27.11.13

As Criaturas de Prometeu


Jean-Simon Berthélemy, Jean-Baptiste Mauzaisse, Prometeu cria o homem na presença de Atena, 1826

Perguntas, e bem, meu caro Chico, o que é que eu opino sobre o dia de hoje, sobre o que foi aprovado, sobre o que foi reprovado. Sobre se acho que nem tudo o que nos é colocado no prato é edível. E ao perguntares, lembro-me de Prometeu de Goethe (publicado em 1789), que questionava Zeus:

Eu venerar-te? E por quê? / Suavizaste tu jamais as dores / Do oprimido? / Enxugaste jamais as lágrimas / Do angustiado?

Sim, Prometeu, o que criou os homens, o que lhes deu o fogo, dizia ainda:

Formo Homens / À minha imagem, / Uma estirpe que a mim se assemelhe: / Para sofrer, para chorar, / Para gozar e se alegrar, / E para não te respeitar, / Como eu!

Somos dessa estirpe Chico, da estirpe das Criaturas de Prometeu. Sofremos, choramos, gozamos e alegramo-nos. Quanto a Zeus, de nós não espere veneração. Não Chico, não fomos criados para nos vergarmos.



Beethoven, Abertura de As Criaturas de Prometeu, Op.43, 1801

17.11.13

Conversa no café sobre uma entrevista na rádio



Perguntas-me tu, meu caro Chico, o que pensar das declarações do João César das Neves, daquelas palavras que surgem tão fluentes e magistrais na sua entrevista à TSF e ao DN: “Subir salário mínimo é estragar a vida aos pobres.” Sabes que eu tenho esta mania do contexto das coisas e que não te respondo a direito. Vou dar uma volta além-Atlântico, cito alguns autores vivos, provavelmente outros bem mortos. Sabes, Chico, o César das Neves, é professor de Economia. Thomas Carlyle, um escritor e historiador escocês do século XIX, chamou à Economia “a ciência deprimente” (the dismal science). Esta é uma expressão que todos os economistas conhecem, Chico. Nem todos, contudo, sabem quem foi Carlyle, nem em que contexto criou tal definição. Carlyle introduziu-a, em 1849, num texto chamado “Occasional Discourse on the Negro Question”, em que discutia – e vais ficar surpreendido Chico – o salário mínimo da época. Pois havia grande oferta de trabalho para determinadas especialidades, chamemos-lhe assim, na altura, Chico. O salário era nenhum, mas tinham trabalho, efectivamente, e com abundância. Em boa verdade, o desemprego entre os escravos era um conceito inexistente. Carlyle tinha a ideia de que o trabalho devia ser feito a “a favor do Céu”, não tendo em vista um pagamento. A servidão feudal era, para ele, um aceitável modelo de sociedade. Na chamada questão dos negros das Índias Ocidentais, Carlyle tomou o partido dos barões do açúcar, a quem era muito útil, mesmo depois da abolição da escravatura, manter, como eles diziam eufemisticamente, os “aprendizes”.  Gente a ganhar o salário zero, que garantia o pleno emprego. Assim, poderiam trabalhar “a favor do Céu”, Chico. Mas contestas tu, e bem, Carlyle não era economista, e a questão já lá vai, resolvida a desfavor dele há um certo tempo. O que é que pensaria um economista de hoje, perguntas-me? Um que não seja o que deu a tal entrevista, está bem de ver. Em Fevereiro deste ano, Paul Krugman, também falou do tema do salário mínimo, num artigo no New York Times: One major proposal, however, wouldn’t involve budget outlays: the president’s call for a rise in the minimum wage from $7.25 an hour to $9, with subsequent increases in line with inflation. The question we need to ask is: Would this be good policy?” Krugman é prémio Nobel da Economia, sabe uma ou duas coisas sobre o tema. E um das coisas que sabe é o oposto do que César das Neves afirma: "And while there are dissenters, as there always are, the great preponderance of the evidence from these natural experiments points to little if any negative effect of minimum wage increaseson employment." O artigo termina com Krugman a exortar: “just about everyone except Republican men believes that the lowest-paid workers deserve a raise. And they’re right. We should raise the minimum wage, now.” 
Sim, Chico, leste bem: "Devemos subir o salário mínimo, já." 
Como é que na mesma ciência dois professores da dita chegam a conclusões tão distintas sobre a mesma questão? Dada a diferença ser tão abismal pode dar-se o caso de um deles estar completamente errado. Se a Economia é uma ciência, mesmo que deprimente, é um desenlace possível. É certo que um deles recebeu aquela coisa do Nobel. Mas neste despique, assim como torcemos pela nossa selecção, temos é que apoiar o "nosso"economista, não é Chico? Ele é que tem educado as nossas elites, é que priva com elas e as aconselha. Se ele estivesse errado, em que estado estaríamos nós, Chico? Sim, em que estado estaríamos?

(Foto: Sebastião Salgado)

11.11.13

Sobre o desenho e a tranquilidade






Durante anos, Sylvia Plath, desenhou. quase como uma forma de terapia para sublimar a sua depressão: It gives me such a sense of peace to draw; more than prayer, walks, anything. I can close myself completely in the line, lose myself in it.


Em Outubro de 1956 escrevia à mãe, sobre a sua nova forma de arte: I’ve discovered my deepest source of inspiration, which is art: the art of the primitives like Henri Rousseau, Gauguin, Paul Klee, and De Chirico. I have got out piles of wonderful books from the Art Library (suggested by this fine Modern Art Course I’m auditing each week) and am overflowing with ideas and inspirations, as I’ve been bottling up a geyser for a year.

Num livro agora publicado, a filha, Frieda Hughes, reúne os desenhos, extractos do diário e cartas evocativas de Plath. Para além de extraordinária poetisa, os desenhos mostram que Plath foi também uma artista plástica de sólidos méritos. A depressão acabaria por levar a melhor, quando ela tinha apenas trinta anos.

Para ela, que escreveu:

I write only because
There is a voice within me
That will not be still

o desenho foi a outra forma que encontrou para acalmar a sua infindável voz interior e apresentar uma tranquilidade ausente, tão longínqua, dos seus poemas.

Boa semana!