21.2.17

imagens ou um punhado de sol no ar

o fogo que aparece
por cima do horizonte

a vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos
um punhado de sol no ar

[tudo isto vi

hoje

o poema é devido a antónio ramos rosa]

Livro de voo

Em viagens longas prefiro um livro daqueles a que se viram as páginas com afinco e ritmo. Depois de várias tentativas de ler em aviões os meus autores eivados de frases complexas e musicais e intuições profundas sobre a natureza humana, desisti. Numa viagem o livro deve ser um vórtice de horas. O livro de voo comprimirá o tempo como a mão que aperta a esponja. O escritor é um prestidigitador do tempo. Descobri que há escritores, e livros, que me dão mais minutos às horas, outros que os retiram. Tenho passado a vida a pensar que o génio reside exclusivamente nos primeiros. É constatação recente, de poucos dias, que comprimir o tempo não é rasgo menor do que expandi-lo. Talvez esteja, arrisco a dizer estejamos, a avaliar a novela pelo padrão errado. O que chamaríamos a quem é capaz de encurtar uma viagem de oito horas a duas, ou mesmo uma? Génio? Creio que é perfeitamente adequado.

20.2.17

A chave perdida

Perdi a chave da máquina do tempo. Hoje apetecia-me rodar a agulha e saltar para o meu próprio passado. Mas sem chave estou condenado a permanecer para sempre no meu presente. Condenado a prisão perpétua, sem hipótese de comutação.

Bater de coração irlandês


Sou Irlanda:
Sou mais antiga do que o Hag of Beara.

Grande é a minha glória:
Eu que dei à luz o bravo Cúchulainn.

Grande é a minha vergonha:
Os meus próprios filhos que venderam a sua mãe.

Grande é a minha dor:
O inimigo irreconciliável que me provoca continuamente.

Grande é a minha tristeza:
A gente, em quem depositei a minha confiança, decaiu.

Sou Irlanda:
Sou mais solitária que o Hag of Beara.

[Música de Patrick Cassidy sobre um poema de Patrick Pearse. Versão de x.]

Olhem para o que aconteceu ontem à noite, na Suécia

Recebo uma carta em papel digital do meu fornecedor de café em cápsulas, aquele que satisfaz a minha necessidade de cafeína na ausência de Donas e bailarinos de tangos por detrás de balcões. É este o teor:
«Caro Cliente,
Agora que o tratado de paz na Colômbia foi assinado, a [digníssima marca] orgulha-se de apresentar Aurora de la Paz, um café que esteve praticamente inacessível durante décadas. É o nosso espresso Limited Edition raro e especial, um Pure Origin da exuberante região de Caquetá.
Descubra-o.»
Se me perguntarem, direi que prefiro a paz à guerra, como pretexto. Em geral, prefiro a verdade à mentira, no que não será decerto exclusivo meu. Acima de tudo, creio que há pretextos escusados e, isso sim, pode ser uma peculiaridade minha.