feliz até a pessoa mais soturna.
E enquanto eu penso que já Itália me bastava, e uma estada na Toscana não era mal lembrado, que deixo a Costa Amalfina a Eustáquio, o professor de Magdalen acena para um táxi que o levará de volta aos braços da sua génese amorosa e ainda tem tempo para espicaçar:
-- E saberá o meu caro porque é que os táxis londrinos têm os tectos altos?
Deixa suspenso o meu olhar em branco pelo tempo que um pardal leva a esvoaçar entre os beirais dos dois lados da rua, e remata:
-- Pois que é para neles podermos entrar de cartola.
E eu que julgava que era para quem se desloca com preciosidades como, quicá, um Canaletto, um Calder, ou companhia para jantar em certo restaurante em Harcourt Street, alcandorada em sapatos Caroline Groves. E pela primeira vez me ocorre que visitar Cremona num autêntico cab londrino deve ser uma experiência digna de uma realidade alternativa. Tenho que me apressar, que a Primavera está quase no fim.

(1) Presidente argentino que ordenou a invasão das Falkland
(2) Stiff upper lip

7.6.14

Cartas em tom de safira

Kerstin Wagner, Tiefer, tiefer, und in der Tiefe ist das licht

Se me cruzar com Joanne, dir-lhe-ei que safira é a cor que brota das fontes interiores. Dir-lhe-ei que trouxe tinteiros de Sapphire, e eram os últimos, já se não fabricam mais, de uma certa loja perdida em Paris, não longe do Haussmann. Dir-lhe-ei que liquefiz a minha alma, misturei na tinta, preservei em azul: as letras bailam, à superfície, aguardam somente o pretexto da caneta para acariciarem o papel. Se me cruzar com Joanne, dir-lhe-ei que é no rio do aparo que sigo e mais: que é nele que, dissolvido, me reconstruí .