26.9.16

O acaso e a viagem

Descubro, numa pasta, uma carta esquecida, escrita a tinta preta com a letra de Andreas, que nasceu e mora em Viena. Era a carta que acompanhava o disco que me enviou, com as peças musicais tocadas por ele em vários dos cravos da sua coleção, e noutros, de uns amigos de Praga, que ele me incentiva a visitar. A leitura remete-me para uma conversa que tivemos, na altura, em torno do clavicórdio que Bach usou para compor até, assim há quem julgue, as Sonatas e Partitas para violino sem acompanhamento. Tão vívida a conversa que ainda recordo de que peças falámos. A carta faz-me viajar uns anos no passado, e logo uns meses no futuro. Como não acredito em acasos, concluo que não podia haver sinal mais claro de que está na altura de marcar a, há muito adiada, visita a Andreas.

25.9.16

O improviso é um processo meticuloso

O apego de Gabo às minúcias não tinha limite. “Ele queria ir à casinha onde Maruja e Beatriz tinham ficado, queria entrar na casa de banho... Ou entrar no carro de onde elas foram tiradas e levadas depois para se encontrar com Marina. Elas tinham contado, como aparece no livro, que conseguiam respirar e ver alguma coisa. Ele queria saber exatamente o quê. Andei à procura desse carro durante dois anos, mas foi impossível encontrá-lo”, lembra Arteaga. Embora hoje ache graça, foi um trabalho exaustivo de verificação, em que tinha de se empenhar profundamente. “Eu vivia angustiada, não podia haver nenhuma imprecisão, tive o cuidado de fazer com que todas as informações que lhe dava fossem acompanhadas de alguma documentação”, relata, mostrando alguns papéis que ainda guarda: recortes de jornais, revistas, documentos, solicitações oficiais... Nem tudo aquilo foi utilizado. Alguns itens estavam ali por mera curiosidade, como o resumo que teve de fazer para ele das novelas que Pacho Santos, ex-vice-presidente da Colômbia, assistia no seu cativeiro.

[A propósito do meticuloso processo de escrita de Notícia de um sequestro, de Gabriel Garcia Marquez, de um artigo de Javier Lafuente publicado em El País.]

Sete magníficos samurais

Lukas pode ter-se inspirado em Kambei Shimada d'Os sete samurais de Kurosawa para criar Yoda. Sturges mais do que se inspirou n'Os sete samurais para criar os seus Os sete magníficos — mudou o filme do Japão para o oeste americano, como Lukas mudaria depois este e outros filmes de Kurosawa para o espaço. Fuqua, por sua vez, transporta os magníficos pistoleiros para o século vinte e um, sem os retirar do século dezanove e das rochas áridas e estéreis, que parecem apenas dar cactos e ouro. Eu gostaria de ver o Chisolm de Denzel Washington, no espaço de Lukas, numa revisão a sério da Guerra da Estrelas. Isso seria pedir demais, acredito. Para já, e em termos de magnificência, tenho que me ater a'Os sete magníficos de dois mil e dezasseis. Fuqua não é Kurosawa, mas é tão bom como Sturges. Como as coisas andam em termos de cinema, isto é um grande elogio, acredite a leitora.

24.9.16

palavras brancas

alguém se divertiu
a pintar mil
palavras a branco
sobre a aguarela anil
do céu
sendo eu eu
já lá leio saudade
e no teu nome
entrelaçado leio
o meu

Francisco de Orellana

Foi Oviedo, o historiador, que concluiu que não, não eram verdadeiras amazonas, ao contrário do que Francisco de Orellana e seus companheiros, os primeiros a subir o rio majestoso, julgavam sobre aquelas mulheres altas que os atacavam com setas envenenadas, as que mataram García de Soria e feriram Antonio Carranza. Tinham ambos os seios, e não apenas um, como as da mitologia grega, disse Oviedo. Disse, mas tarde: o rio de Orellana já tinha ganho o nome pelo qual é conhecido ainda hoje, Amazonas.

Raciocínio em forma de fita de Moebius

Se as gentes não subestimassem a beleza da luz da cidade ao sábado de manhã cedinho sem sombra de gentes, levantar-se-iam cedinho ao sábado de manhã só para a degustar.

23.9.16

mar espelhado espalhado

aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
o mar
não parou
pra ser olhado
foi mar
pra tudo quanto é lado

[sentado a olhar o mar na pedra de Paulo Leminski]

Homo sapiens

Chelsea Manning tentou suicidar-se na prisão Como pena foi condenada/o a catorze dias de solitária. Para pensar bem no que fez (e, eventualmente, descobrir onde falhou).

Elevação

Tarquinio Merula, Folle è ben che si crede

22.9.16

Uma certa inocência

Assim há que dizer as coisas literárias: com uma certa inocência.

[Borges, citado por Bioy, em Borges.]

O poder em abstrato

Durante a guerra fria, a CIA promoveu secretamente o movimento do expressionismo abstrato, ao qual pertenceram Rothko, Pollock, Sobel ou Newman. Foi a CIA que ajudou a organizar a exposição The New American Painting que percorreu a Europa em 1958/59, na altura em que Khrushchev ameaçava o Ocidente com a aniquilação nuclear (a frase recordada na canção Russians de Sting: Mr. Khrushchev said we will bury you). Motivo: tratando-se de pintura abstrata a interpretação podia ser a que fosse mais conveniente para a época. Não que os pintores se alinhassem politicamente com as ideias do governo americano de então, antes pelo contrário: Rothko e Newman, por exemplo, eram anarquistas. O que levanta uma questão: agora que se sente a brisa gelada de uma nova guerra fria, qual deve ser o papel dos artistas — abstraindo-se, precisamente, e deixando que as suas obras sejam apropriadas e instrumentalizadas, ou tomando decididamente partido, sem margem para dúvidas, como a seu tempo o fizeram Picasso ou Goya? Não há resposta unívoca, creio, mas há hipótese de reflexão.

Ilusão

Janet Sobel, Illusion of solidity, 1945
[Não fosse Janet Sobel a estrear o caminho e provavelmente não haveria Pollock como o conhecemos.]

Veroño

O calendário pode assinalar a mudança, mas eu agarro-me ao verão por mais um bocadinho. Ainda noto sinais dele na sombra que projeto nos arbustos abertos em verde, na esplanada que me acolhe e me mantém o café quente enquanto me alongo nas escritas inconsequentes, no coral dos pássaros que ouvi agora mesmo. Adoto um termo castelhano para esta transição, até o mantenho no original: veroño. Os outros que se mudem para o out(r)ono. A minha estação é o veroño.