23.2.14

O eterno retorno

Dizia-me o Chico, há pouco, que o homem estava de regresso, e com invejável sorriso, nem mais. Ainda bem que disse explicitamente “o homem”, e eu ouvi perfeitamente, senão pensaria que era de certo personagem das obras de Joanne Rowling, apenas meio humano (meio-sangue, na terminologia fantástica da autora), de que se falava. 

A realidade segue de perto a literatura, o que me leva a imaginar que talvez o arquitecto supremo seja um leitor compulsivo: vejo-o a autorar-nos como Pierre Menard, criador do Quixote, em Borges, ou a reimaginar a nossa realidade à luz dos aforismos de La Serna. 

Sabemos dos livros, originadores de filmes, repostos de forma infinda nos canais de cabo, que as notícias das mortes, como a de Twain, são sempre grandemente exageradas. Lavoisier argumentava que em vez da perda havia transformação. Eu argumento que não: a nossa visão pode alterar-se, mas os invariáveis permanecem. Como Rowlings bem articulou para milhões de leitores, e depois espectadores, a essência permanece, apesar das alterações múltiplas na forma. 

Poderemos não pronunciar nomes, para não erodir as palavras, a nossa visão até poderá ser mistificada, mas o cerne é estático. Não há retorno, porque nunca chegou a haver partida: fácil é regressar quando nunca saímos do mesmo sítio.