24.4.17

A natureza dos sonhos


Max Richter, Dream 13

Ulrica, ou a suavidade

Uma linha de William Blake fala de raparigas de suave prata ou furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade, afirma Borges. O ouro é inútil, digo eu. Bastaria a Ulrica ser suave como a brisa, o tempo, ou o Universo.

[As palavras de Blake são, no original: «girls of mild silver, or of furious gold».]

23.4.17

cartografia empírica

é no teu mapa de mim
que me descubro

Uma criação contínua

O corpo humano não é uma coisa ou uma substância dada, mas uma criação contínua... O corpo humano é um sistema energético num estado de perpétua destruição e construção de si...

[Norman O. Brown em Love's Body, citado por António Ramos Rosa n'A construção do corpo.]

Cada livro é uma peregrinação

Não é coisa usual eu incluir prefácio nos meus livros. Entendo que eles se recomendam como os peregrinos de Santiago, pelas conchas que têm no chapéu e que simbolizam a viagem no sentido supremo, de descoberta, testemunho e redenção. Cada livro é uma peregrinação; não precisa de passaporte e aviso que o distinga e lhe assegure hospitalidade.

[A propósito do Dia do Livro. Agustina Bessa-Luís, no prefácio de Fanny Owen.]

Suspensórios

Na mesa ao lado daquela onde repousava o meu café tardio, todos eram tão bonitos, tão imaculadamente vestidos, que eu esperava a qualquer instante ver surgir o fotógrafo para documentar um brunch de bloggers.

Ele passeava com a mala preta da mãe, com a alça a ameaçar o equilíbrio ainda precário mas decidido, os olhos brilhantes na cara de resistente [não ligou ao meu sorriso, nem tentou sequer esboçar um de volta]. Com tal orgulho fero, seguro nos seus suspensórios, tenho a certeza de que deitaria a língua de fora ao fotógrafo, caso este tivesse a pobre ideia de sobre ele assestar a lente.

22.4.17

Contra o lamento como forma de vida

Cheguei a este texto de António Guerreiro no Público pelo Ouriquense. Respeitando habitualmente o que António Guerreiro escreve, neste caso creio que o seu rigor tem margem para melhoria: afinal, dizer que Agustina deixou de publicar, numa altura em que três mil páginas escritas por ela aparecem em livro há menos de três meses, merecia outro cuidado na expressão do lamento implícito. É que, adicionalmente, não é apenas mais uma obra de Agustina: está entre o melhor que alguma vez foi publicado de Agustina.

Três mil páginas são mais do que as obras coligidas da maioria dos escritores nacionais do século XX. Na verdade, Ensaios e Artigos são uma fonte de prazeres dificilmente esgotáveis para quem se delicia com o pensamento de Agustina e ao mesmo tempo se exaspera com a trama das suas histórias. O pensamento guarda o seu estado pristino, as histórias não chegam a ter tempo para se perderem nos labirintos da autora, quando avança por elas sem o fio de Ariadne.

É próprio de ser português abafar a realidade debaixo de um manto de lamentos. Mas mesmo sendo portugueses, ninguém lamenta que os cinemas não passem Aniki Bobo. Está disponível em formato digital. Ninguém lamenta que as lojas de discos (quais são as que restam?) já não tenham as Sonatas para Cravo, de Carlos Seixas. Estão disponíveis em formato digital.

Em vez de nos lamentarmos apenas pelo que deixou de haver, congratulemo-nos com o que há. E se há, na verdade, menos livros de Agustina nas estantes das livrarias, o Centro Virtual Camões disponibiliza há bastante tempo quatro livros fundamentais da autora, inteiramente grátis, em formato digital, entre as quais A Sibila. Se quem quer conhecer a obra de Agustina começar por estes e a seguir se abalançar aos Ensaios e Artigos, tem palavras de Agustina para bons e profícuos meses. Esgotar a leitura de mais de quatro mil páginas de obras de Agustina Bessa-Luís é, em si mesmo, obra de mérito.

Aprender a invisibilidade

Uma das aspirações de Macedonio era converter-se em inédito. Apagar as suas pegadas, ser lido como se lê um desconhecido, sem aviso prévio. Várias vezes insinuou que estava a escrever um livro de que ninguém conheceria alguma vez uma página. Em testamento, decidiu que o livro permaneceria secreto até 1980. Ninguém deveria saber que o livro era seu. Inicialmente, pensou que o livro seria publicado anonimamente. Depois, pensou que devia publicar-se com o nome de um escritor conhecido. Atribuir o livro a outro: um plágio ao contrário. Ser lido como se fosse esse escritor. Por fim, decidiu usar um pseudónimo para que ninguém o pudesse identificar. O livro devia publicar-se secretamente. Gostava da ideia de trabalhar num livro pensado para passar inadvertidamente. Um livro perdido no mar dos livros futuros. A obra prima voluntariamente desconhecida. Cifrada e escondida no futuro, como uma adivinha lançada à história.
A verdadeira legibilidade é sempre póstuma.

[Versão de um texto de Ricardo Piglia sobre Macedonio Fernández.]

21.4.17

o frágil obverso das palavras

abro as palavras
com ambas as mãos

extraio-lhes a essência

para ti só palavras
em estado nativo

A magia matinal

Dona Aureliana acaba de me salvar o dia, antes mesmo de me sentar aqui na esplanada, saiba a leitora. É o café mais forte que tiver Dona Aureliana, que hoje o dia é longo. Eu sou o primeiro cliente da manhã, as máquinas de Dona Aureliana ainda fumegam um nevoeiro com aromas daqueles que atravessaram o equador, como a fala da Dona. Aqui está doutor, muito bem tirado este. A modéstia de Dona Aureliana é lendária, mas a verdade é que tem toda a razão, muito bem tirado este. E eu escrevo estas linhas à leitora, sozinho na esplanada: A esplanada é toda para si, doutor, dizia a Dona há meio café atrás. O outro meio está aqui à minha frente, a olhar para mim, e para a leitora, naturalmente.

*

E entretanto saio para o mundo. Despeço-me: Bom dia, Dona Aurliana. Tenha um bom dia, doutor. Dona Aureliana está a cantar para a máquina do café canções da terra lá dela, aquela abaixo do equador. E não admira que o café saia assim. Sente-se em casa, só pode ser, sente-se em casa.