23.3.17

Um jogo perdido

Com aquela fala cantada lá dele que atravessou dois continentes, vem perguntar: Sir, do you want some? Ainda não almocei, não me parece excelente ideia comer bolachas de chocolate a esta hora, declino, mas sei que ele vai insistir. Sei da sua generosidade persistente: da forma como deixa que o pacote fique ali a pairar à altura dos meus olhos, à distância breve da minha mão. E ele sabe que eu vou aceitar, porque abri precedente, cedi à tentação e comi já duas destas bolachas antes. É um jogo que não posso ganhar. Mas que continuaremos a jogar, eu sei. Ele a oferecer, eu a recusar, pouco convicto. Um amável braço de ferro que me condenei, irremediavelmente, a perder.

22.3.17

Onda de indignação

O padrão é conhecido. Alguém, alguma figura das ditas públicas, diz ou escreve uma frase que, no contexto ou fora dele, adquire propriedades comburentes. O incêndio subsequente, a onda de indignação, autoalimenta-se nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais, nas notícias televisivas, no parlamento se a tanto chegar. Na verdade, as gentes carecem de motivos de indignção. Os homens precisam de heróis, dizia Carlyle. Não, os homens precisam é motivos para se indignarem, melhor, de pretextos para expressarem a sua indignação. Motivos para indignação não faltam, a quem estiver atento ao mundo. Mas expressar a indignação é mais complexo. Convém que seja uma indignação consensual, para não ameaçar a paz social geograficamente mais próxima. As gentes não querem ser percebidas como descontroladas. Se houver alguém que se coloque a jeito para ser bombo de festa, e se esse bombo for atingível por vários ângulos e quadrantes, ah, isso é uma sorte, uma benção. A dose regular de indignação é alcançada sem danos colaterais. Porque é tão fácil indignarmo-nos por escrito, num texto de cinco linhas e outros tantos pontos de exclamação, mais fácil ainda fazer replicação, gosto, partilha. Desmond Morris escreveu sobre os hábitos tribais dos adeptos do futebol. Sim, o futebol é um magnífico pretexto para a indignação coletiva, com rituais sedimentados para uma indignação profícua e catártica. Mas e para aqueles de nós a quem o futebol não permite suprir esta necessidade primordial? Ou permitindo, fá-lo apenas a espaços semanais, em doses demasiado pequenas para tão grande necessidade? Não há que temer. Haverá sempre um escritor, um político, um artista de qualquer das múltiplas artes de palco ou tela, que se prestará a ser tritinitolueno agitável. Consumada a explosão, o explodido continuará na sua vidinha, sendo o episódio recordado apenas esporadicamente, com intervalos temporais cada vez mais espaçados. Até pode proferir nova atoarda, que a primeira funcionou como vacina. Não mais despoletará indignação, apenas um encolher de ombros. A sede de indignação não se sacia com repetições. Nenhum ritual tribal sacrifica a mesma rês duas vezes. A onda de indignação anseia por deflagrante novo. Mas não tardará. A esta mesma hora, alguém, algures, estará a abrir a boca ou carregar nas teclas para debitar uma frase fatal. Amanhã, recomeça tudo, com uma onda de indignação novíssima. Necessária e merecida.

21.3.17

Onde é que estão os poetas?

Agora que a poeira assentou, os tapumes foram levantados, as ruas brilham de tão jovens, podem avançar os poetas. Alguém cante Lisboa, que já tarda.

Peças do puzzle

Prefiro as obras iniciais de Picasso, as intermédias de Borges e as tardias de Beethoven. Isso diz mais sobre mim do que sobre os autores e a ditas obras. O quê, não sei. Ainda ando a montar o puzzle.

Trocas e pombos

Troco o pacote de açúcar por uma colher, digo eu a Dona Yara. Oh, desculpe doutor, isso não está legal, diz-me a Dona, ralada por ter trocado as minhas idiossincrasias. Ora essa Dona Yara, ora essa, não há de quê. Não lhe digo que não tivesse ela feito a troca, não teria assunto para escrever à leitora, enquanto me sento absolutamente sozinho na esplanada, tendo apenas um pombo por companhia. E isso, talvez dissesse a leitora, isso de não dar notícias, é que não está legal. Sinto-me tentado a concordar com a leitora, sabe?

20.3.17

Medidas implícitas de distância

Cada dia mais longo leva-me para mais perto de ti.

Os últimos quartetos de Beethoven

Ouvi-me a falar dos últimos quartetos de Beethoven como se estivesse a escrever um texto para este retângulo branco. E não percebi se eu escrevo o blog ou se ele me escreve a mim.

Perdidos

Os telefones pousados em cima da mesa, a atenção centrada nas cartas. Quando passei por eles, o meu olhar prendeu-se nas moedas empilhadas. Esperaria vê-las numa mesa onde estivessem os respetivos avôs, não eles. Mas ali estavam ao final da manhã, com as mochilas de escola ao lado, olhar fero, gesto determinado. Perdidos no jogo. Ou antes, ganhos no jogo. Embrenhados num jogo real, daqueles onde perder dói mesmo. Tal e qual como na vida, fora daquela mesa, onde os telefones estavam pousados.