25.5.14

Domingo, à sombra

Édouard Vuillard, Na cama, 1891, Musée d'Orsay

Quando o sol não extrair de mim sombra, irei votar, os escuteiros aguardarão à porta, eu generoso, pois claro, um calendário faz sempre falta, talvez estejam também os senhores das sondagens, porque não, à tarde já se saberá o resultado, olha o meu amigo Joaquim, só nos vemos em dias de eleições, não é verdade, temos que combinar o tal almoço, temos, mas isso é mais tarde, quando o sol estiver acomodado no telhado e eu puder caminhar sem perturbar a luz. Agora, é o caminho da luz que me não perturba: debaixo dos lençóis, olhos cerrados, aconchego-me na sombra total, como se habitasse o quadro de Vuillard, ainda longe do dia, impaciente lá fora. Penso na sombra de Joanne, porque é que recordarei agora a sombra dela? as nossas sombras nunca transpuseram juntas a sombra d'Orsay, mas há tantas sombras que nunca se dissolveram na d'Orsay, as nossas são apenas mais duas, não é? apenas mais duas. Mas hoje era um bom dia, Joanne, um dia bom, para as sombras se perderem juntas, para perdermos as sombras, na sombra d'Orsay.

24.5.14

Um rio nocturno, interminável

(...)

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Vinicius de Moraes

(Dois tercetos do Soneto do amor como um rio)

18.5.14

O café das surpresas

-- Tenho uma surpresa para ti
anuncia-me o Chico, antes de eu conseguir açambarcar os jornais, mal refeito do dilúvio de luz matinal, ainda a ganhar o equilíbrio após o excesso de azul. Ia eu para falar ao Chico desse céu, é bom começar o dia com esperanças, e surge-me ele a fazer caixinha, o maroto, não abre o jogo, sorriso matreiro, fico suspenso da revelação, será que vou ter que esperar até chegar a mulher da fava-rica, ou que a senhora robusta cante os blues? Por falar em chegar, não chegou ainda o Doutor Marcelino, ornitólogo nas horas vagas, gosta de discorrer sobre a passarada, descrever as plumagens, os vôos, os rituais, já me convidou para ir com ele cedo, vê-las ajudar o sol a nascer, pois que ele partilha comigo a teoria de que sem aves, não haveria razão para o sol cintilar. Um dia Doutor Marcelino, um dia, pela manhã, irei, prometo, prometo.
Quem já chegou foi a Sofia, que palavreia animada com o Leonardo, enquanto o Chico volteia no café como os voadores do bom Doutor. A surpresa está guardada, o Chico dança o tango do balcão tira café, entrega café, em passos de milonga. Dançam os olhos de Leonardo uma milonga com os de Sofia, vejo-os daqui, Leonardo estende as mãos, hesita no toque, as mãos param a meros milímetros das de Sofia, dançam os olhos mas não as mãos. Conversa bem Sofia, que eu bem sei, oferece música na voz, Leonardo bebe-lhe as notas, como se fossem de uma sinfonia de néctar. 
-- Hoje tenho tarte
sussurra-me o Chico, o segredo, é rara a tarte do Chico, a mulher guarda em cofre a receita milenar que vem pelo menos da mãe dela. Escassa e preciosa, a tarte, apenas clientes selectos têm acesso, ordem de cavalaria do café. A tarte, pois então, como não me lembrei disso, delicada, como uma filigrana, dizemos todos os que já a provámos, notas de cereja, laivos de frutos exóticos.
O olhar de Leonardo está enleado nos lábios de Sofia, inclina-se até quase os provar, terão notas de cereja, também? Notas de cor, pelo menos têm, de cereja madura, carmim, brilhante como a luz que lhe baila na íris. 
Sei que quando estiver a desembrulhar a tarte, depois de almoço, recordarei os lábios de Sofia, as mãos tangenciais de ambos, os lábios na antecâmara do toque. Irrompe o Doutor Marcelino, binóculos de ornitólogo oscilando como um sino, anunciado, bradando, que sem os pássaros, não nasce o sol, e que hoje o parto fora soberbo, um sol, senhores, um sol. E eis que dos dedos de Sofia e Leonardo, assimptóticos, dizia-me a minha avó, não jures, não jures, que é feio, mas eu juro, ainda assim, juro, que nesse mesmo instante, vi um arco voltaico, a uni-los, um mínimo sol, versão liliputiana do que o Doutor Marcelino achou coberto de aves madrugadoras. 
Não levo pastéis de nata, nem rissóis, hoje. Levo a tarte, a antecipação do sabor da cereja com notas de surpresa ao fundo. E um sol, senhores, um sol.

15.5.14

Sueste

Pede-me Joanne que lhe guarde o mar enquanto se ausenta.
-- Tarefa ciclópica 
returco e cerro um olho para lhe surripiar um sorriso. Pois que antes tenho que inventariar, digo:
-- Tenho que contar as falésias, e as grutas, tenho que numerar as conchas, catalogar as pedras roladas. Olha-me suspeitosa, ela, que quer tão somente ter aquele mesmo mar, no regresso. Pergunto:
-- E o sueste, o que arrasta os fogos de Prometeu, os amores de Ofélia, os novelos de Próspero, o que farei com o sueste que desfaz o mar em lâminas de platina, que torna as areias vorazes? Como se reconstrói o mar, após o sueste, como se reboca a saudade, como se caiam os olhares alvos como asas? 
Enrosco-me como uma interrogação, sob o seu olhar complacente.
-- O sueste é um suspiro de saudade, do mar
diz-me Joanne, enquanto o poente incendeia a luz até que dela mais não resta do que a memória. Tarefa ciclópica é, mas já não o digo. Retenho o sueste no peito e começo hoje a enumerar ondas. No regresso de Joanne, nem uma estará ausente: guardador é o que conserva o molde do mar. 

8.5.14

A matéria de que é feita a alma


Joanne observa meticulosamente o rio pelo copo, decifrando a cidade pelos reflexos, penso como é magnífico o vinho de fim de tarde, e profere, casualmente, como se descrevesse taninos e notas frutadas:
-- Todos os encontros comportam em si a dor da separação.
Mais não é preciso que a ausência para lacerar a matéria de que é feita a alma, confirmo. Aponto-lhe as margens, que são terras, antes juntas, separadas por intromissão do rio. 
-- Deve-se travar o rio de chegar à foz? pergunta-me.
E a questão inclui a resposta, ambos o sabemos: o rio é engenhoso, achará sempre o caminho, não deixará de encontrar o mar, inútil desígnio interrompê-lo. Joanne levanta mais, apenas um pouco mais o copo, o canto dos vidros a brindar ecoa nas margens.  Sem separação não existia eco, que é uma forma de ponte. Sem a aprendizagem da dor da ausência, não teria valor o encontro, não o que lhe damos quando acontece, fortuito ou planeado. Depreende Joanne, antes de voltar aos taninos e notas frutadas:
-- O prazer do encontro é a conclusão da dor do desencontro.
Olho para os barcos a vogar, não posso discordar, sem as margens separadas, viveriam apenas na esperança de navegar, um dia.
No copo de Joanne encontro o reflexo do meu aceno de concordância.