25.4.18

Na mais silenciosa hora da sua noite

O Senhor olha para fora, e é sobretudo isso que agora não deveria fazer. Ninguém o pode aconselhar e ajudar, ninguém. Só há um meio. Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever?

[Rilke]

A espera

Coincidimos porque nos esperávamos.

[Fred Serras]

24.4.18

Espicaçar

«Tens que me espicaçar, estou muito cansado,» diz-me. O cansaço não tem balança, modo de comparação, escala sequer. Talvez eu esteja mais do que ele, penso, mas não lho digo ao telefone. Inspiro o ar fresco da tarde, tomo as rédeas às palavras e espicaço: a ele, a mim, por Deus, espicaço pelo passado e pelo futuro. Já que é para espicaçar — deixo de ser só eu: chamo a multidão ululante, espicaçante, que aguarda em mim. O cansaço que espere a sua vez.

A chave

Eis a chave para entender Borges [estava apenas semioculta na porta de entrada]: «É o mesmo argumento de outros contos meus; eu apresento coisas que parecem presentes, que parecem dádivas, e depois descobre-se que são terríveis.»

[A propósito de Funes, O Memorioso, o seu melhor conto — ou assim dizia ele que diziam dele. A chave para entender Borges é também a chave para entender a vida; apenas costumamos deixá-la perdida por aí, e surpreendemo-nos, até com algum júbilo,  quando a reencontramos.]

23.4.18

Dente-de-leão

O canto do pássaro do beiral a esta hora indecisa que antecede a alvorada é, claramente, mais importante que o livro que estou a ler. É para esse canto que voa a minha atenção, pedindo de empréstimo as asas que são agora de pouco uso ao canoro — enquanto ele faz a sua serenata à beira do meu volátil pensamento, tão firme quanto um dente-de-leão.