25.8.16

Michelangelo Merisi

Caravaggio, O martírio de Santa Úrsula, 1610
Michelangelo Merisi olha para o céu, quando a frecha do despeitado rei huno trespassa Úrsula. Eu, olho para o quadro e vejo nas cores pigmentadas de negro um antecessor de Goya, na fase final da sua vida, embora Goya, mesmo dois séculos depois, dificilmente pudesse ter baseado o seu estilo no quadro napolitano. Mas para Michelangelo Merisi, conhecido por Caravaggio, este foi de igual modo o seu derradeiro quadro. Como se a frecha o atingisse a ele também, e o negro fosse já o luto por si próprio.

24.8.16

Caravaggio

Creio que Caravaggio amava aqueles a quem retratava com unhas tintadas de terra, partidas, usadas pela vida. Não o imagino imaculado como os fidalgos que abominava, de olhar cobarde e unhas polidas pelo ócio.

Vara de autorretratar

O telefone estatelou-se no chão de pedra e o barulho arrepiante ouviu-se a dez metros, onde eu estava. O homem de óculos escuros apanhou-o e voltou a colocá-lo na vara de autorretratar. Esticou o braço e firmou-se em pose. O sol pelas costas deve ter servido para maquilhar o ricto que ostentava quando premiu o botão.

23.8.16

Pormenor

Ao meu lado, a senhora a dois metros do quadro observa-o, atentamente, por um binóculo. Eu, a olho nu, até me sinto despido.

Supergente

Passam ao meu lado deslizando sem esforço como se andassem em patins de gelo estes ciclistas de bicicletas elétricas: mutantes, nova raça humana, supergente.

22.8.16

Escola de paciência

Nada é mais exasperantemente lento que o futuro.

Viajar

Em cada viagem há sempre um arquiteto que fica e um escritor que regressa.

21.8.16

Tradição

Esteja onde estiver, mantém-se a tradição de comprar pelo menos um livro ao domingo. Fora os que compro nos outros dias, claro, que esses estão livres de tradições.

Daqui a pouco

Daqui a pouco, quando sair para a luz imensa, já andarão num corropio elas e eles, tonificados, tatuados, suados,  à saída do ginásio, clube de saúde & spa. E eu, em passo dolente, piscando os olhos, à procura do primeiro café, para ter a certeza, ou pelo menos uma probabilidade razoável, de que o meu coração pulsa ainda.