30.3.14

O tango do café

Já manifestei ao Chico que não gosto que me espreite por cima do ombro, mas ele faz-se esquecido e quando traz o café alonga-se na leitura das minhas revistas, é capaz de ficar na conversa e a ler pelo canto do olho, tem esse dom. Manifestei, mas apenas por uma fronte mais carregada, algumas rugas na testa, sinais imperceptíveis a todos os outros que não ele, como se fosse um código secreto, daqueles dos pintores do Renascimento. A Luísa estava hoje na mesa comigo, e o Chico deteve-se flutuando alguns centímetros acima do meu ombro. Estava a Luísa com o Avelar, o marido, mas o Avelar para o Chico é como se fosse uma montra de vidro, um ente transparente. São um casal, tomam o café os dois, mas para o Chico apenas ela é a cliente. História antiga, há muitos anos o Avelar arrebatou a Luísa ao Chico e ainda hoje lhe dói a alma de cada vez que a vê, isto é, agora, neste momento. Mas disfarça bem ele, o dono de um café torna-se um actor experiente, apenas eu consigo decifrar a frieza para com o Avelar, o calor para com a Luísa. O tal código dos pintores do Renascimento. O Avelar senta-se ligeiramente afastado da mesa, os pastéis de nata foram tomando assento na cintura, ao longo dos anos. O Avelar é homem petisqueiro, dizia eu que os pastéis de nata obrigaram a fazer furos no cinto, isso e os lanches tardios, bem regados. Tem um sorriso elegante, a Luísa, elegante como ela, como o passo dançante do Chico quando se aproxima dela. O Avelar já não dança o tango com a Luísa, cogito eu, mas o Chico dançaria, pés hábeis, rodeando a cadeira aproximando-se em espiral, actor experiente e dançarino exímio. A mulher dele, ao longe vigiando a coreografia, o Chico dança apenas as notas que estão na pauta, tangos de Piazzolla, não milongas porteñas, improvisadas. Eu e a Luísa falamos das eleições francesas, do avanço da filha mais nova do tenebroso senhor, outros tangos que se dançam em Paris, o Avelar tem um telefone novo, inteligente, os dedos aprendendo a dançar no ecrã. O Chico vem folhear a minha Economist, ver o artigo da capa, comenta que o futuro está nos robôs, que os robôs um dia serão até capazes de pegar num telefone, telefonar melhor que as pessoas. Eu discordo, o futuro está sempre nas pessoas, ainda que os robôs venham a dançar o tango, como os dedos nos ecrãs dos telefones inteligentes. A Luísa confirma com a cabeça, ela acredita nas pessoas mais que nos robôs, e num instante, numa fracção de segundo capto um pestanejar dela para o Chico, um sorriso doce, o futuro está nas pessoas, sim. O Chico dança um tango de Piazzolla, a melodia escrita na pauta, a Luísa dança com o Chico uma dança invisível e impossível, o Avelar dança com o telefone, inteligente. Eu abro a mão para a mulher do Chico, atrás do balcão, cinco dedos afastados, hoje são cinco, hoje levo cinco rissóis. Apetece-me um número ímpar. Quando os pares são inexequíveis, os ímpares são a nossa redenção.