19.1.17

Tempo de prateleira

Ao entrar na livraria vejo os livros do galardoado em primeiro plano, mesmo aqueles que nenhum leitor alguma vez comprará a não ser uma minoria especializada e se comprarem não lerão ou se iniciarem a leitura por certo esta ficará a meio. Pergunto sem esperança de resposta se extinta a última chispa do prémio restará algo daqueles tomos sóbrios e científicos e ponderados nas estantes. A literatura tem um tempo de vida de prateleira, dizendo de outra forma o seu padrão de conservação assemelha-se mais ao de um figo do que o de uma garrafa de aguardente de figo. Pergunto também sem aguardar resposta se os livros de Herberto ainda se vendem e melhor se são lidos depois de se ter temporariamente tornado um fenómeno especulativo. Herberto passou de ouro a loja de ouro, diria acerca desses anos antes da morte. Anos depois de morto, morreu. Não apenas os livros mas os escritores têm também tempo de prateleira. As garrafas de líquidos etílicos ainda ganham depósito por dentro. Os livros e os escritores que passaram o tempo de prateleira vão simplesmente para dentro do depósito. O precipício da prateleira é um patíbulo.

Planos para descongelar ou uma viagem antes de ser iniciada

Dona Aureliana nem perguntará se quero café. Irá logo se dirigindo para a máquina em passo de dança, rainha Nzinga por detrás do balcão e senhora dos domínios infindos da esplanada. Aqui está seu café doutor, dirá com aquela fala cantanda que atravessou o equador. Está calor em sua terra, direi eu mais do que perguntarei. Pura retórica. Claro que estará mais calor em terras da Dona. Os braços de ébano dela não o denunciarão, nem um arrepio será visível abaixo da manga curta tal como não é abaixo da manga curta do Senhor Variações de alva pele que não atravessou o equador. Deve ser das máquinas do café ou do café ele próprio, quem sabe se o pó negro não guarda o calor das terras de onde provém num encantamenta qualquer que ainda não decifrei. Dona Aureliana saberá. Se a leitora quiser saber de mim estarei a tirar cafés atrás de um balcão, encalorado de manga curta também eu. É o plano. Só tenho que sair dos meus vinte e dois graus e desfazer-me destas camadas de lã que impedem o calor do corpo de se esvair pelos golpes de lanceta do ar gelado. Se me mudar para junto da máquina de café serei tão feliz quanto Dona Aureliana e o Senhor Variações aparentam ser. Vai-se ver são aparentados também. E eu quero é ser parente deles.

18.1.17

Metal fundido

Há muito que não recordava o cadinho de metal fundido borbulhando denso por cima da fornalha. Revejo o homem de face rubra debruçado sobre a superfície argêntea e o sufoco feito de espanto que senti na primeira vez que entrei na sombra iluminada pelo fogo domesticado. Revejo-o enquanto rodeio a chávena de café com as minhas mãos e deixo ficar até depois de sentir a dentada do calor na ponta dos dedos. Os dentes da porcelana alvos como os de um cão. Mas não é de dentadas brancas que preciso. Preciso das dentadas negras do cadinho incandescente e da fusão do corpo com o metal numa hibridez de centauro. Carne e prata. Era lá que as minhas mãos deveriam permanecer até atingirem o ponto de dissolução. Na fornalha. A fornalha é a esperança de eternidade do fogo.

Um sol frio a vinte e dois graus

De todos os sóis existentes no universo havia de lhe calhar um sol frio. Incompetente para aquecer o coração do homem que percorre as avenidas da cidade num casulo aquecido a uma temperatura constante de vinte e dois graus. Do homem que se dobra sobre a mesa grande do gabinete enrolado numa manta de ar anestesiado. Do homem que vê para lá da janela as cortinas exteriores de um azul de aço temperado em liga de orvalho. Mas o sol frio não encontra o caminho nos túneis finos que ligam a pele ao coração. Perdem-se os raios nos escuros becos do labirinto torácico. De nada servem os vinte e dois graus constantes com que o homem veste o corpo ambulante. A temperatura do sol é subzero. O coração desensolado enrola-se fetalmente sobre si. Fatalmente desconsolado.

17.1.17

Paradoxo, quase um provérbio

Foi o dia tão cheio que a alma resta vazia.

16.1.17

destino à flor do mar

ele era uma enseada 
onde 
um dia

ela aportaria

Coração aprisionado


Tarquinio MerulaFolle è ben che si crede

weblog [secção das reclamações esotéricas]

não é tanto Michael Gove ter entrevistado servilmente Trump para o The Times. nenhum dos dois me merece mais consideração do que a que dedico a Putin ou a Maduro. a conversa é medíocre, mas isso era expectável do calculismo de ambos. Gove, especialista em tirar tapetes, tinha que o tirar a Theresa May, que antes o tinha tirado a ele: ambos merecem. nem sequer é Niall Ferguson ter feito o encómio da entrevista. obviamente, dedico muito mais consideração a Niall Ferguson do que a qualquer dos plutocratas anteriores [está por um fio, mas ainda se vai aguentando].

o que me perturba [ah, os eufemismos deste espaço] é perceber que Ferguson preza, acima da honestidade intelectual, os suculentos contratos de consultoria com os hedge-funds americanos. Gove é um intriguista sem escrúpulos, Trump, um escroque sem escrúpulos, Ferguson, um historiador brilhante sem escrúpulos.

perturba-me também, como me perturba sempre, o desperdício: o desperdício da inteligência de Ferguson, dedicado a tais causas que mancharão a credibilidade do que vier, inevitavelmente, a escrever sobre esta fase negra do século vinte e um; e o desperdício que é não me apetecer ler nada dele: nem do que tenho [a obra toda publicada até agora], nem do que publicar daqui para a frente.

mas o pior de tudo: o que é que faço agora a todos aqueles quilos de papel com o nome de Ferguson na lombada, que se aboletaram nas minhas estantes?

weblog [avião para a lua]

a lua do amanhecer elevava-se por cima do semáforo. Gustav Leonhardt tocava cravo, presente como se estivesse ao meu lado. foi então que passou um avião na estrada para aquela lua. o momento foi de um azul perfeito.

à noite, a lua

à noite
a lua
juntava-



-os

15.1.17

weblog [polainitos]

afinal, Calígula era um nome depreciativo dado a Gaius. polainitos: assim lhe chamaram, por causa dos trajes militares em miniatura com que os pais o vestiam em criança, e dos polainitos que lhe cobriam os pés durante as campanhas.

para assegurar a alternância democrática, e na ausência de processo eleitoral, polainitos foi assassinado ao fim de quatro anos de [des]governo.

[não estava tão bem calçado como julgava, afinal.]

weblog [palavras espelho]

tendo a ler mais livros antigos do que novos, talvez esperando que os novos amadureçam.
[escrito por Lydia Davis no The Times Literary Suplement. quem me dera que a frase fosse minha.]

14.1.17

palavras dançantes como reflexos no rio

as palavras atropelam-se antes de as conseguir captar aqui
cada uma só quer uma coisa, única: dizer de ti

weblog [a vida como ela não é]

A poesia descreve a vida como ela é, mas também com todas as suas intrincadas evasões. Dá-nos o mundo como ele é — comum, próximo, baixo, reconhecível — mas imaginado, iluminado, revirado. É um mundo simultaneamente visível e invisível até ser visto com os olhos do poeta.
[a poesia é a vida como ela não é, afinal. baseado em Things Merely Are, um livro sobre a filosofia na poesia de Wallace Stevens, escrito por Simon Critchley.]

weblog [da gula]

ele confessa-me que precisa de perder peso. olho-o, estamos ao balcão do café, ele domina a gula, uma vontade de ferro, uma disciplina temperada a diamante. estimo a altura e o peso: deverá andar pelos sessenta quilos, se tanto. e tem que perder peso. [ative-me só ao café, desviando o olhar do que mais havia no balcão do café: que direi eu então?]

ao entrar num elevador, ouço a queixa sonora deste por excesso de carga. disse às presentes desconhecidas uma versão diferente da dele, mas com o mesmo significado: tenho que perder peso. uma delas, generosa: mais? olhe que desaparece. não sei quem ela viu, mas não fui eu, decerto. [as notícias do meu desaparecimento são grandemente exageradas]. ainda assim, aproveitei, por umas horas: baixei a guarda, venham de lá essas calorias, que o tempo está de feição.

o papa Gregório I, que elencou os pecados mortais, definia assim o guloso:
às vezes, antecipa a hora de comer; às vezes, procura carnes dispendiosas; às vezes, exige que os alimentos sejam cozinhados delicadamente; às vezes ultrapassa o objetivo de saciar a fome, por excesso; às vezes, peca na intensidade do apetite.
confesso que me revejo na definição [exceto no que toca ao departamente das carnes]. sou portanto guloso com selo papal. se voltar a entrar naquele elevador e ele se queixar, referirei esta confirmação, vinda do próprio Vaticano.

a gula oficializada tem outro peso, literalmente.

brevíssima constatação sobre aquilo a que chamam amor

há um dia em que uma alma encontra outra 
que fala exatamente a mesma língua

13.1.17

weblog [retrato de jovem com porta em fundo]

quando de manhã me mostraram aquela máquina fotográfica, pensei: não, não lhe colocava uma lente destas. usaria a minha lente mais luminosa e sairia por aí, retratando a eito. foi de tarde que vi uma máquina igual, com uma lente também luminosa, apontada a uns cabelos de fogo que enquadravam uma cara com olhar demasiado absorto. fixei o contraste dos cabelos cor de fogo com a porta azul. posso imaginar o fotógrafo apaixonado [juraria que o vi nos olhos dele] que saiu a fotografar a eito os cabelos de fogo. os cabelos justificam a foto. mas só a paixão justifica aquela porta azul, na verdade. o olhar absorto, não o sei justificar.

weblog [o brinde II]

não, não se pode chamar um brinde [talvez nalguns países orientais homens brindem com chá, mas suponho não ser uso por cá]. creio, no entanto, que a determinada altura elevámos as chávenas ao mesmo tempo, como se cada um dissesse: penso que pode ser o início de uma bela amizade. e o chá era bem bom, já agora.

weblog [o brinde]

na mesa ao lado da minha brindam com vinho branco gelado a uma amizade que parece longa e sincera. antes de vestir o sobretudo para sair para o frio da navalha, penso que uma boa amizade resiste a tudo, de facto.

weblog [prova devida]

peço o café ao Senhor Desconhecido: café cheio, sem açúcar, com colher. passados segundos, aparece o Senhor Variações com a chávena a fumegar e um raspanete pronto: eu já cá vinha trazer. ups, fiz o meu primeiro erro de sexta, treze, penso. mas foi o melhor café tirado pelo Senhor Variações até hoje. senti-o atingido no brio: afinal, de que servem os dotes de vidente, se o freguês pede o café a um colega qualquer de primeiro dia. há coisas que ferem um homem! e eu sento-me a beber o excelente café, mas impaciente, a meio escrevo esta missiva inconsequente à leitora, antes que ela pense que o escriba deste hebdomadário sumiu nalguma manhã de nevoeiro. meia chávena de café arrefece aqui à minha frente. ainda arrisco um segundo ralhete do Senhor Variações. o que eu não faço pela leitora!

[até usar dois pontos de exclamação no mesmo texto.]